====== Ser-no-mundo ====== //BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.// * A imersão próxima e habitual no mundo permanece oculta à tradição filosófica, focada na autoconsciência e na responsabilidade moral, nas quais nos experimentamos como distintos do mundo e dos outros, ao passo que a abordagem fenomenológica heideggeriana do si-mesmo parte da autoabertura básica segundo a qual se é aquilo que importa a si mesmo, não podendo dissociar-se de quem está ao redor e do mundo em que se vive, o que se resume na fórmula ser-no-mundo ([[lx>termos:i:in-der-welt-sein|In-der-Welt-sein]]), cujo em (in) não é consciência nem responsabilidade moral, mas familiaridade ([[lx>termos:v:vertrautheit|Vertrautheit]]) * a expressão alemã bin liga-se a bei, de modo que ich bin significa residir ou habitar em meio ao mundo como aquilo que me é familiar de tal ou qual maneira, e ser, como infinitivo de ich bin entendido como existencial, significa residir em meio a, ser familiar com * O emprego heideggeriano de etimologias e jogos de palavras, sobretudo em alemão, ocasionalmente também grego e latim, deve evitar o misticismo verbal desenfreado, sendo antes tarefa última da filosofia preservar a força das palavras mais elementares em que o ser-aí se exprime, impedindo que a compreensão comum as nivele até a ininteligibilidade que funciona como fonte de pseudo-problemas * Explorar a familiaridade como relação fundamental com o mundo exige distinguir o sentido existencial da preposição em do sentido físico, que Heidegger chama de estar-dentro (Insein no sentido físico), afirmar que o ser-no-mundo é constituição básica, e não apenas modo de vida, e tratar a cognição como modo fundado ou derivado do ser-no-mundo, tema adiado * O mundo ser meu, importar-me, é mais do que estar localizado num sistema de objetos, estar-dentro ou inclusão, como elementos logicamente incluídos num conjunto ou objetos físicos contidos em objetos maiores, exemplificado pelo computador situado no escritório sem experimentá-lo como seu, ao passo que o próprio corpo, também incluído fisicamente no escritório, experimenta esse espaço como seu por familiaridade, não por posse legal * mesmo ao levar o trabalho a uma cafeteria próxima de casa, essa cafeteria ainda é experimentada como minha, não possuída, mas familiar * a familiaridade, traço de fundo pervasivo da experiência, torna-se mais evidente em sua ausência, como o desconforto sentido numa cafeteria desconhecida em outra cidade, com cadeiras, música e cafés diferentes * Viver num mundo é experimentar o lugar em que se vive como familiar, conhecer os caminhos nele, distinguindo Heidegger, em §[[obra:etem:et14|14]], quatro sentidos da palavra mundo, dos quais interessam aqui o primeiro, entre aspas de estranhamento, referente à totalidade dos entes que podem ser simplesmente dados dentro do mundo, chamado por Dreyfus de universo das coisas, e o terceiro, sem aspas, aquilo em que o ser-aí fático pode dizer-se viver, contexto ou meio experiencial concreto cuja estrutura Heidegger chama de significância ([[lx>termos:b:bedeutsamkeit|Bedeutsamkeit]]) * O segundo aspecto da concepção de ser-no-mundo é ser esta a constituição básica ([[lx>termos:g:grundverfassung|Grundverfassung]]), termo mais fiel do que estado básico, de modo que todos os modos de experiência e atividade são formas determinadas de ser-no-mundo, dispersando-se ou dividindo-se a facticidade do ser-aí em modos definidos de ser-em, entre os quais atividades como produzir e usar algo, e atitudes psicológicas como considerar algo * Entre esses modos definidos de ser-em está a relação com os objetos ao redor, designada pelo termo ocupação ([[lx>termos:b:besorgen|Besorgen]]), derivado de cuidado ([[lx>termos:s:sorge|Sorge]]), pelo qual não se está em relação indiferente ou inerte às coisas que cercam, mas elas importam, mesmo quando essa importância é privativa, como nos exemplos de negligenciar algo ou deixar algo por fazer * Aplicado ao próprio ser-aí, sempre que o ser-aí é, ele é enquanto fato fático, e a factualidade desse fato chama-se facticidade do ser-aí, distinguindo-se fatos fatuais ([[lx>termos:t:tatsachen|Tatsachen]]), aspectos determinados das coisas, de fatos fáticos ([[lx>termos:f:faktum|Fakta]]), aspectos determinados do ser-aí, sendo fato fatual que o computador pesa seis libras e fato fático ser professor, ambos modos de determinação, mas ontologicamente distintos, pois ser professor é modo de ser-no-mundo e pesar seis libras não * Ainda que existam determinações fatuais próprias, como o próprio peso, mesmo entes não desprovidos de mundo, como o próprio ser-aí, podem ser tomados, com certo direito e dentro de certos limites, como meramente simplesmente dados, desde que se desconsidere inteiramente a constituição existencial do ser-em, não devendo essa tomada ser confundida com o modo próprio de presença do ser-aí * descrever uma pessoa por seu peso é desconsiderar a constituição existencial do ser-em, tratando-a como qualquer objeto físico, perdendo o que faz de sua vida a vida que é, pois não se apenas pesa tantos quilos, mas se vive esse peso como sobrepeso, peso adequado, abaixo do peso, ou indiferença a ele * o peso, como modo de ser-no-mundo, não é mera propriedade física, mas condição existenciária, distinção análoga à de sexo biológico e gênero, ou de altura física e estatura * Formula-se assim a situação ontológica de duas maneiras de tomar ou considerar o ser-aí, como simplesmente dado e como ser-aí, alinhando Heidegger à tradição da filosofia transcendental kantiana, segundo a qual a distinção entre coisas em si e aparências não é metafísica, entre dois conjuntos de entes, mas entre dois modos de considerar o mesmo conjunto de entes que são * no exame da liberdade na Terceira Antinomia da Crítica da Razão Pura, Kant argumenta que explicar naturalisticamente o comportamento de uma pessoa exige ignorar sua liberdade e considerá-lo deterministicamente, ao passo que julgá-lo moralmente exige considerá-la como escolhendo livremente * A distinção entre fatualidade e facticidade segue linhas semelhantes, podendo adotar-se atitude científico-descritiva, focada nas propriedades simplesmente dadas da pessoa, como peso e altura, ou atitude existencial, focada em seus modos de ser-no-mundo, atitudes que corporificam compreensões distintas do ser, sendo a distinção entre o fatual e o fático ontológica, não apenas linguística ou psicológica * A experiência mais fundamental de si mesmo está impregnada de meidade e de importância: a vida é experimentada como própria e, por isso, importa, e, por estar-se próxima e imersamente no mundo em que se vive, também o mundo é experimentado como próprio, não sendo mero universo de objetos, mas meio social em que se vive, exigindo-se ainda um relato fenomenológico positivo desse meio, o mundo, oferecido a seguir {{tag>Blattner fenomenologia}}