====== História ====== //BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.// ** A Apropriação do Patrimônio Histórico e a Constituição do Destino ** * A resolução ([[lx>termos:e:entschlossenheit|Entschlossenheit]]) não cria uma interpretação inteiramente nova da vida humana a partir do nada, mas delibera sobre possibilidades de ser já oferecidas e herdadas no mundo em que se vive. * A compreensão existencial própria ou autêntica (eigentliches existentielles Verstehen) não se esquiva da interpretação herdada do ser-aí ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]]), mas se apropria de qualquer possibilidade escolhida a partir dela, agindo em consonância, em oposição ou em novo assentimento a essa mesma tradição: "A compreensão existencial própria está tão longe de se desvincular da tradição interpretativa do ser-aí que chegou até nós que é, em cada caso, em termos desta interpretação, contra ela e, no entanto, novamente por ela, que qualquer possibilidade escolhida é apreendida na própria resolução". * O mundo compartilhado fornece um reservatório histórico de possibilidades que Heidegger denomina patrimônio ou herança ([[lx>termos:e:erbe|Erbe]]), o qual exige uma retomada ativa e própria para que se realize a existência autêntica ou própria ([[lx>termos:e:eigentlichkeit|Eigentlichkeit]]). * Ao assumir uma possibilidade de seu patrimônio (Erbe), o ser-aí (Dasein) transmite essa possibilidade a si mesmo, efetuando a escolha de seu próprio destino ([[lx>termos:s:schicksal|Schicksal]]): "É assim que designamos o acontecer originário do ser-aí, que reside na resolução própria e no qual o ser-aí se transmite a si mesmo, livre para a morte, em uma possibilidade que ele herdou e, no entanto, escolheu". ** O Fenômeno da Repetição como Resposta Histórica ** * A escolha do próprio destino (Schicksal) realiza-se por meio da repetição ou retomada ([[lx>termos:w:wiederholung|Wiederholung]]), caracterizada como uma resposta ou réplica ([[lx>termos:e:erwiderung|Erwiderung]]) às possibilidades da existência que já foi-aí (dagewesene Existenz). * A repetição (Wiederholung) consiste em ir além da mera execução cega de uma diretriz herdada, convertendo-se em uma transmissão explícita e em um retorno consciente às possibilidades do ser-aí que já foi-aí: "A repetição é a transmissão explícita — isto é, o retorno às possibilidades do ser-aí que já foi-aí". * O termo "explícito" na ontologia de *Ser e Tempo* não equivale a um ato reflexivo, intelectualizado ou dotado de autoconsciência contínua, mas refere-se ao ato interpretativo de atualizar uma possibilidade histórica por meio do próprio viver concreto e situado. * A historicidade própria (eigentliche [[lx>termos:g:geschichtlichkeit|Geschichtlichkeit]]) demanda que a retomada das possibilidades do patrimônio (Erbe) responda diretamente às exigências da situação fática desvelada no presente próprio do instante ([[lx>termos:a:augenblick|Augenblick]]). * A articulação da historicidade própria funda-se na unidade extática e finita da temporalidade, onde o futuro precursora e o ter-sido se co-pertencem originariamente: "Somente um ente que, em seu ser, é essencialmente futural de modo que é livre para sua morte e pode se deixar lançar de volta sobre seu Aí fático ao despedaçar-se contra a morte — isto é, somente um ente que é equiprimordialmente futural e ter-sido —, pode, ao transmitir a si mesmo a possibilidade que herdou, assumir sua própria decadência lançada e estar no instante para 'o seu tempo'. Somente a temporalidade própria, que é ao mesmo tempo finita, torna possível algo como o destino — isto é, a historicidade própria". ** A Historicidade Imprópria: O Tradicionalismo e o Futurismo ** * O ser-aí impróprio (uneigentliches Dasein) caracteriza-se por não possuir um destino (Schicksal) no sentido ontológico, uma vez que se esquiva da resolução (Entschlossenheit) necessária para apropriar-se de suas possibilidades. * A historicidade própria (eigentliche Geschichtlichkeit) não se abandona ao passado e recusa a veneração da tradição por si mesma: "a historicidade própria [...] não se abandona àquilo que passou". * Paul Ricoeur aponta que um dos sentidos mais controversos da palavra "tradição" liga-se à ideia de um conteúdo cultural transmitido sob a autoridade específica do passado. * A submissão cega à autoridade da tradição funciona como um mecanismo de desoneração (Entlastung) operado pelo impessoal (das Man), transferindo a responsabilidade da decisão existencial para a herança cultural recebida. * O jurista Oliver Wendell Holmes Jr. ilustra esse esvaziamento ao criticar a manutenção de regras jurídicas baseadas meramente em sua antiguidade histórica ou na imitação cega de fundamentos há muito desaparecidos. * A historicidade imprópria manifesta-se igualmente na busca obstinada pelo progresso linear ou na negação reativa do passado. * O apego exclusivo ao progresso assume o passado como uma antiautoridade, gerando uma rejeição sistemática de tudo o que foi, o que impede o ser-aí (Dasein) de assumir a responsabilidade pelas possibilidades que definem sua identidade prática. * O movimento artístico do Futurismo, expresso no Manifesto Futurista de F. T. Marinetti, exemplifica essa postura reativa ao pregar a destruição física de bibliotecas, museus e cidades veneradas sob a égide de uma ruptura absoluta com o passado. * O anticonformismo puramente reativo — que contesta as demandas do impessoal (das Man) apenas por serem comuns — permanece preso à dinâmica da impropriedade ([[lx>termos:u:uneigentlichkeit|Uneigentlichkeit]]), constituindo-se como uma imagem invertida e dependente do próprio impessoal (das Man). * A alternativa autêntica a ambos os extremos consiste em transmutar as possibilidades oferecidas pelo patrimônio (Erbe) em tarefas assumidas e especificadas ativamente diante das contingências da situação presente. {{tag>Blattner história}}