====== Eigentlichkeit ====== //BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.// * O ser-aí ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]]) caracteriza-se como uma pessoa a quem se deve dirigir com um pronome pessoal, embora o uso cotidiano do pronome da primeira pessoa do singular oculte que, na cotidianidade ([[lx>termos:a:alltaglichkeit|Alltäglichkeit]]), a ação costuma se dar de tal forma que se deve dizer que não foi ninguém. * Predomina o comportamento pautado pelo que se faz e como se faz no horizonte do impessoal (das Man), respondendo a apelos gerais e agindo de modo socialmente apropriado sem que isso signifique agir como um robô. * A resposta às particularidades e sutilezas de uma situação, mesmo quando dotada de sabedoria prática, não se relaciona com algo especificamente próprio, restando a questão sobre o que torna a agência própria em vez de pertencer ao impessoal ([[lx>termos:d:das-man|das Man]]). * A apropriação da agência exige que o ser-aí (Dasein) assuma a própria vida, o que se ilustra em decisões de ruptura com apelos gerais, guiando-se por um apelo endereçado especificamente a si e não a qualquer um. * A consciência ([[lx>termos:g:gewissen|Gewissen]]) convoca o si-mesmo do ser-aí (Dasein) de seu estado de perdido no impessoal (das Man): "A consciência convoca o si-mesmo do ser-aí de sua perda no impessoal". * O si-mesmo do impessoal ([[lx>termos:m:man-selbst|Man-selbst]]) opera por particularização ou instanciação de padrões gerais de conduta, enquanto o si-mesmo autêntico ou próprio (eigentliche Selbst) atua por especificação ou transformação, modificando existencialmente o impessoal (das Man). * O ser-si-mesmo próprio ou autêntico (eigentliches Selbstsein) não se apoia em um estado excepcional do sujeito isolado do impessoal (das Man), mas sim em uma modificação existencial deste: "O ser-si-mesmo próprio não se apoia num estado excepcional do sujeito, estado este que tenha sido destacado do impessoal; ele é, antes, uma modificação existencial do impessoal — do impessoal como um existencial essencial". * A autenticidade ou propriedade ([[lx>termos:e:eigentlichkeit|Eigentlichkeit]]) não exige a constituição de um indivíduo absolutamente único e sem comunhão com os outros, nos moldes de um espírito livre nietzscheano, o qual seria incapaz de articular o que está em jogo em sua vida. * Na obra As Moscas, de Sartre, o personagem Orestes assume sua vida ao abraçar a missão de vingar a morte do pai, matando Clitemnestra e Egisto, sem no entanto esclarecer suas razões a ninguém, limitando-se a dizer que encontrou seu caminho, sua cidade e sua irmã. * Exemplos históricos como Kareem Abdul-Jabbar e Franz Jägerstätter demonstram que a apropriação de possibilidades disponíveis no mundo social — como a conversão ao Islã ou a objeção de consciência — não requer uma ruptura radical, mas a adaptação dessas possibilidades às suas situações específicas de forma articulada. * O ser-aí (Dasein) encontra-se imediata e regularmente perdido no si-mesmo do impessoal (Man-selbst), o qual constitui uma modificação existencial do si-mesmo próprio ou autêntico (eigentliches Selbst). * A consideração do si-mesmo do impessoal (Man-selbst) como modificação do si-mesmo próprio ou autêntico (eigentliches Selbst) afasta a interpretação personalista romântica de um eu verdadeiro ocultado por distrações públicas, o que colide com a indeterminação que Heidegger atribui à decisão ou resolução ([[lx>termos:e:entschlossenheit|Entschlossenheit]]). * A indeterminação do poder-ser ([[lx>termos:s:seinkonnen|Seinkönnen]]) só ganha determinação na resolução (Entschlossenheit) diante da situação atual, manifestando-se plenamente no ser-para-a-morte ([[lx>termos:s:sein-zum-tode|Sein zum Tode]]): "Quando a resolução é transparente para si mesma, ela compreende que a indeterminação do próprio poder-ser só se torna determinada em uma resolução no que diz respeito à situação atual. [...] A indeterminação do próprio poder-ser, mesmo quando este poder se tornou certo em uma resolução, é primeiramente tornada totalmente manifesta no ser-para-a-morte". * O si-mesmo possui uma consciência transcendental que consiste na capacidade de ouvir apelos para agir de modos determinados, embora a existência transcorra majoritariamente na perda no impessoal (das Man) por meio da escuta de apelos genéricos. * O estado de perdido ocorre mesmo quando há respostas a aspectos particulares da situação ou exercício de sabedoria prática e perícia intuitiva que superam a percepção da maioria das pessoas. * A consciência ([[lx>termos:g:gewissen|Gewissen]]) por vezes convoca o ser-aí (Dasein) para o seu poder-ser-si-mesmo mais próprio (eigenstes Selbstseinkönnen), levando-o a assumir quem é ao atender a apelos que outros não ouvem por força de uma interpelação diferenciada da situação. * A resposta resoluta à situação concreta não exige a manutenção obstinada de uma identidade passada baseada em um eu verdadeiro, nem demanda uma visão transformadora ou conversão que resulte em alguém novo. * A resolução precursora ou antecipadora (vorlaufende Entschlossenheit) dispensa constância biográfica temporal ou experiências de conversão, requerendo apenas firmeza no seguimento do apelo específico que singulariza o ser-aí (Dasein) frente ao impessoal (das Man). * O fenômeno do poder-ser próprio (eigentliches Seinkönnen) revela a constância do si-mesmo ([[lx>termos:s:selbststandigkeit|Selbstständigkeit]]) no sentido de ter conquistado uma posição firme: "Mas o fenômeno deste poder-ser próprio também abre nossos olhos para a constância do si-mesmo no sentido de ter alcançado uma posição. A constância do si-mesmo, no duplo sentido de firmeza constante, é a contra-possibilidade própria à não-constância-de-si que é característica da decadência irresoluta. Existencialmente, a constância-de-si não significa outra coisa senão a resolução precursora". * A constância existencial define-se como a conquista de uma posição ou suporte firme, o que se aplica às trajetórias de Kareem Abdul-Jabbar e Franz Jägerstätter. * Ambos os homens estavam dispostos a revogar decisões passadas, como demonstra a reformulação que Abdul-Jabbar operou em sua própria autocompreensão religiosa. * Ser firme na manutenção de uma posição sobre quem se é não exige a conservação de continuidade com o passado, pois a autenticidade ou propriedade (Eigentlichkeit) da resolução precursora ou antecipadora (vorlaufende Entschlossenheit) repousa na fidelidade a quem se descobre ser no momento de clareza. * A resolução (Entschlossenheit) estabelece a fidelidade da existência ao seu próprio si-mesmo: "A resolução constitui a fidelidade da existência ao seu próprio si-mesmo". * A tradição filosófica ocidental errou ao conceituar a identidade pessoal como continuidade no tempo ou permanência de algo simplesmente dado ou presente ([[lx>termos:v:vorhandenheit|Vorhandenheit]]). * O conceito ontológico de sujeito em Descartes, Kant e na tradição ocidental caracteriza a autoidentidade e a permanência de algo sempre presente, em vez da ipseidade do eu como si-mesmo: "Pois o conceito ontológico do sujeito caracteriza não a ipseidade do Eu como si-mesmo, mas a autoidentidade e a permanência de algo que está sempre presente". * A investigação de Heidegger direciona-se à identidade prática do ser-aí (Dasein) na primeira parte de sua obra e, na segunda parte, examina como essa identidade prática pode refletir o impessoal (das Man) ou responder especificamente às exigências da situação própria. * A unidade do si-mesmo próprio ou autêntico (eigentliches Selbst) não se define pela continuidade, mas pela fidelidade ao chamado de quem se descobre ser, de modo que o ser-aí impessoal (unowned Dasein), por carecer dessa firmeza constante, mostra-se inconstante, disperso e desunificado. {{tag>Blattner Eigentlichkeit}}