====== Compreensão ====== //BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.// * A compreensão ([[lx>termos:v:verstehen|Verstehen]]), no uso majoritário dos filósofos, designa uma conquista epistêmica possibilitada por certos tipos de representação mental, ao passo que Dilthey a emprega para designar os modos como se dá sentido ao comportamento humano, contrapondo-a à explicação ([[lx>termos:e:erklarung|Erklärung]]) como esclarecimento de um objeto ou evento por subsunção a leis gerais, não se encaixando o uso heideggeriano em nenhum desses moldes * Heidegger recorre a pistas do uso ordinário do alemão, em que se usa "entender algo" no sentido de "ser capaz de lidar com algo", "estar à altura dele", "ser capaz de fazer algo" * expressões coloquiais equivalentes em português incluem "sacar", "captar", "manjar" e "conhecer", além de "ter jeito para" ou "conhecer os cantos" de algo * essas expressões ordinárias ampliam o modo de ouvir a palavra "compreensão", sem que Heidegger pretenda contradizer epistemólogos e filósofos da ciência contemporâneos nem refutar Dilthey, oferecendo antes a fenomenologia de um fenômeno mais básico **Autocompreensão e Possibilidades Existenciais** * A fenomenologia existencial da compreensão é motivada primeiro pelo exame da autocompreensão, questionando-se se compreender-se a si mesmo é explicar o próprio comportamento por uma explicação psicológica de suas causas, defendê-lo ou justificá-lo, ou oferecer uma autobiografia formal ou informal, sendo todos esses exemplos, mais precisamente, formas de autointerpretação, e a autocompreensão algo mais básico que todos eles compartilham * A compreensão como existencial revela que aquilo que se é capaz de fazer não é um Quê, mas sim [[lx>termos:p:poder-ser|poder-ser]] enquanto existente, sendo o [[lx>termos:d:dasein|ser-aí]] primariamente ser-possível ([[lx>termos:m:moglichsein|Möglichsein]]) e não algo simplesmente dado que possua sua capacidade como um extra * a "essência" do ser-aí reside em sua existência, não sendo os traços exibidos por esse ente "propriedades" simplesmente dadas, mas em cada caso possíveis modos de ser * o ser-aí é em cada caso sua possibilidade, e a "tem" não como uma propriedade, mas como algo simplesmente dado não poderia ter * ao se determinar como ente, o ser-aí sempre o faz à luz de uma possibilidade que ele mesmo é e que, em seu próprio ser, de algum modo compreende * As possíveis maneiras de ser incluem ser pai, professor, parceiro, filho, cidadão dos Estados Unidos, algumas delas articuláveis em termos de estatutos deônticos claros — permissões, obrigações e proibições —, usando-se o termo de Anthony Giddens, "posições sociais", para designar esses possíveis modos de ser ser-aí * uma posição social é um conjunto de estatutos deônticos que caracterizam uma pessoa em virtude de sua posição no mundo social, exemplificado pelas permissões e obrigações de lecionar, estacionar no campus, atribuir trabalhos e notas * outras posições, como a de pai ou mãe, permanecem menos claramente definidas, questionando-se se cabe castigo corporal ou apenas alimentar e vestir os filhos * Os estatutos deônticos das posições sociais geralmente aplicam-se independentemente da vontade, podendo-se renunciar a muitas delas por um ato mais ou menos bem definido dentro do espaço de posições sociais do mundo social * renunciar ao cargo de professor exige carta de demissão à autoridade universitária competente, e renunciar à paternidade exige cessão ou transferência de direitos parentais perante um tribunal, não bastando fazê-lo num acesso de embriaguez numa churrascada familiar * enquanto não se renuncia a uma posição social, suas permissões, direitos e obrigações continuam a se aplicar, razão pela qual, sem transferência dos direitos parentais, pode-se ser processado por negligência infantil * O caso limite de saber se é possível "renunciar" à condição de vizinho revela algo interessante, pois mudar-se de lugar não elimina necessariamente esse vínculo em sentido relevante * a lista de distribuição por e-mail do quarteirão em que se vive mantém antigos moradores que já não residem ali, mas que permanecem afetivamente engajados com a vizinhança, importando-se com o que ali acontece * é possível, inversamente, viver numa vizinhança sem se importar com ela, interagindo com vizinhos apenas para pedir que movam seus carros ou recolham suas lixeiras, estando sujeito a obrigações legais como manter a propriedade não em virtude de ser vizinho, mas por medo da lei * Esse exemplo revela a diferença entre uma mera posição social e uma possibilidade de ser que importa, que faz diferença para como se vê o mundo e ajuda a constituir a compreensão de quem se é, a saber, um para-o-bem-de-si-mesmo * age-se para o bem de ser vizinho, pai ou professor, e ao fazê-lo compreende-se a si mesmo à luz desses modos de ser ser-aí * a possibilidade, como existencial, não significa um poder-ser flutuante livre no sentido da "indiferença da vontade" (libertas indifferentiae), pois o ser-aí, sendo essencialmente disposto, já se meteu em possibilidades definidas, deixando algumas passarem, abandonando constantemente possibilidades de seu ser, ou apoderando-se delas e cometendo erros, sendo assim poder-ser entregue a si mesmo — possibilidade lançada de ponta a ponta * O ser-aí já sempre "se meteu em possibilidades definidas", o que para posições sociais mais formalmente definidas equivale a "inscrever-se" nelas por meio de ações ritualizadas, como matricular-se em cursos, assinar contrato de trabalho ou papéis de adoção, mas Heidegger localiza esse meter-se no fato de se estar "essencialmente disposto", o que é mais do que estar situado em algum lugar e ter realizado ações passadas, significando antes que as possibilidades importam de modos determinados * Compreender-se a si mesmo é ainda "avançar" (projetar-se) nessas possibilidades, pois a compreensão sempre avança em possibilidades por ter em si a estrutura existencial chamada projeção * compreender-se em termos do para-o-bem-de-si-mesmo de ser vizinho leva a fazer o que vizinhos fazem, projetando ou lançando adiante um espaço de ações possíveis, como inscrever-se para levar algo à festa do quarteirão ou cuidar do gato de um vizinho ausente, ações que importam concretamente e que chamam ou solicitam a agir * as possibilidades de ser apontam para o futuro, para o que se pode, deve ou fará, sentido que torna adequada a tradução de "[[lx>termos:s:seinkonnen|Seinkönnen]]" como "poder-ser" ou "potencialidade-de-ser", ainda que essa relação com o futuro não seja necessariamente de crescimento ou desenvolvimento progressivo **A Constituição Básica da Compreensão e da Interpretação** * A compreensão abre possibilidades: a autocompreensão abre possíveis modos de ser ser-aí, isto é, para-o-bem-de-si-mesmo, e a compreensão do à-mão abre possíveis modos como as coisas podem estar envolvidas nas atividades, sendo aquilo que é intramundano liberado para suas próprias possibilidades * as possibilidades não subsistem isoladamente, mas pertencem sempre a contextos ou campos de possibilidade, fazendo sentido ser professor apenas em termos de ser estudante, e ser martelo apenas em termos de ser prego, entrelaçando-se as possibilidades num espaço holístico * A compreensão abre esse espaço de possibilidades como um campo em que o ser-aí pode agir, não sendo as possibilidades abstrações, mas modos concretos de poder ser e de o à-mão poder estar envolvido na atividade * é possível avançar tanto para ser professor quanto vizinho, ou engajar-se com uma coisa tanto como martelo quanto como peso de papel, dando o espaço de possibilidades margem de manobra, sendo a projeção a constituição existencial-ontológica do espaço de jogo ([[lx>termos:s:spielraum|Spielraum]]) do poder-ser fático * a projeção oferece, nas palavras de Mark Wrathall, uma gama de possibilidades para perseguir um curso de atividade ou uma identidade particular * O "agir" nesse sentido é chamado por Heidegger de "interpretação" ([[lx>termos:a:auslegung|Auslegung]]), sendo as ações exercícios das capacidades que constituem as possibilidades * como compreensão, o ser-aí projeta seu ser sobre possibilidades, sendo esse ser-para-possibilidades ele mesmo um poder-ser em razão do contragolpe que as possibilidades, uma vez abertas, exercem sobre o ser-aí * o projetar da compreensão tem sua própria possibilidade, a de se desenvolver, chamando-se esse desenvolvimento de interpretação, na qual a compreensão se apropria compreensivamente daquilo que compreende, não se tornando algo diferente, mas tornando-se ela mesma * No desenvolvimento da compreensão através da interpretação, ao se comprometer com uma possibilidade definida, desenvolvem-se, refinam-se, executam-se e aperfeiçoam-se as habilidades de ver quais possibilidades se oferecem * ao exercer uma capacidade numa situação concreta, as possibilidades exercem seu "contragolpe" ([[lx>termos:r:ruckschlag|Rückschlag]]), resistindo o mundo em certa medida às capacidades, e ao exercê-las elas se refinam, adaptando-se e ajustando-se ao mundo em que se vive * a interpretação é assim o desenvolvimento das possibilidades projetadas na compreensão * A circunspecção descobre ao passo que o "mundo" já compreendido passa a ser interpretado, referindo-se "mundo" entre aspas aos entes intramundanos * os utensílios à-mão no ambiente já foram compreendidos, isto é, já disponibilizados pelas capacidades que projetam um espaço de possibilidades para eles, podendo-se usar uma coisa como caneca de café ou como peso de papel * ao agarrá-la e usá-la como caneca de café, ela é interpretada como caneca de café, tendo aquilo que foi circunspectivamente destacado quanto ao seu para-quê a estrutura de algo como algo * Aquilo que se abre na compreensão já é acessível de tal modo que seu "enquanto qual" pode ser feito ressaltar explicitamente, constituindo o "enquanto" a estrutura da explicitude daquilo que é compreendido, constituindo assim a interpretação * ao segurar a caneca e usá-la para beber café, ela se torna saliente na atividade como caneca, não significando "explícito", nesse contexto, algo manifesto, temático ou consciente * qualquer ação de agarrar um objeto e pô-lo em uso é interpretação, e toda interpretação é explícita nesse sentido técnico, mesmo quando não é manifesta, temática ou consciente * A interpretação se funda na "estrutura prévia" da compreensão, estando sempre fundada em algo que se tem de antemão — uma posse prévia ([[lx>termos:v:vorhabe|Vorhabe]]) * o que se tem de antemão numa interpretação é a compreensão, isto é, uma apreensão de um campo de possibilidades em termos do qual se pode engajar com algo * quando algo compreendido mas ainda velado se desvela por um ato de apropriação, isso se dá sob a orientação de um ponto de vista que fixa aquilo em relação a que o compreendido deve ser interpretado, fundando-se toda interpretação em algo que se vê de antemão — uma visão prévia ([[lx>termos:v:vorsicht|Vorsicht]]) * ao agarrar a caneca de café, ela é apropriada e posta em uso sob a orientação de uma das possibilidades esboçadas na compreensão do campo de possibilidades a que a caneca pertence * Aquilo que é compreendido e mantido na posse prévia, e para o qual se dirige a mira de modo previdente, torna-se conceituável por meio da interpretação, tendo esta já decidido por um modo definido de concebê-lo, com ou sem reservas, fundando-se em algo que se apreende de antemão — uma concepção prévia ([[lx>termos:v:vorgriff|Vorgriff]]) * conceitos devem ser pensados como modos de agarrar as coisas, sendo no caso de manipular um utensílio literalmente uma questão de segurar coisas, como segurar uma caneca de café do modo devido * um conceito, mais amplamente, é o modo como se aborda entes que caem no âmbito da compreensão ao se agir numa situação concreta e interagir com eles, sendo os conceitos como representações cognitivas de traços gerais de objetos apenas uma forma desse "agarrar de antemão" * O sentido ([[lx>termos:b:bedeutung|Bedeutung]]) é o sobre-o-quê de uma projeção em termos do qual algo se torna inteligível como algo, recebendo sua estrutura de uma posse prévia, uma visão prévia e uma concepção prévia * na filosofia tradicional, o sentido é entendido como aquilo expresso linguisticamente numa asserção ou proposição, sendo em Husserl o sentido de uma experiência um conteúdo judicativo na forma de predicado aplicado a um sujeito * assim como se reformula a noção de conceito, também se reformula a noção de sentido, dando-se sentido a um ente ao engajar-se com ele e deixá-lo entrar na atividade como algo, tornando-o inteligível como o que é por meio da interpretação em termos de alguma possibilidade de seu ser * Esse uso ampliado da palavra "sentido" fecha o círculo com o início da discussão sobre a compreensão, dando-se sentido às coisas ao engajar-se com elas e deixá-las entrar na vida como os entes mais ou menos determinados que são * beber café numa caneca é um modo de dar sentido a ela como caneca, assim como falar sobre canecas ou explicar seu papel na vida humana são outros modos * apreciar o canto distintivo de um tesourinho-de-peito-rosado é um modo de lhe dar sentido como tal, e embarcar num ônibus conduzido por alguém é um modo de dar sentido a essa pessoa como motorista de ônibus, residindo o dar sentido, em primeira instância, nas capacidades, das quais falar e explicar são apenas algumas * Nos sentidos cotidianos das palavras, "conhecimento", "interpretação" e "compreensão" referem-se a experiências que exibem as três facetas da abertura, envolvendo conhecer, interpretar e compreender algo sempre a sintonia com o modo como esse algo importa * na abertura projetiva de tais possibilidades, o ser-aí está sempre já sintonizado * a compreensão é a apreensão do campo de possibilidades em termos do qual se dá sentido às coisas, apreensão sempre entrelaçada com a sintonia quanto ao modo como as coisas importam, entrelaçando-se por sua vez compreensão e sintonia com o discurso {{tag>Blattner compreensão}}