====== Abertura ====== //BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.// **[[lx>termos:e:erschlossenheit|Abertura]] e o [[lx>termos:d:das-man|Aí]]** * O ser-aí ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]]) está mais fundamentalmente em seu mundo por lhe ser familiar, cabendo à seção I.[[lx>termos:5:5|5]] analisar em detalhe essa familiaridade enquanto tal, sendo estar-em-um-mundo o mesmo que ter um mundo aberto ([[lx>termos:e:erschlossen|erschlossen]]) a si * a seção I.[[lx>termos:3:3|3]] explora a constituição do mundo com o qual se está familiarizado e os entes intramundanos * a seção I.[[lx>termos:4:4|4]] descreve a dimensão social do mundo e o modo como, proximamente e na maior parte das vezes, se é um si-mesmo-impessoal, ou seja, um si-mesmo que se compreende primariamente por meio das normas médias ou padronizadas que constituem o mundo social * o parágrafo [[obra:etem:et28|28]] introduz brevemente a seção I.5 e apresenta dois conceitos importantes: a abertura (Erschlossenheit) e o Aí (Da) * A abertura funciona como substituto heideggeriano para a concepção filosófica tradicional de consciência ou percepção, evitando-se a linguagem de consciência, experiência, percepção e intencionalidade por trazerem consigo um indesejado modelo sujeito-objeto do ser-no-mundo * ser consciente ou ciente de um mundo, ter representações intencionais dele, equivale a ter estados subjetivos direcionados a objetos e a um mundo objetivo * o modelo sujeito-objeto do ser-no-mundo "cinde o fenômeno ao meio, sem perspectiva de recompô-lo" * partindo-se do pressuposto de estados subjetivos, representacionais ou intencionais direcionados a um mundo, surge a questão de como se poderia "transcender" a "esfera subjetiva" para alcançar e compreender um mundo * a linguagem da abertura evita essa cisão prematura do fenômeno, de modo que, em vez de se falar em estar consciente de ou intencionalmente dirigido ao mundo, o mundo é dito aberto (erschlossen) a nós * terminologicamente, "abrir" ([[lx>termos:e:erschliessen|erschliessen]]) fica restrito ao acesso ao ser-aí e ao ser, reservando-se "descoberta" ([[lx>termos:e:entdecken|entdecken]]) para o acesso aos entes intramundanos * A pergunta pelo que significa o mundo estar aberto constitui o objeto de toda a seção I.5, analisando-se a abertura como possuindo três facetas: disposição ([[lx>termos:b:befindlichkeit|Befindlichkeit]]), compreensão ([[lx>termos:v:verstehen|Verstehen]]) e discurso ([[lx>termos:r:rede|Rede]]) * a disposição corresponde aproximadamente à sintonia afetiva com o modo como as coisas importam * a compreensão corresponde aproximadamente à apreensão do espaço de possibilidades em que se age * o discurso corresponde aproximadamente à capacidade de articular esse mundo num meio expressivo * Heidegger substitui as noções tradicionais de consciência e intencionalidade por essa análise tripartite de disposição, compreensão e discurso * O outro conceito novo do parágrafo 28 é o Aí, termo derivado de "Dasein", [[lx>termos:d:da-sein|Da-sein]], ser-aí * "aqui" e "acolá" só são possíveis num "Aí", ou seja, apenas se há um ente que tenha feito uma abertura da espacialidade como o ser do "Aí", ente que carrega em seu ser mais próprio o caráter de não estar fechado, e por força dessa abertura esse ente (o ser-aí), junto com o ser-aí do mundo, está "aí" para si mesmo * "o Aí" remete à espacialidade existencial do ser-aí discutida anteriormente, acrescentando à abertura um sentido de localização, lugar e espacialidade * fenomenologicamente, não se está localizado no espaço-tempo, mas a familiaridade com o mundo envolve um aqui e um acolá ou "lá adiante", exigindo estar localizado, sentido básico que a terminologia de "o Aí" procura capturar * A linguagem do "Aí" também substitui as metáforas tradicionais de luz por metáforas de localização * a tradição filosófica sempre recorreu a metáforas de visão e da luz que possibilita a visão para captar a abertura ou consciência do mundo, e mesmo Heidegger se vale da metáfora da visão para descrever a inteligência * visão e luz, no entanto, incentivam a pensar-se a si mesmo como distante do mundo, no lado oposto de um abismo a ser transposto, ou como aprisionado num domínio de interioridade de onde se deveria projetar o "raio intencional" (Husserl) e lançar luz sobre os objetos * a metáfora de uma clareira ([[lx>termos:l:lichtung|Lichtung]]) na floresta expressa a experiência de estar espacialmente situado entre os utensílios e os outros que povoam o mundo, sendo o ser um espaço aberto no qual os entes se mostram, e não uma esfera subjetiva fechada a ser transcendida * O trabalho com as metáforas alcança apenas até certo ponto, restando avançar para o cerne da seção I.5: as análises da disposição, da compreensão e do discurso {{tag>Blattner abertura}}