===== STIMMUNG (2023) ===== //BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.// * A fenomenologia concreta de §30 concentra-se em espécies e variações do medo, mas a generalização torna-se difícil, sendo oferecida uma fenomenologia mais rica de afinação em Conceitos Fundamentais da Metafísica, §17. * §30 distingue modalidades como pavor e terror. * §30 inclui variações como temer por outro e temer junto com outros. * A extrapolação a partir do medo permanece incerta. * §17 amplia o campo fenomenológico da afinação. * A afinação aparece como atmosfera que acompanha e antecede o estar-com, podendo ser descrita como contagiosa sem reduzir-se a transmissão de estado psíquico, pois determina previamente o modo de ser conjunto e envolve imersão numa tonalidade já vigente. * Bom humor instaura atmosfera vívida. * Presença deprimente abafa a situação e inibe abertura dos demais. * A contagiosidade não é analogável a germes que passam entre organismos. * A afinação não é efeito colateral, mas determinação antecipadora do ser-com. * A imagem de atmosfera indica algo já presente no qual se ingressa. * A afinação permeia e sintoniza por inteiro. * O exemplo do vizinho constantemente abatido explicita que a afinação configura um tom e um modo de estar no mundo e consigo, tornando a conversação pesada e imóvel sem pressupor infecção por estado interno. * O vizinho queixoso tende a postura corporal caída e menor prontidão ao riso. * A resposta típica desloca-se para reclamações e dificuldades. * A conversação perde mobilidade na presença do desanimador. * O fenômeno é descrito como atmosfera e sintonização do mundo e de si. * O ser é sempre questão e, para sê-lo, deve importar, sendo as maneiras pelas quais importa desveladas na afinação, de modo que fracasso, êxito, peso, leveza, culpa e liberdade são modos de portar-se na vida e não meras disposições internas. * O importar é condição do ser-em-questão. * Ser fracassado ou estar em alta descreve modos existenciais de condução. * A vida pode ser sentida como fardo ou como facilidade. * Pode haver sensação de estar liberado ou encurralado. * Culpa e leveza são modalidades do carregar-se no mundo. * A afinação manifesta como alguém está e como está indo. * A afinação não apenas dá o tom da vida, mas sintoniza para os imports diferenciais de coisas, pessoas e eventos, de modo que o medo revela o temível como ameaçador, e a temibilidade não é traço neutro, mas descoberta pela própria afinação. * Import é o modo como algo importa. * O medo sintoniza para o temível. * Perigo objetivo pode existir sem ser percebido. * Temível é o que é desvelado como ameaçador pelo medo. * A pessoa destemida não vivencia o temível com a mesma prontidão. * O chefe não aparece como temível para quem o enfrenta facilmente. * O contraste entre destemor e temor exibe que o medo possui duas faces inseparáveis — o ente temível e o Dasein que teme — e rejeita modelos em camadas que separam realidade neutra e experiência valorada, pois o medo já descobre o ameaçador em sua temibilidade. * O medo envolve simultaneamente o que ameaça e quem é ameaçado. * Modelo em camadas distinguiria neutralidade afetiva e valoração posterior. * A apreensão de mal futuro não precede o medo. * O medo não acrescenta depois uma coloração ao que já foi notado. * O medo descobre previamente o que se aproxima como temível. * A comicidade de personagens que gritam tarde explora contraste com a experiência ordinária. * A diferença entre julgar perigo e experimentar ameaça mostra que a linguagem e o conteúdo perceptivo já trazem import, e que o ser-no-mundo é fenômeno unitário cujas facetas podem ser distinguidas analiticamente sem isolamento conceitual, sendo o medo um modo ôntico de disposição pertencente ao ser-no. * Um cão pode ser perigoso sem ser vivido como ameaçador. * Descrever o cão como rosnando já pertence ao contexto do medo. * Ser-no-mundo inclui mundo, quem está-no-mundo e ser-no. * As facetas são distinguíveis, mas não separáveis conceitualmente. * Disposição é faceta do ser-no. * O medo é modo concreto de disposição em que ameaça e ameaçado são intrinsecamente correlatos. * O exemplo do cão grande e agressivo evidencia que, ao cessar o medo e surgir conforto, o próprio conteúdo do que é visto muda, pois traços antes salientes como dentes e músculos cedem lugar a padrões e suavidade, indicando que a experiência é atravessada por import. * O cão aparece como temível sob medo. * Dentes e musculatura tornam-se proeminentes. * A intervenção do dono altera o campo da experiência. * O contato amigável dissolve o aspecto de temibilidade. * Outros traços passam a ser notados, como padrão no rosto e maciez. * O conteúdo cognitivo varia conforme medo ou conforto. * A experiência perceptiva é saturada por import. * Modos de sintonização para o importar não se limitam a experiências intensas como medo, pois a confiabilidade cotidiana de utensílios, como a xícara sempre à mão ou o canivete fiel, também constitui import. * Confiabilidade é modo de importar. * Ação rotineira pressupõe presença estável de objetos. * A linguagem de “fiel” expressa esse import. * A sintonização cotidiana opera com baixa intensidade. * A própria possibilidade ontológica de ser afetado por inutilizabilidade, resistência ou ameaça do disponível exige determinação prévia do ser-no para que o intramundano possa importar, e essa submissão desveladora ao mundo permite que algo relevante encontre. * Inutilizabilidade, resistência e ameaça são imports do equipamento. * O ser-no deve estar previamente determinado para que algo importe assim. * A circunspecção cotidiana é atravessada por afinações. * Disposição implica submissão desveladora ao mundo. * O encontro do que importa depende dessa abertura. * A fenomenologia apresentada sustenta que a afinação é mais ampla que humor, emoção ou afeto, pois inclui sensibilidades e virtudes como modos atmosféricos e compartilháveis de fazer distinções e perceber chamadas à ação, sem reduzir-se a estados internos privados. * Sensibilidade de conhecedor torna distinções refinadas relevantes. * Connoisseur de vinho, arte, carros ou café percebe diferenças que outros não veem. * A presença do conhecedor altera a atmosfera e produz autoexperiência de rudeza. * A sensibilidade funciona como ambiência compartilhada. * Virtude, em leitura aristotélica, inclui modo de ver e notar o que pede compaixão. * A pessoa bondosa percebe sofrimento e sente-se convocada a responder. * Intervenção bondosa em abuso verbal sintoniza a situação como exigindo cuidado. * A virtude torna-se imediatamente inteligível na cena compartilhada. * A síntese da fenomenologia reúne que afinações desvelam imports, operam atmosfericamente como tenor situacional, manifestam como alguém está e como vai, e não atuam como coloração posterior de objetos cognitivos previamente dados. * Afinações mostram modos de importar de coisas e da própria vida. * Afinações funcionam como sintonização de situação, não como interioridade privada. * A auto-revelação inclui avaliação prática de estar indo bem ou mal. * Objetos não são primeiro dados neutros para depois serem interpretados. * O importar constitui o próprio modo de aparecer do intramundano. {{tag>Blattner}}