====== 9 ====== //JBFT// * Interrogado se seria de fato pressentindo enfim a dimensão esquecida da aletheia grega no que hoje se chama verdade que se alcança o questionamento em que Heidegger reconhece o destino da nossa época, deslocando a fixação de aletheia no latim veritas para lugar secundário, identifica o episódio essencial na mutação cartesiana da verdade em certeza, sendo verdadeiro, para Descartes, apenas o que nos é certo * Contrasta o cartesiano certo de ter o mar diante de si, a partir de suas sensações, ao soldado de Xenofonte que, ao alto de uma altura, exclama Thalassa diante do mar descoberto, perguntando quem está de fato mais diante do mar, e concluindo que o que se descobre é sempre mais, e não menos, do que aquilo que apenas nos é certo * Estende essa comparação à própria geometria, opondo a visão como mero motivo de julgamento em Descartes, que se diz livre até para desdizer uma verdade clara em nome da liberdade, à descoberta pitagórica do teorema, à maneira de uma paisagem que se descortina a quem se eleva o suficiente * Interroga por que Descartes é, aos olhos gregos, uma espécie de forcené, ancestral direto daquele que em Nietzsche anuncia a morte de Deus, eclipsando a aletheia em favor de um dispositivo de certeza, esclarecendo que Heidegger não refuta Descartes, mas o vê pela primeira vez em toda a sua estranheza, estranheza que se tornou nossa segunda natureza a ponto de Husserl, na esteira de Hegel, só poder ver em Descartes o ponto de partida radical de toda filosofia * Questionado sobre a origem dessa necessidade cartesiana de acentuar a verdade em certeza, remete ao "êxodo do saber" evocado enigmaticamente por Platão no Banquete, e ao país de Lethe, do retraimento de tudo, mencionado ao final da República * Associa esse esquecimento à descrição que Tucídides faz da peste de Atenas, em que os sobreviventes eram tomados por um esquecimento geral, amnésia identificada com o fim do mundo antigo, terreno em que floresceram a resignação cética, o esforço impotente do estoicismo, o recolhimento epicurista e, por fim, o cristianismo * Qualifica Descartes de filósofo cristão que, ao pretender filosofar pela razão natural sem a luz da fé, retoma sem o perceber toda a herança da fé cristã, radicalizando-a em sua interpretação da verdade como certeza, num esforço de retorno do homem feito cristão ao homem simplesmente nascido homem, esforço que o separa do mundo grego tanto quanto a animosidade de são Paulo separava-se da filosofia grega * Cita a afirmação de Heidegger, em Qu'est-ce qu'une chose?, segundo a qual a metafísica moderna, de Descartes a Kant, e mesmo o idealismo alemão, seriam impensáveis sem as representações fundamentais da dogmática cristã * Interrogado se o presente do mundo seria essencialmente cartesiano, e sobre a articulação entre esse mundo da certeza cartesiana, marcado pelo cristianismo, e o mundo da técnica moderna, tão pouco conforme à ética cristã, esclarece que a mutação da verdade em certeza é o motor invisível da promoção das matemáticas a chave de todas as demais ciências, promoção que torna possível o mundo da técnica como cálculo universal do étant e mobilização total do homem, na dupla figura de produtor e consumidor * Cita a frase de Ernst Jünger em Der Arbeiter segundo a qual nenhum despotismo jamais sonhara mobilização semelhante à que se estende silenciosamente sob nossos olhos, sem cartazes como os de 1914, remetendo à imagem de Zaratustra sobre o mundo que gravita em silêncio * Cita a afirmação de Heidegger de que mesmo a moral, com suas doutrinas e injunções, permanece impotente enquanto o homem não alcançar nova relação com o ser, relação que não visa saber se algum Deus existe, mas se o próprio ser se tornará capaz de um Deus, alcançável não pelo trabalho dos futurólogos, mas pela remontada ao fundamento mesmo da metafísica * Observa que somente nessa remontada Descartes se revela em toda a sua estranheza, o cristianismo se manifesta como componente de uma coalizão entre a herança grega e a Bíblia, mais tarde chamada escolástica, e a própria filosofia grega aparece, enfim, como enigma, algo que Heidegger já pressentia, mas não sabia plenamente, à época de Sein und Zeit * Conclui que, apesar desse abalo, tudo permanece aparentemente como antes, sem que os peixes grandes deixem de comer os pequenos nem a terra de girar, citando o verso de Macbeth sobre a longa noite sem fim até encontrar o dia, para descrever a longa paciência dessa demarche não desesperançada * Diante da sugestão de que o retour amont heideggeriano se assemelharia à futurition de Chateaubriand, corrige preferindo falar antes de preparação e de longa vigília, à maneira da veillée d'armes de um futuro cavaleiro, remetendo à conferência lida em 1964 na Unesco, La fin de la philosophie et la tâche de la pensée * Cita longamente esse texto, no qual Heidegger reconhece que tal pensamento permanece necessariamente aquém da grandeza dos filósofos, recusando toda ação imediata ou mediata sobre o domínio público marcado pela ciência tecnicizada, tendo por única tarefa suscitar a disponibilidade humana para um possível de contorno obscuro e advento incerto, sem prever se a civilização mundial nascente superará ou não a marca técnica, científica e industrial que hoje a caracteriza, nem se ela será brevemente destruída ou se irá consolidar-se em mudança contínua * Interrogado sobre como precisar melhor esse possível vago para o qual a pensée heideggeriana orienta a disponibilidade humana, evoca a queixa de Merleau-Ponty, à época da recepção da Lettre sur l'humanisme, sobre o horror de Heidegger a "pôr os pontos nos is", concluindo não ser possível precisar mais do que o próprio Heidegger o fez, preocupado tanto em não ser um "retardatário da origem" quanto um "prematuro do porvir" * Privilegia o exercício do seminário, definido por Heidegger como lugar e ocasião de espalhar aqui e ali uma semente de meditação que, não se sabe quando, poderá germinar e frutificar, precedido sempre pela lavra do campo, cujos caminhos ainda desconhecidos são muitos, mas dos quais a cada pensador é atribuído um único, que jamais lhe pertencerá de fato * Cita ainda o discurso Hebel, l'ami de la maison, no qual Heidegger evoca o enigma ainda inominado de nossa época, o afastamento crescente entre a natureza tecnicamente dominável da ciência e a natureza natural do habitar humano, o predomínio do mensurável como única chave do segredo do mundo, o definhamento da natureza natural em simples miragem que já não interpela o poeta, a incapacidade da própria poesia de seguir sendo figura exemplar da verdade, e a imagem de uma casa do mundo da qual está ausente o Amigo capaz de inclinar-se, com igual força, tanto para o universo tecnicamente organizado quanto para o mundo concebido como morada de um habitar mais originário {{tag>Beaufret}}