====== Lições de filosofia ====== JBLP //Philippe Fouillaron// * Jean Beaufret gostava de citar a frase hegeliana "sou um pedagogo", tendo sido pedagogo no sentido mais profundo e elevado do termo, e um curso seu representava para seus alunos a impressão desconcertante do inaudito, a descoberta pela primeira vez de Platão e Aristóteles, Descartes e Leibniz, Kant e Hegel, verdadeiro nascimento para a filosofia * Suas aulas transmitiam também a certeza imediata de estar diante de algo grandioso, graças ao poder de estímulo e iluminação de sua palavra sóbria, ainda que nem sempre se compreendesse de imediato do que se tratava * Provocavam ainda um sentimento de estranhamento, pois o mestre estava sempre nos avant-postes de seu próprio pensamento, interrogando-se sem cessar diante dos alunos, de modo que estes acompanhavam uma pensée que inventava seu próprio caminho ao mesmo tempo em que o percorria * Obtinha por isso de seus alunos uma qualidade de escuta estupefaciente, escuta recíproca, já que necessitava de público para pensar, instruindo-se a si mesmo ao ensinar, segundo expressão de Marcel Jouhandeau * Descrevem-se seus cursos ditados de pé, sem notas, entremeados de desenvolvimentos livres e anedotas reveladoras de seu humor lendário, irradiando presença soberana sobre um público misto de ouvintes livres e alunos regulares de khâgne, sobretudo no liceu Condorcet, onde ensinou de 1955 a 1972, ano de sua aposentadoria * A leitura dos cursos de Jean Beaufret permanecera até então privilégio de seus alunos, apesar de alguma circulação informal, tendo nascido o presente livro da ideia de tornar acessível uma seleção ampla e representativa de sua atividade docente * O ensino de Jean Beaufret, professor de khâgne, dedicava-se fundamentalmente ao estudo dos grandes filósofos, aos quais cabe, na fórmula de Nietzsche, guardar ao pensamento sua linha de cume através dos séculos, preservando a fecundidade eterna do que é grande * O organizador reuniu doze cursos sobre a doutrina de grandes pensadores em três partes, filosofia grega, racionalismo clássico, idealismo alemão e filosofia contemporânea, buscando acompanhar de ponta a ponta o percurso do pensamento ocidental * As notas dos próprios alunos, tomadas ao longo de mais de vinte anos, entre 1950 e 1972, constituem a fonte principal das lições, complementadas por cadernos corrigidos à mão pelo autor e por lições integralmente redigidas por ele mesmo, encontrados entre seus papéis * O organizador optou por acrescentar como apêndices lições ou trechos que aprofundam pontos de doutrina tratados de modo demasiado rápido ou conciso, com a preocupação de reforçar, e não comprometer, a coerência da obra * Os exemplares de trabalho de Jean Beaufret revelam a seriedade com que meditou, a vida inteira, as obras filosóficas fundamentais, sendo suas anotações à Metafísica de Aristóteles ou à Crítica da razão pura de Kant, por exemplo, propriamente assombrosas * Observa-se que a leitura desses cursos pressupõe conhecimento sólido das obras essenciais dos grandes filósofos, mas constitui também, pela profundidade das análises e riqueza dos apontamentos, poderoso incitamento ao retorno aos textos, razão pela qual se ofereceram ao leitor referências precisas * O organizador expressa o desejo de que o livro se apresente como eco fiel da palavra e do pensamento de Jean Beaufret, conforme a vocação da coleção * Encerram-se os agradecimentos a Dominique Séglard, autor da ideia do livro, a Claude Lasibille, herdeiro de Jean Beaufret, que permitiu acesso livre a seus papéis e biblioteca, a François Fédier e François Vezin, que forneceram versões de certos cursos, a Gérard Prosper, responsável pelos esquemas do livro, e a Marie-Hélène, esposa do organizador, por sua colaboração paciente e apoio constante ** Sumário ** * Prefácio, por Philippe Fouillaron ** Introdução ** * Considerações livres acerca da questão: o que é a filosofia? * A origem grega da filosofia * O aparecimento da filosofia e a noção de descontinuidade eidética * A interpretação husserliana da história da filosofia * Husserl e Heidegger * Filosofia e religião * A analogia em Aristóteles ** Primeira parte — Filosofia grega ** ** Capítulo 1 — Platão ** * O mundo das ideias e o mundo dos ídolos * A passagem de um mundo a outro: o papel dos intermediários * A noção de hipótese e o intermediário matemático * Matemática e dialética * Dialética e definição * As ideias e o Bem * As dificuldades * Dificuldade do lado do homem: Teeteto * Dificuldade do lado do ser: Parmênides * Desenvolvimento da quarta hipótese do Parmênides * O Sofista * Filebo ** Capítulo 2 — A meditação sobre o ser na filosofia de Aristóteles ** * A estrutura onto-teológica da metafísica * A ambiguidade da Metafísica de Aristóteles * A «ontologia» aristotélica * As múltiplas acepções do ser: homonímia e analogia * O ser por acidente e a noção de acaso * Quadro das significações da palavra «acaso» * O ser segundo as categorias * Observação * O ser segundo a relação potência–ato * A substância e a relação forma–matéria: Metafísica, livro Z * Relação entre forma–matéria e potência–ato: passagem do livro Z ao livro Θ * As faces e as «causas» do movimento * Arte e natureza ** Segunda parte — O racionalismo clássico ** ** Capítulo 1 — Notas sobre Descartes: a transformação da verdade em certeza ** * A certeza e a fé * Dois incidentes de percurso * O «círculo» cartesiano * O problema da existência das coisas materiais * O projeto de Descartes e a questão da filosofia grega * Descartes e Santo Tomás * A analogia * O pensamento calculador ** Capítulo 2 — Evidência e verdade: Descartes e Leibniz ** * Evidência e verdade * Alguns erros da filosofia da evidência denunciados por Leibniz * O erro memorável: Discurso de metafísica, 1686, § 17 * As leis da óptica * Primeiro caso: a reflexão * Segundo caso: a refração * As leis do choque dos corpos * Nota sobre Malebranche * Consciência e infraconsciência * Conclusão ** Capítulo 3 — A Monadologia de Leibniz ** * A ocasião e o contexto * A substância como mônada: os três primeiros parágrafos * Consequências essenciais da tese: do § 3 até o fim * Características gerais das mônadas: §§ 3 a 12 * O díptico da mônada: percepção e apetição, §§ 12 a 25 * Verdades lógicas e verdades de fato: §§ 31 a 38 * Digressão: a concretização de um conceito abstrato em Kant * O princípio de razão e as máximas subalternas * A teologia de Leibniz: §§ 38 a 60 * Primeira prova da existência de Deus * Digressão: a lógica segundo Aristóteles * Segunda prova da existência de Deus * Terceira prova da existência de Deus * A criação * Três últimos pontos: §§ 48 a 90 * O tríptico da mônada: § 48 * A ligação das mônadas: §§ 49 a 60 * As relações entre a alma e o corpo: do § 61 até o fim * Liberdade e melhor dos mundos possíveis: Leibniz e Kant ** Capítulo 4 — Espinosa ** * A Ética * As oito definições inaugurais * Deus e o mundo: a relação entre substância, atributos e modos * O homem como mente e como ânimo * O corpo * A alma * Espinosa e o problema do método: Tratado da reforma do entendimento, inacabado * A moral: Descartes e Espinosa * Espinosa e a política * Espinosa e Hobbes * Hobbes e Rousseau * Hegel, Princípios da filosofia do direito, 1821 ** Apêndices ** ** Apêndice 1 — Cálculo das séries e cálculo infinitesimal em Leibniz ** * Cálculo das séries * Cálculo infinitesimal ** Apêndice 2 — Imaginação comum e imaginação profética em Espinosa ** ** Sumário ** ** Terceira parte — Idealismo alemão e filosofia contemporânea ** ** Capítulo 1 — A filosofia crítica de Kant ** * As «reviravoltas» (Umkippungen) de Kant * O clima filosófico * O ponto de partida: Wolff * Kant, discípulo de Wolff * A reviravolta de 1763 * Segunda reviravolta após 1766 * A argumentação de Kant na Dissertação de 1770 e na «Estética transcendental» * A Crítica da razão pura: «Lógica transcendental» * A noção de juízo * Intelectualistas e gestaltistas * Kant * Lógica formal e lógica transcendental * Lógica formal * Lógica transcendental * Lógica transcendental e ontologia * «Analítica transcendental» * «Analítica dos conceitos» * Inventário * Dedução transcendental * A apercepção transcendental * As duas edições da Crítica, de 1781 e 1787 * «Analítica dos princípios» * Esquematismo dos conceitos puros do entendimento * O sistema dos princípios * Princípios matemáticos * Princípios dinâmicos * «Dialética transcendental» * Paralogismos da razão pura * Antinomias * Antinomias matemáticas * Antinomias dinâmicas * Ideal da razão pura * A moral em Kant * As morais da natureza: hedonismo e utilitarismo * O hedonismo puro * O utilitarismo: Bentham e Mill * As morais da perfeição * O ponto de vista de Kant * Observações * A Crítica da faculdade de julgar * Primeiro tema: a finalidade * Segundo tema: o sentimento * Terceiro tema: o juízo * Conclusão ** Capítulo 2 — A Crítica da faculdade de julgar de Kant ** * Introdução geral * Situação em relação à Crítica da razão pura * A ideia de horizonte e de enfrentamento * A ideia de afecção * Da Crítica da razão pura à Crítica da faculdade de julgar * Nota sobre o platonismo * Definição geral possível * Graus de platonismo e filosofia * Situação em relação à Crítica da razão prática * Kant e o problema do sentimento * No plano do conhecimento * No plano da prática * No plano estético * Kant e o problema da finalidade * Teleologia e sentimento * Relações da teleologia com o sentimento em geral * A finalidade * A contingência * Relações da teleologia com os sentimentos de prazer e desprazer (Lust und Unlust) * Rumo a uma crítica do juízo * A evolução da noção de juízo * A Crítica da faculdade de julgar * As divisões da Crítica da faculdade de julgar * Primeira parte: «Crítica da faculdade de julgar estética» * «Analítica da faculdade de julgar estética de apreciação» * Significação geral * O conceito de forma * Analítica do belo * Primeiro momento: o ponto de vista da qualidade * Segundo momento: o ponto de vista da quantidade * Terceiro momento: o ponto de vista da relação * Quarto momento: o ponto de vista da modalidade * Analítica do sublime * A dedução dos juízos estéticos puros * Observações * Arte e natureza * Arte e moralidade * «Dialética da faculdade de julgar estética»: §§ 55, 56 e 57 * Segunda parte: «Crítica da faculdade de julgar teleológica» * «Analítica da faculdade de julgar teleológica» * A finalidade objetiva formal * A finalidade objetiva material * Complemento sobre a ideia de finalidade formal: § 62 * «Dialética da faculdade de julgar teleológica» * Relação de Kant com a filosofia biológica de seu tempo * Relação de Kant com a ciência biológica de seu tempo * Observações e conclusão ** Capítulo 3 — Sobre a Lógica de Hegel ** * Fenomenologia do espírito e Ciência da lógica * Verdade, substância e sujeito * O finito e o infinito * A noção de Aufhebung * A Lógica de Hegel * A «Lógica do ser» * Ser * Qualidade * Quantidade * A «Lógica do ser» e a Crítica da razão pura * Axiomas da intuição e antecipações da percepção * O que é a Crítica da razão pura? * Axiomas da intuição e antecipações da percepção * A «Lógica da essência» e a Crítica da razão pura * As analogias da experiência * Os postulados do pensamento empírico em geral * A «Lógica da essência» * Reflexão * Identidade e diferença * Fundamento * A «Lógica do conceito» * Estudo do conceito «como tal» * A objetividade * A ideia ** Capítulo 4 — A filosofia de Nietzsche ** * O problema de Nietzsche * O além-do-homem * O valor * O ser e a vida * Vida e vontade de potência * O suposto «biologismo» de Nietzsche * Duas observações * O eterno retorno * A comunicação da doutrina do eterno retorno em Zaratustra * O eterno retorno e a vontade de potência * Eterno retorno, vontade de potência e além-do-homem * O pensamento de Nietzsche e a ideia de valor * Nietzsche e Descartes * Nietzsche e Platão * Conclusão ** Capítulo 5 — A ideia husserliana da fenomenologia ** * A eidética * O vivido: a consciência e aquilo de que ela é consciência * Ciências de fatos e ciências eidéticas * A intuição categorial * A consciência como fluxo e como intencionalidade * Redução fenomenológica e dúvida cartesiana * A «geometria do vivido» * Os componentes * Componentes hyléticos * Componentes noéticos * Os correlatos noemáticos * Observações * Primeira observação: o projeto de uma «egologia» pura * Nota sobre a análise husserliana do tempo nas Lições de 1905 * Segunda observação: geometria e genealogia do vivido * Terceira observação: Husserl e Heidegger ** Capítulo 6 — O que é Ser e tempo? ** ** Apêndices ** ** Apêndice 1 — Liberdade e autonomia em Kant ** ** Apêndice 2 — Extrato de um curso sobre Nietzsche ** * «Deus está morto» * O problema do conhecimento * Nietzsche e o problema social