====== Kant e a noção de Darstellung (1973) ====== JBDH2 * Distinção kantiana fundamental entre conhecimento e pensamento * Todo conhecimento é pensamento, mas nem todo pensamento é conhecimento * Pensar consiste em operações discursivas, como estabelecer relações causais ou subsumir casos particulares sob regras gerais * Tais operações, apesar de regulares, mantêm a gratuidade de um jogo submetido a regras * A filosofia pré-crítica, exemplificada por Descartes, Espinoza e Leibniz, se contentava em jogar esse jogo sem alcançar conhecimento efetivo dos objetos * A intuição como porta de entrada para o conhecimento sério * Primeira Crítica: a intuição é o meio imediato pelo qual o conhecimento se relaciona com os objetos e o fim para o qual toda pensamento tende * Definição nos Prolegômenos: intuição é uma representação que depende imediatamente da presença do seu objeto * Enquanto o pensamento permanece vazio por si só, a intuição é o encontro com a presença * Duas formas de coincidência entre intuição e objeto: a intuição criadora divina e a intuição receptiva e finita humana * A objetividade como antiphanie da presença * A intuição finita humana tem por natureza fazer face e acolher o dom da presença no vis-a-vis inevitável da objetividade * A palavra "objeto" (e mais fielmente o grego //antikeimenon//) indica essa presença que se opõe * O vis-a-vis precede e fundamenta a correlação sujeito-objeto exagerada da modernidade * O problema central da Darstellung (exhibitio) * Darstellung nomeia a apresentação intuitiva da coisa, sem a qual há pensamento, mas não conhecimento * É o problema de como um conceito puro pode se tornar concreto, intuitivo e presente * Kant traduz o termo grego //hypotyposis// (e o latim //exhibitio//) como Darstellung * O problema da "exibição" dos conceitos é o próprio problema da Crítica da Razão Pura * Divisões e modalidades da Darstellung em Kant * Primeira divisão: esquematismo (para conceitos sensíveis) e simbolização (para conceitos suprassensíveis) * Segunda divisão: construção (intuição a priori) e exemplificação (intuição empírica) * O vocabulário kantiano permanece flutuante, indicando a centralidade e dificuldade da noção * Quatro modalidades a estudar: exemplo, símbolo, construção e esquema * Primeira modalidade: O exemplo * Consiste em mostrar na experiência um objeto correspondente a um conceito dado * Serve como prova da realidade do conceito e para "aguçar o juízo" * É comparado ao "andarilho" (//Gängelwagen//) que auxilia as crianças a caminhar * No entanto, sua apresentação é fraca; exemplificar não é ainda pensar plenamente * No plano prático-moral, os exemplos são perigosos, pois requerem avaliação prévia por princípios * Segunda modalidade: O símbolo e a analogia * Pertence ao modo intuitivo de representação, mas lida com conceitos sem exemplo, os suprassensíveis * O conceito de Deus, por exemplo, é uma ideia pura que escapa radicalmente à intuição empírica * Para falar do suprassensível, Kant permite um "antropomorfismo simbólico", não dogmático * A analogia, neste contexto, não é semelhança imperfeita entre coisas, mas perfeita entre relações * Exemplo: representar um Estado despótico por um moinho, dada a semelhança nas relações de causalidade * A analogia simbólica preserva a pureza do conceito, respeitando a fronteira entre fenômeno e númeno * O tipo como especificação do símbolo para a ideia prática de liberdade * A ideia de liberdade, embora transcendente, é imanente e pode ser ligada ao conhecimento prático * O juízo moral usa a natureza como //tipo//: a forma universal da lei natural serve de esquema à lei moral * O tipo é uma apresentação indireta, mas mais estreitamente ligado ao que apresenta do que o símbolo * O céu estrelado é o //tipo// da lei moral, não apenas seu símbolo * Enquanto o símbolo é //relatio vaga//, o tipo é //relatio adhaerens//, mais rigoroso * A beleza como símbolo da moralidade * A terceira Crítica estabelece a beleza como símbolo da moralidade * O belo tem sentido apenas para seres finitos e sensíveis como os humanos * A relação aqui é simbólica, não tipológica, portanto menos rigorosa * A beleia simboliza a moralidade não por semelhança, mas por uma perfeita identidade de relações internas * A aprovação desinteressada e universal do belo reflete, no sensível, o jogo das relações presentes na moralidade * Terceira modalidade: A construção de conceitos * É uma criação original de Kant, descoberta crítica entre 1755 e 1770 * //Constructio mentalis//: apresentar a priori a intuição que corresponde a um conceito * Aplica-se exclusivamente aos conceitos matemáticos, especialmente os de grandeza * Resolve o enigma da evidência geométrica: o geômetra "constrói" a figura no espaço puro da intuição * A construção não é manipulação técnica, mas produção originária da figura no espaço pela imaginação produtiva * Passagem crucial: a filosofia conhece por conceitos, a matemática conhece pela construção de conceitos * Defesa da intuição contra objeções logicistas * Objeção moderna: a matemática se abstrai da intuição, operando por axiomatização e formalização * Resposta: mesmo as geometrias "profundas" (grupos de transformação) pressupõem uma concretude intuitiva * A intuição, para Kant, é o acesso a uma "realidade mais sutil" que dá vida aos entes matemáticos * A axiomatização é a aparência exterior de uma revelação mais essencial, de fundo intuitivo * Quarta modalidade: O esquematismo dos conceitos puros * Elaboração posterior à //Dissertação// de 1770, centro da Analítica Transcendental * Enquanto a construção era produção de figuras no espaço, o esquematismo é produção no tempo * A imaginação produtiva é o poder comum a ambos, mediadora entre sensibilidade e entendimento * Esquematizar é tornar intuitivo um conceito através de uma determinação temporal a priori * Exemplo: o esquema da substância é a permanência no tempo; o da causalidade, a sucessão regular * A imaginação como raiz comum e seu destino nas edições da Crítica * Na primeira edição, a imaginação produtiva aparece como termo último da análise do entendimento * A unidade da apercepção se relaciona com a síntese da imaginação, e esta constitui o entendimento * Na segunda edição, há um deslocamento: a unidade da apercepção é o ponto mais alto * A imaginação é rebaixada a uma "função do entendimento", um mero intermediário * Heidegger vê aqui um recuo de Kant, para salvaguardar a supremacia da razão, abafando a radicalidade da imaginação * A finitude como chave de interpretação * Heidegger privilegia a primeira edição por nela ver expressa a finitude radical do conhecimento humano * A imaginação, como raiz comum de sensibilidade e entendimento, é o coração dessa finitude * A finitude não é mera limitação (//Schranke//), mas um limite positivo (//Grenze//) que abre um horizonte * Este limite positivo é a objetividade: o ente nos aparece como objeto que se opõe (//Gegenstand//) * A receptividade humana não é passividade, mas acolhimento ativo do que se apresenta adversativamente * Consequências para a noção de coisa em si e para a diferença entre conhecimento humano e divino * Diferença entre coisa em si e fenômeno não é objetiva, mas subjetiva: é uma diferença de //relação// * O fenômeno não é véu; é a maneira como a coisa se dá a uma intuição finita e receptiva * Para uma intuição originária (divina), as coisas não seriam objetos, mas produtos * Conhecimento divino e humano não diferem em grau, mas em espécie: um é produtivo, o outro receptivo * Deus é tão ignorante do fenômeno quanto nós da coisa em si * O esquema como pura auto-apresentação (//das reine Bild//) * Para Platão, a ideia (//eidos//) é //aschematistos// (não figurativa); o esquema é seu obscurecimento * Para Kant, o esquema é //das reine Bild//, a apresentação originária do conceito, sua ipsidade sensível * O esquematismo inscreve o conceito a priori no fenômeno, onde o ser das coisas se anuncia * Esta epifania da presença é o que maravilhou os gregos e é reaberta por Kant para o homem moderno * Conclusão: O lugar do homem e a fonte da filosofia * A finitude humana, descoberta por Kant, faz do homem um "rei da finitude" * A //Darstellung//, em suas múltiplas formas, é o operador dessa finitude no pensamento * O relacionamento de Hölderlin com Kant é um retorno "até a fonte" desta descoberta * A filosofia não é teologia especulativa, mas o pensamento do filho da terra, do ser finito que, em seu limite, encontra a presença do que é * A primeira Crítica oferece uma nova interpretação do homem como espírito finito em relação a coisas finitas, cuja essência é se deixar dar o que já está aí