====== Heráclito e Parmênides (1973) ====== JBDH1 * Heráclito e Parmênides são figuras centrais e fundadoras do pensamento ocidental * Apesar de não pensarmos neles explicitamente, nossa maneira de pensar remonta ao seu legado * Eles revelam inicialmente a profundidade enigmática do mundo a que pertencemos * A natureza dos testemunhos de ambos os pensadores é distinta * De Heráclito restam fragmentos, aforismos arrancados de uma obra perdida * Seu estilo fragmentário e aforístico lhe valeu desde a Antiguidade o epíteto de "Obscuro" * Os fragmentos são como relâmpagos que nos chegam de um tempo distante * De Parmênides restam fragmentos de um Poema estruturado, uma ruína coerente * Os antigos não o consideravam enigmático, pois ele se explicava cuidadosamente * A tradição filosófica, desde Platão, opõe Heráclito e Parmênides de forma simplista * Heráclito seria o filósofo do movimento universal (panta rei) * Parmênides seria o filósofo da imobilidade radical do ser * Essa leitura reduz o início da filosofia a um confronto de proposições contraditórias * A interpretação de Heráclito como "mobilista" é uma deturpação da tradição * A famosa frase "panta rei" (tudo flui) não está entre seus fragmentos mais autênticos * Heráclito usa a imagem do rio, mas opõe ao fluxo das águas a permanência do rio * Mais radical que o movimento é a permanência das medidas que o regem * O pensamento de Heráclito centra-se na unidade originária dos contrários * A permanência não é um refúgio, mas a tensão que mantém os opostos unidos * O Deus heraclitiano é esta unidade: dia-noite, guerra-paz, abundância-fome * Seu nome é Combate (Polemos), pai e rei de tudo, que faz aparecer os opostos * Outro nome é Harmonia (harmonie), entendida como a justa junção das forças opostas * Um terceiro nome é Aion (Tempo), uma criança que joga, deslocando as peças * A interpretação correta de "panta rei" deve considerar o movimento de fluxo e refluxo * Não se trata de um simples escoamento, mas de um movimento contrastado * É o movimento da luta, que apropria cada lado à oposição do lado que lhe faz face * O Logos compõe a oposição universal, cujo recém-ajuntado é o combate do mundo * O fogo é o conceito central que expressa esta unidade dos contrários * O fogo não é um elemento que consome tudo, mas aquilo contra o qual tudo se troca * É o centro vivo de toda oposição, contrastando em si mesmo como luz e brasa * A physis (natureza) é uma eclosão que só brilha pelo retiro de uma ardeor secreta * A anedota do forno ("lá também os deuses estão presentes") aponta para esta presença do fogo no cotidiano * A abertura (aletheia) dos gregos está secretamente próxima da natureza contrastante do fogo * A abertura da physis só se deixa entrever escapando à vista * A inaparência é a modalidade mesma de sua manifestação * Como na verdura da primavera, é a própria natureza que se desdobra, sem nunca aparecer em primeiro plano * A recepção de Heráclito na modernidade foi revitalizada por Hölderlin, Hegel e Schelling * Eles libertaram o pensamento de Heráclito da interpretação puramente mobilista * Hölderlin viu na unidade que se diferencia a essência da beleza e a origem da filosofia * Hegel afirmou ter incorporado todas as proposições de Heráclito em sua Lógica * A dialética hegeliana e marxista ecoam o pensamento de Heráclito * Nietzsche, ao pensar o eterno retorno, também ressoa com essa origem * Este retorno grandioso à origem pode ser, paradoxalmente, seu esquecimento mais extremo * Hegel e Nietzsche acessam a abertura do mundo grego apenas dentro do horizonte de seus problemas modernos (certeza, valor) * A dimensão do pensamento de Heráclito (aletheia) não se mede por certeza ou valor * A relação poética de Hölderlin com Heráclito está mais próxima do pensamento originário que a veneração filosófica de Hegel e Nietzsche * A diferença entre Heráclito e Parmênides não pode ser reduzida à oposição entre devir e ser * Se Heráclito não é um pensador do devir, o Poema de Parmênides não é uma simples proclamação da imobilidade do ser * Concluir que o não-ser é ilusão é ignorar a letra do Poema, que evoca uma terceira via * O Poema de Parmênides distingue três vias * A via da verdade (do ser) * A via sem saída do não-ser * Uma terceira via, na qual os mortais se extraviam, bicéfalos, tomando o ser e o não-ser como iguais * Esta terceira via revela um domínio singular de ambiguidade * É o mundo onde toda presença é também sua própria ausência, um jogo de opostos * Este mundo não é uma ilusão a ser negada, mas o domínio da doxa (opinião) * A doxa em Parmênides tem um significado diferente do que terá em Platão * Não é uma potência enganosa a ser rejeitada, mas um acolhimento que se desdobra na plenitude * Ela nos situa originariamente numa abertura, mesmo que depois derive em erro * Só pode ceder à ilusão no seio de uma clareira ela mesma não ilusória * O destino da doxa é errar sem progresso, flutuando entre extremos * É um olhar ingênuo, preso a uma ótica de curto alcance, que só vê o primeiro plano * Separa presença e ausência numa oposição míope * A superação do erro ocorre quando se vê que presença e ausência pertencem uma à outra * Um fragmento central articula esta unidade secreta: ver os "ausentes-presentes" na plena vigência do ser * Desaparecer na ausência não é uma dispersão do ser, pois só nele a ausência pode ter lugar * A oposição presença-ausência é uma correlação unitiva onde estamos diante da presença-ausência * O ser é a medida imutável que permite ao ente aparecer e desaparecer * Mais originária que a presença-ausência do ente é a universalidade do ser * Os ditos "virevoltantes" da segunda parte do Poema ainda pertencem à palavra do ser * Eles nos libertam do labirinto ao nos fazer reconhecer, na ausência e na presença, o brilho único do ser * A meditação de Parmênides é uma pânica do ser que não se esgota em nenhuma presença * Distancia-se de Platão, que levará o não-ser para dentro da presença e definirá o ser pela permanência do ente * Em Parmênides, a ausência pertence inteiramente à problemática do ser; o não-ser é o interdito da abertura * Heráclito e Parmênides não são adversários, mas ouvintes de um mesmo Logos * Em Heráclito, o movimento aparece sobre um fundo de permanência * Em Parmênides, a permanência do ser é o horizonte imutável da presença-ausência, que é a essência de toda mudança * Não há imobilismo em Parmênides, nem mobilismo em Heráclito; permanência e mudança estão dos dois lados * A recepção de Parmênides permanece obstruída * Nietzsche ainda o vê como adversário da mudança e fanático de um outro mundo * Valéry, em //O Cemitério Marinho//, o evoca como sonhador da eternidade * Seu espírito persiste em se furtar, numa palavra ainda sem acesso entre nós * Heráclito e Parmênides, figuras próximas e distantes, continuam a provocar questões * Questionam pintores, poetas e filósofos * A maravilha é que poesia e pensamento podem se reencontrar nesse primeiro amanhecer * Como diz Heráclito, o oráculo de Delfos não desvela nem oculta: faz sinal