====== Filosofia Cristã (1973) ====== JBDH2 * A locução filosofia cristã é apresentada como problemática e paradoxal, pois soa tão estranha quanto a expressão ciência cristã, não por impossibilidade de cristãos fazerem ciência, mas porque a cientificidade não advém do caráter cristão e sim de um processo demonstrativo que nada admite de exterior. * A ciência é descrita como processo no qual nada deve ser omitido e ao qual nada pode advir de fora, de modo que virtudes cristãs podem acompanhar o pesquisador, sem por isso qualificarem o procedimento como cristão. * A cisão das ciências é compreendida como destino da filosofia, no duplo sentido de que as ciências provêm da filosofia e simultaneamente a deixam, o que torna enigmática a possibilidade de uma filosofia cristã anterior às ciências. * A necessidade metódica inicial é deslocada para o exame da própria locução e de suas definições, antes de decidir pela sua legitimidade. * A definição de filosofia cristã é introduzida pela tese segundo a qual é cristã toda filosofia que, distinguindo formalmente o sobrenatural e a razão, considera a revelação cristã como auxiliar indispensável da razão. * A amplitude da noção de auxiliar torna a definição excessivamente inclusiva, pois permite qualificar como cristãs filosofias que apenas acolhem conteúdos religiosos como recursos conceituais. * A consequência é a proliferação de filosofias cristãs, ao ponto de dissolver o traço distintivo que a definição buscava fixar. * O exemplo de Kant é mobilizado para mostrar que, sob tal definição, uma filosofia pode ser chamada cristã mesmo quando a razão afirma apropriar-se livremente de conceitos introduzidos pela religião. * A revelação é tomada como condição de entrada histórica de certos conceitos na filosofia moral, e a razão os ratifica como se pudesse e devesse tê-los produzido por si mesma. * O ponto decisivo é que a autonomia moral se torna filosoficamente pensável mediante o auxílio da linguagem e das figuras cristãs, o que satisfaz o critério do auxiliar indispensável. * A conclusão é que a questão não é se há filosofia cristã, mas que, sob tal critério, quase toda filosofia pós-cristã o seria, inclusive aquelas que pretendem opor-se ao cristianismo. * Nietzsche é incluído nesse campo por meio da tese de que certas inteligibilidades históricas e “faustianas” da modernidade só se tornam pensáveis a partir de um motivo bíblico, traduzido como mandato de submissão da terra. * A revelação funciona novamente como auxiliar de inteligibilidade, não como conteúdo de fé, mas como matriz de interpretação do destino histórico. * O efeito é tornar a classificação de cristão uma etiqueta histórica demasiado elástica, exigindo reexaminar a definição pelo seu ponto sensível. * O ponto sensível é localizado na noção de razão e na pressuposição de que a filosofia é uma Sache der ratio, uma questão da ratio. * A pergunta retorna sobre a própria razão: se ela se fez senhora da filosofia por si, com que direito o fez; se não, de onde recebe missão e papel. * A possibilidade alternativa é afirmada: a razão pode ser Sache der Philosophie, isto é, tornar-se ela mesma questão da filosofia, o que desloca o eixo de qualquer definição baseada apenas na confrontação entre revelação e razão. * A tarefa essencial do pensamento é formulada como atravessar o correto até buscar o verdadeiro, o que implica abandonar perspectivas imediatas e aventurar-se pelos caminhos do bosque, onde o acesso ao essencial não é garantido por trilhas diretas. * A questão do que é filosofia é retomada pelo reencontro com a origem grega, concebida como passagem de Heraclito a Platão e como nascimento do logos em sentido propriamente filosófico. * A filosofia é caracterizada como caminho em que o “chegar” excede a “comanda”, persistindo mesmo quando a organização científica da pesquisa não consegue canalizar seu curso. * A exigência de que a filosofia seja feita por todos e não por um é formulada como contraponto à especialização, sugerindo uma dimensão comunitária do exercício filosófico. * A aceleração histórica é reinterpretada como entrada da história em estagnação surpreendente, deslocando o modo de compreender o tempo do pensamento. * A diferença entre logos e ratio é apresentada como distância decisiva, e a tradução é descrita não como substituição de palavras, mas como passagem de um mundo a outro. * A tradução filosófica do grego ao latim é destacada como evento historicamente determinante, cujos efeitos ultrapassam a consciência de quem já atravessou o passo. * O exemplo da tradução de energeia por actus é indicado como conversão que fala em contrassenso do termo grego, preparando deslocamentos estruturais do pensamento ocidental. * A meditação da tradução é situada como tarefa histórica, sem reduzir-se a linguística, pois trata do encontro das línguas como portadoras da história do Ocidente. * O sentido grego de legein é explorado como unidade semântica que reúne dizer, recolher e deitar, ligando logos ao gesto de deixar comparecer o que se estende diante. * O retraimento diante do ente é descrito como recuo que não abandona, mas abre espaço para que o legomenon, o keimenon, se desdobre segundo seu modo de jazer e de se mostrar. * Esse retraimento funda uma episteme que examina o ente no seu todo enquanto to on, instituindo o manter-se diante do ente como traço do helenizein. * A metafísica é definida, nesse registro, como o retraimento propriamente grego que deixa ser o ente, recebendo dele a norma de uma representação que com ele se ajusta. * O verbo ean é apresentado como nome do deixar-ser, distinguindo-se do deixar cair e correspondendo a uma posição de acolhimento que visa salvar o ente no seu ser. * O salvar é formulado como preservação do que é por natureza mais claro do que para nós, de modo que o olhar humano, como olhos noturnos diante da luz do dia, encontra seu limite e sua orientação. * A diferença entre ente e ser aparece como enigma que estrutura a experiência, pois a metafísica grega deixa acontecer o ser em relação ao ente. * A passagem do ente ao ser é descrita como salto e não como progressão, e o ente passa a aparecer à luz do verbo ser, deslocando o nominal pelo verbal. * A modalidade do salto preserva em vista o de onde se salta, tornando o campo anterior visível de outra maneira, sob a iluminação do é, era, será e das determinações de sujeito, essência e acidente. * A metafísica grega é interpretada como aparição do verbal no nominal, isto é, como emergência do particípio, cuja intensidade é descrita como acontecimento súbito. * A distinção entre um primeiro início da metafísica como diferença ontológica e um segundo início como cisão de dois mundos é enunciada, situando Sócrates e Platão como ponto em que a separação se instaura. * A estrutura onto-teo-lógica da metafísica é apresentada como forma do segundo fôlego, no qual o ser é pensado como supremo ente ordenador, articulando princípio, distância do princípio e ordenação. * A diferença entre kosmos e taxis é mobilizada para indicar que o mundo heraclítico não é nem “em ordem” nem “em desordem” no sentido romano de ordo, pois kosmos não equivale a uma ordenação normativa. * A filosofia de Tomás de Aquino é situada como variante desse segundo fôlego, na medida em que participa da identificação do divino e do ser como traço recorrente da filosofia cristã enquanto cristã. * A crítica heideggeriana é apresentada como acusação de contradição interna na expressão filosofia cristã, pois fé cristã e filosofia seriam separadas por abismo quanto ao sentido de verdade. * O abismo é reinscrito como processo interno ao próprio destino filosófico do Ocidente, ligado ao esquecimento da diferença e à consolidação da ilusão de que o ser do ente se identifica ao ente total e culmina no supremo ente. * A dislocação platônica do mundo heraclítico em dois topoi é indicada como prelúdio da perda da diferença, tornando um mundo imagem do outro. * O movimento de reduzir ser a ente e a totalidade do ente é descrito como formação da estrutura onto-teo-lógica, onde o supremo é pensado como fundamento de unidade. * A necessidade de distinguir Aristóteles e Agostinho é explicitada pelo contraste entre identificação verbal do divino e do ser, e identificação nominal de Deus com o ser, que extingue o particípio e reorganiza o horizonte do pensar. * A noção aristotélica de akrotaton on é interpretada como genos, não como classe, e isso altera o sentido do “supremo ente” em Aristóteles. * Genos é caracterizado como máxima concreção pensável e não como abstração classificatória, de modo que physis como genos ton onton não designa conjunto de indivíduos, mas estrutura concreta do ser. * O divino é compreendido como dimensão unitária do akrotaton on, análoga ao modo como a natureza resplende no aparecer dos prados sem jamais ser “encontrada” como coisa. * O divino é interpretado como aspecto verbal em retraimento por trás dos nomes divinos, preservando a diferença entre nomeação e modo de ser. * A leitura escolástica é criticada por forçar a Escritura mediante intrusão de categorias filosóficas, de modo que a tradução da Bíblia para a língua da filosofia se torna passagem de mundo e não simples equivalência lexical. * A tradução dos Setenta é apontada como momento decisivo em que a criação é vertida em termos de poiesis, abrindo um campo onde Deus se torna sujeito de um fazer. * A doutrina de causalidade escolástica é apresentada como interpretação dessa inovação sob a forma de causa eficiente, articulada à tese do actus essendi. * O ser é interpretado como verbo ativo, e a causalidade deve enraizar-se no ser da causa, o que reorganiza o horizonte do pensar em direção a uma ontologia ativista. * A oposição entre verbal e ativo é explicitada: o ativo não é o verbal, e a leitura do ser como agir é apresentada como herança romana do grego, não como continuidade direta. * Para os gregos, o ativo é infra-causal, um modo auxiliar, e não raiz supra-causal da causalidade, de modo que a elevação do ativo a fundamento causal constitui renversamento extraordinário. * A alternativa crítica é formulada: pode-se chamar tal renversamento de progresso, ou antes de obliteração romano-bíblica da experiência grega do ser, questão que se impõe como núcleo do debate heideggeriano. * A objeção segundo a qual o tomismo resolveria a dificuldade da diferença ontológica pela analogia do ser é recusada por confundir diferenças heterogêneas. * A diferença entre Deus e os entes em Tomás é reconhecida como incommensurável, porém definida per modum excellentiae et remotionis, não como diferença ontológica no sentido grego heideggeriano. * A analogia da visão do mar e da montanha é considerada inadequada para produzir a epifania do verbal no nominal que define a diferença ontológica. * O problema é identificado como petição de princípio: supor em Tomás a própria problemática heideggeriana para, em seguida, declarar sua solução. * A filosofia medieval é interpretada como portadora de uma mutação secreta de luz e de conceitos fundamentais, de modo que não se trata de simples erro de interpretação, mas de compreensão conforme outro destino do ser. * A mudança é descrita como Wandel der Grundbegriffe, na qual o ente enquanto ens qua ens é experimentado de modo outro que em Aristóteles. * O que há de filosoficamente decisivo no medievo não é a filosofia cristã que aparece no primeiro plano, mas a mutação ligada à tradução de energeia por actus, cuja tematização ontológica é tarefa da filosofia moderna. * A modernidade é indicada como percurso que medita o ser como agir, de Leibniz a Nietzsche, culminando na vontade de potência, sem que isso faça dos escolásticos adeptos de tal culminação. * A questão de como Deus entra na filosofia é formulada como problema terminal do percurso, sugerindo que a inserção do Deus criador no horizonte filosófico pode não ser filosoficamente necessária nem benéfica. * A hipótese é insinuada de que a ontologia ativista, ao assimilar Deus à causa eficiente, pode preludiar uma rebaixamento do divino, cujo episódio terminal é o deicídio registrado por Nietzsche. * A distinção entre Deus dos filósofos e Deus da Escritura é retomada, e a possibilidade de que certas figuras de religiosidade ainda permaneçam filosoficamente capturadas é mantida em suspenso. * A saída possível é deslocada para além da reforma escolástica ou de uma mera modernização, e é sugerida como recuo da metafísica em direção a uma possibilidade de pensamento do cristianismo fora da limitação filosófica. * A poesia pensante é indicada como via que poderia preludiar tal pensamento, em vez de uma reapresentação sistemática do cristianismo como doutrina filosófica. * A necessidade de renunciar a assentar filosoficamente o cristianismo é posta como questão: a filosofia precisa de assento no cristianismo ou apenas quando não sabe mais o que é. * A proliferação contemporânea de filosofias setoriais é descrita como consagração suprema que torna tudo “filosofável”, e a filosofia cristã aparece como possibilidade ideológica entre outras, ao custo de indeterminação do que seja filosofia. * A pergunta pelo que é filosofia permanece como problema decisivo e pouco ouvido, e a filosofia é reconduzida à sua origem grega como limite e alcance do filosofar. * O filosofar é situado como errância mais que erro, e daí decorre a questão sobre a necessidade de submeter o cristianismo à limitação filosófica. * A alternativa é formulada: o cristianismo está mais em seu lugar fora da filosofia do que como ideologia concorrente, e o gesto histórico de querer-se filosofante pode ser força ou fraqueza. * A provocação final desafia a possibilidade de promover seriamente uma filosofia como cristã sem antes medir o que se entende por filosofia e o que significa o abismo entre os sentidos de verdade.