====== Kierkegaard ====== JBEH * O existencialismo apresenta-se, antes de tudo, como uma maneira de filosofar que visa expor o homem a si mesmo para que ele se reconheça autenticamente, diferenciando-se em duas raças de filósofos: aqueles que buscam a estrutura geral do todo da existência, chegando ao homem apenas como ponto de conclusão de um sistema abstrato, e aqueles que se atacam diretamente ao homem, visando o vivo de seu "existir" para arrancar uma verdade à medida da nostalgia fundamental. * Aristóteles, preocupado com o problema do Ser enquanto ser, e Pascal, em seu esforço para esclarecer o enigma da condição humana, representam bem esses dois modos de filosofar, sendo o existencialismo vinculado ao segundo modo. * A filosofia, para Jaspers, é muito diferente da ciência, não cabendo pedir-lhe a mesma satisfação da pesquisa científica; ser filósofo não é esclarecer a objetividade das coisas, mas, por um golpe de audácia, penetrar no fundamento ainda inexplorado da certeza que o homem pode ter de si mesmo. * O existencialismo é definido, de maneira geral, como toda filosofia que se ataca diretamente à existência humana para esclarecer, no vivo, o enigma que o homem é para si mesmo. * Entre os filósofos que se atacam diretamente ao homem, Kierkegaard ocupa um lugar privilegiado pela profundidade das vistas, pela justeza do ataque e pelo gênio da expressão, sendo um dos que melhor sentiram o hiato intransponível entre as certezas de um sistema e a realidade do homem. * Um sistema é apenas um meio cômodo de se safar, contendo antecipadamente todas as respostas, mas o homem, mesmo filósofo, não se safa tão facilmente, permanecendo em embaraço mesmo quando seu sistema se fechou sobre um ponto. * Os espíritos sistemáticos parecem ter dois tipos de princípios: os que preconizam para os outros e os que usam quando eles mesmos estão em embaraço, não sendo nas consolações dos princípios solenemente proclamados que eles buscam suas consolações. * A religião, quando é apenas um sistema, é tão vã quanto a filosofia, e nenhum recurso pode dispensar uma sondagem direta na existência do homem, como a que Kierkegaard realiza em ensaios como O Conceito de Angústia. * A leitura dos ensaios de Kierkegaard não pode ser anódina, pois ele excela em colocar o homem face à singularidade de sua condição, como no estudo sobre o Conceito de Angústia, que o coloca em luta com o patético violento da liberdade. * Ser homem é sentir-se, no mais profundo, trágica e subitamente em proa a uma angustiante "possibilidade de poder", com uma responsabilidade absoluta da qual ninguém pode substituir, causando um vertigem que é o naufrágio na possibilidade onde tudo é igualmente possível. * O vertigem da angústia é o instrumento único do salvação, pois permite ao homem medir-se com a verdade total de sua condição, e, na liberdade resgatada como possibilidade, ele soçobra absolutamente, mas emerge do fundo do abismo mais leve que todo o peso da vida. * O discípulo da possibilidade, mesmo no meio das planícies da Jutlândia onde nada acontece, pode viver todas as coisas com mais perfeição e profundidade do que o homem aplaudido no palco do mundo. * A influência de Kierkegaard sobre o pensamento alemão é perceptível antes do fim do século XIX, enquanto o pensamento francês só o conhecerá no entre-guerras, devido a um atraso na tradução e a um misto de preguiça e vaidade intelectual. * Os franceses, com sua suficiência intelectual, sentem desdém a priori pelas produções estrangeiras, o que faz com que ideias fundamentais como as da Crítica da Razão Pura só entrem na filosofia francesa em 1871, e Hegel comece a ser descoberto apenas recentemente. * A meditação dos filósofos alemães há mais de cinquenta anos se nutre do estudo de Kierkegaard, que era completamente desconhecido dos franceses, e hoje Jaspers e Heidegger reconhecem sua dívida para com ele. * Entre Jaspers e Heidegger, há uma diferença considerável, pois Jaspers não tem a estatura, a potência e a originalidade de Heidegger, e suas noções, como a de situação, são banalidades em comparação com a vigueur e o corte das mesmas noções em Heidegger. * Heidegger, embora se desconfie dos efeitos de patético barato e denuncie em Kierkegaard uma incerteza dos fundamentos, reconhece mais substância filosófica em seus escritos de edificação, à exceção do ensaio sobre o Conceito de Angústia. * O problema que convém à dignidade do filósofo não é o do homem, mas a retomada do problema do Ser, já posto por Platão e Aristóteles no momento de maior franqueza do pensamento filosófico, indagando o que significa a palavra ser implicada em todas as tentativas de explicação. * Retomar o problema do ser, de modo radical, é o que Heidegger se propõe, tomando partido na "gigantomaquia" já nomeada por Platão sobre o ser do ente, e, nessa tentativa, ele é levado a se interessar de modo tão particular pelo ente que é o homem que toda a parte publicada de Ser e Tempo se apresenta como uma analítica da condição humana. * Entre todos os entes, o homem ocupa uma posição privilegiada por ser o único ente para quem algo como existir pode ter um sentido, pois a existência dos entes só é acessível em um certo estado de inteligência a seu respeito, e essa inteligência do ser ([[lx>termos:s:seinsverstandnis|Seinsverständnis]]) é o próprio do homem. * Heidegger nomeia [[lx>termos:d:dasein|Dasein]] esse ente a quem a inteligência do ser é essencial, buscando captar no vivo o eclodir de um ato de presença, e o homem se faz presença humana ao fazer eclodir no mundo algo como a inteligência de existir. * A apreensão do Dasein, em seu estado nascente, é menos um dado do que a promessa de uma possibilidade, e é aí que Heidegger recolhe uma parte da herança kierkegaardiana, definindo o homem como um ser de salto e de projeto, um poder-ser. * Na tentativa de fazer luz sobre o ser, o Dasein se coloca a si mesmo em questão a cada instante, sendo definido como um ente tal que nele se joga sem cessar seu próprio ser, o que implica um risco de perdição e uma chance de salvação. * Heidegger reúne todos esses caracteres sob a designação geral de existência ([[lx>termos:e:existenz|Existenz]]), que é o próprio homem na medida em que emerge com ele da noite algo como um estado de inteligência a respeito do ser em geral, e também na medida em que a possibilidade lhe é radical e que nele se joga sem cessar seu próprio ser. * A proposição de Ser e Tempo de que a "essência" do Dasein reside em sua existência só tem sentido se o termo existência for tomado no sentido preciso que Heidegger lhe dá, e não no sentido vulgar, o que torna a fórmula de Sartre de que a existência precede a essência problemática por não distinguir esses sentidos. * A presença do homem no mundo é uma espécie de presença totalmente diferente da de uma coisa, e é sobre essa ambiguidade fundamental do termo presença que se deve insistir, pois a presença do homem no Da do Dasein não tem nada a ver com a de uma coisa ou de um quadro previamente colocado. * As observações sobre a fórmula de Sartre não visam insinuar que ele não compreendeu Heidegger, mas que sua expressão pode contribuir para agravar a confusão, e, com a anuência dos leitores, o exame do existencialismo heideggeriano será continuado para ver suas consequências éticas e políticas. * A irrupção do Dasein sob a forma de [[lx>termos:i:in-der-welt-sein|ser-no-mundo]], que é o fundamento mesmo do homem em sua humanidade, é designada por Heidegger com o velho termo "transcendência", que significa emergência e ultrapassagem, sendo da transcendência que o homem recebe sua possibilidade mais interna. * A função da transcendência é fazer eclodir na plena luz algo que, sem essa condição, permaneceria fundamentalmente em retraimento, e, para caracterizar essa eclosão, Heidegger, evitando o termo "consciência" para não ser vítima de afinidades duvidosas, utiliza o termo "[[lx>termos:e:erschlossenheit|Erschlossenheit]]" (estado de ser aberto). * A consciência, ao contrário da metáfora do encaixamento em uma esfera interior, não faz senão um com sua própria abertura ao mundo e aos outros homens, sendo, nisso, luz, e o Dasein é consciência de cabo a rabo, radicalmente, pois ele é sua própria Erschlossenheit. * A análise dessa Erschlossenheit mostra que o ser-no-mundo, longe de ter a existência fixa da coisa, é essencialmente um poder-ser, revelando-se a si mesmo no ímpeto do projeto, e esse esforço para fazer o ponto de si mesmo no eixo de sua possibilidade é denominado [[lx>termos:v:verstehen|Verstehen]] (compreender). * Além do projeto, o ser-no-mundo é caracterizado por uma certa impotência para ser apenas possibilidade, um estado de ímpeto engodado, que é atestado pelo sentimento de se encontrar ali sem ter contribuído para isso, sendo denominado "[[lx>termos:g:geworfenheit|Geworfenheit]]" (ser jogado), o que constitui a facticidade da natureza humana, que, no entanto, não prejudica a existencialidade. * O homem não nasce imediatamente na consciência autêntica de sua condição, mas começa por se perder no dédalo de seu próprio destino, sendo inicialmente determinado como queda ([[lx>termos:v:verfallen|Verfallen]]) na inautenticidade, perdido em suas tarefas e regido pela ditadura do "On" (o impessoal). * O ser-no-mundo pode ser definido como um projeto do qual se apossam um já e uma queda (ein verfallend geworfener [[lx>termos:e:entwurf|Entwurf]]), mas esses três caracteres não se encontram no mesmo plano, pois a queda não é incurável e a inautenticidade compreende em seu fundo uma autenticidade possível. * O instrumento do salvação não é primeiro a inteligência, mas o sentimento da angústia, que surge quando os pontos de apoio nos faltam subitamente, revelando a precariedade da condição originária e arrancando o homem da banalidade da vida cotidiana. * Na "noite clara" da angústia, a vida, alienada na ditadura do impessoal e desviada de seu sentido fundamental, recobra sua autenticidade perdida, e o homem deve se tornar capaz de encarar resolutamente a verdade de sua condição para ser autenticamente um homem. * A angústia não revela quais tarefas devem ser cumpridas, não fundando nenhuma ética no sentido kantiano, mas sua função é, sem mais, reconduzir energicamente o homem ao encontro de si mesmo, cabendo a ele depois definir uma motivação para se orientar no dédalo do praticamente possível. * Mesmo a virtude mais escrupulosa não é autêntica se não passou pela prova da angústia, e a consciência resoluta é uma consciência indeterminada, pois à consciência resoluta pertence necessariamente a indeterminação. * O existencialismo heideggeriano não funda nenhum imperativo, pois a revelação fundamental que faz do homem um homem esclarece menos a escolha de uma conduta definida do que o caráter singular da condição humana. * A morte não é um acidente que sobrevém do exterior, mas amadurece sempre no homem, penetrando-o de um sentido fundamental e constituindo um a priori da condição, conferindo sua portée definitiva à [[lx>termos:f:facticidade|facticidade]]: o Dasein é não apenas estar-lá-assim, mas estar-lá-assim-para-nada. * Ser resoluto é se manter bem face à situação até a morte, vivendo a cada instante o nada de sua própria morte, e essa meditação, e não por falta de caráter, pode ter levado Heidegger a aderir ao nacional-socialismo, talvez por ter acreditado encontrar no fascismo uma filosofia autêntica da resolução face à morte. * Essa "ingenuidade" não é vista como um traço de intelectual distraído, mas como um traço de inconsciência fundamentalmente pequeno-burguesa, embora o existencialismo heideggeriano possa ser também capaz de marxismo, desde que este se desfaça de uma metafísica sumária. * A existencialidade, a facticidade e a queda, reversível pela ascese da angústia, são os elementos fundamentais da condição humana como ser-no-mundo, e Heidegger encontra sua unidade na noção de "cuidado" ([[lx>termos:s:sorge|Sorge]]), que não é uma qualidade empírica, mas a expressão de uma necessidade a priori da condição humana. * O cuidado, que recria em si mesmo a cada instante a unidade fundamental da existencialidade, da facticidade e da queda, é encontrado não ao acaso, mas no eixo da analítica existencial, e a filosofia confirma as intuições da poesia, como na fábula latina onde o Cuidado é o senhor do composto, decisão de Saturno, o Tempo. * O homem, como ser-no-mundo, é fundamentalmente cuidado, seja se deixando levar pela inautenticidade, seja se salvando pela angústia lúcida diante da facticidade e da morte, e a condição a priori que torna o cuidado possível é o tempo, ou melhor, a temporalidade. * O cuidado reúne os três caracteres da existencialidade, da facticidade e da queda, que correspondem aos três momentos fundamentais do tempo: o futuro, o passado e o presente, sendo a condição para o projeto do poder-ser o ser fundamentalmente por vir; a facticidade, a condição de já estar lá; e a queda, a presença a si mesmo no mundo. * O tempo não é um meio exterior no qual o homem se insere, mas o próprio homem levado à plena elucidação de seu ser mais íntimo, e a originalidade de Heidegger está em pensar os momentos do tempo como "extases" que se desprendem ativamente uns dos outros em sentidos divergentes, no seio de uma unidade indivisível. * O tempo, como dimensão da liberdade, presuposição da facticidade decaída e condição da presença do mundo, se temporiza essencialmente a partir do futuro, pois é somente na medida em que o homem se porta à extrema ponta de seu ser pelo projeto que o tempo ganha vida. * A ideia de que o futuro é privilegiado, e não o presente como em Sartre, permite compreender a significação necessariamente histórica da temporalidade humana, pois o passado só ganha sentido para um Dasein que está fazendo seu futuro. * A história é definida como uma revelação do passado, mas essa revelação só tem sentido para um Dasein em processo de fazer seu futuro, e a retomada do passado, como herança, só se torna uma repetição autêntica quando solidária com o futuro, sendo uma réplica e uma revogação do que tende a se esclerosar. * O ser-no-mundo do existente consiste essencialmente na temporalidade, que é a própria finitude do homem, ou seja, ao mesmo tempo sua existência como poder-ser e sua impotência para ser apenas poder-ser. * O futuro constitui a parte divina de nossa natureza, enquanto o passado é a parte propriamente culpável, afetada de impotência, e o presente agrava essa culpabilidade fundamental por um elemento de queda, que não é, no entanto, irremediável, pois a angústia sempre pode nos dispensar o salvação. * O homem é sua própria finitude, e a ideia de Deus, tal como apresentada pelo dogmatismo religioso, é vista como o instrumento de uma fuga diante da angústia, uma vez que a finitude, para Heidegger, não é imposta de fora, mas é radicalmente constitutiva de seu ser. * A religião, ao explicar a finitude como dependência de um ser infinito, é um estratagema para fazer abortar a angústia em medo, desviando-a para um objeto definido, como os deuses, que são uma primeira máquina para exorcizar a angústia, seguida por uma dialética tranquilizadora que os torna favoráveis ou inofensivos. * A "compreensão" do ser pelo tempo, cujo outro nome é finitude, é o aporte fundamental da filosofia heideggeriana, que se esforça por reencontrar, no plano da fenomenologia e no eixo de uma analítica rigorosa, conceitos fundamentais como os de queda, falta e salvação. * O pensamento de Heidegger é o esforço mais autêntico do pensamento contemporâneo pela "violência" com que se emprega a arrancar a consciência do homem dos domínios sem problemas da banalidade cotidiana e a recriar nela a fonte tarjada do espanto platônico. * Heidegger tem consciência de se engajar em uma aventura de pensamento e expressão para a qual não existe ainda vocabulário ou gramática, e sua filosofia, marcada por uma audácia radical, parece ser o platonismo de nosso tempo.