===== Crítica Marxista ===== JBEH * O existencialismo, apesar do tumulto filosófico, literário e político que o cerca, é frequentemente mal definido, e sua definição deve ser buscada em seus pontos comuns: a afirmação da subjetividade como ponto de partida, a compreensão desta subjetividade como intersubjetividade e [[lx>termos:i:in-der-welt-sein|ser-no-mundo]], a liberdade como poder de escolha e engajamento, e a angústia como consciência dessa liberdade e da ausência de suportes exteriores. * A subjetividade, entendida como o cogito cartesiano ou o para-si sartriano, não restaura um sujeito isolado, mas é caracterizada fundamentalmente pelo seu ser-no-mundo, ou seja, ela só existe para si mesma em contato com uma natureza e inserida em um tecido de relações sociais, o que a torna essencialmente intersubjetividade. * A liberdade existencialista não é a necessidade compreendida de Spinoza ou Hegel, nem a liberdade irresistível do bergsonismo, mas o poder de romper uma alternativa, de escolher a si mesmo e de se engajar em uma responsabilidade que não deve nada a nada exterior, o que se manifesta no sentimento de angústia. * A história humana, para o existencialismo, é o modo essencial de manifestação da "força silenciosa do possível", ou seja, do que um homem pode, e o homem deve extrair de si a lucidez e a coragem para realizar as tarefas que faz suas, pois a história não se basta a si mesma, sendo a consciência o verdadeiro levier da história. * As críticas ao existencialismo provêm de diferentes horizontes, começando pela crítica católica, que, mais do que refutar, reivindica uma prioridade, vendo nos existencialistas, como Sartre, uma forma de "espírito luciferiano" que, no entanto, pode ser redimido, enquanto o marxismo é visto como um corpo estranho e irredutível à fé. * A crítica católica reconhece que a busca da experiência direta e o retorno à vida, presentes em pensadores como Maurice Blondel, Gabriel Marcel e Le Senne, são prenúncios do existencialismo, e que mesmo o ateísmo, quando admite um mal-estar, pode ser um criptograma do ato de fé. * Para os católicos, o existencialismo é um "espelho perigoso" no qual eles se reconhecem às escondidas, pois a angústia que o caracteriza promete uma rica colheita de fé, enquanto o marxismo é visto como uma comunhão sacrílega e uma irredutível petrificação do coração. * Outra crítica, de cunho nacionalista e política, denuncia no existencialismo uma infiltração germânica na filosofia francesa, associando-o a um irracionalismo que faria o jogo do inimigo, como no caso de Pervicax, que vê em Heidegger a metafísica mesma do nazismo, uma acusação que também é ecoada por alguns marxistas. * Pervicax, sob pseudônimo, denuncia o triunfo de um "mau germanismo" em Sartre, que seria o porta-voz de um irracionalismo oposto à clareza que seria a virtude da filosofia autenticamente francesa, e chega a assimilar o existencialismo ao nazismo, vendo em Heidegger o filósofo do pangermanismo. * Essa crítica simplista, que reduz Heidegger a um "filósofo alemão" e, portanto, a um defensor do nazismo, é rejeitada por não levar em conta a complexidade da filosofia heideggeriana, e é comparada a métodos que poderiam fazer de qualquer filósofo, como Platão, um defensor de qualquer doutrina. * A crítica racionalista, representada por Ferdinand Alquié, vê no existencialismo um Cogito sem clareza e sem esperança, um refúgio na segunda meditação de Descartes sem a saída para a terceira, ou uma consciência hegeliana que não pode se desprender do objeto, resultando numa filosofia de reconhecimento sem retorno a si mesmo. * Para Alquié, o existencialismo, ao recusar tanto a religião quanto a razão, se condena a uma libertação incompleta, que pode ser apenas um alívio provisório, em oposição à libertação autêntica, que exige um retorno completo e consciente do homem a si mesmo, no qual a razão não pode ser estranha. * A filosofia de Sartre, ao preferir o estudo da náusea ou do sadismo ao da matemática, peca por incompletude, pois não situa sua descrição em relação ao homem total, que é tanto matemático quanto sádico. * A crítica marxista, embora a mais promissora, ainda não foi feita de modo adequado, pois as acusações de "desprezo pela ciência" ou de "angústia burguesa" são insuficientes e superficiais, e o existencialismo não pode ser liquidado pelos mesmos argumentos que serviram para a moral bergsoniana. * Os ataques de Garaudy sobre o desprezo pela ciência, de Lefebvre sobre a "profundidade num copo d'água", ou de Edith Thomas sobre a angústia como mal-estar burguês, são ironias e metáforas que não atingem o cerne da questão, pois reduzem o existencialismo a uma simples impostura reacionária. * Uma crítica marxista séria deve estudar o conteúdo específico do existencialismo, pois não é a priori impossível que as contradições da época desempenhem um papel decisivo no florescimento das metafísicas da angústia, e o marxismo, que só conhece a disciplina do respeito à verdade, deve se submeter ao esforço de lucidez que uma análise aprofundada exige. {{tag>Beaufret}}