====== Energeia e Actus (1973) ====== JBDH1 * A problemática central da tradução de energeia por actus e suas consequências filosóficas * O sentido originário grego de energeia é radicalmente distinto do sentido romano de actus * A tradução latina não constitui um retorno a Aristóteles, mas um afastamento decisivo que inaugura uma nova experiência do ser * Este afastamento caracteriza a recepção medieval da filosofia grega e funda a metafísica escolástica * O conceito aristotélico de energeia como presença desabrochante e não como ação eficiente * Energeia significa o modo mais magistral do ser, entendido como vigência plena e manifestação * Trata-se de um desdobramento que, como o fogo, não age por influxo causal, mas desperta no outro uma aptidão latente para se manifestar * Este despertar possui um caráter de graça, um mover enquanto amado, e guarda algo de divino * A violência que pode acompanhar tal processo não é a da força bruta, mas a de um ajustamento necessário ao dikaiosyne * A interpretação romana do fazer e sua tradução do poiético em termos de causalidade eficiente * Os romanos pensam a partir da ação e do império, traduzindo poioun como causa eficiente * Esta interpretação perde o sentido grego de poiein como deixar aparecer, como um desvelamento que parte da physis * O artesão grego não é um agente eficiente que maltrata a matéria, mas aquele que, diante do material, descobre e libera o caminho próprio da coisa para sua forma acabada * A poiesis como paradigma do desvelamento e não como produção * O poeta, como o artesão, não faz o poema, mas mantém uma relação poética com a língua que permite ao poema vir à palavra * A poiese reúne e propicia o advento daquilo que surge, de modo semelhante ao desabrochar de uma árvore * A physis, nomeada pelos gregos, é esse surgir originário que contém em si o princípio do aparecer sob uma outra figura * A centralidade da manifestação e do limite no pensamento grego * Para os gregos, a essência das coisas é ser manifesta, aparecer em sua figura * O limite, peras, não é negação, mas a posição essencial que define e completa o ser de algo, dando-lhe sua plenitude * A questão do ser é, para Aristóteles, a questão do que dá ao ente o seu limite, delimitando-o enquanto tal * Esta experiência do limite como plenitude é o segredo da tragédia e a questão fundamental para os habitantes do país do ser * A romanização como obstrução do acesso à experiência grega originária * A tradução de energeia por actus opera a passagem de um mundo a outro, do mundo grego ao mundo romano * O pensamento romano, centrado na ação, no império e na eficiência causal, edifica uma muralha entre os gregos e nós * Esta muralha tem o nome de tradução, cujo perigo extremo é captar o sentido de um mundo para reduzi-lo à lógica de outro * A recepção medieval da filosofia grega através do filtro romano * A filosofia medieval se liga à grega através da tela romana, que lhe é invisível * Isso permite compreender a interpretação tomista do Deus bíblico como actus purus essendi * Os teólogos medievais não compreenderam mal Aristóteles, mas o compreenderam de outro modo, conforme outro destino do ser que se lhes destinava * O caráter onto-teológico da metafísica tem sua origem na experiência grega do ser, mas se desdobra de modo distinto na escolástica * A criação como conceito metafísico e a transformação de energeia em actualitas * A ideia de criação é transformada em questão metafísica pela tradução grega da Bíblia * São Tomás determina a Criação como unica actio solius Dei a partir da romanização do grego, interpretando a causalidade como eficiência * O conceito de actualitas passa a definir o ser: esse est actualitas omnis formae * Este conceito supõe uma interpretação do nada como antagonista do ser, a ser subjugado pela ação divina, distanciando-se radicalmente da estéreis grega * A diferença abissal entre a fenomenologia grega da presença e a metafísica escolástica da criação * A energeia aristotélica é a modalidade eminente pela qual o ente, como fenômeno, se manifesta à descoberto * É o nome mais próprio do ser para os gregos, purificado de toda referência à ação * A interpretação tomista do ente como actus essendi responde a uma tentativa metafísica de dizer o criado em analogia com o Criador * O projeto de São Tomás não era fenomenológico, mas de recrutar a filosofia ao serviço da fé, produzindo uma síntese teológica coerente * A romanização como fundamento do gesto metafísico moderno * A escolástica tomista é o primeiro acolhimento filosófico do traço romano no pensamento do ser * Ela abriga, de modo estático, a impressão essencial que a filosofia moderna tematizará * A filosofia moderna, de Descartes a Nietzsche, terá a tarefa de forçar e comprometer esta verdade tomista, explicitando suas evidências * A interpretação nietzschiana do ser como vontade de potência é o desfecho deste processo, pensando o actus essendi em sua radicalidade * A questão não resolvida da estrutura onto-teológica e o enigma do início * Toda metafísica parece dividida entre duas pensamentos indivisos: o do fundamento e o do ápice, do ente e do summum ens * Esta circularidade não é transparente para a própria filosofia * Talvez seja necessário um recuo para um pensamento mais matutino que a filosofia, como o de Heráclito, que nomeia o enigma do Um que não quer e quer ser chamado por nome * A filosofia talvez precise aprender a meditar essa palavra auroral que a precede e a ultrapassa