====== História ====== JBDH3 * **A filosofia de Nietzsche e a questão da "finitude" da filosofia como metafísica** * A filosofia de Nietzsche, que se representa as coisas a partir da correlação entre "vontade de potência" e "eterno retorno do mesmo", não é uma "horror" ou "quimera", mas a "última palavra" da metafísica, e Nietzsche é o "último filósofo", pois sua "inversão do platonismo" (Umkehrung des Platonismus) é o ponto final da aventura filosófica iniciada pelos gregos. * A filosofia, tal como existiu de Platão a Nietzsche, está "terminada" (zu Ende), e os "pretensos filósofos" de hoje são "inventores de pedra filosofal" que falam de ciência ou religião, enquanto os verdadeiros pensadores (como Kierkegaard, Marx e Freud) não são filósofos, mas "autores religiosos", "revolucionários" ou "benfeitores da humanidade". * A pergunta pela "essência" da filosofia e por sua "história" é a pergunta pela "diferença" ([[lx>termos:d:differenz|Differenz]]) entre ser e ente, que é "portadora" (ferens) da história da filosofia, e o "enigma" do ser é "transmitido" na "nomeação do ser" (Nennung des Seins) que ocorre com os gregos. * **A "diferença" (Differenz) entre ser e ente e o "particípio" grego** * A "diferença" (Differenz) entre ser e ente é o "abismo" ([[lx>termos:z:zwiefalt|Zwiefalt]]) que a filosofia tenta pensar, e essa diferença é "portante" (ferens), pois "porta" o "entre-dois" (dia) que separa e une o ser e o ente, e a língua grega, com seu particípio presente do verbo ser (eon), é a "língua da diferença". * O modo "participial" de nomear o ser indica que ser e ente não são dois "lados" separados, mas um "diptych" onde o "um" e o "todo" se "ajointam" (Harmonie) de maneira "inaparente" (aphanes), e essa "ajointamento" (Fug) é mais forte que o "ajointamento manifesto" (phanere). * A perda da "diferença" (Differenz) é o esquecimento do ser, que se manifesta como "indiferença" (Gleichgültigkeit) em relação ao "abismo" (Zwiefalt) entre ser e ente, e a "linguagem" do poema de Hölderlin, que fala de um "país estrangeiro", é o testemunho desse esquecimento. * **O "governo da terra" e a tarefa da humanidade moderna** * A tarefa fundamental da humanidade moderna é o "governo da terra" (Erdherrschaft), que é o verdadeiro "destino" ([[lx>termos:s:schicksal|Schicksal]]) que se anuncia por "cem signos", e a filosofia e a religião são apenas "álibis" (Alibis) para essa tarefa, que é a "dominação incondicionada do ente" (bedingungslose Herrschaft über das Seiende). * Nietzsche é o primeiro a compreender que o "governo da terra" (Erdherrschaft) é o "tema" (Thema) da história dos próximos dois séculos, e a "vontade de potência" ([[lx>termos:w:wille-zur-macht|Wille zur Macht]]) é a essência do ser que se revela nessa tarefa, que exige "novos filósofos" (neue Philosophen) que não sejam "servos" (Diener) da ciência ou da moral. * O "homem de ciência" (Wissenschaftler) é fundamentalmente diferente do "filósofo" (Philosoph), e a "verdadeira noção de filósofo" (wahre Begriff des Philosophen) não deve "perecer" (untergehen), pois o filósofo é uma "planta rara" (seltene Pflanze) que não se mede pelo "progresso" (Fortschritt) da ciência. * **A "mudança de época" e a "metamorfose" da filosofia** * A filosofia não "progride" (fortschreitet) como a ciência, pois suas "teses" não são "refutações" (Widerlegungen), mas "respostas" (Antworten) a um mesmo "apelo" ([[lx>termos:r:ruf|Ruf]]) do ser, que se manifesta em "épocas" (Epochen) diferentes, e a "metamorfose" (Wandel) da filosofia é o "ritmo" (Rhythmus) da história do ser. * As "épocas do mundo" (Weltzeitalter) são as "estações" (Jahreszeiten) da filosofia, e cada época tem seu "fundador" (Begründer): Platão no mundo grego, Agostinho no medievo, Descartes na modernidade, e a transição de uma época a outra é a passagem de um "mundo" ([[lx>termos:w:welt|Welt]]) a outro, onde o "mesmo" (das Selbe) se manifesta de maneira "dissemelhante" (unähnlich). * As "explicações" (Erklärungen) da história da filosofia que elegem um "centro" (Mitte) (como Tomás de Aquino, Descartes ou Hegel) são "simplificações" (Vereinfachungen), e a "explicação marxista" (marxistische Erklärung) que reduz a filosofia a "ideologia" (Ideologie) da "praxis" (Praxis) é uma "sofofobia" (Sophophobie) que "demistifica" (demystifiziert) a filosofia. * **A "causalidade" (Kausalität) como tema da filosofia medieval e a "criação" (Schöpfung) ex nihilo** * As "épocas do mundo" (Weltzeitalter) são determinadas pelo "modo como o ser se destina ao homem" (Weise, wie das Sein sich dem Menschen zuschickt), e na filosofia medieval, a "causalidade" (Kausalität) é a qualidade mais eminente do ser, sendo interpretada como "eficiência" (Wirksamkeit), o que culmina na ideia de Deus como "causa sui" (causa sui). * A "criação" (Schöpfung) ex nihilo, que supõe que o "nada" ([[lx>termos:n:nichts|Nichts]]) possa ser "conhecido" (erkannt) por Deus, é "estranha" (fremd) ao pensamento grego, para quem o "supremamente ente" (das Seiendste) não tem nada a "saber" (wissen) do que está "abaixo" (unter) dele, e a "escolástica" (Scholastik) se serve do pensamento grego "omitindo" (auslassend) o que tornaria a escolástica impossível. * A "causalidade" (Kausalität) como "eficiência" (Wirksamkeit) é a "apologia" (Apologie) do ser no medievo, e o "último palavra" (letztes Wort) do ser é a "atualidade" (Aktualität), que é pensada a partir da causalidade, e a "aseidade" (Aseität) é a "causalidade de si" (Kausalität seiner selbst), o que torna a "causa sui" (causa sui) o "nome mais adequado para Deus" (der angemessenste Name für Gott). * **A "verdade" ([[lx>termos:w:wahrheit|Wahrheit]]) como "certidão" ([[lx>termos:g:gewissheit|Gewissheit]]) no mundo moderno** * A "verdade" (Wahrheit) é o "lugar essencial" (wesentliche Ort) da "decisão" (Entscheidung) que distingue as "épocas do mundo" (Weltzeitalter): para os gregos, a "aletheia" (Unverborgenheit) é a "abertura" (Offenheit) do domínio onde tudo se mostra a descoberto; para o medievo, a "veritas" (Wahrheit) é a "adequação" (Adäquation) da coisa e do intelecto; para a modernidade, a "verdade" é a "certidão" (Gewissheit) do sujeito sobre si mesmo. * A "certidão" (Gewissheit) cartesiana, que substitui a "adequação" (Adäquation) como essência da verdade, é o "fundamento" ([[lx>termos:g:grund|Grund]]) dos Tempos Modernos, e ela tem seu "antecedente" (Vorgänger) na "fé" ([[lx>termos:g:glaube|Glaube]]) cristã, que é a "certidão" das "coisas não manifestas" (der nicht offenbaren Dinge). * A "evidência" (Evidenz) cartesiana não é a "luz grega" (griechisches Licht), mas a "luz" ([[lx>termos:l:licht|Licht]]) que o "eu penso" (ich denke) é para si mesmo, e a "matemática" (Mathematik) é para Descartes o "primeiro hino" (erste Hymne) que o "eu penso" canta a si mesmo, enquanto para Platão ela é a luz onde o "rosto" (Antlitz) das coisas começa a se manifestar a céu aberto. * **O "retiro" ([[lx>termos:r:ruckzug|Rückzug]]) do ser e a história como "destino" ([[lx>termos:g:geschick|Geschick]])** * O "retiro" (Rückzug) do ser, que é o "traço fundamental" (Grundzug) da história, é o "segredo mais íntimo" (innerste Geheimnis) da história ocidental, e a "diferença" (Differenz) entre ser e ente é o "retiro" (Rückzug) do ser na "manifestação" (Offenbarwerden) do ente, e a "aletheia" ([[lx>termos:u:unverborgenheit|Unverborgenheit]]) é o "não-retiro" (Unverborgenheit) que "abriga" (birgt) o retiro. * O "retiro" (Rückzug) é o "próprio" (eigen) da "eclosão" (Aufgehen) (physis), e a "história" (Geschichte) é o "destino" (Geschick) do ser, que se "destina" (zuschickt) ao homem em "épocas" (Epochen), e a "tarefa" (Aufgabe) do pensamento é "corresponder" (entsprechen) a esse destino. * A "época" (Epoche) é a "essência" ([[lx>termos:w:wesen|Wesen]]) do ser enquanto ele se "descerra" (entbirgt) no ente, e a "história" ([[lx>termos:g:geschichte|Geschichte]]) não tem "fundo" (Grund), mas é o "sem fundo" (Un-Grund) do ser, e o homem é o "destinatário" (Empfänger) do ser, não seu "predestinado" (Prädestinierter). * **A "decadência" ([[lx>termos:v:verfall|Verfall]]) e a "pobreza" (Armut) do mundo moderno** * A "decadência" (Verfall) não é um "progresso" (Fortschritt) ou uma "decadência" (Verfall) no sentido depreciativo, mas o "retiro" (Rückzug) do ser, que torna o homem "mais pobre" (ärmer) que os gregos, e a "regra de ouro do início" (goldener Blick des Anfangs) é a "aletheia" (Unverborgenheit) que "porta" (trägt) a história. * O "mundo moderno" (moderne Welt) é o "tempo de carência" (dürftige Zeit) onde o divino se retirou, e a "técnica" (Technik) é a "noite do mundo" (Nacht der Welt) que se tornou "dia" (Tag) pelo "jogo dos comutadores" (Spiel der Schalter), e o "inverno" (Winter) do ser ameaça com uma "pobreza de gelo" (Eisarmut) que é o "retiro extremo" (äußerste Rückzug) do ser. * O "olhar de ouro do início" (goldener Blick des Anfangs) e a "sombra paciência do fim" (dunkle Geduld des Endes) são a experiência de Hölderlin e de Trakl, e a "tarefa" (Aufgabe) do pensamento não é "voltar" (zurückkehren) aos gregos, mas pensar "para além" (hinaus) do que eles foram, para "tornar-se" (werden) o que se é, no "retiro" (Rückzug) do ser que é a "fonte" (Quelle) da história. {{tag>Beaufret}}