====== Esquecimento do Ser ====== JBDH4:9-11 * Gilson censura os metafísicos por terem se detido no ente sem abordar francamente o ser, mas isso não constitui falta, e sim o erro de anunciar que só no dia seguinte se falaria seriamente do ser * Heidegger jamais faz mais do que se vangloriar de superar seus predecessores substituindo por uma promessa artificiosa a negligência que lhes reprova, enquanto procede exatamente como eles * A leitura corrente pode constituir um contrassenso radical sobre o pensamento de Heidegger * A locução [[lx>termos:s:seinsvergessenheit|esquecimento do ser]] aparece pela primeira vez, vinte anos após Ser e Tempo, na Carta sobre o humanismo, onde se diz retrospectivamente que a região a partir da qual todo o livro foi pensado é a do esquecimento do ser * A expressão esquecimento do ser induz ao erro quando dissociada de Ser e Tempo, devendo ser entendida como esquecimento da verdade do ser, e não como esquecimento, por Platão, Aristóteles e são Tomás, de falar do ser * São Tomás é citado por Gilson como falando na linguagem do ente * Platão, Aristóteles, são Tomás e Leibniz nomearam o ser sem confundi-lo com o ente, ainda que uma confusão limítrofe ocorra desde Platão entre o verdadeiramente ente e o que há de mais verdadeiramente ente no ente, pensando sempre a partir de uma diferença entre ser e ente * o ente só foi dito por eles à luz de um olhar lançado de passagem sobre o ser * Esses pensadores não estiveram à altura da verdade do ser não por terem mostrado mal o ser, mas por não terem experimentado o esquecimento como traço fundamental de sua manifestação mais própria, sentido subjetivo para o qual aponta a locução esquecimento do ser * Mostrar o que é, no mais secreto de sua presença ainda inaparente, é obra do poeta, sendo somente a poesia que entrega o ente a uma eclosão até então desconhecida * Mallarmé é citado dizendo a flor como aquilo que se ergue musicalmente, ausente de todos os buquês, fora do esquecimento a que a voz relega qualquer contorno * o poema produz-se no cruzamento das dimensões do mundo, dizendo o reunir do céu e da terra, do homem como mortal e dos signos que são a palavra dos deuses * Hölderlin nomeia isso a relação inteira, com seu centro, e num só termo o sagrado * Baudelaire é citado quanto à verdade fulgurante de sua harmonia nativa que cada coisa nomeada reencontra * o termo sagrado, se ouvido não como o latim sacrum mas como eco do separado de Heráclito, remete ao relâmpago que pilota tudo até si mesmo * René Char é citado quanto ao ofício de ponta que sozinho salva a aparição * Questiona-se se a filosofia, em sua nomeação do ser, salva a aparição, ou se constitui antes um testemunho cada vez mais distante daquilo que a palavra do poeta continua a deixar-se dar a ver * Caso assim fosse, a filosofia, sinônimo de metafísica, seria o lugar mais próprio de um esquecimento por sua vez esquecido de si mesmo, distinto de simples distração ou inadvertência * A resposta de Heidegger sobre em favor de que o ser é essencialmente esquecido na história da metafísica é rigorosamente unívoca: em favor do ente, ainda que com nuances * o tender ao ente de Platão e Aristóteles é ambíguo, dizendo a um só tempo o cuidado com o ser e a preocupação com o soberanamente ente * o Poema de Parmênides já denuncia antecipadamente o que só terá lugar expressamente com Aristóteles e Platão, levando o ente ao ser até a palavra pois é ser, e denunciando como opinião a confusão entre ser e ente * a nomeação do ser por Parmênides já constitui o esboço do que Ser e Tempo caracterizava como desmundanização, empobrecimento ou retração do mundo, na medida em que as coisas já são determinadas como aquilo que parece sob o ditado da verdade, sem que um segredo mais alto da própria verdade seja ainda pressentido * Os que se atêm à opinião não pensam a coapartenência dos aspectos contrastantes daquilo que parece na unidade do ser, e os que pensam essa coapartenência, tendo deixado o caminho dos mortais, ainda a pensam na luz preexistente e fixa da verdade * Somente em Da essência da verdade, divulgado em 1930 e publicado em 1949, Heidegger medita pela primeira vez, em retorno aos gregos e para além da experiência grega, a essência velada da verdade tal como os gregos a nomearam, nomeando ao mesmo tempo o esquecimento de onde ela emerge * Nesse texto, o pensamento atinge sua mais alta concentração na primeira frase da parte VI, intitulada A não-verdade como retraimento * A tradução corrente dessa frase em Questões I, substituindo o alemão ainda não por nem mesmo, é infiel, pois Heidegger disse ainda não e não nem mesmo * A retradução propõe que o retraimento recusa à verdade a eclosão, mas sem ainda lhe deixar o campo livre, sendo ele próprio quem deixa pertencer à verdade o que lhe é mais propriamente seu * No caminho aberto por Parmênides, a verdade relaciona-se privativamente com o retraimento do esquecimento em Platão e Aristóteles, mas o ainda não remete a um pensamento anterior, o de Heráclito * Heráclito, no fragmento 123, diz que nada é mais caro à eclosão do que o retraimento, de modo que a natureza não se relaciona privativamente com o ocultar-se, mas segundo o verbo amar, num sentido possessivo * que esse possessivo tenha podido tornar-se privativo, a ponto de o prefixo inicial da palavra verdade não ser mais ouvido de outro modo, constitui uma história secreta ainda inacessível, talvez a própria história da filosofia * Em Ser e Tempo esse retraimento, também caracterizado como retração de um mundo, desmundanização, é nomeado decadência, declínio que começa já com o pensamento grego na fixação da verdade como aberto sem retraimento * O ser aparece sem nenhum retraimento a Parmênides, o que prepara a desgraça reservada por Platão aos poetas, jamais escapados do mundo, abrindo a discórdia entre poesia e filosofia atribuída por Platão aos próprios poetas * os filósofos acabarão por reservar aos poetas uma morada decente sob o nome de estética * Kant reserva à primeira parte de uma terceira Crítica o estudo do belo, fazendo escola nesse ponto * Com Heidegger tudo se inverte: a poesia não é jogo, mas abertura inicial de um mundo que a filosofia deserta, sendo substituída ao fim de uma longa história pelas ciências que dela saem * há mais seriedade no Apolo do frontão de Olímpia ou na paisagem dos telhados vermelhos de Cézanne do que no idealismo, no materialismo, no estruturalismo e na análise da linguagem * o esquecimento que projeta sombra cada vez maior sobre o mundo não é desolação pura, mas a noite sagrada saudada por Hölderlin, de modo que quem pensa o esquecimento está mais próximo dos poetas do que quem os relega à estética * cita-se a proximidade, apesar de tudo ignorada, entre o pensador que diz o ser e o poeta que nomeia o sagrado, morando em montes cujos cumes os separam * Dizer o ser não equivale, como para o metafísico, a mostrá-lo, pois o dizer só fala a partir de um não-dito que o leva à plenitude, e Heidegger descobre, maravilhado, que onde quer que o ser tenha sido levado à linguagem reina, desde a origem, o retraimento * As duas questões, a do ser e a do retraimento, não formam senão uma só, cabendo ao pensamento memorioso do ser pensá-lo de modo que o esquecimento lhe pertença essencialmente, dizer o ser sendo salvar do esquecimento esse mesmo esquecimento do ser, no sentido do genitivo subjetivo * do ser só se podem mostrar filosoficamente as figuras que ele lega ou delega de si ao se retirar, irrompendo como botões * o esquecimento, Kilimanjaro da verdade, culmina secretamente numa altitude que supera em ao menos três vezes aquela em que Nietzsche, no início de agosto de 1881, em Sils-Maria, mostrou ainda uma vez o ser na figura do eterno retorno como outra face da vontade de potência * a essa palavra de Nietzsche Heidegger responde que, no maciço do ser, o cume mais alto é o monte Esquecimento * O domínio da palavra, que é o da presença, comporta a possibilidade de dois cumes, dos quais apenas um é Esquecimento, respondendo o outro, segundo o mito grego, ao nome de Mnemósine, mãe das Musas * é preciso primeiro aprender a honrar o positivo na essência privativa da verdade, experimentando-o como traço fundamental do próprio ser, devendo abrir-se a crise em que não seja mais apenas o ente, mas o próprio ser, a tornar-se digno de questão, enquanto essa crise permanecer pendente a essência inicial da verdade repousa ainda inaparente no abrigo de sua origem {{tag>Beaufret}}