====== Declínio ====== JBDH3 * **O caminho de pensamento de Heidegger, a analogia com Cézanne e a questão do declínio** * Heidegger estabelece uma correspondência entre seu caminho de pensamento e o caminho de Cézanne, para quem "o contorno foge", sugerindo que o "germinal" pode ser mais essencial que o "florescimento" que lhe sucede, e a história da pintura seria o "radioso declínio" da pintura de Cézanne. * O "declínio" ([[lx>termos:v:verfallen|Verfallen]]) em "Sein und Zeit" (Ser e Tempo) não é uma queda de um nível mais alto, mas um movimento em direção a um nível mais baixo, onde a "impropridedade" ([[lx>termos:u:uneigentlichkeit|Uneigentlichkeit]]) tem a "propriedade" ([[lx>termos:e:eigentlichkeit|Eigentlichkeit]]) como possível fundamento. * O termo "declínio" não designa uma "secularização do pecado original", mas responde à pergunta grega sobre o "múltiplo" do ser, e a objeção de que o conceito de declínio seria uma "secularização" é rebatida com a contra-pergunta de que a "clericalização" de um pensamento mais radical é que está em jogo. * **A "physis" grega, a ciência moderna e a diferença entre "mundo da vida" e "natureza da natureza"** * O "natural da natureza" (das Natürliche der Natur) é mais antigo que a natureza concebida como objeto da ciência moderna, e reside na "physis" grega, entendida como "eclosão-e-retiro" ([[lx>termos:a:aufgehen|Aufgehen]] und [[lx>termos:v:vergehen|Vergehen]]) de tudo o que é, em sua presença e ausência. * A ciência moderna, ao explicar a natureza por meio de relações funcionais mensuráveis, perde o "natural da natureza", que é o "nascer e pôr do sol" que se dirige diretamente aos habitantes da terra, revelando o mundo na "plenitude de seu segredo". * O retorno ao "mundo da vida" ([[lx>termos:l:lebenswelt|Lebenswelt]]) em Husserl, com sua "terra" como "Ur-Arché" imóvel, visa reativar as "sedimentações" do conhecimento científico para reconciliar a ciência com a "percepção", enquanto Heidegger busca retornar aos gregos, ao "matutino" do ser. * **A especificidade da língua grega, o particípio presente e a questão da "[[lx>termos:p:physis|physis]]" como "diptych"** * A "situação linguística" do grego, ao possuir um particípio presente do verbo ser (einai) de forma "pura" (sem a raiz bhu), não é um mero "pormenor etnográfico", mas a condição de possibilidade da "metafísica do ser", pois a língua não é apenas um "sistema de signos", mas o "poema original" em que um povo se deixa ditar o que é. * O particípio presente do verbo ser, "eon", que ressoa em todos os outros particípios, nomeia o "diptych" ([[lx>termos:z:zwiefalt|Zwiefalt]]) do ser como "Um-Todo" (Hen Panta), onde a "simplicidade" do desdobramento (Un-Tout) não é redutível à relação de princípio e consequência. * A "physis" grega, que não declina, é o "indeclinável" (to me dynon pote) que se manifesta no "diptych" do dia-noite, do inverno-verão, e a linguagem, na poesia de Hölderlin, ainda ecoa essa nomeação única da "physis" como "eclosão e retiro" de tudo o que é presente e ausente. * **O "logos" da filosofia, a "dialética" hegeliana e a "finitude" da filosofia** * A "dialética" hegeliana é a "audição" do "ritmo" do ser na história, mas essa audição é já um "declínio" em relação ao "logos" mais originário da "physis", e a "dialética" é apenas um "sucedâneo" da "longa marcha" do saber, assim como a "chicória" é um sucedâneo do café. * A filosofia, ao contrário da ciência, tem um "sério" que nenhuma "rigor" científico iguala, pois suas "teses" sobre o ser (de Platão a Nietzsche) não são "opiniões privadas", mas "destinos" do próprio ser, que se diz em "sazões" ou "estações" diferentes. * A "finitude" da filosofia é anunciada por Nietzsche, cujo "retorno do platonismo" (Umkehrung des Platonismus) é o "ponto final" da aventura bimilenar, e a fenomenologia de Husserl, com sua máxima "direito à questão", anuncia um "pensamento" mais radical que a própria filosofia. * **O "declínio" ([[lx>termos:a:abfall|Abfall]]) como movimento da história do ser e a "diferença" entre início e declínio** * O "declínio" (Abfall) da filosofia, de Parmênides a Nietzsche, não é um "afundamento", mas um "privilégio" no nível das "cumes", onde cada pensador, de Aristóteles a Kant, "declina" em relação ao predecessor, mas sem que isso implique uma depreciação de suas obras. * O "declínio" é o movimento pelo qual a "verdade" do ser se "retira" enquanto se manifesta no ente, e a história da filosofia é a história desse "retiro", onde a "origem" (a "physis") nunca é totalmente perdida, mas permanece como o "não-pensado" que torna possível cada "tese" metafísica. * A pergunta pela "essência da técnica" é a pergunta pelo "declínio" da metafísica em nosso tempo, onde a "ciência" e a "técnica" são a "figura" do "retiro" do ser, e o "perigo" não é a técnica em si, mas a "insurreição" do homem que se torna "senhor e possuidor" da terra, esquecendo o ser. * **A "claridade" da "[[lx>termos:a:aletheia|aletheia]]" e a possibilidade de uma "outra aurora"** * A "aurora do ser" é a "abertura" da "clareira" ([[lx>termos:l:lichtung|Lichtung]]) na palavra de Heráclito e Parmênides, onde a "aletheia" (não-ocultamento) se manifesta como o "diptych" do ser e do ente, e a "physis" é a "eclosão" que ama o "retiro" (kryptesthai philei). * A "Europa" como "cabo da Ásia" e "cérebro do mundo" é o "país do poente", onde o "declínio" da metafísica se consuma, e a questão é se esse "poente" pode preparar a "eclosão de uma outra aurora" para o "destino do mundo", a partir do "segredo" da "aletheia" grega. * O pensamento do "declínio" não é um pessimismo ou um "retorno à terra", mas uma meditação sobre a "claridade" que só é vista "tardiamente", e a tarefa é "aprender a se espantar" com o fato de que a "verdade" do ser é, ao mesmo tempo, "aurora e declínio", "aurora e poente". {{tag>Beaufret}}