====== Evento instaurador da ciência moderna ====== JBDH3:28 O acontecimento mais extraordinário da história do pensamento é, neste caso, a prodigiosa reviravolta que, invocando Platão, institui como prólogo da ciência aquilo que, para Platão, ainda não passava, no entanto, de um grau inferior do conhecimento, a saber, a matemática — ou melhor, a matemática. A virada que se anuncia de longe se concretiza tematicamente com Galileu. Foi ele quem “quebrou o gelo”, diz Leibniz. É impossível, diz Galileu, compreender uma única palavra do que a natureza nos diz, se não entendermos a língua em que ela nos fala: ela nos fala, de fato, in lingua matematica. Galileu escreve isso em seu //Saggiatore//, de 1623, ou seja, quatorze anos antes do //Discurso sobre o Método//, que diz a mesma coisa, não mais em italiano, mas em francês. Para Aristóteles, a ciência da natureza, que é a filosofia segunda, pressupõe uma filosofia primeira. Ora, Galileu afirma da maneira mais clara possível que a filosofia primeira da física é a matemática. Para Aristóteles, a natureza fala a linguagem da ἐνέργεια, tal como ela pressupõe a duplicação hile-mórfica do εἶδος, de origem platônica. Agora, ela fala matemática. Sua doce língua nativa é, dirá Descartes, a álgebra mais do que a geometria, pois a álgebra é, em última análise, a linguagem universal da matemática. Descartes, é claro, não é tão claro assim. Há uma distância considerável entre seu projeto e a forma como ele o concretiza. No que diz respeito às realizações, ele permanece mais próximo de Bacon do que prefigura Newton e os Princípios da Filosofia; isso ainda se assemelha um pouco à Corte dos Milagres. Pascal, nesse campo como em alguns outros, é certamente mais lúcido. Mas, como dirá Valéry, foi Descartes quem “batia o tambor”. Esse tambor rufante, ao som do qual a ciência moderna não cessa de avançar, é o Discurso sobre o Método. {{tag>Beaufret}}