====== Caminho de Heidegger ====== JBDH4 * **O caminho de pensamento de Heidegger e a pergunta pelo ser** * O caminho de Heidegger é caracterizado pela pergunta pelo ser, que em 1927, com a publicação de "Sein und Zeit" (Ser e Tempo), era um título proscrito na filosofia, pois o ser era considerado um "verbo nulo e misterioso". * A proveniência teológica de Heidegger é apontada como fundamental para seu caminho de pensamento, uma vez que a teologia, através do tomismo, era o "conservatório do ser", ainda que a escolástica fosse apenas um eco da filosofia grega. * A filosofia grega é identificada como a descoberta da pergunta pelo ser, e não como um "verbo nulo", mas como a nomeação do essencial, ecoando Nietzsche, para quem os gregos foram os "doadores de nomes" iniciais. * A pergunta pelo ser é apresentada como central, e sua falta implicaria na própria ausência da linguagem, pois o ser é a palavra fundamental que sustenta a língua. * **A pergunta pelo tempo como questão central e a crítica à metafísica** * A primeira pergunta dirigida a Heidegger indaga como a crítica à metafísica torna o tempo, em sua relação com o ser, uma questão central. * A resposta indica que "Sein und Zeit" (Ser e Tempo) é a primeira crítica à metafísica desde sua origem grega, sendo uma obra de ruptura que questiona a tese metafísica sobre o ser, como a de Kant, que o define como "posição". * A questão central para Heidegger é a unidade do "múltiplo" do ser, retomando a enigmática frase de Aristóteles: "O ente em seu ser se diz de múltiplas maneiras". * A investigação de Heidegger sobre a palavra grega para ser, "[[lx>termos:o:ousia|ousia]]" (que também significa "bem de um camponês"), o leva ao alemão "[[lx>termos:a:anwesen|Anwesen]]" e "[[lx>termos:a:anwesenheit|Anwesenheit]]", que remetem à "pura brilhância da presença" e, portanto, ao presente como dimensão temporal. * O título "Sein und Zeit" (Ser e Tempo) surge da compreensão de que o ser se anuncia em um presente, revelando uma "temporalidade" secreta, e que a pergunta pelo ser abriga a pergunta fundamental pelo tempo. * O caminho de Heidegger o leva a compreender que o tempo como "horizonte do ser" não é a sucessão de instantes de Aristóteles, mas um presente ek-stático que reúne passado e futuro de maneira não sucessiva, superando tanto o historicismo quanto a noção de eternidade. * A obra "Sein und Zeit" (Ser e Tempo) propõe uma revolução ao recusar tanto o "ponto de vista histórico" quanto o recurso ao eterno, convidando a pensar o "hoje" em sua plenitude, e convida a recuar da metafísica para a pergunta pelo "sentido do ser". * **A interrupção da segunda parte de "Sein und Zeit" e a viragem para o esquecimento do ser** * A segunda pergunta indaga por que Heidegger não publicou a segunda parte de "Sein und Zeit" (Ser e Tempo), como havia anunciado. * A resposta esclarece que a suposição de "Sein und Zeit" era o "esquecimento metafísico do sentido do ser", mas que, após a obra, a perspectiva muda: o esquecimento não é mais uma "inadvertência" nossa, mas um evento do próprio ser, tornando-se o "esquecimento do ser" no sentido subjetivo. * O "momento da viragem" é identificado com a conferência de 1930, "Da essência da verdade", que, embora retome a conquista de "Sein und Zeit", não a desenvolve intencionalmente, indicando uma mudança de rumo. * A noção de "Temporalität des Seins" (Temporalidade do Ser) já presente em "Sein und Zeit", passa a significar que "o ser se retira enquanto se descerra no ente", e o tempo é a "clareira do ser" como o local de seu próprio retiro. * Esse retiro do ser torna-se o traço fundamental da história, compreendida como "[[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]]" (Acontecimento Apropriador), um termo que ressoa com o que nos concerne e nos deixa "estupefatos". * O caminho após "Sein und Zeit" não é uma continuação, mas uma retomada mais questionadora da questão, uma "topologia do ser", cujo início foi em 1927, guiada pela dificuldade de apreender o "lugar" (topos), como já apontava Aristóteles. * **A relação entre poesia e pensamento e a correspondência original** * Uma terceira etapa no caminho de Heidegger se anuncia em 1935, com o curso "Introdução à metafísica", que recupera o movimento de "Sein und Zeit" (Ser e Tempo) e traz a descoberta de uma correspondência original entre arte/poesia e pensamento. * A arte, cujo nome próprio para Heidegger é "poesia", é tão rigorosa quanto o pensamento mais atento, e ambos compartilham o mesmo nível de rigor, sendo a poesia uma das "cumes da palavra" e o pensamento a outra. * A filosofia, para Heidegger, nasceu do apelo do ser, e não da ciência ou da religião, e se identifica com o destino do ser, sendo a tarefa do pensador "dizer o ser" e do poeta "nomear o sagrado". * A distinção entre a palavra do pensador e a do poeta é formulada como: "O pensador diz o ser. O poeta nomeia o sagrado", sendo que "sagrado" é entendido não no sentido romano, mas como o "exceptuado" de Heráclito, que aponta para o "relâmpago". * A questão da relação entre a "abertura" (das [[lx>termos:o:offene|Offene]]) nomeada por Hölderlin e a "[[lx>termos:a:aletheia|alétheia]]" (verdade como não-ocultamento) grega é colocada, indagando se a interpretação filosófica introduz um "corpo estranho" na poesia ou se a pensamento vai ao encontro da poesia. * A "abertura" de Rilke é considerada estranha à "alétheia" grega, enquanto Hölderlin é visto como um precursor que, através de um "retorno a montante", abre-se ao futuro, permanecendo mais originalmente presente ao passado. * **A questão da técnica e sua essência não técnica** * Uma quarta etapa no caminho de Heidegger, a partir de 1953 com a conferência "A questão da técnica", tenta evocar o "tempo de indigência" (dürftige Zeit) e convida a pensar a essência ainda não pensada da técnica. * A técnica moderna não é apenas um meio para fins, como se costuma afirmar, e a compreensão instrumental da técnica é insuficiente para captar sua essência. * A técnica moderna não se reduz a uma aplicação da ciência, mas é a própria essência (ou "espírito") da técnica que torna possível o advento da ciência moderna, sendo o projeto matemático da natureza, de Galileu e Descartes, mais "técnico" do que as máquinas. * Heidegger retoma o sentido grego de "[[lx>termos:t:techne|techné]]" como um conceito de saber, não de prática, e privilegia esse sentido platônico sobre a interpretação instrumental, pois a "techné" é uma das maneiras pelas quais a "psyché" (alma) se mantém na "abertura do não-retraimento" (alétheia). * A "psyché" é compreendida como o "ser-aí" ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]]), que não é um eu interior, mas um estar fora, no mundo, ecoando o chamado poético de Hölderlin: "Vem! Para o Aberto, amigo!". * A técnica moderna é vista como um perigo, pois ameaça o ser pelo ente, transformando tudo em "material de exploração" para a dominação humana, e o pior perigo é que nenhuma manobra técnica pode desviar esse perigo, pois ele provém da própria essência da técnica. * **A relação com a técnica, a linguagem e a atitude de serenidade** * A relação mais livre com a técnica, proposta por Heidegger, é uma "espera" (attente), não uma esperança ou uma programação, e consiste em um "caminho para a palavra" (Unterwegs zur Sprache). * A "serenidade" ([[lx>termos:g:gelassenheit|Gelassenheit]]) ou "desenvoltura" é a atitude de "deixar-ser", um silêncio atento que não é nem esperança nem medo, mas uma abertura para o possível mais essencial, para aquilo que a filosofia, ao se tornar metafísica, saltou por cima. * O perigo da técnica, como "ameaça do ser pelo ente", é levado ao extremo quando o homem se torna uma peça no sistema totalitário e normalizado, e Heidegger busca pensar esse perigo em sua profundidade, não como uma aberração. * A tarefa do pensamento seria encontrar, no eco do mundo grego, um caminho que conduza da insistência do ente até a "maravilhosa leveza do ser", como expresso na frase de Aristóteles: "o ser, por si mesmo, é um nada". * A conferência "Que é metafísica?" (1929) é mencionada por sua conclusão, que fala em abrir espaço para o ente, libertar-se para o nada e fazer da pergunta fundamental da metafísica a conquista do próprio nada: "Por que, afinal, há ente e não antes nada?". * O caminho de pensamento de Heidegger encontra seu termo na figura do poeta, com quem dialogou, como René Char, e sua trajetória é marcada por encontros e passagens, como a cidade de Lyon, que se tornou uma etapa em seu caminho quase sem exterior no mundo. {{tag>Beaufret}}