====== Epoche da Morte ====== //BARBARAS, Renaud. Introducción a una fenomenología de la vida: intencionalidad y deseo. Madrid: Ediciones Encuentro, S.A., 2013// ** Vida e existência ** * A reflexão sobre o a priori da correlação conduz à vida como sentido originário do ser do sujeito, pois este pertence ao mundo e simultaneamente o faz aparecer, ultrapassando as divisões entre ser vivo e vivência, [[lx>termos:l:leben|Leben]] e [[lx>termos:e:erleben|Erleben]], vida e consciência. * A consciência não constitui uma faculdade acrescentada posteriormente à vida, mas o próprio dinamismo vital enquanto abertura intencional à exterioridade. * A consciência deve ser mergulhada na vida como conhecimento vivo, em vez de a vida ser dissolvida em uma consciência separada. * A capacidade de certos viventes tornarem-se conscientes somente pode ser compreendida se a relação significativa com a alteridade já estiver antecipada na própria vida. * A vitalidade constitui integralmente experiência e prova da alteridade, de modo que a razão da consciência deve ser procurada no viver. * A neutralidade originária do viver permite redefinir tanto a consciência quanto a vida, situando a primeira no âmbito da ação, da despossessão e da carência, e compreendendo a segunda como abertura ao outro, visão e acolhimento, em vez de mero dinamismo de conservação e reprodução. * A consciência premeditada na vida deixa de ser contemplação plena e representação apropriadora para tornar-se atividade transitiva e abertura. * A vida capaz de consciência não pode ser reduzida à luta pela autoconservação, pois sua essência inclui receptividade e relação com o que não é ela. * A separação radical entre humanidade e vida resulta de conceber a vida como atividade cega e intransitiva e a consciência como excesso pertencente a outra ordem. * O humanismo compreende a especificidade humana por uma relação constitutiva com Deus, o inteligível, a razão ou o mundo, mas nega que essa transitividade possa proceder da própria vida. * A fenomenologia da vida fundada na unidade originária do viver reconhece a pertença fundamental da humanidade à vida e a continuidade entre o homem e os demais viventes, sem reduzir a especificidade humana a uma ruptura ontológica absoluta. * As estruturas orgânicas inferiores já prefiguram o espiritual, enquanto o espírito permanece ligado ao orgânico mesmo em suas manifestações mais elevadas. * A diferença humana deve ser compreendida como diferença no interior da unidade da vida, pois a vida humana é humana precisamente por continuar sendo vida. * A dificuldade consiste em preservar a singularidade humana sem sacrificá-la à unidade do viver nem separá-la inteiramente dos demais viventes. * A conciliação entre a pertença integral da humanidade à vida e sua diferença radical exige descobrir um sentido suficientemente profundo da vida, capaz de fundamentar a possibilidade da própria diferença humana. * A humanidade não precisa ser dissolvida na vida nem elevada a uma transcendência absoluta em relação a ela. * A diferença humana não deve ser explicada começando pelos atributos que distinguiriam o homem, mas pelo sentido originário da vida que torna essa distinção possível. * A arkhé da vida contém a razão de seu telos, de modo que a possibilidade das formas mais elevadas do viver deve ser fundada em seu princípio originário. * O homem somente difere da vida ao diferir no interior dela, e o modo como difere depende do modo de ser do viver no qual essa diferença ocorre. * As fenomenologias examinadas não alcançam a unidade do viver, embora procurem respeitar a pertença mundana e a função fenomenizadora do sujeito, pois separam a existência humana da vitalidade propriamente dita e preservam a oposição entre Leben e Erleben. * A vida é afastada da existência como consciência estranha ao corpo ou como modo de ser radicalmente distinto da subsistência. * A vida animal é descrita como incapaz de abertura autêntica ao mundo e desprovida de verdadeira transitividade. * Patočka aproxima-se da unidade ao articular o estar vivo e o vivido como tendências de um movimento existencial comum, mas restabelece a divisão ao opor a conservação vital ao acesso desinteressado ao ente. * O movimento de abertura depende de uma virada não inscrita no movimento originário de pertença, razão pela qual a existência acaba transcendendo a vida. * A fenomenologia supera a oposição cartesiana entre pensamento e extensão ao descrever a relação do sujeito com o mundo como viver, mas reproduz um dualismo refinado entre existência autêntica e vida simples. * Uma compreensão restritiva da vida impede que o viver transitivo seja reconhecido como vital em sentido próprio e o reduz a uma extensão metafórica do termo. ** A ontologia da morte ** * A permanência das divisões metafísicas na fenomenologia decorre de um pressuposto ontológico secreto compartilhado por ambas, mediante o qual a vida é compreendida sob a primazia da morte, conforme a ontologia da morte identificada por Hans Jonas. * O dualismo moderno e seus posteriores desdobramentos materialistas ou idealistas enraízam-se em uma experiência da morte elevada à condição de norma ontológica. * As culturas originárias compreendiam o ser como vida universal e encontravam na morte o primeiro enigma, pois nada na experiência vital parecia tornar compreensível sua negação. * As sepulturas primitivas testemunham o nascimento da reflexão ao reconhecerem e simultaneamente negarem a morte. * A modernidade inverte essa situação, transformando o cadáver em verdade do corpo, a matéria sem vida em verdade do ente e a própria vida em problema a ser explicado. * A vida passa a ser interpretada segundo as leis da matéria inerte e aparece como artifício ou engano produzido por aquilo que não vive. * A ontologia moderna realiza uma dupla negação da vida ao eliminar todo caráter vital da natureza física, reduzindo-a à extensão, e ao concentrar a vida verdadeira em uma alma humana interior e extramundana. * O mecanicismo nega a vida ao compreender o corpo como máquina desprovida dos caracteres atestados pela experiência de estar vivo. * A tradição órfica, cristã e gnóstica contribui para essa negação ao separar radicalmente a alma humana do mundo natural. * O materialismo mecanicista e o gnosticismo compartilham a concepção do mundo como domínio da morte, diferindo apenas porque, no primeiro, a entidade espiritual desaparece e o sepulcro permanece vazio. * A vida é negada por deficiência quando o corpo é reduzido à máquina e por excesso quando a alma é identificada a uma interioridade espiritual alheia ao mundo. * A ontologia moderna reconhece a originalidade fenomênica da vida, mas lhe nega um modo de ser próprio ao reconduzi-la sempre à matéria ou ao espírito. * A fenomenologia permanece devedora da ontologia da morte porque, embora reconheça o fenômeno da vida, continua interpretando-o sob o horizonte da mortalidade e, por isso, não consegue elevá-lo ao plano integral da existência. * A vida é situada em um mundo ontologicamente inerte, estranho e hostil, no qual aparece permanentemente exposta à destruição. * Seu sentido passa a consistir na confrontação com a morte biológica, compreendida como retorno à inércia material. * A vida deixa de ser o horizonte a partir do qual a morte é compreendida como sua negação e passa a ser definida desde aquilo que não é ela. * A fórmula segundo a qual a vida é o conjunto das funções que resistem à morte exprime a determinação do viver pela possibilidade de sua negação, e não a presença de uma força vital. * O fato de a morte acontecer a todo vivente não autoriza a situá-la na essência da vida nem a compreender a vitalidade primordialmente a partir de sua mortalidade. * A morte pode constituir um arquifato irredutível à essência e ao sentido, sem por isso tornar-se núcleo constitutivo do viver. * A vida deve ser investigada a partir de seu próprio dinamismo, e não prioritariamente desde a ameaça de sua aniquilação. * Definir a vida pela exposição à morte significa atribuir-lhe como conteúdo próprio a negação de todo conteúdo. * Torna-se metodologicamente legítimo suspender a aniquilação possível para caracterizar a vida em si mesma e por si mesma. * A ontologia da morte restringe o sentido da vida à sobrevivência e à autoconservação, pois coloca o vivente em um meio ontologicamente estranho cuja alteridade somente pode aparecer como ameaça ou recurso para a satisfação das necessidades. * A relação com o outro torna-se relação consigo mediada por aquilo que deve ser apropriado, consumido ou afastado. * A constante ameaça da destruição produz um movimento incessante de conservação e reprodução centrado exclusivamente no próprio vivente. * A alteridade é negada como verdadeira relação, pois o mundo somente aparece segundo sua utilidade para a manutenção da vida. * A vida assim concebida não pode conter abertura desinteressada, manifestação das coisas por elas mesmas ou consciência do mundo. * A fenomenologia é obrigada a acrescentar à vida uma dimensão suplementar, como consciência, Sorge ou movimento de abertura, para explicar a existência humana. * A divisão entre Leben e Erleben resulta da determinação restritiva da vida imposta pela ontologia da morte. * Pensar a vida como sobrevivência torna incompreensível sua transformação em consciência, enquanto a identidade entre vida e consciência exige uma vida cuja essência não consista na exposição à negação. * A superação das divisões fenomenológicas da vida exige uma epoché da morte que suspenda a ontologia segundo a qual o ser da vida é essencialmente ameaçado e permita compreender o viver exclusivamente a partir de seu sentido próprio. * A epoché da morte não nega o fato da morte, mas o coloca entre parênteses para impedir que determine antecipadamente a essência da vida. * Assim como a epoché husserliana neutraliza a existência do mundo para recuperar seu sentido verdadeiro, a suspensão da morte deve recuperá-la como fato cuja possibilidade procede da essência da vida. * A investigação deve determinar qual movimento e qual relação com o mundo constituem a vida em si mesma. * A suspensão da ontologia da morte pode revelar um sentido do viver capaz de fundamentar a existência humana e superar a oposição entre vida simples e existência realizada, inferior e superior. {{tag>Barbaras morte}}