====== Sujeito como movimento ====== //BARBARAS, Renaud. Métaphysique du sentiment. Paris: Editions du Cerf, 2016// * A questão maior que permite trazer à luz o estatuto ontológico verdadeiro do sensível é a do sentido de ser do sujeito ao qual esse mundo sensível aparece, sujeito ao qual não basta atribuir uma sensibilidade, já que é precisamente o ser da sensibilidade que está em questão, várias considerações conduzindo a privilegiar uma concepção dinâmica do sujeito * A crítica do intuicionismo, subjacente ao subjetivismo, fornece argumentos em favor de caracterizar o ser do sujeito como movimento nos dois versantes da correlação concernidos pela intuição, tendo-se estabelecido que o conceito mesmo de vivido se funda numa identificação entre apodicticidade e adequação, de modo que a certeza de minha existência só pode repousar numa doação intuitiva de mim mesmo * Ao criticar esse pressuposto, descobre-se um sujeito certo de sua própria existência sem nunca estar presente a si mesmo, por impossibilidade de princípio, de sorte que seu modo de ser só pode ser uma existência no modo da negação de toda estabilidade e identidade, ou seja, um sujeito que existe como movimento, já que o movimento, negação concreta de toda identidade, não pode por princípio oferecer-se a um olhar nem ser dado numa intuição * Essa conclusão se confirma ao considerar o versante transcendente da correlação, tendo-se visto que o aparecer sensível é constitutivamente aparição de um mundo, sendo o sensível a modalidade própria de apresentação do mundo enquanto preserva sua profundidade e invisibilidade * Dizer que o sensível apresenta o mundo no modo da ausência equivale a reconhecer que o mundo nada mais é que o excesso sobre si ou a não-identidade a si do sensível, situação que Merleau-Ponty resumia ao afirmar que ver é sempre ver mais do que se vê * Sendo o sensível sempre mais que si mesmo, sem contornos definidos, decepciona a intuição e não pode de modo algum ser dado num ver, colocando-se então a questão do modo de ser do sujeito do sentir, sujeito que deve estar à altura desse excesso interno do sensível, dessa negação que não é o avesso de uma posição * Esse sujeito não ultrapassa o sensível rumo a um mundo positivo, o que reconduziria à intuição, mas efetua sem cessar esse ultrapassamento interno, essa abertura sem conteúdo próprias do sensível, devendo ser capaz de fazer aparecer a profundidade como tal * A profundidade só pode ser dada a um sujeito que nela avança e penetra, sendo sua doação uma abertura que só um movimento pode efetuar, de modo que só um sujeito que existe no modo do excesso sobre si está à altura desse excesso interno ao sensível pelo qual se caracterizou o mundo, não havendo mundo senão para quem nele avança, nem profundidade senão para quem nela penetra * Chegar-se-ia ao mesmo resultado considerando o que está implicado no a priori da correlação, que exige ao mesmo tempo uma diferença radical entre o polo subjetivo e o polo transcendente e uma forma de continuidade imposta pelo fato de não haver relação verdadeira sem certa comunidade ontológica entre os polos dessa relação * O sujeito deve, apesar de sua diferença, pertencer ao mundo que faz aparecer, dificuldade que se costuma resolver projetando a dualidade entre diferença e comunidade no interior do sujeito, distinguindo-o como sujeito transcendental e sujeito empírico, em vez de superá-la * O problema se precisa então em saber como o sujeito pode, sob a mesma relação, fazer aparecer o mundo e a ele pertencer, respondendo-se que a diferença que caracteriza o modo de ser do sujeito da fenomenalização, sendo radical, não pode ser uma diferença no seio do ente mas entre o ente e o não-ente * Sendo o sujeito não nada, mas antes o que há de mais concreto, sua negatividade não pode remeter a um simples nada, como ocorre em Sartre, correspondendo antes a uma negatividade concreta que não é outra senão a do movimento, único modo de existência efetiva possível para aquilo que não subsiste * É porque existe como movimento que o sujeito difere efetiva e radicalmente dos demais entes, diferindo integralmente ao efetuar sem cessar essa diferença, isto é, não sendo coisa mas fazendo-se antes não-coisa, ultrapassando-se sem cessar * Longe de ser inconciliável com o pertencimento, essa diferença não só permite a inscrição no mundo como a exige, pois não há movimento sem um solo sobre o qual se desenrola, de modo que a diferença do sujeito em relação ao mundo só pode cumprir-se sobre o solo do mundo, requerendo a negatividade dessa diferença a positividade desse mesmo solo * É assim sob o mesmo ponto de vista, o do movimento, que o sujeito pertence ao mundo e dele difere, ao fazê-lo aparecer, resolvendo-se no movimento a dualidade do pertencimento e da diferença ontológica do sujeito em unidade, sendo o corpo, no cerne do sujeito, o que permite sua inscrição no mundo, de modo que o movimento constitui o a priori do corpo, única condição de acesso possível a seu modo de ser verdadeiro {{tag>Barbaras sujeito movimento}}