====== Experiência ====== //BARBARAS, Renaud. Le tournant de l’expérience: recherches sur la philosophie de Merleau-Ponty. Paris: Vrin, 1998.// * A obra de Merleau-Ponty é inteiramente orientada pelo princípio husserliano de retorno "às coisas mesmas", o que implica uma interrogação sobre o que "há" sem pressupor um modo de existir ou um sentido prévio, e exige uma radicalidade que consiste em não tomar pela coisa mesma aquilo que se edificou sobre ela, sedimentando-se e ocultando sua origem, tarefa que a filosofia deve realizar ao neutralizar toda idealização, reconhecendo-a onde ela se faz esquecer, para reativar o contato com o Ser total antes da separação entre o pré-teorético e a idealização. * A filosofia, para Merleau-Ponty, não é uma teoria que pressupõe e sedimenta, mas um pensamento em círculo sobre si mesma que deve ser uma reativação total, um pensamento da sedimentação, um contato com o Ser total antes da separação da vida pré-teorética e da construção humana, que é a "coisa mesma" a ser alcançada. * O retorno às coisas mesmas toma a forma de um contato com o Ser antes da separação, uma inscrição no Ser total, que é o outro nome da redução fenomenológica, cujo cumprimento exige a explicitação de decisões filosóficas nem sempre tematizadas, centrais para as pesquisas aqui reunidas. * A reativação do Ser bruto exige a evidenciação da determinação última da idealização, que é a raiz do pensamento objetivo, encontrada no recurso não criticado ao princípio de razão suficiente e a uma filosofia ingênua do nada, o que permite desenhar positivamente a figura do Ser bruto, a "Carne", caracterizada por uma negatividade constitutiva e uma Distância pura. * A descrição da Carne deve, contudo, dar conta da possibilidade da idealização, do "tournant" que já se iniciou no Ser, explorando um sentido que escapa à partição do sensível e do inteligível, como interioridade recíproca ou in-diferenciação do visível e do invisível, e como lugar de uma metafóricidade fundamental. * À determinação do mundo antepredicativo, responde a exigência de interrogar o estatuto do "quem" da experiência pré-teorética, o sujeito pré-humano, o que passa por uma crítica da filosofia da consciência e pela caracterização positiva da carne que somos, cujo traço essencial é buscado no movimento vivo. * O livro desenvolve-se em duas etapas, sendo a primeira dedicada a evidenciar o papel constitutivo do diálogo de Merleau-Ponty com certos autores, como Husserl, e com a fenomenologia, incluindo uma confrontação com M. Henry para precisar a concepção merleau-pontiana da carne, e a segunda, à luz da primeira, para caracterizar os gestos constitutivos do filósofo, correspondentes à passagem da "Fenomenologia da Percepção" ao "Visível e o Invisível". * Alguns dos estudos que compõem a obra foram publicados anteriormente como artigos, sendo agora revistos e remanejados, enquanto outros são inéditos, e a lista dos títulos publicados é fornecida no texto. {{tag>Barbaras Merleau-Ponty}}