====== VONTADE (LM) ====== //ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000 / The Life of the Mind: the Groundbreaking Investigation on How We Think. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 1981 [LM]// * A análise fenomenológica da VONTADE em Heidegger, no volume I de Nietzsche, retoma a estrutura do eu desenvolvida em Ser e Tempo, substituindo o lugar do Cuidado pela VONTADE e afirmando que não é pela auto-observação que o eu se revela, mas no ato de querer e de não querer, pois “a auto-observação e o autoexame nunca trazem à luz o eu ou mostram como nós mesmos somos”, ao passo que no querer “aparecemos em uma luz que é em si iluminada por um ato de VONTADE”, já que “querer sempre significa: trazer-se a si mesmo” e “querendo, encontramo-nos com quem somos autenticamente”, de modo que “querer é essencialmente querer o próprio eu, mas não um eu dado que é aquilo que é, mas o eu que quer tornar-se aquilo que é”, sendo que “a VONTADE de fugir do próprio eu é, na verdade, um ato de não querer”. * Substituição do Cuidado pela VONTADE. * Revelação do eu no querer e no não querer. * Querer como trazer-se a si mesmo. * VONTADE de fugir como não querer. * A palavra final de Heidegger sobre a VONTADE enfatiza sua destrutividade, em contraste com Nietzsche, que ressaltava sua criatividade e superabundância, identificando na obsessão pelo futuro a fonte de uma tendência ao esquecimento e à destruição do passado, pois a impossibilidade de “querer retroativamente” gera não apenas frustração e ressentimento, mas também uma VONTADE ativa de aniquilar o que foi, sendo que, como tudo o que é real “veio a ser” e incorpora um passado, essa destrutividade dirige-se em última instância contra tudo o que é. * Destrutividade como palavra final de Heidegger. * Impossibilidade de querer retroativamente. * Ressentimento e aniquilação do passado. * Destruição voltada contra tudo o que é. * Em What is Called Thinking?, Heidegger sintetiza essa dinâmica ao afirmar que diante do “foi” a VONTADE nada pode, pois “o ‘foi’ resiste ao querer da VONTADE” e “reage e é contrário à VONTADE”, criando raízes dentro dela mesma, de modo que “a VONTADE padece de si mesma” e “do que passou, do passado”, mas como o passado origina-se do passar, “a VONTADE quer ela mesma o passar”, transformando sua reação contra o “foi-se” em “VONTADE de fazer com que tudo passe”, isto é, em “VONTADE contra tudo o que passa — tudo, isto é, tudo o que vem a ser a partir de um vir-a-ser, e que perdura”. * O “foi” como resistência à VONTADE. * Sofrimento da VONTADE diante do passado. * VONTADE de querer o passar. * Reação transformada em VONTADE contra tudo o que vem a ser. * Na interpretação radical de Nietzsche, a VONTADE revela-se essencialmente destrutiva, e é contra essa destrutividade que a reversão original de Heidegger se dirige ao identificar na tecnologia a VONTADE de querer que sujeita o mundo à dominação, cujo fim natural seria a destruição total, propondo como alternativa o “deixar-ser” entendido como atividade do pensamento que obedece ao chamado do Ser, disposição posteriormente denominada Gelassenheit, serenidade correspondente ao deixar-ser e que “nos prepara” para “um pensamento que não é uma VONTADE”, pensamento situado “além da distinção entre atividade e passividade” e além do “domínio da VONTADE”, isto é, além da categoria da causalidade derivada da experiência ilusória do ego volitivo de produzir efeitos. * Tecnologia como VONTADE de dominação. * Destruição total como fim natural. * Deixar-ser como alternativa. * Gelassenheit como serenidade. * Pensamento além da VONTADE e da causalidade. {{tag>Arendt vontade}}