====== IMAGINAÇÃO (LM:75-80) ====== //ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000 [ARENDTVE] / The Life of the Mind: the Groundbreaking Investigation on How We Think. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 1981 [LM]// Parece-me errado tentar estabelecer uma ordem hierárquica entre as atividades do espírito; mas também parece-me inegável que existe uma ordem de prioridades. Se o poder da representação e o esforço para dirigir a atenção do espírito para o que escapa da atenção da percepção sensível não se antecipassem e preparassem o espírito para julgar, seria impossível pensar como exerceríamos o querer e o julgar, isto é, como poderíamos lidar com coisas que ainda não são, ou que já não são mais. Em outras palavras, aquilo que geralmente chamamos de “pensar”, embora incapaz de mover a vontade ou de prover o juízo com regras gerais, deve preparar os particulares dados aos sentidos, de tal modo que o espírito seja capaz de lidar com eles na sua ausência; em suma, ele deve de-sensorializá-los. A melhor descrição que conheço desse processo de preparação é dada por Santo Agostinho. A percepção sensível, diz ele, “a visão, que era externa quando o sentido era formado por um corpo sensível, é seguida por uma visão similar interna”, a imagem que o representa.((The Trinity, livro XI, cap. 3. Trad, ingl.: séries Fathers of the Church, Washington, D. C., 1963, vol. 45.)) Essa imagem é então guardada na memória, pronta para se tornar uma “visão em pensamento”, no momento em que o espírito a agarra; o decisivo é que “o que fica na memória” — a mera imagem daquilo que era real — é diferente da “visão em pensamento” — o objeto deliberadamente relembrado. “O que fica na memória ... é uma coisa e ... algo diferente surge quando lembramos”,((Ibid.)) pois “o que é ocultado e mantido na memória é uma coisa, e o que é impresso por ela no pensamento daquele que relembra é outra.”((Ibid., cap. 8.)) Portanto, o objeto do pensamento é diferente da imagem, assim como a imagem é diferente do objeto sensível e visível, do qual é uma simples representação. É por causa dessa dupla transformação que o pensamento “de fato vai mais longe ainda”, para além da esfera de toda imaginação possível, “onde nossa razão proclama a infinidade numérica que nenhuma visão no pensamento de coisas corpóreas jamais alcançou”, ou “nos ensina que até mesmo os corpos mais minúsculos podem ser infinitamente divididos.”((Ibid., cap. 10.)) A imaginação, portanto, que transforma um objeto visível em uma imagem invisível, apta a ser guardada no espírito, é a condição sine qua non para fornecer ao espírito objetos-de-pensamento adequados; mas estes só passam a existir quando o espírito ativa e deliberadamente relembra, recorda e seleciona do arquivo da memória o que quer que venha a atrair o seu interesse a ponto de induzir a concentração; nessas operações, o espírito aprende a lidar com coisas ausentes e se prepara para “ir mais além”, em direção ao entendimento das coisas sempre ausentes, e que não podem ser lembradas, porque nunca estiveram presentes para a experiência sensível. ---- * A vida do espírito, embora sem som, jamais é silenciosa nem alheia a si mesma em virtude da natureza reflexiva de todas as suas atividades, de modo que todo cogitare é simultaneamente cogito me cogitare, toda volição é volo me velle e todo juízo implica um “retour secret sur moi-même”, como observou Montesquieu, sendo ilusória a concepção de uma interioridade entendida como lugar substancial à semelhança do espaço exterior, pois as faculdades só são apreensíveis enquanto exercidas e o ego pensante desaparece quando o mundo das aparências se impõe novamente. * Reflexividade: cada ato mental contém referência a si mesmo. * Montesquieu: juízo possível apenas mediante retorno secreto sobre si. * Descoberta cristã da Vontade: origem histórica da interpretação equivocada da interioridade. * Faculdades: só se tornam conscientes durante a atividade efetiva. * Ego pensante: desvanece com o retorno do mundo sensível. * As atividades mentais, não aparecentes por definição, só podem ocorrer mediante retirada deliberada do mundo enquanto presente aos sentidos, pois toda operação do espírito repousa na faculdade de tornar presente o que está ausente, denominada por Kant imaginação como “faculdade de intuição mesmo sem a presença do objeto”, abrangendo memória, vontade e a própria constituição de passado e futuro, o que exige afastamento das urgências do presente e transformação do desejo imediato em intenção projetiva, assim como suspensão da parcialidade no juízo estético, jurídico ou moral. * Retirada: não necessariamente do mundo, mas de sua presença sensível. * Imaginação: tornar presente o ausente. * Memória: conserva o que não é mais. * Vontade: antecipa o que ainda não é; converte desejo em intenção. * Juízo: exige afastamento deliberado de interesses imediatos. * Embora não se imponha hierarquia rígida entre pensar, querer e julgar, estabelece-se uma prioridade funcional do pensar como preparação indispensável para lidar com o que não é mais ou ainda não é, pois somente ao dessensibilizar os dados sensíveis e torná-los manipuláveis na ausência o espírito pode exercer volição e juízo, ainda que o pensar não forneça regras gerais nem mova diretamente a vontade. * Prioridade: poder de representação antecede vontade e juízo. * Pensar: prepara os particulares para uso na ausência. * Dessensibilização: condição para ulterior reflexão. * Autonomia relativa: pensar não determina nem vontade nem juízo. * Agostinho descreve o processo pelo qual a percepção sensível exterior é sucedida por imagem interior armazenada na memória e posteriormente transformada em “visão no pensamento”, distinguindo imagem de objeto pensado e este do objeto sensível, de modo que a dupla transformação permite ao espírito ultrapassar a imaginação e alcançar noções como a infinitude do número ou a divisibilidade infinita dos corpos, sendo a imaginação condição necessária, mas não suficiente, para a constituição de autênticos objetos de pensamento mediante lembrança ativa e seleção deliberada. * Percepção exterior: sucedida por imagem interior. * Memória: armazena imagem do que foi real. * Visão no pensamento: objeto deliberadamente recordado. * Dupla transformação: sensível → imagem → objeto pensado. * Ultrapassagem: razão alcança o infinitamente ausente. * Mesmo conceitos, ideias e categorias próprios da filosofia profissional emergem de experiências ordinárias e da “necessidade da razão” de buscar significado, análoga à necessidade de narrar acontecimentos ou compor poemas, exigindo apenas a retirada do mundo das aparências como condição essencial do pensar, pois todo pensamento é recordação posterior e implica ausência daquele sobre quem se pensa, ainda que tal afastamento possa ocorrer de modo imperceptível enquanto a presença física subsiste. * Questões metafísicas: originam-se da experiência comum. * Linguagem abstrata: deriva do uso cotidiano. * Pensar: sempre posterior, sempre recordação. * Ausência: condição para refletir sobre alguém ou algo. * Retirada: pode ocorrer mesmo com objeto ainda presente. * A busca de significado, distinta da sede de conhecimento, frequentemente foi considerada atividade antinatural por interromper o fazer cotidiano e colocar o espírito “fora de ordem”, como observou Heidegger, experiência que deu origem às teorias dos dois mundos e ao antagonismo entre ser e pensar, formulado por Valéry como “Tantôt je pense et tantôt je suis”, retomando tradição que remonta a Platão ao descrever o filósofo como alguém cuja presença corporal permanece na cidade enquanto o pensamento o retira do mundo dos vivos. * Heidegger: pensar como atividade “fora de ordem”. * Valéry: oposição entre pensar e ser. * Paralisação: excesso de consciência impede automatismos. * Platão: filósofo como alguém que parece perseguir a morte. * Dois mundos: originados na experiência genuína do ego pensante. * A tradição filosófica conservou a afinidade entre morte e filosofia, entendendo-a como preparação para morrer, desde Platão, que afirmou que o filósofo parece perseguir a morte, passando por Zeno, cujo oráculo délfico recomendou “tomar a cor dos mortos”, até Schopenhauer, que atribuiu à mortalidade a inspiração da filosofia, e ao jovem Heidegger de Sein und Zeit, que fez da antecipação da morte a via para autenticidade, repetindo em nova forma opinião difundida entre os muitos. * Romanos: filosofia como ocupação adequada aos velhos. * Gregos: filosofia como estudo para os jovens. * Zeno: conselho délfico sobre “a cor dos mortos”. * Schopenhauer: morte como gênio inspirador da filosofia. * Heidegger: antecipação da morte como acesso à autenticidade. {{tag>Arendt imaginação}}