====== CENTRALIDADE DO USO (2014) ====== //AGAMBEN, Giorgio. O uso do mundo. Tr. Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014// === 4. Relação entre Uso e Cura em Martin Heidegger === == 4.6. A Centralidade do Uso (Der Brauch) como Dimensão Ontológica em Der Spruch des Anaximander == * A aparente restituição da centralidade do uso (Der Brauch) no ensaio Der Spruch des Anaximander (1946) * A tradução do termo grego //to chreon// (aparentado a //chre// e //chresthai//) * Heidegger o traduz como Der Brauch («o uso») (geralmente traduzido como «necessidade») * A etimologia do //chreon// (Heidegger) ligada à mão e ao manusear * Inscrição do termo no contexto semântico da manejabilidade (Zuhandenheit) de Essere e tempo * A palavra //chreon// contêm //chrao// e //chraomai//, onde fala a mão (//he cheir//) * //chrao// significa: «eu trato, mantenho algo, eu o pego na mão, dou uma mão» (ich be-handle etwas, «eu trato, mantenho algo, a pego na mão, vou a ela e vou-lhe à mão» - gehe es an und gehe ihm an die Hand) * //Chrao// significa também «dar na mão, entregar» (in die Hand geben, einhändigen), «restituir a uma pertinência» * O dar na mão (Aushändigen, «entregar») que «detém na mão» (in der Hand behält) a remessa e o remetido (Heidegger 3, p. 337) * A função ontológica fundamental do uso (Der Brauch) * Nomeia a própria diferença entre ser e ente, entre presença (Anwesen) e presente (Anwesendes) * Citação: «O termo [//to chreon//] pode somente significar o essentificante na presença do presente , ou seja, a relação, que no genitivo (do) vem obscuramente à expressão. //To chreon// é, ou seja, o dar na mão da presença, o qual dar na mão entrega [aushändigt] a presença ao presente e, deste modo, detém na mão o presente como tal, ou seja, o custodia na presença» (p. 337) * O uso (Der Brauch) situado em uma dimensão ontológica, correndo entre o ser e o ente * A subtração de «uso» (Brauch) e «usar» (brauchen) da esfera da utilização * Devolução à sua originária complexidade semântica (como //chresis// e //chresthai//) * O significado habitual e derivado de «usar» (utilizar, ter necessidade) é excluído * O significado etimológico preferido: brauchen é bruchen, o latim frui (correspondente ao alemão fruchten, «frutar», e Frucht, «fruto») * Tradução livre como «degustar» (geniessen), significando «ser alegre por uma coisa e portanto tê-la em uso» * O significado fundamental de brauchen no sentido de frui em Agostinho: «O que é de fato outra coisa que dizemos frui, a não ser ter à disposição o que amas?» (Quid enim est aliud quod dicimus frui, nisi praesto habere, quod diligis?) * O frui contém ter à disposição (praesto habere), sendo praesto e praesitum o //hypokeimenon// (o que está diante de nós na inatência, a //ousia//, o que é a cada vez presente) * Citação: «“Usar” significa, portanto: deixar ser presente algo de presente como presente; frui, bruchen, brauchen, Brauch significam: entregar algo ao seu próprio ser e detê-lo na mão que o custodia como presente... O uso é pensado como o essentificante no próprio ser» (p. 338-339) * O uso (Brauch) não mais dito do comportamento humano (fruto de deus - fruitio dei - como beatitudo hominis), mas nomeia o modo pelo qual o próprio ser é como relação ao ente presente * O //to chreon// (o uso) concerne e man-tém o ente presente enquanto presente {{tag>Agamben uso}}