====== PAIXÃO, COMO POTÊNCIA PASSIVA E MÖGEN (2015:275-277) ====== //AGAMBEN, Giorgio. A potência do pensamento. Ensaios e conferências. Tr. Antônio Guerreiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2015// * Compreensão do problema exige aproximá-lo ao tema da liberdade exposto em Vom Wesen des Grundes [GA9], no qual a facticidade original ou transcendental é essencial e o existir significa, no meio do ente, ser em relação com o ente de modo que na relação emotivamente situada o que está em jogo é o poder ser do próprio Dasein * existir implica relação com o ente que não é Dasein, consigo mesmo e com semelhantes * no projeto de mundo, um excesso do possível é dado * do investimento pelo ente real e desse excesso surge o porquê (GA9:Weg., 64) * Liberdade põe o Dasein em sua essência como poder ser nas possibilidades abertas perante sua escolha finita, isto é, em seu destino (GA9:Weg., 70) * Dasein fáctico, por ter de ser suas maneiras de ser, é sempre no modo possível * há excesso de possibilidade em relação ao ente e, ao mesmo tempo, falta * ocorre inversão das possibilidades em impotência radical perante o ente ao qual o Dasein está entregue * Copertença de potência e impotência analisada no curso do semestre de verão de 1928 [GA26] antecipa temas de Vom Wesen des Grundes e afirma superioridade da categoria do possível sobre o real, com a liberdade transcendental constituindo a essência do Dasein que, por necessidade essencial, está para além de todo ente fáctico e, nesse excesso, experimenta o ente em sua resistência como aquilo diante do qual é impotente * impotência metafísica essencial não é desmentida pelo domínio técnico sobre a natureza, prova da impotência metafísica do Dasein * liberdade só é obtida em destino histórico * deixa se o ente ser porque nas relações fácticas há excesso de possibilidade * Dasein, por ser livre, deve manter se na condição da possibilidade de sua impotência, na liberdade de fundar * pergunta se ao ente por seu fundamento, interrogando o porquê, enquanto a possibilidade excede em nós a realidade e, com o Dasein, torna se existente (GA26:Met. Anf., 279-280) * Passagem sobre mögen e sua conexão com o amor na Carta sobre o humanismo deve ser lida em estreita relação com o primado da possibilidade, na qual a potentia em questão é potentia passiva, dynamis tou paschein, cuja solidariedade secreta com a potência ativa (dynamis tou poiein) é sublinhada no curso sobre a Metafísica de Aristóteles * toda potência (dynamis) é impotência (adynamia) * todo poder (dynasthai) é essencialmente passividade (dechesthai) (GA33:Ar. Met., 114) * nessa impotência ocorre um acontecimento original (Urgeschehen) que determina o ser do Dasein e abre o abismo de sua liberdade * que o Dasein seja si mesmo segundo sua possibilidade e o seja facticamente em conformidade com sua liberdade, que a transcendência se temporalize como acontecimento original, não está em poder dessa liberdade * tal impotência, o ser lançado, determina o ser do Dasein como tal, não resultando da entrada do ente nos domínios do Dasein [GA9:Weg., 70] * Paixão, como potentia passiva, é a experiência mais radical da possibilidade (mögen) em jogo no Dasein, um poder que pode não apenas a potência, as maneiras de ser facticamente possíveis, mas também e antes de tudo a impotência, coincidindo a experiência da liberdade no Dasein com a experiência da impotência * impotência situa se no mesmo plano que a facticidade original ou dispersão original [ursprüngliche Streuung] que, segundo o curso de verão de 1928, constitui a possibilidade interna da dispersão fáctica do Dasein * Paixão, como potência passiva e mögen, pode sua própria impotência, deixa ser não apenas o possível, mas também o impossível, e assim reúne o Dasein em seu fundamento para abri lo e torná lo eventualmente dono do ente nele e à sua volta, sendo a força imóvel do possível essencialmente paixão, potência passiva, com mögen (poder) significando lieben (amar) * questiona se como pode dar se uma apropriação que não se apropria de uma coisa, mas da impotência e da própria impropriedade * questiona se como é possível poder não tanto uma possibilidade e uma potência, mas antes uma impossibilidade e uma impotência * questiona se o que é uma liberdade que é antes de tudo paixão {{tag>Agamben paixões}}