===== Agamben (2015:75-78) – Stimmung E Stimme, VOCAÇÃO E VOZ ===== Procuremos agora recapitular as características dessa Stimmung, dessa abertura originária ao mundo que constitui o [[termos:d:dasein-hlex:start|Dasein]], e — se pudermos — situá-la em seu lugar. A Stimmung é o lugar da abertura originária do mundo, mas um lugar que não está em nenhum lugar, já que coincide com o lugar próprio do ser do homem, com seu Da. O homem — o Dasein — é essa sua abertura. E, no entanto, essa Stimmung, esse acordo originário e essa consonância entre Dasein e mundo, é, simultaneamente, uma dissonância e uma desafinação, um ser-desorientado e um ser-lançado. O homem é, pois, sempre antecipado por sua própria abertura ao mundo. Por que, devemos agora perguntar, a abertura da Stimmung tem esse caráter de cisão e de dissonância? O que é que nela está em jogo? De que acordes e entonações se trata, se a única “entonação” possível tem a forma de uma dissonância? Devemos refletir um momento sobre o caráter fundamental, sobre o caráter de [[termos:a:arche-hlex:start|arche]] que [[termos:s:sein:start|Sein]] und [[termos:z:zeit:start|Zeit]] atribui à Stimmung e à angústia como Stimmung fundamental. Um único estado de espírito, uma única paixão, uma única Stimmung tem na Antiguidade semelhante privilégio e semelhante caráter de princípio: o thaumazein, o espanto, que segundo uma antiquissima e constante [[termos:t:tradicao:start|tradição]] é o arche do filosofar. Registremos, em primeiro lugar, de passagem, uma diferença fundamental: a abertura original pertence, para os gregos, à esfera ótica — thaumazein é theasthai, olhar —, enquanto para Heidegger e, em geral, para nós, modernos, ela se situa na esfera acústica (Stimmung, de Stimme, voz). Essa é a dívida da modernidade para com o judaísmo, em que a revelação é sempre um fenômeno acústico. Recordemos que na Bíblia se lê: “O Eterno vos falou do fogo. Vós ouvistes uma voz de palavras, mas formas, figuras d’Ele não as vistes, exceto a voz” (Deut., 4, 12). Em que sentido devemos entender o caracter acústico da Stimmung e sua relação com o espanto e com os outros pathe da filosofia grega? O próprio Heidegger relaciona o tratamento que dá à Stimmung com a teoria dos pathe na Grécia clássica, sublinhando como a primeira elaboração sistemática sobre as emoções não foi conduzida no âmbito da psicologia, mas na Retórica de [[termos:a:aristoteles-2:start|Aristóteles]]. Ora, na Retórica de Aristóteles, a tematização das paixões é conduzida naturalmente no interior de uma teoria do discurso convincente, e portanto em estreita relação com a linguagem. Mas a intuição dessa proximidade entre paixões da alma e linguagem, entre [[termos:p:pathos-hlex:start|pathos]] e logos, caracteriza também a mais ampla reflexão que o pensamento grego pós-aristotélico dedicou ao problema: a dos estoicos. Deve-se a Crisipo a formulação radical, para nós desconcertante, à primeira vista, segundo a qual as paixões, porque mantêm uma relação essencial com o logos, podem produzir-se apenas no homem. O homem incorre nas paixões porque é um animal falante; é um animal apaixonado porque é um [[termos:a:animal-rationale:start|animal rationale]]. As paixões, segundo os estoicos, não são de fato um fenômeno natural, mas uma forma de [[termos:k:krisis-hlex:start|Krisis]], de juízo, e, por conseguinte, de discurso. Apontadas essas premissas, examinemos agora a definição que os estoicos dão da paixão: ela é pleonazousa horme e hyperteinousa ta kata ton logon metra. A tradução corrente é: “impulso excessivo, que transgride a medida da linguagem”. Horme vem de ornymi, que tem o mesmo étimo que o latino orior e origo e significa: “provenho, nasço, origino”. A definição apresenta assim uma proveniência, uma origem que excede a medida da linguagem. Os estoicos dizem que essa horme é apeithes logo, “não passível de convencer pela linguagem”, e afirmam que todo pathos é biastikon, “violento”. Mas o que é que está em questão nesse provir e nessa violência? Se recordarmos que, para os estoicos, o pathos não é um elemento natural irracional, mas está ligado ao logos, então o que exerce violência não é senão a linguagem, a origem excessiva só pode ser a da própria linguagem. Nos fragmentos dos estoicos que foram conservados, não encontramos em nenhum lugar uma afirmação tão explícita, mas ela é a única que não contradiz a premissa da teoria estoica das paixões, do “animal racional” como único “animal apaixonado”. Em todo caso, tal como a Stimmung, no próprio momento em que conduz o Dasein em sua abertura, revela-lhe que ele se encontra nela na situação de estranho, também a teoria estoica das paixões aponta para uma desconexão, um excesso que se produz na relação entre o homem e o que lhe é mais próprio, isto é, o logos, a linguagem. Podemos, neste ponto, formular a seguinte hipótese: a teoria das paixões, das Stimmungen, é desde sempre o lugar em que o homem ocidental pensa sua relação fundamental com a linguagem. Através dela, o homem ocidental — que se define a si mesmo como animal rationale, o ser vivo que é dotado de linguagem — procura captar o arthros, a articulação entre o ser vivo e a linguagem, entre [[termos:z:zoon-hlex:start|zoon]] e logos, entre natureza e cultura. Mas essa conexão é, ao mesmo [[termos:t:tempo:start|tempo]], uma desconexão, essa articulação é, na mesma medida, uma desarticulação: e as paixões, as Stimmungen, são o que se produz nessa desconexão, o que revela esse desvio. E se a voz é — segundo uma antiga tradição que define a linguagem humana como [[termos:p:phone:start|phone]] enarthros, voz articulada — o lugar em que se dá essa articulação entre o ser vivo e a linguagem, então o que está em questão na Stimmung, o que se encena nas paixões, podemos dizer que é a in-vocação da linguagem, no duplo sentido de se situar em uma voz e de chamada, de vocação histórica que a linguagem confia ao homem. O homem tem Stimmung, é apaixonado e angustiado porque se mantém, sem ter uma voz, no lugar da linguagem. Ele está na abertura do ser e da linguagem sem nenhuma voz, sem nenhuma natureza: ele é lançado e abandonado nessa abertura e deve fazer desse abandono seu mundo, e da linguagem, sua voz. Se voltarmos agora ao texto de Heidegger de onde partimos, então tanto o tema da Stimmung como o aparecimento, nos parágrafos seguintes de Sein und Zeit, de uma Voz da consciência se iluminam de uma nova maneira. A relação etimológica entre Stimmung e Stimme, vocação e voz, adquire aqui seu sentido próprio. Na abertura originária do Dasein, surge agora o apelo silencioso de uma Voz da consciência, que impõe uma compreensão mais originária dessa mesma abertura, tal como tinha sido determinada através da análise da Stimmung. Mais tarde, em [[termos:w:was:start|Was]] [[termos:i:ist:start|ist]] [[termos:m:metaphysik:start|Metaphysik]]? (GA9) e, sobretudo no posfácio acrescentado à quarta edição da conferência, a recuperação do tema da voz é agora completa. A Stimmung da angústia só é aqui compreensível em referência a uma lautlose Stimme, a uma voz sem som, que “nos põe de acordo (stimmt) no terror do abismo”. A angústia não é, pois, senão die von jene Stimme [[termos:g:gestimmt:start|gestimmt]] Stimmung, a “vocação acordada por aquela voz”. E a voz sem som é a voz do ser, que chama o homem à experiência “do espanto dos espantos: que o ente é”. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}