===== Agamben (2015:72-74) – Stimmung (TONALIDADE AFETIVA) ===== Ora, como observou uma vez um grande filólogo, a palavra alemã Stimmung é precisamente uma daquelas que é costume definir como intraduzíveis: Isso não quer dizer que frases como in guter Stimmung [[termos:s:sein:start|Sein]] não possam facilmente ser traduzidas por essere di buon umore, em italiano, ou por être en bonne humeur, em francês; e que die Stimmung in diesem Zimmer não possa ser traduzido em italiano por l’atmosfera di questa stanza; e Stimmung Hervorrufen por [[termos:c:creare:start|creare]] una atmosfera; die [[termos:s:seele:start|Seele]] [[termos:z:zu:start|zu]] [[termos:t:traurigkeit:start|Traurigkeit]] stimmen por dispone l’anima alia tristeza, etc., etc.; falta, porém, nas principais línguas europeias um termo que exprima a unidade dos sentimentos que um homem experimenta em face do que o envolve (uma paisagem, a natureza ou algo semelhante) e funde o dado objetivo com o subjetivo em uma unidade harmoniosa (...) Um italiano não pode dizer l’umore di un paesaggio nem la mia atmosfera; já, um alemão pode falar quer da “Stimmung de uma paisagem”, quer da “minha Stimmung”. Além disso, a palavra alemã faz constantemente apelo a [[termos:g:gestimmtsein:start|Gestimmtsein]], “estar de acordo”, o que, implicando certa solidariedade e certo consenso com algo mais vasto, distingue-a do simples “estado de espírito”. A palavra Stimmung, como é evidente por sua proximidade com [[termos:s:stimme:start|Stimme]], voz, pertence originalmente à esfera acústico-musical. Ela está ligada semanticamente a palavras como as latinas concentus e temperamentum e a grega [[termos:h:harmonia-hlex:start|harmonia]], e em sua origem significa entonação, acorde, harmonia. A partir desse significado musical se desenvolve, sem no entanto jamais perder completamente o contato com o sentido originário, o significado moderno de “estado de espírito”. Trata-se assim de uma palavra cujo significado se deslocou, ao longo do [[termos:t:tempo:start|tempo]], da esfera acústico-musical — a que estava ligado por sua proximidade com a voz — para a esfera psicológica. (...) No parágrafo 29 de Sein und [[termos:z:zeit:start|Zeit]] (ET29), Heidegger apresenta a Stimmung — que o tradutor italiano verte em “tonalità emotiva” — como o “modo existencial fundamental”, através do qual o [[termos:d:dasein-hlex:start|Dasein]] se abre a si mesmo. Na medida em que traz originariamente o Dasein em seu Da, o ser-aí em seu aí, a Stimmung realiza, de fato, a “revelação primária do mundo (die primäre [[termos:e:entdeckung:start|Entdeckung]] der Welt)”. O que nela está em questão diz assim respeito, em primeiro lugar, não ao plano ôntico — o que podemos conhecer e sentir no interior do mundo, os entes intramundanos —, mas ao plano ontológico — a própria abertura do mundo. (Nos termos de Wittgenstein, podemos dizer, não como o mundo é, mas que o mundo é; ou ainda: não o que se diz em proposições no interior da linguagem, mas que a linguagem seja.) Portanto, escreve Heidegger, “ela não vem de fora nem de dentro”, mas “surge no próprio ser-no-mundo”. “Estar em uma Stimmung”, acrescenta Heidegger, “não comporta nenhuma referência primária à psique: não se trata de um estado interior que se exteriorizaria misteriosamente para colorir as coisas e as pessoas”. O lugar da Stimmung — poderíamos dizer — não está na interioridade nem no mundo, mas no limite entre ambos. Por isso, o ser-aí, na medida em que é essencialmente sua própria abertura, está desde sempre em uma Stimmung, é sempre emotivamente orientado; e essa orientação é anterior a todo conhecimento consciente, tal como a toda percepção sensível, a todo [[termos:w:wissen:start|Wissen]] (saber), tal como a todo [[termos:w:wahrnehmen:start|Wahrnehmen]] (perceber). Antes de se abrir em todo saber e em toda percepção sensível, o mundo se abre ao homem em uma Stimmung. “E só porque ontologicamente próprios de um ente que tem o modo de ser do ser-no-mundo em uma situação emotiva, os “sentidos” podem ser “afetos” e “ter sensibilidade” para aquilo que se manifesta na afecção”, escreve Heidegger. Mais do que estar em um lugar, poderemos então dizer que a Stimmung é o próprio lugar da abertura do mundo, o próprio lugar do ser. (73) A Stimmung, todavia, levando o Dasein à abertura de seu Da, revela-lhe ao mesmo tempo seu ser lançado nesse Da, o fato de estar desde sempre entregue a ele. Ou seja, a descoberta originária do mundo que tem lugar na Stimmung é sempre desvelamento — diz Heidegger — de uma [[termos:g:geworfenheit:start|Geworfenheit]], de um ser-lançado, a cuja estrutura é inerente uma essencial negatividade. No parágrafo 40 de Sein und Zeit, analisando a angústia como Stimmung fundamental, Heidegger precisa as características dessa negatividade. Em primeiro lugar, também aqui o que a angústia revela não é um objeto intramundano determinável qualquer: O diante-de-quê da angústia é completamente indeterminado (...) por isso a angústia não tem olhos para ver um determinado aqui ou ali de onde se aproxima a ameaça. O que caracteriza o diante-de-quê da angústia é o fato de que o elemento ameaçador não está em lugar nenhum (...) ele existe já, mas não está em nenhum lado; está tão próximo que nos oprime e nos corta a respiração, mas não está em nenhum lugar. No diante-de-quê revela-se o “não é nada e em nenhum lugar (nirgends)”. No ponto em que o Dasein acede portanto à abertura que lhe é mais própria e, na angústia, coloca-se perante o mundo como mundo, essa abertura se revela sempre atravessada por uma negatividade e por um mal-estar. Se — como escreve Heidegger — o Da está agora perante o Dasein como “um inexorável enigma”, é porque a Stimmung, descobrindo o homem como desde sempre lançado e entregue à sua abertura, revela-lhe, ao mesmo tempo, que ele não é trazido por si mesmo em seu Da. Escreve Heidegger: “Sendo, o Dasein é lançado, não é levado por si mesmo em seu Da (...) Existindo, ele nunca volta atrás em sua condição de lançado (...) Já que ele não colocou o fundamento, ele repousa em seu peso, que a Stimmung lhe revela como um fardo”. E justamente porque o Dasein é aberto ao mundo de tal modo que ele já não é senhor de sua abertura, essa abertura ao mundo tem o caráter do estranhamento. “A angústia”, escreve Heidegger, “retira o ser-aí de seu se sentir em casa no mundo e tem por isso, antes de tudo, o caráter do estranhamento” (do não se sentir em sua casa: zu Haus). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}