obra:ga9:platao-verdade
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| + | ===== 7 Platão, Verdade ===== | ||
| + | //Resumo em tópicos// | ||
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| + | 1. Os conhecimentos científicos são habitualmente expressos em teses e apresentados ao homem como resultados tangíveis a utilizar, sendo a " | ||
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| + | 2. Para poder experimentar e assim conhecer o não-dito de um pensador, qualquer que seja sua natureza, é preciso repensar o que ele disse, exigindo a satisfação adequada dessa exigência a discussão de todos os Diálogos de Platão em sua conexão, tarefa impossível de ser aqui cumprida, devendo-se seguir outra via para chegar ao que permaneceu não-dito no pensamento de Platão. | ||
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| + | 3. O que aí permanece não-dito é uma reviravolta ([[lx> | ||
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| + | 4. Com a exposição do "mito da caverna" | ||
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| + | 5. Sócrates convida a considerar homens que habitam uma morada subterrânea em forma de caverna, com longa entrada voltada para a luz do dia, para a qual converge toda a caverna, permanecendo esses homens, desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo a só poderem olhar para o que se lhes apresenta à frente, sem poder virar a cabeça. | ||
| + | * É-lhes, porém, concedida uma luz proveniente de um fogo que arde ao alto, longe, atrás deles, correndo entre o fogo e os homens acorrentados, | ||
| + | * Ao longo desse muro, homens transportam toda espécie de objetos que ultrapassam sua altura — estátuas e outras figuras de pedra e madeira, além de objetos diversos fabricados pelo homem —, falando entre si alguns desses portadores enquanto outros permanecem em silêncio. | ||
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| + | 6. A Glauco, que observa tratar-se de prisioneiros fora do comum, Sócrates responde que eles se assemelham em tudo aos homens comuns, pois tais homens jamais viram, nem por si nem uns pelos outros, outra coisa senão as sombras que a luz do fogo projeta constantemente na parede da caverna diante deles, sendo isso inevitável já que são forçados a manter a cabeça imóvel durante toda a vida. | ||
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| + | 7. Quanto ao que veem dos objetos transportados atrás deles, veem justamente isso, as sombras, e, se pudessem falar e discutir entre si sobre o que veem, tomariam necessariamente o que veem por aquilo que é (das [[lx> | ||
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| + | 8. Se essa prisão tivesse ainda um eco vindo da parede à sua frente, sempre que alguém que passasse atrás dos acorrentados se fizesse ouvir, eles creriam que aquilo que fala nada mais é do que a sombra que passa diante deles, tomando os acorrentados absolutamente as sombras dos objetos por aquilo que é desvelado (das [[lx> | ||
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| + | 9. Sócrates propõe então imaginar os prisioneiros libertados das correntes e curados de sua falta de discernimento, | ||
| + | * Se lhe fosse revelado que antes via apenas nadidade e que agora está muito mais próximo do ente, e, voltado assim para o que é mais ente (das Seiendere), vê consequentemente de modo mais correto, ele ficaria muito embaraçado e consideraria que o que via antes com os próprios olhos era mais desvelado do que o que agora lhe é mostrado por outro. | ||
| + | * E se alguém o obrigasse a olhar para a luz do fogo, doeriam seus olhos e ele quereria voltar-se e fugir de volta para aquilo que está ao alcance de sua visão, decidindo que isso lhe pareceria de fato mais claro do que o que agora lhe é mostrado. | ||
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| + | 10. Se alguém o arrastasse à força pela subida áspera e escarpada da caverna, sem deixá-lo até tê-lo levado para fora, à luz do sol, aquele que assim fosse arrastado sentiria dor e revolta, e, uma vez à luz do sol, teria os olhos tão ofuscados por seu esplendor que não conseguiria ver nada do que lhe é agora aberto como o desvelado, não podendo fazê-lo de modo algum, ou ao menos não de imediato. | ||
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| + | 11. Seria necessária uma habituação, | ||
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| + | 12. No final, deveria estar em condições de olhar o próprio sol, e não apenas seu reflexo na água ou em qualquer outro lugar onde possa aparecer, mas o próprio sol, visto em si mesmo e em seu próprio lugar, para considerá-lo e ver como é, devendo, depois de cumprido tudo isso, concluir também que é ele quem propicia as estações e os anos, e que domina tudo o que está no âmbito agora visto, sendo ainda a causa de todas aquelas coisas que os que habitam dentro da caverna têm de certo modo diante de si. | ||
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| + | 13. Se ele se lembrasse de sua primeira morada, do " | ||
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| + | 14. Se na antiga morada (a caverna) existissem honras e reconhecimentos para quem mais agudamente discernisse as coisas que passam e melhor fixasse na memória o que costuma apresentar-se antes, depois ou simultaneamente, | ||
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| + | 15. Sócrates pergunta ainda se, ao descer novamente e sentar-se no mesmo lugar, não se lhe encheriam os olhos de trevas ao vir subitamente do sol, e se, ao pôr-se de novo a enunciar e sustentar opiniões sobre as sombras junto aos que sempre ali permaneceram acorrentados, | ||
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| + | 16. Cabe perguntar o que significa essa história, respondendo o próprio Platão, que faz seguir imediatamente à narração a interpretação (517a8-518d7). | ||
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| + | 17. A morada em forma de caverna é a " | ||
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| + | 18. As coisas que, segundo o " | ||
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| + | 19. No " | ||
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| + | 20. Habitualmente o homem pensa ver diretamente esta casa, aquela árvore e assim cada ente, não suspeitando, | ||
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| + | 21. Essas coisas, que são as mais próximas e no entanto têm a consistência da sombra, mantêm cotidianamente o homem prisioneiro, | ||
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| + | 22. Se, como se pensa no " | ||
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| + | 23. Obstinado em seu "ponto de vista", | ||
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| + | 24. No " | ||
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| + | 25. As correspondências simbólicas até aqui enumeradas — entre as sombras e o real cotidianamente experimentado, | ||
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| + | 26. Cabe perguntar o que ocorre no curso dessas passagens, em virtude de que são possíveis esses eventos, de onde deriva sua necessidade, | ||
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| + | 27. Isso significa que ou o homem, partindo de uma ignorância apenas percebida, pode chegar onde o ente se lhe mostra de modo mais essencial, não estando porém, num primeiro momento, à altura do que é essencial; ou o homem pode cair fora da atitude própria de um saber essencial e ir parar no âmbito em que predomina a realidade comum, sem, contudo, ser capaz de reconhecer como real o que ali é usual e habitual. | ||
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| + | 28. Assim como os olhos do corpo devem habituar-se lenta e constantemente à luz ou à escuridão, também a alma deve adaptar-se com paciência, e numa progressão adequada, ao âmbito do ente ao qual está destinada, exigindo, porém, essa adaptação antes de tudo que a alma se volte em seu conjunto para a direção fundamental a que tende, tal como o olho só pode olhar bem e para toda parte se, primeiro, o corpo em seu conjunto tiver assumido posição correspondente. | ||
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| + | 29. Cabe perguntar por que a adaptação ao respectivo âmbito deve ser lenta e constante, sendo porque a mudança de direção afeta o ser do homem e, portanto, se cumpre no fundo de sua essência, significando isso que a atitude determinante, | ||
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| + | 30. Essa mudança e adaptação da essência do homem, no âmbito que de cada vez lhe é atribuído, é a essência do que Platão chama [[f> | ||
| + | * A palavra alemã [[lx> | ||
| + | * Bildung quer dizer duas coisas: primeiro, é um formar no sentido de imprimir à coisa o caráter de seu desenvolvimento; | ||
| + | * A oposição essencial à παιδεία é constituída pela ἀπαιδευσία, | ||
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| + | 31. A força simbólica do "mito da caverna" | ||
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| + | 32. Que Platão queira, no "mito da caverna", | ||
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| + | 33. Segundo a afirmação inequívoca de Platão, o "mito da caverna" | ||
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| + | 34. Segundo a interpretação exigida por uma situação de necessidade vindoura, o " | ||
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| + | 35. Cabe perguntar o que une " | ||
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| + | 36. Desvelação em grego se diz ἀλήθεια, | ||
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| + | 37. Se, contudo, não nos contentarmos em traduzir " | ||
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| + | 38. Os termos desvelado e desvelação designam respectivamente aquilo que de cada vez está abertamente presente no âmbito onde mora o homem, narrando, porém, o " | ||
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| + | 39. No primeiro grau os homens vivem acorrentados na caverna, tomados por aquilo que primeiro lhes vem ao encontro, fechando-se a descrição dessa morada com a frase: " | ||
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| + | 40. O segundo grau trata da libertação das correntes: os prisioneiros estão agora, em certo sentido, livres, mas permanecem fechados na caverna, podendo agora voltar-se para todos os lados, abrindo-se-lhes a possibilidade de ver as próprias coisas que antes eram transportadas atrás deles, chegando, ao invés de ver apenas sombras, μᾶλλὁν τι ἐγγυτέρω τοῦ ὄντος, | ||
| + | * No clarão artificial do fogo da caverna, são as próprias coisas que de certo modo mostram sua e-vidência, | ||
| + | * E, no entanto, daquele que assim está liberado se deve dizer que considerará o que antes via (as sombras) mais desvelado do que o que agora lhe é mostrado (por outro), porque o clarão do fogo, ao qual seu olho não está habituado, cega quem foi liberado, impedindo-o o ofuscamento de ver o próprio fogo e de perceber como seu brilho ilumina as coisas e assim as faz aparecer. | ||
| + | * Por isso quem está cegado não pode compreender que o que via antes não era senão uma sombra das coisas projetada pelo clarão desse fogo, vendo, embora agora algo diferente das sombras, tudo numa única confusão, em relação à qual as sombras, percebidas no reflexo do fogo ainda não conhecido nem visto, aparecem com contornos bem precisos, parecendo por isso a consistência das sombras, sendo o que é visível de modo não confuso, também para quem está liberado, "o que é mais desvelado" | ||
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| + | 41. Essa é a razão pela qual, ao final da descrição do segundo grau, retorna a palavra ἀληθές, | ||
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| + | 42. Esta só se alcança no terceiro grau, onde quem foi liberado das correntes é ao mesmo tempo transferido para fora da caverna, "ao ar livre", | ||
| + | * O espaço aberto para o qual o homem liberado foi agora transferido não é a ilimitação de uma simples extensão, mas o vínculo limitante daquilo que é claro e resplandece à luz do sol, ele mesmo manifesto, constituindo as vistas do que as coisas são em si mesmas, os εἴδη (ideias), a essência em cuja luz cada ente singular se mostra como este ou aquele ente, sendo só nesse mostrar-se que o que aparece se torna desvelado e acessível. | ||
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| + | 43. O grau agora alcançado na escala das moradas é de novo determinado pelo desvelado aí determinante, | ||
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| + | 44. O desvelado agora alcançado é o mais desvelado (das Unverborgenste): | ||
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| + | 45. Mas se já dentro da caverna o voltar o olhar das sombras ao clarão do fogo e às coisas que nele se mostram é difícil e mesmo fracassa, o libertar-se ao ar livre, fora da caverna, exige a máxima paciência e o máximo esforço, não se realizando a liberação pelo simples fato de se ter soltado das correntes, nem consistindo na ausência de vínculos, mas começando apenas quando nos habituamos constantemente a fixar o olhar nos contornos nítidos das coisas que permanecem firmes em sua e-vidência. | ||
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| + | 46. A autêntica liberação é a constância do voltar-se para o que aparece em sua própria e-vidência e que, nesse aparecer, é o mais desvelado, consistindo a liberdade unicamente nesse voltar-se assim orientado, sendo apenas este último a realizar a essência da παιδεία entendida como mudança de direção, só podendo o cumprimento da essência da " | ||
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| + | 47. Como, porém, a παιδεία tem sua essência na περιαγωγὴ ὅλης τῆς ψυχῆς, | ||
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| + | 48. Por isso, na história, a narrativa não se detém, como habitualmente se crê, na descrição do grau mais alto alcançado, o da saída da caverna, fazendo parte do " | ||
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| + | 49. A redescida à caverna e a luta que nela se trava entre o libertador e os prisioneiros que se opõem a toda libertação constituem um grau distinto, o quarto, no qual somente o " | ||
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| + | 50. Não estaria já indicado no primeiro grau o " | ||
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| + | 51. Para os gregos, em seus inícios, a veladura ([[lx> | ||
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| + | 52. A veladura pode ser de diversos tipos: pode significar encerrar, custodiar, ocultar, cobrir, mascarar, simular, devendo, segundo o " | ||
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| + | 53. Em geral, esse " | ||
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| + | 54. O espaço fechado, mas em si aberto, da caverna, e o que nele está compreendido e portanto velado, remetem ao mesmo tempo para o exterior, para o desvelado que se desdobra na luz do dia, tendo somente a essência da verdade, pensada como nos inícios do mundo grego no sentido da ἀλήθεια, | ||
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| + | 55. E, contudo, por mais que no "mito da caverna" | ||
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| + | 56. Na exposição do " | ||
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| + | 57. No "mito da caverna" | ||
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| + | 58. A desvelação, | ||
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| + | 59. Tal e-vidência oferece a vista ([[lx> | ||
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| + | 60. A ἰδέα é aquilo que tem o poder de resplandecer (das [[lx> | ||
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| + | 61. Também a terminologia posterior revela que a [[f> | ||
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| + | 62. Somente nessa locução o [[f> | ||
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| + | 63. " | ||
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| + | 64. A resposta, para cuja ilustração está preparado o "mito da caverna", | ||
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| + | 65. Pensada em seu conteúdo, essa imagem indica uma conexão que Platão assim exprime: " | ||
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| + | 66. O " | ||
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| + | 67. [[f> | ||
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| + | 68. A ideia de valor, surgida no século XIX como consequência interna à concepção moderna da " | ||
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| + | 69. Ao conceber, contudo, o valor como a condição de possibilidade da " | ||
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| + | 70. Se se pensa também a essência da " | ||
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| + | 71. Τὸ ἀγαθόν, | ||
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| + | 72. Aquilo que torna cada ideia apta a ser uma ideia, ou, dito platonicamente, | ||
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| + | 73. "A ideia do bem", expressão demasiado enganosa para o pensamento moderno, é o nome daquela ideia suprema que, como ideia das ideias, permanece, para cada coisa, aquilo que a torna apta, podendo essa ideia ser chamada simplesmente de "o bem", permanecendo ἰδέα τελευταία, | ||
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| + | 74. O bem pode ser chamado de "ideia suprema" | ||
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| + | 75. Mesmo onde se percebem apenas sombras, ainda veladas em sua essência, já deve reluzir o clarão de um fogo, mesmo que esse clarão não seja captado expressamente nem experimentado como dádiva do fogo, e sobretudo mesmo que ainda se ignore que esse fogo não é senão um rebento (ἔκγονον) do sol, permanecendo o sol invisível dentro da caverna, embora também as sombras se nutram sempre de sua luz. | ||
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| + | 76. O fogo da caverna, que torna possível a percepção das sombras que ainda não conhece a própria essência, é a imagem do fundamento desconhecido daquela experiência do ente que tem sim em vista o ente, mas não o conhece como tal, não dando, porém, o sol com seu esplendor apenas o claro, e portanto a visibilidade, | ||
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| + | 77. Mas uma vez que se viu (ὀϕθεῖσα δέ) expressamente o próprio sol, ou, fora de metáfora, uma vez que se captou a ideia suprema, pode-se concluir de modo coerente e unitário que ela é evidentemente, | ||
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| + | 78. Para todas as coisas e sua coisidade ([[lx> | ||
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| + | 79. De toda circunspecção que acompanha o agir deriva da essência da ideia suprema que quem deseja agir com circunspecção e prudência, seja em assuntos privados seja públicos, deve ter o olhar voltado para essa ideia (que, por tornar possível o ser das ideias, se chama o bem), necessitando quem deve e quer agir num mundo determinado pela " | ||
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| + | 80. A essência da παιδεία consiste então também em tornar os homens livres e firmes para poderem ter uma visão clara e estável da essência, compreendendo-se por que, segundo a interpretação própria de Platão, sendo o "mito da caverna" | ||
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| + | 81. Cabe então perguntar se o "mito da caverna" | ||
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| + | 82. O " | ||
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| + | 83. Quando Platão diz, a respeito da ἰδέα, que ela é a soberana que consente o desvelamento, | ||
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| + | 84. Se em toda parte, em todo comportar-se em relação ao ente, o que importa é o ἰδεῖν da ἰδέα, a visão da " | ||
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| + | 85. Já quem é liberado dentro da caverna, ao abandonar as sombras e voltar-se para as coisas, dirige o olhar ao que é "mais ente" em relação às meras sombras: πρὸς μᾶλλον ὄντα τετραμμένος ὀρθότερον βλέποι, | ||
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| + | 86. Tudo depende da ὀρθότης, | ||
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| + | 87. Por efeito desse adequar-se da apreensão enquanto ἰδεῖν à ἰδέα, constitui-se uma [[f> | ||
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| + | 88. Com essa mudança da essência da verdade cumpre-se ao mesmo tempo uma mudança do lugar da verdade: como desvelação, | ||
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| + | 89. Ainda assim, de certo modo Platão deve manter ainda a " | ||
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| + | 90. Por isso há na doutrina de Platão uma inevitável ambiguidade, | ||
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| + | 91. A ambiguidade da determinação da essência da verdade pode ser captada numa única frase da passagem que contém a interpretação que o próprio Platão dá do "mito da caverna" | ||
| + | * Em primeiro lugar, e portanto em sentido determinante, | ||
| + | * Mas depois diz também que a ideia do bem é κυρία ἀλήθειαν καὶ νοῦν παρασχομένη, | ||
| + | |||
| + | 92. Ambas as frases falam do primado da ideia do bem como aquilo que torna possível tanto a correção do conhecer quanto a desvelação do que é conhecido, sendo aqui a verdade ainda desvelação e exatidão, ainda que a desvelação já esteja sob o jugo da ἰδέα. | ||
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| + | 93. A mesma ambiguidade na determinação da essência da verdade domina também em Aristóteles: | ||
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| + | 94. O asserir que exprime o juízo do intelecto é o lugar da verdade e da falsidade e de sua diferença, dizendo-se a asserção verdadeira se é conforme ao estado dos fatos, portanto se é ὁμοίωσις, | ||
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| + | 95. Desde então, a caracterização da essência da verdade como correção do representar asserente tornou-se determinante para todo o pensamento ocidental, bastando citar, para confirmá-lo, | ||
| + | * Para a Escolástica medieval vale a tese de Tomás de Aquino: veritas proprie invenitur in intellectu humano vel divino, "a verdade se encontra propriamente no intelecto humano ou divino", | ||
| + | * No início da era moderna, Descartes, agravando a tese anterior, diz: veritatem proprie vel falsitatem non nisi in solo intellectu esse posse, " | ||
| + | * Na época do início do cumprimento da era moderna, Nietzsche, agravando ainda mais a tese anterior, diz: "A verdade é aquela espécie de erro sem a qual uma determinada espécie de seres vivos não poderia viver, decidindo ao fim o valor para a vida" (1885), estando, se a verdade, segundo Nietzsche, é uma espécie de erro, sua essência num modo de pensar que sempre e necessariamente falsifica o real, na medida em que toda representação detém o " | ||
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| + | 96. Na determinação da verdade como não-correção do pensamento reside a adesão de Nietzsche à essência tradicional da verdade entendida como correção do asserir (λόγος), | ||
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| + | 97. Segundo essa interpretação do ente, o vir-à-presença não é mais, como no início do pensamento ocidental, o abrir-se do que está velado na desvelação, | ||
| + | |||
| + | 98. Esta, contudo, não está subordinada à desvelação no sentido de que, estando a serviço do desvelado, o leve ao aparecer, sendo antes o aparecer (o mostrar-se) que determina o que, no interior da essência do aparecer e apenas em referência a ele, ainda pode chamar-se desvelação, | ||
| + | |||
| + | 99. A verdade como desvelação já não é mais o traço fundamental do próprio ser, mas, tornada correção por ter sido subjugada à ideia, é doravante o traço distintivo do conhecimento do ente. | ||
| + | |||
| + | 100. Desde então há um tender à " | ||
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| + | 101. A diferença entre a morada interna e a externa à caverna é uma diferença da [[f> | ||
| + | |||
| + | 102. O saber orientar-se que embaixo, na caverna, é determinante, | ||
| + | |||
| + | 103. Em si, essa σοϕία é uma predileção e amizade ([[f> | ||
| + | |||
| + | 104. Com Platão a palavra é empregada pela primeira vez para indicar aquele saber orientar-se no ente que determina, ao mesmo tempo, o ser do ente como ideia, tornando-se, | ||
| + | |||
| + | 105. Mas a " | ||
| + | * Ali, onde ilustra a habituação do olhar às ideias, Platão diz que o pensamento vai μετ' | ||
| + | * Elas são o suprassensível captado num olhar não sensível, o ser do ente inapreensível pelos órgãos do corpo, sendo no âmbito do suprassensível a coisa suprema aquela ideia que, como ideia de todas as ideias, é a causa originária da subsistência e do aparecer de todo ente. | ||
| + | * Sendo assim causa originária de tudo, essa " | ||
| + | |||
| + | 106. Desde que o ser é interpretado como ἰδέα, o pensamento voltado para o ser do ente é metafísico, | ||
| + | |||
| + | 107. A própria interpretação do ser como ἰδέα, que deve seu primado a uma mudança da essência da ἀλήθεια, | ||
| + | |||
| + | 108. O início da metafísica no pensamento de Platão é ao mesmo tempo o início do " | ||
| + | |||
| + | 109. "O homem" aqui significa: ora uma humanidade determinada ou a humanidade em geral, ora o indivíduo ou uma comunidade, ora o povo ou um grupo de povos, tratando-se sempre, no âmbito de uma estrutura metafísica fundamental bem definida do ente, de levar o homem, o animal rationale, determinado a partir dela, à liberação de suas possibilidades, | ||
| + | |||
| + | 110. Isso se realiza como formação de uma atitude " | ||
| + | |||
| + | 111. O pensamento de Platão segue a mudança da essência da verdade, mudança que se torna a história da metafísica, | ||
| + | |||
| + | 112. Aquela mudança da essência da verdade está presente como a realidade fundamental da história universal do globo terrestre que avança para a fase extrema da época moderna, tratando-se de uma realidade que, consolidada há muito e por isso ainda não deslocada, domina cada coisa. | ||
| + | |||
| + | 113. O que acontece ao homem histórico resulta de cada vez de uma decisão sobre a essência da verdade que não depende do homem, mas já foi tomada antecipadamente, | ||
| + | |||
| + | 114. A história narrada no mito da caverna mostra o que ainda verdadeiramente acontece no presente e no futuro da humanidade ocidental: o homem pensa, no sentido da essência da verdade como correção do representar, | ||
| + | |||
| + | 115. Assim se recordou a essência inicial da verdade, revelando-se, | ||
| + | |||
| + | 116. Concebida em sentido platônico, a desvelação permanece vinculada ao referimento ao ver, à apreensão, ao pensar e ao asserir, significando seguir esse referimento abandonar a essência da desvelação, | ||
| + | |||
| + | 117. Antes de tudo é preciso apreciar o que há de " | ||
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