obra:ga9:physis
Differences
This shows you the differences between two versions of the page.
| obra:ga9:physis [18/08/2026 12:33] – created - external edit 127.0.0.1 | obra:ga9:physis [03/09/2026 03:41] (current) – external edit 127.0.0.1 | ||
|---|---|---|---|
| Line 1: | Line 1: | ||
| + | ===== 8 Physis em Aristóteles ===== | ||
| + | //Resumo em tópicos// | ||
| + | |||
| + | 1. Os romanos traduziram [[f> | ||
| + | |||
| + | 2. Desde então, o nome " | ||
| + | |||
| + | 3. Para o pensamento cristão, o " | ||
| + | |||
| + | 4. Segundo outra interpretação, | ||
| + | |||
| + | 5. E, por fim, " | ||
| + | * " | ||
| + | * " | ||
| + | |||
| + | 6. Aqui, o ente em sua totalidade não é nem mal-entendido " | ||
| + | |||
| + | 7. Qualquer que seja o alcance reivindicado pela palavra " | ||
| + | |||
| + | 8. Também a distinção entre natureza e história deve pensar um âmbito que sirva de fundamento e sustente a própria oposição, e no qual natureza e história tenham lugar, sendo mesmo quando se concebe a história a partir da " | ||
| + | |||
| + | 9. Essa impossibilidade de contornar a ϕύσις vem à luz no nome com que designamos o modo tradicional do saber ocidental que diz respeito ao ente em sua totalidade, chamando-se o conjunto das respectivas verdades " | ||
| + | |||
| + | 10. O nosso interrogar sobre a essência e o conceito da ϕύσις parece à primeira vista uma investigação apenas curiosa sobre a origem da interpretação antiga e atual da " | ||
| + | |||
| + | **A primeira discussão sobre a essência da ϕύσις: Aristóteles** | ||
| + | |||
| + | 11. A primeira discussão transmitida, | ||
| + | |||
| + | 12. Presumivelmente ele não foi projetado, em seus oito livros, como unidade, nem escrito ao mesmo tempo, mas essas questões são aqui irrelevantes, | ||
| + | |||
| + | 13. Certamente também essa compreensão da ϕύσις, a primeira pensada de modo fechado, não é senão o último eco de um projeto de pensamento inicial e por isso supremo, que pensa a essência da ϕύσις e que ainda nos é conservado nos ditos de Anaximandro, | ||
| + | |||
| + | 14. No primeiro capítulo do segundo dos oito livros "de física" | ||
| + | |||
| + | 15. Antes de seguir os passos singulares da determinação aristotélica da essência da ϕύσις, tomemos em consideração duas teses que Aristóteles enuncia no primeiro livro introdutório (A): que desde o princípio devemos ter bem claro diante de nós, como coisa assente, que o ente proveniente da ϕύσις, todo ou em parte, é algo movido (isto é, determinado pela motilidade), | ||
| + | |||
| + | 16. Aqui Aristóteles explicita o que vê como decisivo no projeto da essência da ϕύσις: a [[f> | ||
| + | * Hoje já é lugar-comum dizer que os processos naturais são processos de movimento, expressão que aliás diz duas vezes a mesma coisa; mas se não soubermos que o que para nós é lugar-comum foi Aristóteles, | ||
| + | * Já antes de Aristóteles os gregos haviam experimentado que céu e mar, plantas e animais estão em movimento, e já pensadores anteriores tinham tentado dizer o que é o movimento, mas foi Aristóteles quem primeiro alcançou, ou melhor, criou aquele nível de perguntar em que o ser-movido ([[lx> | ||
| + | * Isso não significa, porém, que o ser seja concebido "como movimento" | ||
| + | |||
| + | 17. Que todo ente proveniente da ϕύσις esteja em movimento ou em quietude é para Aristóteles algo manifesto: δῆλον ἐκ τῆς ἐπαγωγῆς, | ||
| + | * Ἐπαγωγή não significa passar em revista fatos e séries de fatos singulares para reconhecer neles propriedades semelhantes das quais inferir algo comum e " | ||
| + | * Por exemplo, só se já tivermos em vista a arboreidade podemos constatar as árvores singulares, significando ἐπαγωγή ver e tornar visível aquilo que, como a arboreidade, | ||
| + | * A ἐπαγωγή é o que logo põe em suspeita o homem ligado ao pensamento científico, | ||
| + | |||
| + | 18. Quando experimentamos e entendemos diretamente o ente proveniente da ϕύσις, já está sempre em vista "algo movido" | ||
| + | |||
| + | 19. Para colocar a questão da ϕύσις é preciso, portanto, começar colocando a questão da motilidade desse ente, considerando o que seja a ϕύσις em referência a ela, mas, para fixar de modo unívoco a direção desse perguntar, é preciso primeiro delimitar, no interior do ente em sua totalidade, aquele âmbito do qual dizemos que o ente que a ele pertence é algo determinado pela ϕύσις: τὰ ϕύσει ὄντα. | ||
| + | |||
| + | 20. Física, B, 1 começa com essa delimitação, | ||
| + | |||
| + | 21. Do ente (em sua totalidade), | ||
| + | |||
| + | 22. O outro ente, por ora não expressamente nomeado, é por meio de outras " | ||
| + | * A palavra e o conceito " | ||
| + | * A " | ||
| + | |||
| + | 23. Ao meramente nomear animal, planta, terra, fogo, água e ar, Aristóteles remete ao âmbito em que deve ser colocada a questão da ϕύσις, mostrando-se tudo o que foi nomeado como aquilo que se distingue em relação ao que não está com-posto num estado e num subsistir a partir da ϕύσις (192b12-13). | ||
| + | |||
| + | 24. Συνεστῶτα é aqui usado por ὄντα, do que se depreende o que significa " | ||
| + | * Se assumíssemos o que é constante como o que está diante, o objetivo, pensaríamos de modo absolutamente não grego, sendo o que está diante ([[lx> | ||
| + | * Para os gregos o homem nunca é sujeito, e por isso também o ente não humano jamais pode ter o caráter de objeto (do que está diante), sendo ϕύσις aquilo por cuja culpa ocorre um modo específico de estar em si do que é constante. | ||
| + | |||
| + | 25. Cada um desses entes que da ϕύσις derivam o que são e como são tem nele mesmo a disposição que dá início (ἀρχή) à motilidade e ao estado de repouso (quietude), entendidos motilidade e quietude ora em relação ao lugar, ora ao crescimento e diminuição, | ||
| + | |||
| + | 26. Para αἴτιον e αἰτία é aqui expressamente empregada a palavra [[f> | ||
| + | * Ἀρχή significa juntamente início e domínio, numa extensão de sentido inferior significando início ([[lx> | ||
| + | * Esse conceito de ἀρχή dá ao αἴτιον, | ||
| + | |||
| + | 27. A ϕύσις é ἀρχή, é início e disposição da motilidade e da quietude, precisamente de algo movido que tem nele mesmo essa ἀρχή, dizendo-se " | ||
| + | * Plantas e animais estão na motilidade mesmo quando parados e em repouso, sendo a quietude uma modalidade do movimento; só o que é móvel pode estar em quietude, não fazendo sentido falar de um número " | ||
| + | * Como plantas e animais — em quietude ou movidos — estão no movimento, eles não estão apenas em movimento, mas estão na motilidade, o que significa que não são primeiro um ente por si entre outros, ao qual às vezes também acontece de estar em movimento, mas são entes apenas na medida em que têm na motilidade sua morada essencial e o suporte de seu ser, sendo tal, porém, seu ser-movido que o início da, a ἀρχή, a disposição da motilidade domina neles mesmos. | ||
| + | |||
| + | 28. Ao determinar a ϕύσις como ἀρχὴ κινήσεως, | ||
| + | |||
| + | 29. O fato de Aristóteles nomear aqui as espécies de movimento tem seu significado: | ||
| + | |||
| + | 30. Nós hoje, dominados pelo pensamento mecanicista das ciências naturais modernas, tendemos a assumir a motilidade no sentido do deslocamento de um lugar do espaço a outro como forma fundamental do movimento, " | ||
| + | |||
| + | 31. Há ainda que considerar que a " | ||
| + | * Os próprios lugares acima e abaixo (céu e terra) são lugares distintos um do outro, determinando-se por meio deles distâncias e relações, isto é, o que chamamos " | ||
| + | * A quietude que corresponde à motilidade no sentido da mudança de lugar é o permanecer no mesmo lugar; contudo, o que assim não se move, por continuar a ocupar o mesmo lugar, pode ainda assim estar na motilidade, como uma planta que, radicada no "lugar onde está", | ||
| + | * Inversamente, | ||
| + | |||
| + | 32. Considerar como espécies da motilidade todos esses " | ||
| + | * O núcleo essencial da μεταβολή, | ||
| + | * Devemos hoje conseguir fazer duas coisas: libertar-nos da opinião de que movimento é primariamente mudança de lugar, e aprender a ver como, para os gregos, o movimento, enquanto modalidade do ser, tem o caráter do chegar a apresentar-se. | ||
| + | |||
| + | 33. Φύσις é ἀρχὴ κινήσεως — disposição que inicia a mudança, no sentido de que toda coisa que muda tem nela mesma essa disposição, | ||
| + | |||
| + | 34. Um leito e um manto, e se há ainda outra espécie (de coisas semelhantes), | ||
| + | |||
| + | 35. Aos entes da espécie das " | ||
| + | |||
| + | 36. Cabe perguntar se leito e veste, escudo e casa são algo movido: certamente, só que na maioria das vezes nos aparecem naquela espécie de movimento dificilmente perceptível, | ||
| + | * Nós hoje não atentamos facilmente a essa quietude característica e à respectiva motilidade, ou pelo menos não a assumimos de modo suficientemente essencial como a conotação própria do ser desse ente, porque, à mercê da humanidade moderna, somos escravos do hábito de pensar o ente como objeto e deixar que o ser do ente se esgote na objetividade do objeto. | ||
| + | * Para Aristóteles trata-se de mostrar que é na motilidade da produção, e por isso na quietude do ser produzido, que os artefatos são o que são e como são, e sobretudo que essa motilidade tem outra ἀρχή, e que os entes assim movidos têm relação diferente com sua ἀρχή. | ||
| + | |||
| + | 37. A ἀρχή dos artefatos é a [[f> | ||
| + | * Esse fim, em grego, chama-se [[f> | ||
| + | * A essência da τέχνη não reside no movimento do manejar como atividade, mas no entender-se do procedimento, | ||
| + | * Ἀρχή não é o εἶδος em si, mas o εἶδος προαιρετόν, | ||
| + | |||
| + | 38. Nos artefatos, a ἀρχή de sua motilidade, e portanto de sua quietude, que alcançam quando acabados e completados, | ||
| + | |||
| + | 39. Na exposição de Aristóteles, | ||
| + | |||
| + | 40. Aqui encontramos um uso dessa palavra anterior à sua fixação " | ||
| + | * Mesmo traduzindo κατηγορία por " | ||
| + | * Kατηγορία é nomear o que algo é: casa, árvore, céu, mar, duro, vermelho, sadio, significando o "termo técnico" | ||
| + | * Estar-em-si (" | ||
| + | * É por essa razão que Kant não pode senão " | ||
| + | |||
| + | 41. Em nossa passagem, κατηγορία é usada em sentido preterminológico; | ||
| + | * Esse mesmo ente, o leito, podemos considerá-lo, | ||
| + | * O leito, porém, não é madeira, mas apenas madeirado, é de madeira, e só o que é outro em relação à madeira pode ser madeirado, por isso nunca dizemos que um tronco de árvore é madeirado, embora digamos que uma maçã é " | ||
| + | * O que o leito é segundo a κατηγορία, | ||
| + | |||
| + | 42. Com base nessa distinção entre artefatos (Gemächte) e entes crescidos naturalmente ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 43. Com simplicidade, | ||
| + | * Ao contrário, o que é assim determinado pela ϕύσις não só permanece nele mesmo em sua motilidade, mas, ao desdobrar-se conforme sua motilidade (sua mudança), retorna justamente para si mesmo. | ||
| + | * Essa situação essencial pode ser esclarecida pelo exemplo dos "entes crescidos naturalmente de si" em sentido estrito (como as " | ||
| + | |||
| + | 44. Esse modo de ser essencialmente presente ([[lx> | ||
| + | * Essa opinião se impõe tão fácil e despercebidamente que acabou por se tornar determinante até mesmo para a interpretação da natureza viva, sendo expressão disso o fato de que, sob o domínio do pensamento moderno, o vivente é concebido como " | ||
| + | * Já a palavra e o conceito " | ||
| + | |||
| + | 45. Em todo artefato, o início do fazer está " | ||
| + | |||
| + | 46. O significado dessa precisão é esclarecido por Aristóteles com um exemplo: acrescento, porém, "e não no modo do que sobreveio acidentalmente", | ||
| + | |||
| + | 47. Filho de médico, Aristóteles usa de bom grado, também em outros contextos, exemplos tirados da " | ||
| + | * Duas espécies de motilidade estão aqui interligadas de modo singular: a ἰάτρευσις, | ||
| + | * No caso do médico que se cura, ambos os movimentos estão em um único e mesmo ente, precisamente neste homem determinado, | ||
| + | * Não é o ser-médico a disposição que inicia o saramento, mas o ser-homem, e isso apenas na medida em que o homem é um [[f> | ||
| + | * O médico, ao contrário, tem em si a ἀρχή da medicina; o ser-médico é o início e a disposição do tratamento, mas essa ἀρχή, esse entender-se e ter olhos (τέχνη) para o que a saúde é e para o que é necessário conservá-la e restabelecê-la (o εἶδος τῆς ὑγιείας), | ||
| + | |||
| + | 48. Por consequência, | ||
| + | |||
| + | 49. Poder-se-ia aqui levantar a seguinte objeção: admitindo que dois médicos sofram da mesma doença nas mesmas condições e ambos se curem, mas que entre os dois casos haja um intervalo de quinhentos anos em que ocorreu o " | ||
| + | * Contudo, resta observar que o fato de não morrer, no sentido de um prolongamento da vida, não é necessariamente um saramento; o fato de os homens viverem hoje mais tempo não prova que sejam mais sadios, podendo-se antes deduzir o contrário. | ||
| + | * Mas mesmo supondo que o médico de hoje não apenas retarde a morte, mas se torne são, também aqui a arte médica não fez senão apoiar e guiar melhor a ϕύσις, podendo a τέχνη apenas vir ao encontro da ϕύσις, favorecendo mais ou menos o saramento, mas, como τέχνη, jamais podendo substituir-se à ϕύσις e tornar-se, em seu lugar, a ἀρχή da saúde como tal. | ||
| + | * Isso só poderia ocorrer se a vida como tal se tornasse um artefato produzível " | ||
| + | * Desse modo a " | ||
| + | |||
| + | 50. Do exemplo das duas diferentes motilidades interligadas entre si, Aristóteles aproveita para uma determinação mais precisa do modo como os ποιούμενα (os artefatos) se relacionam com sua ἀρχή: as coisas se dão do mesmo modo também para todo outro ente que pertença à ordem das coisas artificiais, | ||
| + | |||
| + | 51. A casa tem o início e a disposição de seu ser-casa, isto é, de uma construção, | ||
| + | * Mesmo quando a casa "está de pé", está sobre o fundamento posto sob ela, e não por si, mas sempre e só como construção; | ||
| + | * Se, ao contrário, alguém, com movimento desajeitado, | ||
| + | * Por isso, para a determinação da essência dos ϕύσει ὄντα não basta dizer que têm neles mesmos a ἀρχή de sua motilidade, sendo necessária essa determinação distintiva: neles mesmos, e precisamente enquanto são eles mesmos e junto a si mesmos. | ||
| + | |||
| + | 52. Aristóteles fecha a caracterização até aqui feita da essência da ϕύσις com um esclarecimento aparentemente apenas exterior do significado dos conceitos e modos de dizer que se reúnem em torno da essência, do conceito e da palavra ϕύσις: ϕύσις é, portanto, o que dissemos; " | ||
| + | * Conforme à ϕύσις é tanto isso quanto tudo o que a isso pertence nele mesmo e por ele mesmo, como pertence ao fogo o ser levado para o alto; isso (ser levado para o alto), porém, não é em verdade ϕύσις nem contém a ϕύσις, mas vem da ϕύσις e é em conformidade com a ϕύσις. | ||
| + | * Assim estabelecemos o que seja a ϕύσις e também o que significa aquilo que vem "da ϕύσις" | ||
| + | |||
| + | 53. Pode causar estranheza que ainda deixemos sem tradução a palavra fundamental ϕύσις; não a traduzimos por natureza porque esse nome é demasiado equívoco e sobrecarregado de significados, | ||
| + | |||
| + | 54. O motivo principal por que continuamos a usar a palavra intraduzida, | ||
| + | |||
| + | 55. A frase decisiva diz: καὶ ἔστι πάντα ταῦτα oὐσία, e tudo isso — o ente proveniente da ϕύσις — tem o ser no modo da enticidade ([[lx> | ||
| + | * É verdade que também a expressão " | ||
| + | * Φύσις é oὐσία, isto é, enticidade, aquilo que distingue o ente como tal, ou seja, o ser, não sendo originariamente a palavra oὐσία uma " | ||
| + | * Ao cunhá-la, Aristóteles abstrai do conteúdo da palavra um aspecto decisivo que depois mantém de modo unívoco, conservando a palavra, ao tempo de Aristóteles e também depois, simultaneamente o significado usual, no qual quer dizer a casa e o sítio, os haveres, os bens, falando-se também nós de "bens estáveis", | ||
| + | * É na direção desse significado que devemos pensar se quisermos assegurar-nos a força nominativa da palavra oὐσία como palavra filosófica fundamental, | ||
| + | |||
| + | 56. Poder-se-ia observar que nossa tradução é " | ||
| + | * Este último pode significar o ente, isto é, precisamente este ente determinado, | ||
| + | |||
| + | 57. Conforme a explicação da oὐσία por meio do ὑποκείμενον, | ||
| + | * Só o que está pode cair e depois jazer, e só o que jaz pode ser erguido e depois estar; se os gregos entendem o ser ora como o estar-em-si, | ||
| + | * A tese de fundo de Aristóteles, | ||
| + | |||
| + | 58. Está já estabelecido, | ||
| + | |||
| + | 59. Com isso fica fundamentalmente claro que a questão sobre a ϕύσις dos ϕύσει ὂντα não busca as propriedades encontráveis junto ao ente dessa espécie, mas coloca o problema do ser desse ente, e, a partir desse ser, determina de antemão de que modo o ente que tem tal ser pode em geral ter propriedades. | ||
| + | |||
| + | 60. O passo seguinte, que constitui a passagem para a nova determinação incipiente da essência da ϕύσις, mostra com quanta decisão a discussão aristotélica até aqui conduzida sobre a ϕύσις desemboca explicitamente na meditação fundamental, | ||
| + | * Mas fornecer provas do que se mostra por si, e até querer demonstrá-lo através de algo que recusa o aparecer, é a atitude de um homem incapaz de distinguir entre o que é por si familiar a todo conhecimento e o que não é. | ||
| + | * Que isso possa acontecer não está fora do " | ||
| + | |||
| + | 61. Que a ϕύσις é, querer demonstrá-lo é ridículo — mas por quê? Não se deveria levar a sério esse modo de proceder? Sem uma demonstração preliminar de que algo como a ϕύσις " | ||
| + | * Devemos então supor que a ϕύσις não é, pelo menos que ainda não está demonstrada em seu ser e enquanto ser, não nos sendo permitido, no curso da demonstração, | ||
| + | * Semelhante procedimento é impossível, | ||
| + | |||
| + | 62. Toda a empresa é de fato ridícula, permanecendo indemonstráveis o ser da ϕύσις e a ϕύσις como ser, porque a ϕύσις não precisa de provas, não precisando delas porque onde quer que o ente proveniente da ϕύσις esteja no aberto, a própria ϕύσις já se mostrou e está em vista. | ||
| + | |||
| + | 63. No máximo poder-se-ia observar àqueles que exigem e tentam tais demonstrações que eles não veem o que já veem, que não têm olho para o que já lhes está em vista, não sendo esse olho, não apenas para o que se vê, mas também para o que já está em vista quando se vê o que se vê, de todos. | ||
| + | * Para esse olho é preciso a capacidade de distinguir entre o que se mostra por si e, segundo sua essência, vem ao aberto, e o que por si não se mostra, sendo aquilo que desde o início se mostra, como a ϕύσις nos ϕύσει ὂντα, como a história em todos os processos históricos, | ||
| + | * Não é necessário, | ||
| + | |||
| + | 64. Aquilo que desde o início se mostra — o respectivo ser do ente — não é nem algo posteriormente abstraído do ente, algo vazio, rarefeito e por fim fumoso, nem algo que se torna acessível a quem pensa apenas através de uma " | ||
| + | * Ela realiza aquele ver antes e além do que nós propriamente não somos e sobretudo não podemos ser, em algo distantíssimo que, no entanto, é algo proximíssimo, | ||
| + | * A diferença entre o que desde o início se mostra por si e o que não se mostra assim é um [[f> | ||
| + | |||
| + | 65. Quem não é capaz de fazer essa distinção vive, segundo Aristóteles, | ||
| + | * Assim como há cegos às cores, há também cegos à ϕύσις; se considerarmos que a ϕύσις foi determinada como um modo da oὐσία (da enticidade), | ||
| + | * A consequência é que os cegos ao ser passam mesmo por serem os únicos que verdadeiramente veem, sendo, por outro lado, evidente que essa referência do homem àquilo que desde o início se mostra por si, subtraindo-se assim a todo propósito de demonstração, | ||
| + | * Essa referência ao ser é difícil de manter porque, aparentemente, | ||
| + | |||
| + | **A interpretação de Antifonte e sua crítica** | ||
| + | |||
| + | 66. Que papel particular desempenhe a observação de Aristóteles sobre o querer demonstrar a presença da ϕύσις no conjunto de sua exposição, | ||
| + | * Isso se vê pela exposição de Antifonte: se alguém enterra um leito e a putrefação da madeira chega ao ponto de brotar um broto, não nasce disso um leito, mas madeira, segue-se então que aquilo que foi imposto segundo um estatuto e um entendimento — à madeira, o ser-leito — é sim algo que existe, mas só existe enquanto acrescentado, | ||
| + | * Mas se também entre estes (madeira, bronze) a cada um em relação a algo mais toca passar por essa mesma coisa (isto é, ser posto em certa constituição), | ||
| + | |||
| + | 67. A uma consideração exterior parece que Aristóteles passa agora do esclarecimento da atitude correta na determinação da essência da ϕύσις como modo do ser à caracterização da opinião de outros pensadores sobre a ϕύσις, mas com isso Aristóteles não quer referir também as opiniões alheias por amor à completude erudita, nem simplesmente rejeitá-las para dar maior relevo à própria interpretação. | ||
| + | |||
| + | 68. A intenção de Aristóteles é esclarecer a mencionada interpretação da ϕύσις à luz de seu próprio modo de colocar a questão, conduzindo-a assim àquela via que torna possível uma determinação suficiente da essência da ϕύσις que ele tem presente, sabendo-se até aqui apenas que a ϕύσις é oὐσία — o ser de um ente; e precisamente de um ente em relação ao qual já se viu desde o início que tem o caráter dos κινούμενα — do ente em movimento, sendo, mais claramente ainda, a ϕύσις a disposição que inicia (ἀρχή) a motilidade daquilo que nele mesmo é móvel. | ||
| + | |||
| + | 69. Se a ϕύσις é oὐσία, um modo do ser, a determinação essencialmente adequada da ϕύσις dependerá de duas coisas: de uma compreensão suficientemente originária da essência da oὐσία e da correspondente interpretação daquilo que, à luz do respectivo conceito de ser, se encontra como ente proveniente da ϕύσις, entendendo os gregos a oὐσία no sentido do vir a uma presença estável, não sendo essa interpretação do ser fundamentada nem sendo o fundamento de sua verdade posto em questão, pois, no primeiro início do pensamento, mais essencial que isso permanece captar em geral o ser do ente. | ||
| + | |||
| + | 70. Mas como interpreta o sofista Antifonte, que vem da escola dos eleatas, a ϕύσις à luz do ser entendido como apresentar-se constante? Ele diz: conforme à ϕύσις são propriamente só a terra, a água, o ar e o fogo, tomando-se com isso uma decisão da maior importância: | ||
| + | |||
| + | 71. Mas o que tem tal caráter é mutável, instável e inconsistente; | ||
| + | |||
| + | 72. Das teses de Antifonte resulta claro que o leito, a estátua, o manto, o vestido são entes apenas na medida em que são de madeira, de bronze e semelhantes, | ||
| + | * Ora, se o " | ||
| + | * Mas isso implica que a essência da oὐσία — do apresentar-se constante — seja fixada numa direção bem determinada, | ||
| + | |||
| + | 73. O passo seguinte nos dá perspectiva do alcance da interpretação recém-discutida da ϕύσις no sentido do πρῶτον ἀρρύθμιστον καθ' | ||
| + | * Pois o que cada um destes assumiu preventivamente (ὑπό) como assim jazendo já diante, simples ou múltiplo que seja, dá respectivamente como enticidade em sentido absoluto, dando todo o resto como estados (Zustände) do ente propriamente dito, como disposição (Verhalt) e aquilo em que o ente é desdobrado (e assim dissolvido em relações). | ||
| + | * Por isso cada uma dessas coisas (que de cada vez constituem a ϕύσις) permaneceria em si a mesma (porque a elas não pertenceria uma mudança pela qual sairiam de si), enquanto tudo o mais nasceria e pereceria "sem limite" | ||
| + | |||
| + | 74. A diferença entre a ϕύσις como o " | ||
| + | |||
| + | 75. Mais importante é, porém, a conclusão da passagem que, ainda mais explicitamente, | ||
| + | |||
| + | 76. Nada é mais claro do que essa distinção, | ||
| + | |||
| + | 77. Certamente também os gregos conhecem essa distinção em referência ao ente, mas ainda assim pensam a diferença sempre sobre o fundamento de sua concepção do ser, sendo essa concepção justamente ocultada pela distinção " | ||
| + | |||
| + | 78. Logo, o que se contrapõe ao ἀίδιον, | ||
| + | |||
| + | 79. No ἀεί se entende um permanecer, precisamente no sentido do estar presente, sendo o ἀίδιον aquilo que está presente por si, sem outra intromissão, | ||
| + | |||
| + | 80. Pensado de modo grego, o que é gerado e se corrompe é aquele ente que, sem limite, ora se apresenta ora se ausenta; mas, pensado na acepção filosófica grega, πέρας não é o limite no sentido do bordo exterior onde algo cessa, sendo limite o que delimita e determina, o que dá sustentação e consistência, | ||
| + | |||
| + | 81. O que sem limite se apresenta e se ausenta não tem por si o estar presente e cai na inconsistência, | ||
| + | |||
| + | 82. O ponto decisivo está antes no fato de que o ente propriamente dito está presente por si, e por isso é encontrado como aquilo que sempre já jaz diante — ὑποκείμενον πρῶτον —, enquanto o não-ente ora se apresenta ora se ausenta, porque se apresenta apenas com base naquilo que já jaz diante, isto é, porque se encontra ou não se encontra junto a este. | ||
| + | * O ente (no sentido do " | ||
| + | * À oposição grega recém-esclarecida se aproxima mais a distinção posterior entre aeternitas e sempiternitas: | ||
| + | |||
| + | 83. Para os gregos, "o ser" significa o vir-à-presença no desvelado (Anwesung in das Unverborgene), | ||
| + | |||
| + | 84. Só se nos referirmos à contraposição entre desveladura e aparência podemos conhecer suficientemente a essência grega da οὐσία, | ||
| + | |||
| + | **Recapitulação e crítica da interpretação de Antifonte** | ||
| + | |||
| + | 85. Segundo a ἐπαγωγή, | ||
| + | |||
| + | 86. No início do terceiro livro da Física, cujos três primeiros capítulos dão a interpretação decisiva da essência da κίνησις, | ||
| + | |||
| + | 87. No contexto que temos diante de nós, porém, trata-se apenas de desenhar o traço fundamental da essência da ϕύσις, não sendo por isso a essência da κίνησις própria da ϕύσις, mesmo compreendida até o fundo, propriamente desenvolvida, | ||
| + | |||
| + | 88. A ϕύσις é a disposição que inicia a motilidade (κίνησις) de um movido (κινούμενον), | ||
| + | |||
| + | 89. O ente proveniente da ϕύσις é οὐσία, | ||
| + | |||
| + | 90. Aristóteles não rejeita formalmente esse modo de conceber a ϕύσις, mas a presença do δοκεῖ o assinala, sendo bom que já desde agora reflitamos sobre por que a referida interpretação da ϕύσις deve necessariamente permanecer insuficiente. | ||
| + | * Ela não considera que o ente proveniente da ϕύσις está na motilidade, isto é, que a motilidade é constitutiva do ser desse ente; para a mencionada concepção da ϕύσις, ao contrário, tudo o que tem caráter de movimento, toda alteração e todo estado variável (ῥυθμός), | ||
| + | * A enticidade é sim entendida como constância ([[lx> | ||
| + | * Por consequência, | ||
| + | * A interpretação da ϕύσις de Antifonte e dos demais concebe o ser dos ϕύσει ὄντα trazendo à cena os " | ||
| + | |||
| + | 91. Como, portanto, a doutrina de Antifonte não atinge de modo algum o âmbito próprio de um pensamento do ser, é evidente que Aristóteles, | ||
| + | |||
| + | **A ϕύσις como μορϕή** | ||
| + | |||
| + | 92. Lemos, e somos tomados de espanto, começando a frase com um oὖν " | ||
| + | |||
| + | 93. Nessa distinção [[f> | ||
| + | |||
| + | 94. Enquanto para Antifonte o ῥυθμός (a constituição) só podia ser aquilo que, inconstante, | ||
| + | |||
| + | 95. Mas assim se impõe agora também a tarefa de mostrar que a μορϕή é propriamente um caráter essencial da ϕύσις, embora à primeira vista pareça efetivamente assim, na realidade as coisas se passam de modo bem diferente, não sendo a distinção ὕλη-μορϕή simplesmente uma fórmula diferente para ἀρρύθμιστον-ῥυθμός, | ||
| + | |||
| + | 96. Isso implica ao mesmo tempo que a mencionada doutrina de Antifonte, apesar da aparência contrária, seja rejeitada do modo mais resoluto, sendo necessário, | ||
| + | |||
| + | 97. A isso tendemos continuamente, | ||
| + | |||
| + | 98. Os romanos traduziram ὕλη e μορϕή por materia e forma; nessa interpretação implícita nessa tradução, a distinção passou para a Idade Média e a era moderna, concebendo-a Kant como diferença de " | ||
| + | |||
| + | 99. Na acepção habitual, ὕλη significa " | ||
| + | |||
| + | 100. Certamente, mas, olhando bem, não se fez mais do que tornar premente a questão decisiva: se ὕλη significa a " | ||
| + | |||
| + | 101. Contudo, o próprio Aristóteles diz, felizmente, como pensa a μορϕή, na mesma frase que introduz esse conceito decisivo para sua interpretação da ϕύσις: ἡ μορϕὴ καὶ τὸ εἶδος τὸ κατὰ τὸν λόγον: "a μορϕή, e isso quer dizer τὸ εἶδος, | ||
| + | |||
| + | 102. Mas com εἶδος, | ||
| + | |||
| + | 103. Eἶδος significa o aspecto de uma coisa e de um ente em geral, mas o aspecto no sentido da vista, da visão, ἰδέα, que ele oferece e que só pode oferecer porque o ente foi exposto nesse aspecto e, nele estando, apresenta-se por si, isto é, é. | ||
| + | * Ἰδέα é aquilo que é avistado, não no sentido do que se torna tal graças ao ver, mas no sentido do que oferece à vista algo visível, o que se dá a ver, o visível (das Sichtsame). | ||
| + | * Platão, quase sobrepujado por sua essência, entendeu, porém, o εἶδος como algo que, por sua vez, se apresenta por si mesmo, e portanto como algo comum (κοινόν) aos " | ||
| + | |||
| + | 104. Contra essa concepção Aristóteles exige o reconhecimento de que o ente individual singular, esta casa aqui, aquele monte ali, não é não-ente, mas justamente o ente, na medida em que se colocam no aspecto de casa ou de monte e assim o expõem no vir-à-presença. | ||
| + | * Em outras palavras, o εἶδος é compreendido de modo essencial como εἶδος apenas quando se mostra no horizonte da chamada em causa imediata do ente, isto é, como εἶδος τὸ κατὰ τὸν λόγον, chamando a chamada em causa sempre imediatamente um isto ou aquilo como tal ou tal outro, isto é, partindo deste ou daquele aspecto. | ||
| + | * O fio condutor, seguindo o qual é possível captar o εἶδος e portanto também a μορϕή, é o λόγος, devendo por isso, na interpretação da subsequente determinação da essência da μορϕή como εἶδος, | ||
| + | |||
| + | 105. Antecipando, | ||
| + | |||
| + | 106. Com essa tradução de μορϕή, como instalar-se no aspecto, pretendem-se exprimir dois momentos que, em sentido grego, são igualmente essenciais e que faltam de todo na palavra " | ||
| + | |||
| + | 107. Contudo, essa remissão ao significado de μορϕή, a ser entendida de modo grego, não é ainda de modo algum a demonstração daquilo que Aristóteles se propôs mostrar, isto é, que a própria ϕύσις, segundo outro modo da chamada, é μορϕή, sendo essa demonstração, | ||
| + | |||
| + | 108. A demonstração começa assim: pois, assim como (diretamente) se chama τέχνη o que é produzido segundo tal entendimento, | ||
| + | * Não diríamos jamais que algo está (e se apresenta) segundo a τέχνη, ou que há τέχνη, onde algo é um leito apenas segundo a aptidão (δυνάμει), | ||
| + | * Pois o que tem apenas a aptidão de ser carne e ossos não só nunca tem a ϕύσις que lhe pertence antes de ter alcançado o aspecto — aquele aspecto entendido segundo a chamada que definimos quando dizemos o que é carne ou ossos —, mas (o que é só apto) tampouco é um ente proveniente da ϕύσις (193a31-b3). | ||
| + | |||
| + | 109. Como é possível, porém, que essas frases comprovem que a μορϕή é momento constitutivo da essência da ϕύσις, sem que se fale da μορϕή? Ao contrário, Aristóteles começa a demonstração de modo bastante extrínseco, | ||
| + | * De um quadro de Van Gogh dizemos, por exemplo, "isto é arte"; ou, à vista de uma ave de rapina que voa sobre o bosque, dizemos "isto é natureza"; | ||
| + | * Contudo, o quadro não é por si a arte, mas uma obra de arte; e a ave de rapina não é a natureza, mas um ente natural, denunciando esse modo de dizer algo essencial: quando dizemos, de modo tão acentuado, isto é arte? Não quando temos diante de nós apenas um pedaço de tela manchado de cores, nem quando temos sob os olhos apenas um " | ||
| + | * O mesmo vale quando dizemos "isto é natureza" | ||
| + | |||
| + | 110. Essa demonstração, | ||
| + | |||
| + | 111. Basta, porém, lembrar a determinação grega da essência do homem: [[lx> | ||
| + | |||
| + | 112. O que significa λόγος? Na linguagem dos matemáticos gregos a palavra " | ||
| + | * Λόγος vem de λέγειν, | ||
| + | * " | ||
| + | * Λέγειν — pôr junto em um e ad-duzir esse uno recolhido na presença — significa tornar manifesto o que antes estava velado, deixar que ele se mostre em seu apresentar-se, | ||
| + | |||
| + | 113. Com isso Aristóteles não dá uma " | ||
| + | * Os filólogos traduzem: "O Senhor, cujo oráculo está em Delfos, não diz nada, não fala nem vela, mas dá um sinal", | ||
| + | * Oὔτε λέγει οὔτε κρύπτει: | ||
| + | |||
| + | 114. Na determinação grega da essência do homem, λέγειν e λόγος significam aquela relação sobre cujo fundamento somente ocorre que algo presente se recolha como tal em torno do homem e para o homem, e apenas porque o homem é enquanto se comporta em relação ao ente como tal, desvelando-o e velando-o, o homem pode e deve ter a " | ||
| + | * Mas os vocábulos de que se serve a linguagem são só os restos decaídos da palavra, seguindo os quais o homem jamais encontrará o caminho de volta ao ente, senão sobre o fundamento do λέγειν. | ||
| + | * Em si o λέγειν nada tem a ver com o dizer e a linguagem; se, porém, os gregos concebem o dizer como λέγειν, | ||
| + | |||
| + | 115. Só ali, e portanto conosco, onde a linguagem foi degradada a meio de comunicação e organização, | ||
| + | |||
| + | 116. Se o problema é determinar a essência da ϕύσις, por que nos perdemos nesta longa digressão voltada a esclarecer a essência do λόγος? Apenas para deixar claro que Aristóteles, | ||
| + | |||
| + | 117. Se, seguindo o fio condutor do λέγειν, | ||
| + | |||
| + | 118. A bem dizer, Aristóteles não o mostra diretamente, | ||
| + | |||
| + | 119. Logo ὕλη significa " | ||
| + | |||
| + | 120. Mas, pensado em sentido grego e segundo a força nominativa originária da palavra alemã Her-, produzir ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 121. Aristóteles pode assim concluir: de modo que, em outro modo, a ϕύσις seria o instalar-se no aspecto para aqueles entes que têm neles mesmos a disposição que inicia a motilidade; certamente, tanto o instalar-se quanto o aspecto não são nada de per si subsistente, | ||
| + | |||
| + | 122. Essas frases não se limitam a resumir a afirmação já demonstrada de que a ϕύσις deve ser chamada de dois modos, sendo muito mais importante o relevo dado à ideia decisiva de que a ϕύσις, chamada em sua dupla acepção, é um modo do ser e não um ente, sendo essa a razão pela qual Aristóteles insiste em repetir que o aspecto e o instalar-se no aspecto não devem ser tomados, à maneira platônica, como algo por si separado, mas como o ser em que sempre cada ente singular, por exemplo este homem aqui, está. | ||
| + | |||
| + | 123. Este ente individual é, sim, proveniente da ὕλη e da μορϕή, mas justamente por isso não é ele mesmo, como a ὕλη e a μορϕή em sua essencial coapartenência, | ||
| + | |||
| + | 124. Esse ser só se pode captar seguindo o fio condutor do λόγος; mas a chamada mostra primeiro o aspecto e o estar instalado nele, e depois, a partir daí, aquilo que é chamado ὕλη se determina como o disponível, | ||
| + | |||
| + | 125. Ainda que ὕλη e μορϕή constituam ambas a essência da ϕύσις, seu peso não é, contudo, idêntico, cabendo o primado à μορϕή, o que significa que o andamento da demonstração até aqui efetuada eleva a tarefa demonstrativa a um estágio mais alto, não hesitando Aristóteles em dizê-lo logo: esta (a μορϕή como instalar-se no aspecto) é ainda mais ϕύσις do que o disponível, | ||
| + | |||
| + | 126. Por que então a μορϕή não é ϕύσις como a ὕλη, mas " | ||
| + | |||
| + | 127. A " | ||
| + | |||
| + | 128. Só uma coisa é clara, e precisamente que Aristóteles recorre de novo ao λέγειν, | ||
| + | |||
| + | **A motilidade como ἐντελέχεια** | ||
| + | |||
| + | 129. O que significa essa nova afirmação que, ultrapassando a equiparação até aqui feita entre ὕλη e μορϕή, diz que a μορϕή é mais ϕύσις? Antes nos deparamos com a tese de fundo decisiva segundo a qual a ϕύσις é οὐσία, | ||
| + | |||
| + | 130. Trata-se agora de conceber a motilidade como οὐσία, | ||
| + | |||
| + | 131. O que é a motilidade, precisamente enquanto ser, isto é, como apresentar-se do que é movido? Aristóteles dá a resposta na Física, Γ, 1-3, sendo presunçoso pretender mostrar de modo essencial em poucas frases a interpretação aristotélica da motilidade, que é a coisa mais difícil que teve de ser pensada na história da metafísica ocidental, sendo, contudo, hora de verificar se somos capazes de percorrer a demonstração do caráter de μορϕή da ϕύσις. | ||
| + | |||
| + | 132. O fundamento da dificuldade de compreender a determinação aristotélica da essência da motilidade está na simplicidade surpreendente da visão essencial, que raramente alcançamos, | ||
| + | * Esta consiste no fato de que os gregos concebem a motilidade a partir da quietude, devendo-se distinguir entre motilidade ([[lx> | ||
| + | * Por repouso deve-se entender o " | ||
| + | * O desdobrar-se mais puro dessa essência deve ser buscado não onde o repouso significa cessação ou interrupção do movimento, mas onde a motilidade se recolhe no manter-se parado (Stillhalten), | ||
| + | |||
| + | 133. Por exemplo: ὁρᾷ ἅμα καὶ ἑώρακε " | ||
| + | * Tal ver é o τέλος, o fim, em que apenas se retoma o movimento de olhar em redor, e que é essencialmente motilidade (" | ||
| + | * A motilidade de um movimento consiste então eminentemente no fato de que o movimento do que é movido se retoma em seu fim, em seu τέλος, e, retomado assim no fim, "se tem": ἐν τέλει ἔχει: ἐντελέχεια, | ||
| + | |||
| + | 134. Aristóteles, | ||
| + | * O " | ||
| + | |||
| + | 135. Partindo da ἐντελέχεια entendida como motilidade, devemos agora tentar entender o movimento de algo movido como um modo do ser, isto é, o modo de ser do κινούμενον, | ||
| + | * À maneira de Aristóteles, | ||
| + | * Aristóteles, | ||
| + | |||
| + | 136. Κίνησις é μεταβολή, | ||
| + | * Em ordem ao ser, que caráter tem essa mudança? O que muda é a madeira que está ali diante, disponível, | ||
| + | * O mudar-se da madeira adequada numa mesa consiste no fato de que a aptidão do que é adequado vem visivelmente à tona com maior plenitude até se cumprir no aspecto de mesa, vindo assim a estar na mesa produzida, isto é, posta aqui diante no desvelado. | ||
| + | * Na quietude desse estado (do que veio a estar) se recolhe e se " | ||
| + | |||
| + | 137. O nascer é, porém, um tal nascer, isto é, κίνησις, | ||
| + | |||
| + | 138. Ora, o ter-se-na-finalidade (ἐντελέχεια) é a essência da motilidade (isto é, o ser do que é movido), porque essa quietude satisfaz do modo mais puro a essência da οὐσία, | ||
| + | |||
| + | 139. Traduzida do modo habitual, essa frase soa assim: "é claro que a realidade é anterior à possibilidade", | ||
| + | * Δύναμις tornou-se potentia, o poder e a possibilidade que algo tem, aparecendo então a asserção "é claro que a realidade é anterior à possibilidade" | ||
| + | * Assim seria a possibilidade que é anterior à realidade, mas, pensando assim, não pensamos nem de modo aristotélico, | ||
| + | |||
| + | 140. Já traduzimos δύναμις por aptidão, por ser-adequado-a..., | ||
| + | |||
| + | 141. Δύναμις é um modo do vir-à-presença; | ||
| + | |||
| + | 142. A tese fundamental de Aristóteles sobre a hierarquia entre ἐντελέχεια e δύναμις pode ser enunciada resumidamente assim: a ἐντελέχεια é " | ||
| + | |||
| + | 143. Na passagem da Física, B, 1, 193b6-8, Aristóteles diz: "Esta (a μορϕή) é ainda mais ϕύσις do que a ὕλη, pois cada ente singular é chamado (como ente propriamente dito) quando ' | ||
| + | |||
| + | 144. A μορϕή é o instalar-se no aspecto, isto é, justamente a própria κίνησις, | ||
| + | |||
| + | 145. É preciso agora, porém, entender corretamente o tipo de primado que a μορϕή possui em relação à ὕλη, sobretudo porque, junto ao primado, se esclarece ainda mais a essência própria da μορϕή, o que significa que na tarefa de conceber a ϕύσις como μορϕή torna-se inevitável subir a um novo estágio, devendo, ao dar esse próximo passo, ter diante bem claro o que foi entrevisto no estágio precedente. | ||
| + | |||
| + | 146. A μορϕή não é " | ||
| + | |||
| + | 147. Mas de que ponto de vista a essência da μορϕή vem ao mesmo tempo ainda mais abertamente à luz? A frase que se segue estabelece esse ponto de vista: além disso, com efeito, um homem nasce de um homem, mas não um leito de um leito (193b8-9). | ||
| + | |||
| + | **A ϕύσις como γένεσις** | ||
| + | |||
| + | 148. Cabe perguntar se essa frase é algo mais que um lugar-comum: | ||
| + | |||
| + | 149. Em outros termos, só agora a μορϕή, como instalar-se no aspecto, é concebida explicitamente como γένεσις, | ||
| + | |||
| + | 150. Contrapõem-se aqui dois modos de nascer, tendo nós motivos suficientes para acentuar a diferença entre os dois e para melhor evidenciar a essência do nascer, do vir-a-estar (Ent-stehung); | ||
| + | |||
| + | 151. Todavia, inadvertidamente, | ||
| + | |||
| + | 152. Parece quase assim, pois a metafísica moderna, em Kant por exemplo com relevo grandioso, concebe a " | ||
| + | |||
| + | 153. Seja como for, aquela frase de Aristóteles sobre o nascer diferente do homem e do leito, que parecia demasiado óbvia, obriga-nos a uma reflexão decisiva, em que agora deverá ficar claro qual o papel que cabe àquela distinção dos entes naturais em relação aos artefatos, colocada em campo já logo no início do capítulo e que atravessa todas as suas discussões. | ||
| + | |||
| + | 154. Será então já Aristóteles quem entende os ϕύσει ὄντα como artefatos que se fazem a si mesmos, já que não cessa de caracterizar os entes naturais a partir de sua correspondência com os artefatos? Não, mas é verdade que ele concebe a ϕύσις como o produzir-se-a-si-mesmo; | ||
| + | |||
| + | 155. Para nós sim, enquanto continuamos despreocupadamente a vaguear entre ideias gastas, sem manter firme o que já foi assinalado; mas se reencontrássemos o caminho que nos conduz ao âmbito do ser tal como entendido pelos gregos? Apareceria então que o fazer, a ποίησις, | ||
| + | |||
| + | 156. Aqui " | ||
| + | |||
| + | 157. Em vez de nascer ou vir-a-estar ([[lx> | ||
| + | * O que nasce e vem-a-estar (uma mesa) pode ser tomado a partir de um aspecto (como uma mesa) e nesse aspecto ser pro-duzido, sem que aquele aspecto de que o produto de-riva assuma de si o pôr-se no aspecto, permanecendo o aspecto (εἶδος) mesa apenas um παράδειγµα, | ||
| + | * Onde o aspecto se satisfaz no mostrar-se e, mostrando-se, | ||
| + | |||
| + | 158. O mostrar-se já é um modo de apresentar-se, | ||
| + | |||
| + | 159. Vemos então facilmente que um ζῷον (um animal) não " | ||
| + | |||
| + | 160. Na γένεσις como instalar-se, | ||
| + | |||
| + | 161. Desse modo se anuncia que a µορϕή não só é mais ϕύσις do que a ὕλη, mas que o é aliás só ela e em pleno título, sendo justamente isso o que aquele aparente lugar-comum quer elevar a saber, mas, assim que a ϕύσις é vista dessa maneira como γένεσις, | ||
| + | |||
| + | **A ϕύσις como caminho em direção à ϕύσις** | ||
| + | |||
| + | 162. Mas além disso a ϕύσις, que é chamada de-formação no estado em que veio a estar (Ent-stellung in den Ent-stand), é (nada menos que) caminho em direção à ϕύσις — e isso não como a medicina, que é chamada caminho, mas não em direção à arte médica, e sim à saúde; pois a medicina parte sim necessariamente da arte médica, mas não é dirigida a ela (como sua finalidade); | ||
| + | * Mas "em que" vai então abrindo-se conforme a ϕύσις? Não naquilo "de onde" (de cada vez se destaca), mas naquilo em que de cada vez nasce e vem-a-estar (193b12-18). | ||
| + | |||
| + | 163. A ϕύσις, já indicada como γένεσις na frase precedente, é agora concebida mediante a determinação ὁδός, traduzindo-se logo ὁδός por via, pensando no percurso que se estende entre o início e a meta, devendo, porém, o caráter específico da via ser buscado também sob outro aspecto: uma via conduz através de um âmbito, abre-se a si mesma e abre aquele âmbito, sendo via então o caminho que conduz de longe de algo para algo, via como o estar-em-caminho (Unterwegs-sein). | ||
| + | |||
| + | 164. Se se deve determinar melhor o caráter de γένεσις da ϕύσις, é preciso esclarecer a motilidade dessa espécie de movimento, sendo a motilidade do movimento ἐνέργεια ἀτελής — o estar-em-obra ainda não chegado à sua finalidade. | ||
| + | * Como já dissemos, ἔργον, | ||
| + | * Na ϕύσις aquilo que está em caminho é a µορϕή (o instalar-se), | ||
| + | |||
| + | 165. A ϕύσις é ὁδὸς ἐκ ϕύσεως εἰς ϕύσιν — um estar-em-caminho daquilo que se põe à disposição de si mesmo como o que é a pro-duzir, de modo que o próprio instalar-se é da mesma espécie do que se põe e do que é a pro-duzir. | ||
| + | * Como não sermos tentados a crer que a ϕύσις seja, afinal, um modo de fazer-se-a-si-mesmo, | ||
| + | * Sennonché, no instante mesmo em que parece delinear-se uma correspondência entre ϕύσις e ἰατρική, | ||
| + | * Para corresponder à ϕύσις, a ἰατρική deveria ser ὁδὸς εἰς ἰατρικήν, | ||
| + | |||
| + | 166. A repetida tentativa de esclarecer a essência da ϕύσις mediante a correspondência com a τέχνη naufraga justamente agora em toda direção pensável, o que significa que devemos conceber a essência da ϕύσις partindo unicamente dela mesma, e que não nos é permitido violar o caráter surpreendente da ϕύσις como ὁδὸς ϕύσεως εἰς ϕύσιν através de correspondências e explicações precipitadas. | ||
| + | |||
| + | 167. Mas, mesmo depois de renunciar a recorrer à correspondência com a τέχνη, avança agora uma última " | ||
| + | * O que nasce e vem a estar nunca retorna àquilo de que provém, e isso porque a essência do nascer e do vir a estar é justamente o instalar-se no aspecto; na medida em que o instalar-se faz vir à presença o aspecto que se põe, e na medida em que porém o aspecto vem de cada vez à presença num "este aqui" individual que tem certo aspecto, segue-se que aquilo em que o nascer, o vir-a-estar, | ||
| + | |||
| + | 168. Certamente, ϕύσεως ὁδὸς εἰς ϕύσιν é um modo de vir a lume na presença, no qual permanece idêntico o de-onde, o para-onde e o como do apresentar-se, | ||
| + | * A imagem apenas espacial do girar é essencialmente insuficiente, | ||
| + | |||
| + | 169. Para satisfazer essa essência da ϕύσις como κίνησις há apenas a motilidade que é típica da µορϕή, dizendo por isso a tese decisiva, à qual tendia toda a consideração da essência da ϕύσις, em sua concisão: esse então, o instalar-se no aspecto, é a ϕύσις (193b18). | ||
| + | |||
| + | 170. No instalar-se como ἐνέργεια ἀτελής da γένσις desdobra sua essência (west) apenas o εἶδος, | ||
| + | |||
| + | 171. Com a tese de que "a µορϕή, e ela sozinha, realiza a essência da ϕύσις", | ||
| + | |||
| + | 172. Mas como isso se concilia com a tese que acabamos de tirar, que admite só um único τρόπος? | ||
| + | |||
| + | 173. O fato de que em geral sejam possíveis dois τρόποι de interpretação da ϕύσις, em referência tanto à µορϕή quanto à ὕλη, e que consequentemente seja possível um mal-entendido da ὕλη que leva a interpretá-la como o que é sem constituição e simplesmente e constantemente presente sob a mão, deve ter seu fundamento na essência da ϕύσις e, portanto, agora, na própria µορϕή. | ||
| + | |||
| + | **A dupla essência da ϕύσις: μορϕή e στέρησις** | ||
| + | |||
| + | 174. A esse fundamento Aristóteles remete na proposição seguinte, que conclui a interpretação da ϕύσις: mas o instalar-se no aspecto, e portanto também a ϕύσις, é chamado de dois modos; pois também a " | ||
| + | |||
| + | 175. O fundamento da possibilidade de considerar a ϕύσις sob duas perspectivas e chamá-la de dois modos está no fato de que a µορϕή, e portanto também a essência da própria ϕύσις, é em si dupla, sendo a tese da dupla essência da ϕύσις fundamentada pela observação acrescentada: | ||
| + | |||
| + | 176. Neste capítulo a στέρησις é introduzida como palavra, conceito e " | ||
| + | |||
| + | 177. Para esclarecer o último parágrafo da interpretação da ϕύσις é preciso responder a quatro perguntas: o que significa στέρησις? | ||
| + | |||
| + | 178. Quanto à primeira pergunta: traduzida literalmente, | ||
| + | |||
| + | 179. Aristóteles nos faz conhecer esse âmbito ao dizer que também a στέρησις é em certo modo um εἶδος; | ||
| + | |||
| + | 180. Os romanos traduziram στέρησις por privatio, considerada esta como uma espécie da negatio, podendo a negação ser entendida como um modo do dizer não, pertencendo assim a στέρησις ao âmbito do " | ||
| + | |||
| + | 181. Parece, aliás, que até Aristóteles concebe a στέρησις como um modo do dizer, podendo atestá-lo uma passagem que também serve para esclarecer a frase em questão da Física e, além disso, para aduzir o exemplo de uma στέρησις. | ||
| + | * No tratado Περὶ γενέσεως καὶ ϕθορᾶς, | ||
| + | * Aqui " | ||
| + | |||
| + | 182. Quando dizemos "a água está fria" ad-dizemos algo ao ente, certamente, mas isso ocorre de modo que, ao atribuir algo à água, no que é atribuído, é dis-dito o quente. | ||
| + | * No fundo, porém, na diferença entre quente e frio, o que está em questão não é a distinção entre ad-dizer e dis-dizer, mas o que, conforme ao próprio εἶδος, | ||
| + | * No frio se mostra algo, se apresenta algo, que por isso " | ||
| + | * Na στέρησις, | ||
| + | * Se refletirmos que οὐσία, | ||
| + | |||
| + | 183. Eis que chegamos agora a um ponto perigoso do entendimento; | ||
| + | |||
| + | 184. O que é então a στέρησις? | ||
| + | |||
| + | 185. Enquanto ausentar-se, | ||
| + | |||
| + | 186. Hoje somos demasiado inclinados a resolver um fenômeno como o apresentar-se do ausentar-se num fácil jogo dialético de conceitos, em vez de manter firme o que nele espanta; na στέρησις, | ||
| + | |||
| + | 187. Quanto à segunda pergunta: em que relação está a στέρησις com a µορϕή? O instalar-se no aspecto é κίνησις, | ||
| + | * Quando o vinho azeda e se torna vinagre, ele não se torna nada; é verdade que também dizemos que "a coisa azedou" | ||
| + | * A µορϕή como γένεσις é ὁδός, estar-em-caminho de um "ainda não" a um "já não mais", fazendo o instalar-se no aspecto sempre vir à presença de tal modo que no apresentar-se vem simultaneamente à presença um ausentar-se. | ||
| + | * Quando a flor "se abre" (ϕύει), caem as escamas do botão; o fruto faz sua aparição com o desaparecimento da flor; o instalar-se no aspecto, a µορϕή, tem o caráter da στέρησις, | ||
| + | |||
| + | 188. Quanto à terceira pergunta: em que sentido a essência da ϕύσις é dupla? Como ϕύσεως ὁδὸς εἰς ϕύσιν, a ϕύσις é uma espécie de ἐνέργεια, | ||
| + | * Mas nesse pôr-para-longe, | ||
| + | * Ao vir à vida, todo vivente já também começa a morrer, e vice-versa: o morrer é ainda um viver, porque só o vivente pode morrer; aliás, o morrer pode ser o " | ||
| + | |||
| + | 189. A ϕύσις é o pôr-para-longe de si mesma que produz a si mesma, e por isso lhe pertence um singular fornecer-se aquilo que, apenas por meio dela, se torna, a partir de algo disponível, | ||
| + | * Pode-se tomar esse algo adequado por si como algo disponível, | ||
| + | * Vista assim, a ϕύσις oferece dupla possibilidade de chamada, segundo a matéria e segundo a forma, tendo essa dupla chamada seu fundamento naquela originária e dupla essência da ϕύσις e, mais precisamente, | ||
| + | * A doutrina de Antifonte e de seus seguidores, que dura ininterrupta até hoje, capta apenas a extrema não-essência da ϕύσις, exibindo-a como a única essência autêntica, permanecendo tal exibição, de fato, a essência de toda não-essência. | ||
| + | |||
| + | 190. Quanto à quarta pergunta: o que resulta da duplicidade da ϕύσις para a determinação definitiva de sua essência? Resposta: a simplicidade de sua essência. | ||
| + | * Repensando o todo, temos agora duas determinações da essência da ϕύσις de que ganhamos o conceito: uma entende a ϕύσις como ἀρχὴ κινήσεως τοῦ κινουµένου καθ' | ||
| + | * Se pensarmos as duas determinações respectivamente numa, resulta da primeira que a ϕύσις não é senão a ἀρχὴ ϕύσεως, | ||
| + | * Considerada a partir da segunda determinação, | ||
| + | |||
| + | 191. A ϕύσις, ao contrário, é o apresentar-se do ausentar-se de si mesma, em caminho de si mesma a si mesma; enquanto é tal ausentar-se, | ||
| + | |||
| + | **A ϕύσις como um gênero do ser e o eco do início grego** | ||
| + | |||
| + | 192. Mas aqui, na Física, Aristóteles concebe a ϕύσις como a enticidade (οὐσία) de um particular âmbito (em si delimitado) do ente, o dos entes naturais em sua diferença dos artefatos, gerando-se respectivamente a seu modo de ser esses entes da ϕύσις, a propósito da qual Aristóteles diz justamente: ἓν γάρ τι γένος τοῦ ὄντος ἡ ϕύσις: um gênero do ser (entre outros) para o ente (que tem muitos gêneros) é a ϕύσις. | ||
| + | |||
| + | 193. Aristóteles diz isso num tratado que, posteriormente, | ||
| + | |||
| + | 194. O tratado que agora aparece como livro Γ (IV) da Metafísica dá em seu terceiro capítulo a indicação sobre a ϕύσις que agora reportamos e que coincide com o que, no primeiro capítulo do livro B da Física aqui interpretado, | ||
| + | |||
| + | 195. Sennonché, o próprio tratado da Metafísica, | ||
| + | |||
| + | 196. Antes, aquela frase quase não enunciada diretamente, | ||
| + | |||
| + | 197. Um eco fraquíssimo e quase irreconhecível daquela ϕύσις inicialmente projetada como ser do ente permaneceu ainda até hoje, se é verdade que também nós falamos da " | ||
| + | |||
| + | 198. Mas como devemos pensar a ϕύσις se quisermos pensá-la em seu sentido inicial? Há ainda vestígios de seu projeto nos fragmentos dos ditos dos pensadores dos inícios? Certamente, e não só vestígios, mas tudo o que disseram e que ainda podemos perceber fala, se tivermos o ouvido correto para entender, apenas da ϕύσις. | ||
| + | |||
| + | 199. Confirma-o indiretamente a má-essência (Unwesen), entretanto e há muito dominante, da interpretação histórica do pensamento grego dos inícios como " | ||
| + | |||
| + | 200. Como conclusão, pensemos, em vez disso, o dito de um pensador inicial que fala diretamente da ϕύσις e a entende como o ser do ente como tal em sua totalidade (cf. fragmento 1); o fragmento 123 de Heráclito (tirado de Porfírio) diz: ϕύσις κρύπτεσθαι ϕιλεῖ: | ||
| + | |||
| + | 201. Cabe perguntar o que isso significa: acreditou-se e ainda se acredita que queira dizer que o ser é de difícil acesso e que são necessários grandes esforços para tirá-lo de seu esconderijo e fazer com que perca a inclinação a esconder-se, | ||
| + | |||
| + | 202. Só o que por essência se des-vela (ent-birgt) e deve desvelar-se pode amar velar-se; só o que é desvelamento pode ser velamento, não se tratando, portanto, de superar o κρύπτεσθαι da ϕύσις e arrancá-lo dela, mas nos sendo atribuído algo bem mais árduo: deixar à ϕύσις, em toda a pureza de sua essência, o κρύπτεσθαι como algo a ela pertencente. | ||
| + | |||
| + | 203. Ser é o desvelar-se que se vela — ϕύσις no sentido inicial; desvelar-se é vir a lume na desveladura, | ||
| + | |||
| + | {{tag> | ||
