obra:ga9:fundamento
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| + | ===== 5 Essência do Fundamento ===== | ||
| + | //Resumo em tópicos// | ||
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| + | **Prefácio à terceira edição (1949)** | ||
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| + | 1. O tratado Da essência do fundamento foi composto em 1928 juntamente com a prolusão Que é metafísica?, | ||
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| + | 2. O nada é o " | ||
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| + | 3. Esse " | ||
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| + | 4. Cabe perguntar o que aconteceria se, finalmente, aqueles que refletem começassem a aceder, pensando, a essa mesma coisa que espera há vinte anos. | ||
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| + | 5. Aristóteles resume sua investigação sobre os múltiplos significados da palavra [[f> | ||
| + | * Ao lado dessa tríplice articulação dos " | ||
| + | * Embora πάντα τὰ αἴτια sejam reconhecidas como ἀρχαί, | ||
| + | * Aristóteles não se limitou a enumerar as " | ||
| + | |||
| + | 6. Não é possível aqui percorrer a história do problema do fundamento antes e depois de Aristóteles, | ||
| + | |||
| + | 7. Se é verdade que o problema do fundamento está em geral conexo às questões centrais da metafísica, | ||
| + | |||
| + | 8. Esse remissivo a Kant e Schelling basta para colocar em dúvida que o problema do fundamento coincida com o do " | ||
| + | |||
| + | 9. Toda clarificação essencial, enquanto filosófica, | ||
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| + | **I. O problema do fundamento** | ||
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| + | 10. O " | ||
| + | * Em sua formulação mais comum e breve, o princípio diz: nihil est sine ratione, nada é sem fundamento, e, em sua formulação positiva: omne ens habet rationem, todo ente tem um fundamento, fazendo assim uma asserção sobre o ente em referência a algo como seu " | ||
| + | * Também sob outro aspecto o " | ||
| + | |||
| + | 11. É preciso, portanto, colocar em questão o " | ||
| + | |||
| + | 12. Ainda que não lance luz sobre o fundamento como tal, o princípio de razão pode servir de ponto de partida para uma primeira conotação do problema do fundamento, sendo oportuno, para nosso propósito, assumi-lo na formulação e no papel que Leibniz primeiro lhe deu explicitamente, | ||
| + | |||
| + | 13. Enquanto formos obrigados a admitir não saber nada preciso sobre o conceito de " | ||
| + | |||
| + | 14. Citando o trecho fundamental das Primae veritates, no qual Leibniz afirma que o predicado está sempre contido no sujeito, sendo isso a natureza da verdade em geral, e que dessa consideração, | ||
| + | |||
| + | 15. Leibniz, segundo procedimento típico seu, conota as " | ||
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| + | 16. O que está em jogo nestas considerações não é a derivação do principium rationis, mas a exposição do problema do fundamento, cabendo perguntar se o trecho citado fornece um fio condutor para esse fim. | ||
| + | |||
| + | 17. O principium rationis subsiste porque, se não subsistisse, | ||
| + | |||
| + | 18. A essência da verdade reside na connexio (συμπλοκή) de sujeito e predicado, concebendo Leibniz desde o início a verdade como verdade da asserção (da proposição), | ||
| + | |||
| + | 19. A identidade enquanto essência da verdade da proposição não significa aqui a vazia identidade de uma coisa consigo mesma, mas a unidade entendida como união originária daquilo que é conectado, sendo a verdade um acordo que resulta apenas da concordância com o que, na identidade, se revela como um único todo, fazendo as " | ||
| + | |||
| + | 20. Em toda verdade, o conectar que expõe é o que é sempre sobre o fundamento de..., isto é, enquanto " | ||
| + | |||
| + | 21. Além dessa definição da essência da verdade como caráter da asserção, é possível obter algo mais originário, | ||
| + | |||
| + | 22. É preciso antes que o ente já seja manifesto como " | ||
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| + | 23. Conforme os diferentes modos e âmbitos do ente, mudam o caráter de sua possível evidência e os respectivos modos de sua interpretação, | ||
| + | |||
| + | 24. Por múltiplas que sejam as diferenças entre essas duas espécies de verdade ôntica, vale para toda evidência antepredicativa que o manifestar nunca tem primariamente o caráter de um mero representar (ou intuir), nem mesmo na contemplação " | ||
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| + | 25. A manifestação ôntica, por sua vez, ocorre num encontrar-se situado ([[lx> | ||
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| + | 26. Somente a desveladura ([[lx> | ||
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| + | 27. [[f> | ||
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| + | 28. O conceber conceitualmente o ser pressupõe que a compreensão do ser já tenha sido desenvolvida e que o ser nela compreendido, | ||
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| + | 29. Um grau característico é, por exemplo, o projeto da constituição de ser do ente, através do qual um campo determinado (natureza, história) é ao mesmo tempo delimitado como âmbito de uma possível objetivação pelo conhecimento científico, | ||
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| + | 30. A compreensão do ser do ente meramente presente sob a mão é aqui conceitualizada, | ||
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| + | 31. Os conceitos ontológicos originários devem ser adquiridos antes de qualquer definição dos conceitos científicos de base, pois somente a partir deles é possível estabelecer a que preço de restrições e através de que limitações, | ||
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| + | 32. O " | ||
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| + | 33. Os graus e variações possíveis da verdade ontológica, | ||
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| + | 34. A desvelacão do ser é sempre a verdade do ser do ente, seja este real ou não, havendo inversamente na desvelacão do ente já sempre também a de seu ser, concernindo a verdade ôntica e a ontológica, | ||
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| + | 35. A essência da verdade em geral, que assim necessariamente se bifurca em ôntica e ontológica, | ||
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| + | 36. Se se conota todo comportamento em relação ao ente como intencional, | ||
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| + | 37. Tratava-se até aqui apenas de mostrar, em poucos passos essenciais, que a essência da verdade deve ser buscada de modo mais originário do que permite a definição tradicional da verdade como propriedade das asserções, | ||
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| + | 38. Sendo originariamente unitária essa conexão de verdade, fundamento e transcendência, | ||
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| + | 39. Já o trecho de Leibniz citado revela a afinidade entre o problema do " | ||
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| + | 40. Aquilo que faz de um ens um ens é a " | ||
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| + | 41. A derivação leibniziana do principium rationis a partir da essência da verdade da proposição mostra assim que em sua base há uma precisa ideia do ser em geral, à luz da qual apenas aquela " | ||
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| + | 42. Embora nos escritos " | ||
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| + | 43. O que Kant diz do princípio de razão suficiente leibniziano — que é "um notável remissivo a pesquisas ainda por instituir em metafísica" | ||
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| + | 44. A breve exposição feita da derivação leibniziana do princípio de razão a partir da essência da verdade propunha-se esclarecer a conexão do problema do fundamento com a questão da possibilidade intrínseca da verdade ontológica, | ||
| + | |||
| + | **II. A transcendência como âmbito da questão da essência do fundamento** | ||
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| + | 45. Uma observação preliminar de ordem terminológica deve regular o uso da palavra " | ||
| + | * Formalmente pode-se entender o ultrapassamento como uma " | ||
| + | * Há, por fim, em todo ultrapassamento algo que é ultrapassado, | ||
| + | |||
| + | 46. Na acepção terminológica que aqui se pretende esclarecer e justificar, a transcendência significa algo próprio do ser-aí humano, não como um comportamento possível entre outros, às vezes efetuado, às vezes não, mas como constituição fundamental desse ente que precede qualquer comportamento, | ||
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| + | 47. Se quisermos chamar " | ||
| + | |||
| + | 48. O problema da transcendência jamais pode ser discutido como se se tratasse de decidir se a transcendência pode ou não competir ao sujeito, pois compreender a transcendência já é decidir se em geral temos um conceito adequado de " | ||
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| + | 49. Certamente, com a caracterização da transcendência como estrutura fundamental da " | ||
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| + | 50. O ser-aí que transcende (expressão já de si tautológica) não ultrapassa nem uma " | ||
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| + | 51. Aquilo que é ultrapassado é justamente e somente o próprio ente, isto é, qualquer ente que possa ser ou vir a ser desvelado ao ser-aí, e portanto também e justamente aquele ente que "ele mesmo" é enquanto existe. | ||
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| + | 52. No ultrapassamento, | ||
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| + | 53. Na medida em que o ser-aí existe como si mesmo, e só nessa medida, pode ele comportar-" | ||
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| + | 54. Os entes que num ser-aí resultam de cada vez ultrapassados não são os que se encontraram casualmente juntos, sendo antes ultrapassado desde o início o ente em sua totalidade, qualquer que seja sua determinação e articulação particular, podendo essa totalidade nem ser reconhecida como tal, embora seja sempre interpretada a partir do ente, e geralmente a partir de um âmbito decisivo do ente, resultando assim ao menos conhecida. | ||
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| + | 55. O ultrapassamento ocorre na totalidade, e nunca ora sim ora não, por exemplo apenas e principalmente como apreensão teorética de objetos, mas antes, pelo fato de o ser-aí haver, há o ultrapassamento. | ||
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| + | 56. Se o ente não é aquilo em relação a que se dá o ultrapassamento, | ||
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| + | 57. O mundo é constitutivo da estrutura unitária da transcendência, | ||
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| + | 58. O significado da palavra " | ||
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| + | 59. Para Kant o transcendental se refere à " | ||
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| + | 60. A uma compreensão mais radical e universal da essência da transcendência deve necessariamente acompanhar-se, | ||
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| + | 61. A expressão " | ||
| + | |||
| + | 62. A transcendência, | ||
| + | |||
| + | 63. " | ||
| + | |||
| + | 64. Se " | ||
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| + | 65. Se, ao contrário, é com direito que o ser-no-mundo é atribuído exclusivamente ao ser-aí, e precisamente como sua constituição essencial, essa expressão não pode ter o significado acima referido, significando então também o mundo algo diverso da totalidade dos entes simplesmente presentes. | ||
| + | |||
| + | 66. Atribuir ao ser-aí o ser-no-mundo como sua constituição essencial significa afirmar algo sobre sua essência (isto é, sobre sua mais própria e intrínseca possibilidade enquanto ser-aí), não podendo se considerar aqui como instância decisiva se de fato existe ou não um ser-aí e qual ele seja. | ||
| + | |||
| + | 67. O discurso sobre o ser-no-mundo não é uma constatação sobre o subsistir efetivo do ser-aí, não sendo de modo algum uma asserção ôntica, referindo-se antes a um estado essencial que determina o ser-aí em geral, tendo por isso o caráter de uma tese ontológica. | ||
| + | |||
| + | 68. Não diremos, portanto, que o ser-aí é um ser-no-mundo porque, e apenas porque, existe efetivamente, | ||
| + | |||
| + | 69. A afirmação de que o ser-aí efetivo está em um mundo (isto é, aparece entre os demais entes) revela-se uma vazia tautologia, mostrando-se falsa a asserção segundo a qual pertence à essência do ser-aí o fato de estar no mundo (e de necessariamente aparecer "ao lado" dos demais entes), contendo a tese de que ao ser-aí como tal pertence o ser-no-mundo o problema da transcendência. | ||
| + | |||
| + | 70. Essa tese é originária e simples, mas disso não decorre a simplicidade de sua descoberta, embora o ser-no-mundo possa ser compreendido conceitualmente (ainda que sempre de modo relativo) apenas após uma fase preparatória, | ||
| + | |||
| + | 71. As características do ser-no-mundo até aqui descritas determinam a transcendência do ser-aí apenas de modo negativo, pertencendo à transcendência o mundo como aquilo em relação a que ocorre o ultrapassamento, | ||
| + | |||
| + | 72. Para nos orientarmos no fenômeno transcendental do mundo, ilustraremos primeiro, ainda que de modo necessariamente lacunar, os significados fundamentais que emergem na história do conceito de mundo, pois, para conceitos tão elementares, | ||
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| + | 73. Já nos inícios decisivos da filosofia antiga vem à luz algo essencial: [[f> | ||
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| + | 74. O mundo, sendo esse " | ||
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| + | 75. Outro traço essencial do κόσμος é reconhecido por Heráclito, para quem há, para os que estão despertos, um mundo único e portanto comum, enquanto os que dormem se voltam cada um para um mundo próprio, colocando-se aqui o mundo em relação aos modos fundamentais em que o ser-aí humano efetivamente existe: na vigília o ente se manifesta num " | ||
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| + | 76. Dessas indicações sumárias já é possível constatar várias coisas: o mundo designa um " | ||
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| + | 77. Assim como é possível condensar nesses significados a compreensão ainda pouco explícita e auroral do κόσμος, | ||
| + | |||
| + | 78. Não é por acaso que, em conexão com a nova compreensão ôntica da existência que se afirma no cristianismo, | ||
| + | |||
| + | 79. Κόσμος oὗτος significa em Paulo não apenas e não primariamente o estado de coisas do " | ||
| + | |||
| + | 80. O Evangelho de João emprega o conceito de κόσμος com frequência incomum, sobretudo em relação aos Sinóticos, conferindo-lhe ao mesmo tempo significado central: mundo designa a forma fundamental do ser-aí humano que habita longe de Deus, sendo então o próprio caráter puro e simples do ser humano, designando também a região que hospeda todos os homens juntos, sem distinção entre sábios e tolos, justos e pecadores, judeus e pagãos, manifestando-se o significado central desse conceito antropológico de mundo no fato de que ele funciona como conceito contraposto à filiação divina de Jesus, cuja divindade é por sua vez concebida como vida ([[f> | ||
| + | |||
| + | 81. A marca que o significado de κόσμος recebe no Novo Testamento se reencontra de modo inconfundível, | ||
| + | |||
| + | 82. Agostinho deve ter extraído esse conceito de mundo, destinado a influenciar toda a história espiritual do Ocidente, tanto de Paulo quanto do Evangelho de João, confirmando-o o trecho do Tractatus in Joannis Evangelium onde interpreta o mundus do Prólogo joanino, mostrando que nos dois casos em que o termo aparece — " | ||
| + | |||
| + | 83. No trecho citado, Agostinho explica que céu, terra, mar e tudo o que neles há chama-se mundo em um sentido, enquanto em outro sentido chamam-se mundo os amantes do mundo (dilectores mundi), não sendo os que não conheceram o Criador nem o céu, nem os anjos, nem os astros, mas aqueles que, amando o mundo, foram por ele chamados, pois pelo amor habitamos de coração naquilo que amamos, como se diz má ou boa uma casa não pelas paredes, mas pelos que nela habitam. | ||
| + | |||
| + | 84. Mundo significa, portanto, o ente em sua totalidade, precisamente no sentido do " | ||
| + | |||
| + | 85. Sem nos determos no conceito de mundo de Leibniz, consideremos a determinação do mundo na metafísica da escola leibniziano-wolffiana, | ||
| + | |||
| + | 86. Isso se torna particularmente claro em Crusius, que define o conceito de mundo como uma conexão real de coisas finitas, tal que não seja por sua vez parte de outra a que pertenceria por efeito de uma conexão real, contrapondo-se assim ao mundo o próprio Deus, distinguindo-se ainda o mundo de uma " | ||
| + | |||
| + | 87. As determinações essenciais de um mundo assim definido devem poder ser deduzidas de dupla fonte: aquilo que deriva da essência geral das coisas, e tudo aquilo que, com a posição de certas criaturas, pode ser reconhecido como necessário com base nas propriedades essenciais de Deus, sendo por isso a " | ||
| + | |||
| + | 88. Se o conceito de mundo funciona assim como conceito fundamental da metafísica (da cosmologia racional enquanto disciplina da metafísica especial), e se a Crítica da razão pura de Kant constitui uma fundação da metafísica em sua totalidade, o problema do conceito de mundo deverá aqui assumir forma diversa correspondente à modificação da ideia de metafísica, | ||
| + | |||
| + | 89. Já na Dissertação de 1770, onde a definição introdutória do conceito de mundus ainda se move em parte na órbita da metafísica ôntica tradicional, | ||
| + | * Kant começa a discussão do conceito de mundo com uma determinação formal do que se entende pelo termo " | ||
| + | * No §2, Kant indica os " | ||
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| + | 90. Essa " | ||
| + | |||
| + | 91. As respostas de Kant a essas questões, que ele não formula em termos tão explícitos, | ||
| + | |||
| + | 92. A finitude das coisas meramente presentes sob a mão não é determinada a partir de uma prova ôntica de sua criação por Deus, mas estabelecida com base no fato de que, e na medida em que, as coisas são objeto possível de um conhecimento finito, tal que deve deixar-se antes de tudo dar as coisas como já presentes, chamando Kant de " | ||
| + | |||
| + | 93. A unidade da conexão dos fenômenos, isto é, a constituição de ser dos entes acessível a um conhecimento finito, é determinada pelos princípios ontológicos, | ||
| + | |||
| + | 94. Trata-se de uma realidade objetiva representável com base nos objetos, sendo, contudo, a unidade dos fenômenos, por depender necessariamente de seu ser dado — o que é de fato contingente — sempre condicionada e fundamentalmente incompleta, surgindo, ao se representar essa unidade da multiplicidade dos fenômenos como completa, a representação de uma totalidade cujo conteúdo (realidade) não é em princípio projetável numa imagem, isto é, em algo intuível. | ||
| + | |||
| + | 95. Essa representação é " | ||
| + | |||
| + | 96. A unidade e a totalidade representadas nas ideias, por nunca poderem "ser projetadas numa imagem", | ||
| + | |||
| + | 97. Enquanto conceitos puros da razão, as ideias não brotam da reflexão do intelecto, ainda referida ao dado, mas do procedimento puro da razão enquanto ela deduz, chamando por isso Kant as ideias de conceitos " | ||
| + | |||
| + | 98. Enquanto conceitos racionais puros da totalidade, as ideias são, portanto, representações do incondicionado, | ||
| + | |||
| + | 99. Como representações da totalidade incondicionada de um âmbito do ente, as ideias são representações necessárias, | ||
| + | |||
| + | 100. O conceito de mundo é, portanto, aquela ideia em que se representa a priori a totalidade absoluta dos objetos acessíveis a um conhecimento finito, significando mundo ou o " | ||
| + | |||
| + | 101. O ente acessível ao conhecimento finito pode, porém, ser considerado ontologicamente tanto quanto à sua essência ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 102. Kant considera, porém, " | ||
| + | |||
| + | 103. Nessa observação vem à luz não apenas a conexão do conceito kantiano de mundo com a metafísica tradicional, | ||
| + | * O conceito de mundo não é uma conexão ôntica das coisas em si, mas um conjunto transcendental (ontológico) das coisas como fenômenos. | ||
| + | * No conceito de mundo não se representa uma " | ||
| + | * O conceito de mundo não é representação " | ||
| + | |||
| + | 104. Nega-se assim ao conceito de mundus também o caráter, antes atribuído, de universitas (totalidade), | ||
| + | |||
| + | 105. Cabe aqui renunciar a prosseguir na interpretação desse momento supremo da metafísica especulativa de Kant, restando lembrar apenas uma coisa, para fazer emergir de modo ainda mais claro o caráter essencial do conceito de mundo: a finitude. | ||
| + | |||
| + | 106. Enquanto ideia, o conceito de mundo é a representação de uma totalidade incondicionada, | ||
| + | |||
| + | 107. A transcendência, | ||
| + | |||
| + | 108. É nessa transcendência que nasce o ideal transcendental, | ||
| + | |||
| + | 109. Daí se abre a possibilidade de se fazer ideia do segundo significado possível do conceito de mundo em Kant, além do " | ||
| + | |||
| + | 110. Kant afirma que o objeto mais importante no mundo, ao qual o homem pode aplicar todos os progressos da cultura, é o próprio homem, porque ele é o fim último de si mesmo, chamando-se especialmente de conhecimento do mundo o conhecê-lo segundo sua espécie, isto é, como ser terrestre dotado de razão, ainda que o homem seja apenas uma parte da criação terrestre. | ||
| + | |||
| + | 111. Chama-se aqui, portanto, conhecimento do mundo o conhecimento do homem com referência " | ||
| + | |||
| + | 112. Tal antropologia, | ||
| + | |||
| + | 113. Que " | ||
| + | * Embora as duas expressões se refiram ambas à existência do homem, têm significado diferente, pois o primeiro (quem conhece o mundo) limita-se a compreender o jogo do qual foi espectador, enquanto o outro participou do jogo, significando aqui mundo o " | ||
| + | * Correspondentemente, | ||
| + | |||
| + | 114. Desse " | ||
| + | * No sentido escolar, a filosofia permanece assunto do mero " | ||
| + | * No sentido do conceito de mundo, a filosofia é tarefa do " | ||
| + | |||
| + | 115. Em tudo isso, mundo é o termo que denota o ser-aí humano no núcleo de sua essência, correspondendo esse conceito de mundo perfeitamente ao conceito existentivo de Agostinho, com a diferença de que caiu a avaliação especificamente cristã do ser-aí " | ||
| + | |||
| + | 116. O significado existentivo do conceito de mundo, lembrado por último em Kant, é atestado pela expressão " | ||
| + | |||
| + | 117. É, portanto, errado assumir a expressão mundo para designar a totalidade das coisas naturais (conceito naturalista de mundo) ou para denotar a comunidade dos homens (conceito personalista de mundo), sendo antes o que há de metafisicamente essencial no significado mais ou menos claramente estabelecido de κόσμος, | ||
| + | |||
| + | 118. Por razões que aqui não se podem discutir, a elaboração do conceito de mundo esbarra antes de tudo no significado segundo o qual o mundo designa o " | ||
| + | |||
| + | 119. Como deveriam ter mostrado os remissivos históricos, | ||
| + | |||
| + | 120. O ser-aí humano — isto é, o ente que se sente situado em meio ao ente e se comporta em relação ao ente — existe de tal modo que o ente lhe é sempre manifesto em sua totalidade, não significando isso que a totalidade deva ser concebida em sentido próprio, podendo sua pertença ao ser-aí permanecer oculta, assim como pode variar a amplitude desse todo. | ||
| + | |||
| + | 121. A totalidade é compreendida mesmo sem que todo o ente manifesto seja captado expressamente ou examinado "de modo completo" | ||
| + | |||
| + | 122. Trata-se agora de tentar uma interpretação mais concreta do fenômeno do mundo, a qual resultará da resposta a duas perguntas: qual é o caráter fundamental da totalidade assim caracterizada, | ||
| + | |||
| + | 123. Como totalidade, o mundo não " | ||
| + | |||
| + | 124. No ser desse ente está em jogo seu poder-ser, sendo o ser-aí tal que existe em vista de si, mas, se é apenas no ultrapassamento em direção ao mundo que se matura a ipseidade, o mundo se revela então como aquilo em vista de que o ser-aí existe, sendo o caráter fundamental do mundo o "em vista de..." (Umwillen von...), naquele sentido originário pelo qual ele fornece a possibilidade intrínseca de todo efetivo "em vista de ti", "em vista dele", "em vista de algo" etc., que de fato se determinam. | ||
| + | |||
| + | 125. Aquilo em vista de que o ser-aí existe é ele mesmo, pertencendo à ipseidade o mundo, que é por essência referido ao ser-aí. | ||
| + | |||
| + | 126. Antes de tentar formular novas perguntas sobre a essência dessa referência e de interpretar o ser-no-mundo a partir do "em vista de" como caráter primário do mundo, é preciso eliminar alguns prováveis mal-entendidos sobre o que foi dito. | ||
| + | |||
| + | 127. A afirmação de que o ser-aí existe em vista de si não implica nenhuma finalidade egoísta de tipo ôntico, um cego amor-próprio dos homens efetivos singulares, não podendo, portanto, ser " | ||
| + | |||
| + | 128. Não há em nossa tese nada que implique um isolamento solipsista do ser-aí ou sua exaltação egoísta, colocando ela, ao contrário, a condição de possibilidade para que o homem possa comportar-" | ||
| + | |||
| + | 129. A ipseidade é o pressuposto da possibilidade da egoidade, a qual só se abre no tu, não sendo, porém, a ipseidade jamais referida ao tu, pois, sendo aquilo que torna tudo isso possível, permanece neutra em relação ao ser-eu e ao ser-tu, e mais ainda em relação à " | ||
| + | |||
| + | 130. Como se determina então o referimento do ser-aí ao mundo? Não podendo, já que o mundo não é um ente mas pertence ao ser-aí, esse referimento ser pensado como relação entre o ser-aí tomado como ente e o mundo tomado como outro ente, cabe perguntar se o mundo não seria então absorvido no ser-aí (isto é, no sujeito) e figurado como algo puramente " | ||
| + | |||
| + | 131. Na verdade, só um esclarecimento da transcendência pode nos permitir determinar o que significam " | ||
| + | |||
| + | 132. O mundo, sendo sempre a totalidade do "em vista de" próprio de um ser-aí, é por este trazido diante de si, sendo esse trazer-diante-de-si o mundo o projeto originário das possibilidades do ser-aí, na medida em que este, em meio ao ente, deve poder comportar-se em relação a ele. | ||
| + | |||
| + | 133. O projeto ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 134. O acontecer desse projeto que vai além do ente, no qual se matura o ser do ser-aí, é o ser-no-mundo, | ||
| + | |||
| + | 135. O ente, por exemplo a natureza em sentido mais amplo, não poderia de modo algum manifestar-se se não encontrasse a ocasião de entrar num mundo, sendo essa a razão por que falamos de um possível e ocasional ingresso do ente no mundo, não sendo esse ingresso um processo interno ao ente que entra no mundo, mas algo que " | ||
| + | |||
| + | 136. Só quando, na totalidade do ente, o ente "se faz mais ente" no modo da maturação ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 137. A clarificação da transcendência até aqui conduzida já deixa entender que, se somente na transcendência o ente pode vir à luz enquanto ente, a transcendência representa um âmbito privilegiado para a elaboração de todas as questões concernentes ao ente enquanto tal, isto é, ao ente em seu ser, sendo necessário, | ||
| + | |||
| + | 138. Em Platão fala-se expressamente da transcendência quando se trata do ἐπέκεινα τῆς oὐσίας, | ||
| + | |||
| + | 139. O problema do ἀγαθόν é apenas o ponto culminante da questão central e concreta relativa à possibilidade fundamental da existência do ser-aí na [[f> | ||
| + | |||
| + | 140. Como projeto que desvela o ser, essa compreensão é a ação originária da existência humana, na qual todo o existir em meio ao ente deve estar radicado, sendo o ἀγαθόν aquela [[f> | ||
| + | |||
| + | 141. Não por acaso o ἀγαθόν é indeterminado em conteúdo, de modo que todas as definições e interpretações que o dizem respeito estão destinadas a naufragar, fracassando tanto as explicações racionalistas quanto a fuga " | ||
| + | |||
| + | 142. Para reconduzir a questão à possibilidade intrínseca dessa conexão, vê-se-se " | ||
| + | |||
| + | 143. Como o possível habita mais alto que o real, ἡ τοῦ ἀγαθοῦ ἕξις é a fonte essencial da possibilidade, | ||
| + | |||
| + | 144. Conforme a doutrina tornada tradicional, | ||
| + | |||
| + | 145. Mais tarde surge ainda a tendência, já prefigurada por Platão no " | ||
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| + | 146. As ideias valem como mais objetivas que os objetos e ao mesmo tempo como mais subjetivas que o sujeito, encontrando-se, | ||
| + | |||
| + | 147. Dessa rápida evocação da história ainda obscura do problema originário da transcendência deve resultar a cognição de que a transcendência não pode ser descoberta e compreendida por meio de uma fuga para o objetivo, mas unicamente através de uma interpretação ontológica da subjetividade do sujeito, a ser continuamente renovada, que, de um lado, se oponha ao " | ||
| + | |||
| + | **III. Da essência do fundamento** | ||
| + | |||
| + | 148. A discussão do " | ||
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| + | 149. Em que sentido reside na transcendência a possibilidade intrínseca de algo como o fundamento em geral? O mundo se dá ao ser-aí como a respectiva totalidade do "em vista de" si mesmo, isto é, "em vista de" um ente que é de modo igualmente originário: | ||
| + | |||
| + | 150. Desse modo o ser-aí só pode estar em relação consigo mesmo enquanto tal se ultrapassa "a si mesmo" no "em vista de", acontecendo esse ultrapassamento "em vista de" apenas numa " | ||
| + | |||
| + | 151. Todos os comportamentos estão radicados na transcendência, | ||
| + | |||
| + | 152. Segue-se que a transcendência não se depara com o "em vista de" como um valor ou fim subsistentes por si, mas é a liberdade, justamente enquanto liberdade, que propõe a si mesma o "em vista de", acontecendo nesse autopropor-se transcendente o "em vista de" o ser-aí no homem, de modo que este, na essência de sua existência, | ||
| + | |||
| + | 153. Aqui a liberdade se revela ao mesmo tempo como aquilo que torna possível o vínculo e a obrigatoriedade em geral, podendo só a liberdade deixar que ao ser-aí se imponha (walten) e se faça mundo (welten) um mundo, pois o mundo nunca é, mas se faz mundo. | ||
| + | |||
| + | 154. Há, nessa interpretação da liberdade alcançada a partir da transcendência, | ||
| + | |||
| + | 155. Essa conotação, | ||
| + | |||
| + | 156. Mas a ipseidade desse si mesmo já subjacente a toda espontaneidade habita na transcendência, | ||
| + | |||
| + | 157. Sobretudo, a interpretação da liberdade como " | ||
| + | |||
| + | 158. Chamamos de fundar a relação originária da liberdade com o fundamento, dando e tomando fundamento a liberdade ao fundar, sendo esse fundar radicado na transcendência disseminado em muitos modos, havendo três: o fundar no sentido de instituir ([[lx> | ||
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| + | 159. Se esses modos de fundar pertencem à transcendência, | ||
| + | |||
| + | 160. Colocamos intencionalmente em " | ||
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| + | 161. Se determinamos como transcendência esse livre deixar que um mundo se imponha, e se também os outros modos de fundar pertencem necessariamente ao projeto de um mundo entendido como fundar, decorre que nem a transcendência nem a liberdade foram até agora determinadas completamente, | ||
| + | |||
| + | 162. O "em vista de" projetado no projeto remete à totalidade do ente que pode ser descoberto nesse horizonte mundano, pertencendo a essa totalidade do ente sempre, qualquer que seja seu grau de demarcação e explícita formulação, | ||
| + | |||
| + | 163. Mas no projeto de um mundo esse ente ainda não é manifesto em si mesmo, e não poderia senão permanecer oculto, se o ser-aí projetante, justamente enquanto projetante, já não se encontrasse em meio a esse ente, não significando esse "estar em meio a..." um simples estar entre os demais entes, nem dirigir-se expressamente a eles comportando-se em relação a eles, pertencendo antes esse "estar em meio a..." à transcendência. | ||
| + | |||
| + | 164. Aquele que ultrapassa e assim se eleva deve, enquanto tal, sentir-se situado no ente, estando o ser-aí, ao sentir-se assim, a tal ponto envolvido pelo ente que dele faz parte e por ele é permeado em seu estado de ânimo, dizendo-se então transcendência um projeto de mundo tal que o projetante é também já dominado em seu estado de ânimo pelo ente que ultrapassa. | ||
| + | |||
| + | 165. Porque a transcendência comporta esse envolvimento no ente, o ser-aí toma terreno no ente e assim encontra " | ||
| + | |||
| + | 166. Assim como o futuro, embora precedendo " | ||
| + | |||
| + | 167. Enquanto é aquele ente que é, o ser-aí não poderia ser permeado em seu estado de ânimo pelo ente, e portanto não poderia, por exemplo, ser circundado, tomado e percorrido por ele — faltando-lhe para tudo isso o espaço de ação — se ao seu envolvimento no ente não se acompanhasse a abertura, ou ao menos o alvorecer, de um mundo. | ||
| + | |||
| + | 168. O mundo assim desvelado pode ser pouco ou nada transparente do ponto de vista conceitual, podendo mesmo ser entendido como um ente entre outros, podendo faltar um saber explícito sobre o transcender do ser-aí, podendo a liberdade do ser-aí que implica o projeto de um mundo estar apenas mal desperta, e ainda assim o ser-aí está envolvido no ente apenas enquanto ser-no-mundo, | ||
| + | |||
| + | 169. Sendo o fundar que institui o projeto das próprias possibilidades, | ||
| + | |||
| + | 170. Com isso já ficam subtraídas ao ser-aí determinadas outras possibilidades, | ||
| + | |||
| + | 171. A subtração confere à obrigatoriedade do pró-jeto projetado que permanece a potência de seu dominar no âmbito da existência do ser-aí, sendo a transcendência, | ||
| + | |||
| + | 172. Para a interpretação dos diferentes modos de fundar a liberdade é antes de tudo essencial perceber a unidade dos modos de fundar até aqui discutidos, que vem à luz no recíproco acordar-se de lançar-se adiante e subtração. | ||
| + | |||
| + | 173. O ser-aí, portanto, é um ente que não só se sente situado em meio ao ente, mas que também se comporta em relação ao ente, e portanto também em relação a si mesmo, sendo esse comportar-se em relação ao ente considerado antes de tudo e na maioria das vezes até mesmo como equivalente à transcendência. | ||
| + | |||
| + | 174. Por mais que isso seja um desconhecimento da essência da transcendência, | ||
| + | |||
| + | 175. O projeto de um mundo torna possível — ainda que aqui não se possa mostrá-lo — uma compreensão preventiva do ser do ente, mas ele mesmo não é um referimento do ser-aí ao ente, não sendo tampouco, por sua vez, o envolvimento — pelo qual o ser-aí se sente situado em meio ao ente e por ele permeado em seu estado de ânimo (e isso nunca sem um desvelamento do mundo) — um comportamento em relação ao ente. | ||
| + | |||
| + | 176. Ambos são, contudo, necessários, | ||
| + | |||
| + | 177. Aqui "dar fundação" | ||
| + | |||
| + | 178. Isso não significa, portanto, buscar as motivações por que de fato surge no ser-aí o problema do " | ||
| + | |||
| + | 179. O fundar que institui prospecta, enquanto projeto de um mundo, possibilidades da existência, | ||
| + | |||
| + | 180. No projeto de um mundo é dado um lançar-se adiante de algo possível, em relação ao qual, no estar dominado pelo ente (pelo real) que no sentir-nos situados nos circunda, surge o " | ||
| + | |||
| + | 181. Como os dois modos de fundar acima elencados na transcendência formam um todo único, o surgimento do " | ||
| + | |||
| + | 182. Mas seja como for expresso, no " | ||
| + | |||
| + | 183. A compreensão do ser, como resposta mais preventiva em absoluto, representa a primeira e última fundação, sendo a transcendência enquanto tal quem dá fundação, significando, | ||
| + | |||
| + | 184. Essa fundação está assim "à base" de todo comportar-se em relação ao ente, de tal modo que só na clareza da compreensão do ser o ente pode manifestar-se em si mesmo (isto é, como aquele ente que é, e tal como é), sendo, porém, todo manifestar-se do ente (verdade ôntica), desde o início, dominado de modo transcendental pela fundação indicada, devendo consequentemente todo descobrir e abrir de tipo ôntico ser a seu modo " | ||
| + | |||
| + | 185. Nessa demonstração se cumpre a apresentação do ente, exigida de cada vez pelo respectivo "que é" e "como é" deste último e pelo correspondente tipo de desvelamento (ou verdade), pelo qual o ente se anuncia como " | ||
| + | |||
| + | 186. Porque a transcendência do ser-aí dá fundação projetando, sentindo-se situada e desenvolvendo uma compreensão do ser, e porque, na unidade da transcendência, | ||
| + | |||
| + | 187. Em consequência dessa origem da fundação e, portanto, também da demonstração, | ||
| + | |||
| + | 188. Embora na transcendência haja sempre um desvelamento do ser, não há por isso necessidade de uma apreensão ontológico-conceitual, | ||
| + | |||
| + | 189. A transcendência, | ||
| + | |||
| + | 190. O acontecer da transcendência enquanto fundar é a formação do espaço em que irrompe o respectivo efetivo manter-se do ser-aí efetivo em meio ao ente em sua totalidade. | ||
| + | |||
| + | 191. Isso significará, | ||
| + | |||
| + | 192. A originariedade dos fundamentos transcendentais e seu caráter específico de fundamento permanecem ainda ocultos sob a caracterização formal de princípios " | ||
| + | |||
| + | 193. A essência " | ||
| + | |||
| + | 194. Só por essa razão o primeiríssimo perguntar pela essência do fundamento aparece entrelaçado com a tarefa de uma clarificação da essência do ser e da verdade. | ||
| + | |||
| + | 195. Não restaria ainda perguntar por que os três elementos que juntos determinam a transcendência são designados do mesmo modo como " | ||
| + | |||
| + | 196. No plano desta exposição não se pode esclarecer o significado em que os três modos indissociáveis de fundar se correspondem de modo unitário e, no entanto, ramificado, bastando, a título indicativo, observar que instituir, tomar terreno e dar fundação brotam sempre, cada um a seu modo, do cuidado da estabilidade ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 197. Afastando-nos intencionalmente desse âmbito de problemas para voltar ao ponto de partida de nossa pesquisa, devemos agora discutir brevemente se com a tentada clarificação da " | ||
| + | |||
| + | 198. O princípio diz: todo ente tem sua razão, seu fundamento, ficando esclarecido, | ||
| + | |||
| + | 199. O princípio de razão vale para o ente porque o " | ||
| + | |||
| + | 200. É então claro que o "lugar de nascimento" | ||
| + | |||
| + | 201. Partindo dessa origem, não só compreendemos o princípio em sua possibilidade intrínseca, | ||
| + | |||
| + | 202. Recolhidas esquematicamente, | ||
| + | |||
| + | 203. Toda demonstração se move necessariamente num âmbito do possível, porque, enquanto comportamento intencional em relação ao ente, já está submetida, quanto à sua possibilidade, | ||
| + | |||
| + | 204. Isso ocorre porque o ser (a constituição do ser) que funda, sendo para o ser-aí vínculo transcendental, | ||
| + | |||
| + | 205. Em sua forma e papel tradicionais, | ||
| + | |||
| + | 206. Cabe aqui ainda observar que os próprios princípios de identidade e de não contradição não só são também eles transcendentais, | ||
| + | |||
| + | 207. E assim, justamente o princípio de razão impera com sua má-essência ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 208. O fundamento tem sua má-essência porque brota da liberdade finita, não podendo esta subtrair-se ao que assim brota de si mesma, dobrando-se sobre a própria liberdade o fundamento que brota transcendendo, | ||
| + | |||
| + | 209. Isso, evidentemente, | ||
| + | |||
| + | 210. Mas, enquanto é esse fundamento, a liberdade é o fundo abissal ([[lx> | ||
| + | |||
| + | 211. Mas o ser-aí, ao ultrapassar o ente em seu projeto de um mundo, deve ultrapassar a si mesmo para poder, dessa altura, compreender-se como fundo abissal, não sendo, por sua vez, essa abissalidade do ser-aí algo que se possa oferecer a uma dialética ou a uma análise psicológica. | ||
| + | |||
| + | 212. O abrir-se do fundo abissal na transcendência fundante é antes o movimento originário que realiza conosco a liberdade, e por isso "nos dá a entender", | ||
| + | |||
| + | 213. Se a transcendência, | ||
| + | |||
| + | 214. Embora se sinta situado em meio ao ente e por ele seja impregnado em seu estado de ânimo, o ser-aí é, como livre poder-ser, lançado entre o ente, não estando em poder dessa liberdade o fato de que o ser-aí seja em potência um si mesmo, e que efetivamente de cada vez o seja em correspondência a sua liberdade, o fato de que a transcendência se matura como acontecer originário. | ||
| + | |||
| + | 215. Essa impotência (o ser-lançado) não é, porém, apenas resultado da pressão do ente sobre o ser-aí, mas determina o ser do ser-aí como tal, sendo todo projeto de um mundo, portanto, um projeto lançado, devendo a clarificação da essência da finitude do ser-aí, que parte da constituição de seu ser, preceder todas as posições " | ||
| + | |||
| + | 216. A essência da finitude do ser-aí se desvela na transcendência como liberdade de fundamento. | ||
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| + | 217. E assim o homem, que como transcendência existente se lança adiante em direção a possibilidades, | ||
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