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| + | ===== Techne ===== | ||
| + | //DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.// | ||
| + | **Tékhnē no [[p> | ||
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| + | 1. A investigação do conceito de [[lx> | ||
| + | * O problema central consiste em determinar o que propriamente caracteriza a tékhnē platônica. | ||
| + | * A análise articula quatro momentos: a definição heideggeriana, | ||
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| + | 2. A interpretação heideggeriana toma a tékhnē como uma modalidade de “saber-como” orientada para o poiēton, aquilo que ainda precisa ser produzido e que, portanto, se encontra a caminho de vir a ser. | ||
| + | * Todo saber-como produtivo conduz a realização de algo que ainda não está pronto e se move no domínio dos entes em processo de geração. | ||
| + | * A atividade guiada pela tékhnē possui sempre a estrutura de uma preparação “em vista de” determinado resultado. | ||
| + | * Os entes próprios da tékhnē são, nesse sentido, esomena, aquilo que virá a ser. | ||
| + | * O objeto último da tékhnē é o poiēton ou [[f> | ||
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| + | 3. A explicação heideggeriana de Aristóteles situa a tékhnē em relação à arkhē e ao aletheuein, fazendo dela um dos modos pelos quais algo pode ser desvelado e tornar-se acessível em sua determinação própria. | ||
| + | * A tékhnē constitui o solo sobre o qual algo como o [[f> | ||
| + | * O [[lx> | ||
| + | * O epistemonikon compreende [[f> | ||
| + | * A tékhnē participa, portanto, de uma estrutura de desvelamento e não pode ser reduzida a mera habilidade manual. | ||
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| + | 4. Embora a tékhnē se oponha aos demais modos de aletheuein por sua especificidade, | ||
| + | * A empeiria forma-se pela acumulação temporal de experiências e é aproximada por Heidegger da dynamis. | ||
| + | * O tekhnites, em contraste com o empeiros, não depende apenas da repetição empírica de procedimentos, | ||
| + | * Por possuir logos e ser capaz de dar razão da gênese de seu objeto, a tékhnē aproxima-se mais da episteme do que da simples experiência. | ||
| + | |||
| + | 5. A relação entre tékhnē, episteme e empeiria somente pode ser adequadamente compreendida depois de esclarecer a história semântica e a etimologia do próprio termo tékhnē. | ||
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| + | 6. O léxico grego atribui a tékhnē uma multiplicidade de significados que inclui arte, habilidade manual, ofício, procedimento, | ||
| + | * A amplitude semântica impede identificar tékhnē a uma única categoria moderna. | ||
| + | * O termo pode designar tanto uma capacidade, quanto um método, uma profissão, um produto ou uma sistematização de regras. | ||
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| + | 7. A origem indo-europeia de tékhnē remete ao trabalho de ajustar e combinar elementos de madeira na construção de uma habitação, | ||
| + | * David Roochnik associa o sentido originário de tékhnē à construção de casas e à habilidade do carpinteiro. | ||
| + | * O significado posteriormente se amplia para diversas outras atividades produtivas. | ||
| + | * A carpintaria continua, contudo, funcionando como modelo paradigmático da atividade técnica, como mostra o Filebo ao destacar o uso de medidas e instrumentos na construção. | ||
| + | * A tékhnē aparece já aí intimamente ligada à episteme, pois a precisão de uma atividade pode torná-la mais “técnica” do que outras modalidades de conhecimento. | ||
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| + | 8. Apesar de sua grande amplitude semântica, a tékhnē costuma significar em Platão arte, ofício ou capacidade especializada, | ||
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| + | 9. Antes de Platão, a associação entre tékhnē e ofício produtivo permanece forte nos poemas homéricos, embora o campo de aplicação do termo se amplie progressivamente até incluir, em Ésquilo, atividades tão diversas quanto construção, | ||
| + | * Homero não chama diretamente de tékhnē as atividades de profetas, médicos, cantores e arautos, designando seus praticantes como [[f> | ||
| + | * Em Prometeu Acorrentado, | ||
| + | * Já nesse estágio, o termo abrange tanto artes produtivas quanto saberes intelectuais e práticas especializadas. | ||
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| + | 10. A determinação da tékhnē exige examinar simultaneamente sua proximidade com a episteme e sua diferença relativamente à empeiria. | ||
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| + | 11. As traduções modernas de episteme como “conhecimento” e de tékhnē como “arte” ou “ofício” podem projetar sobre os gregos a divisão contemporânea entre teoria e prática, embora a história antiga desses conceitos revele relações muito mais estreitas e variáveis entre ambos. | ||
| + | * Xenofonte praticamente não distingue tékhnē de episteme. | ||
| + | * Plotino, por sua menor valorização da realidade sensível, atribui importância reduzida à tékhnē. | ||
| + | * A tradição antiga evidencia simultaneamente continuidade positiva e contraste entre episteme e tékhnē. | ||
| + | * A oposição moderna entre conhecimento teórico puro e prática baseada em experiência não corresponde adequadamente à estrutura antiga desses conceitos. | ||
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| + | 12. Nos diálogos platônicos, | ||
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| + | 13. Em diversos diálogos, tékhnē e episteme aparecem quase intercambiáveis, | ||
| + | * No [[p> | ||
| + | * No [[p> | ||
| + | * No [[p> | ||
| + | * No [[p> | ||
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| + | 14. A interpretação aristotelizante segundo a qual tékhnē seria essencialmente conhecimento produtivo torna-se insuficiente diante das disciplinas teóricas que Sócrates também classifica como tékhnai, tais como geometria, teoria dos números e cálculo. | ||
| + | * Essas disciplinas não dependem de uma atividade produtiva realizada pelo praticante. | ||
| + | * Seus objetos não são produzidos pelo exercício da própria tékhnē, mas possuem caráter invariável e eterno. | ||
| + | * Seu valor pode ser intrínseco, | ||
| + | * A inclusão dessas atividades inviabiliza uma definição exclusivamente produtivista da tékhnē. | ||
| + | |||
| + | 15. A tentativa de atribuir a Sócrates um conceito único e uniforme de tékhnē exige selecionar apenas parte das evidências, | ||
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| + | 16. Tanto a separação entre teórico e prático quanto aquela entre produtivo e não produtivo podem constituir categorias anacrônicas quando aplicadas indiscriminadamente à concepção socrático-platônica de tékhnē, cuja ambição conceitual parece ultrapassar essas dicotomias modernas. | ||
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| + | 17. A tékhnē deve, portanto, ser compreendida como uma realidade que abrange conjuntamente arte e ofício, dimensões teóricas e práticas, sem se reduzir à simples soma dessas polaridades. | ||
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| + | 18. A concepção propriamente platônica da tékhnē torna-se então o centro da investigação. | ||
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| + | 19. A centralidade da tékhnē em Platão manifesta-se na recorrência de exemplos como lavadeiras, construtores, | ||
| + | * O tekhnites é fundamentalmente um especialista. | ||
| + | * A tékhnē pode significar arte, ofício, habilidade, competência profissional ou conhecimento magistral de um domínio específico. | ||
| + | * A atividade técnica possui reconhecimento social precisamente porque associa competência identificável a resultados determinados. | ||
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| + | 20. O emprego extremamente frequente de tékhnē e de seus derivados nos diálogos mostra que o conceito constitui um instrumento central para pensar problemas como virtude, governo e criação do cosmos, ao mesmo tempo que Platão desenvolve diversas classificações das tékhnai. | ||
| + | * No Cármides, distingue-se entre tékhnai produtivas, como tecelagem e construção, | ||
| + | * Divisões semelhantes reaparecem no [[p> | ||
| + | * No Político, a tékhnē teórica subdivide-se em conhecimento judicativo e conhecimento de comando, como arquitetura e ciência régia. | ||
| + | * No Filebo, distinguem-se tékhnai imprecisas e não matemáticas — música, medicina, agricultura, | ||
| + | * As tékhnai precisas subdividem-se ainda em aplicações vulgares, como carpintaria e comércio, e formas filosóficas e teóricas, como cálculo, aritmética, | ||
| + | * Nesse quadro, sofística e filosofia podem aparecer respectivamente como modalidades aplicada e teórica de tékhnē. | ||
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| + | 21. A complexidade da teoria platônica manifesta-se inicialmente na noção de ergon, porque cada tékhnē possui uma função ou realização característica pela qual pode ser distinguida das demais. | ||
| + | * As artes diferem pelos erga que lhes são próprios. | ||
| + | * Frequentemente o ergon constitui um resultado distinto da atividade: saúde é o resultado da medicina, alimento o da agricultura, | ||
| + | * Entretanto, disciplinas como o cálculo parecem não produzir um objeto exterior comparável a uma casa ou roupa. | ||
| + | * A resposta socrática de que o cálculo trata do par e do ímpar abre a possibilidade de tékhnai cuja finalidade não seja um produto exterior. | ||
| + | * No Górgias, até mesmo o cálculo pode ser descrito como produzindo persuasão acerca das quantidades do par e do ímpar, mostrando a flexibilidade da própria noção de ergon. | ||
| + | |||
| + | 22. À medida que o conceito de tékhnē se desenvolve, aumenta a importância do conhecimento reflexivo, porque a competência técnica não consiste somente em saber executar determinada atividade, mas também em compreender teoricamente seu objeto e sua finalidade. | ||
| + | * A medicina envolve saber cuidar do doente, prescrever regimes, favorecer o corpo e restaurar a saúde. | ||
| + | * Paralelamente, | ||
| + | * Essa compreensão da finalidade representa dimensão distinta da mera habilidade operacional. | ||
| + | * No Crátilo, o carpinteiro que fabrica uma lançadeira orienta-se pela forma, eidos, daquilo cuja natureza é servir à tecelagem. | ||
| + | * No Górgias, pintores, construtores e fabricantes de navios produzem olhando para a finalidade e para a forma que deve organizar aquilo que fazem. | ||
| + | * Na República, os filósofos-governantes são comparados a pintores que trabalham orientados por um paradigma. | ||
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| + | 23. A dimensão teórica da tékhnē manifesta-se ainda na capacidade de fornecer uma explicação racional da própria prática, pois o verdadeiro especialista deve saber por que realiza determinadas ações e deve poder dar razão da natureza e da finalidade daquilo com que trabalha. | ||
| + | * O médico pode ser submetido a exame por meio de perguntas porque compreende a saúde. | ||
| + | * Sua competência deve ser avaliada tanto pelo que afirma quanto pelo que faz, verificando-se a verdade de seu discurso e a correção de suas ações. | ||
| + | * No Górgias, medicina, ginástica, justiça e legislação são apresentadas como tékhnai voltadas, respectivamente, | ||
| + | * Ao contrário da prática meramente empírica, empeiria, a tékhnē consegue explicar a natureza daquilo que produz ou preserva. | ||
| + | * A medicina conhece a saúde como causa e finalidade de suas próprias intervenções. | ||
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| + | 24. A tékhnē plenamente desenvolvida consiste num conhecimento orientado por finalidade, no qual o praticante realiza corretamente uma atividade porque compreende seu objetivo e consegue formular discursivamente essa compreensão, | ||
| + | * A oposição entre médico escravo e médico livre nas Leis explicita exemplarmente essa diferença. | ||
| + | * O médico escravo atua principalmente segundo experiência acumulada e não fornece razões de seus procedimentos. | ||
| + | * O médico livre compreende o que faz, explica suas razões aos pacientes e procura obter sua cooperação racional. | ||
| + | * A comunicação da explicação transforma o tratamento numa prática em que também o paciente passa a compreender a natureza da saúde e a razão do regime prescrito. | ||
| + | * A superioridade da tékhnē completa reside, portanto, na articulação entre saber fazer, compreensão do fim, logos explicativo e prática orientada. | ||
| + | |||
| + | 25. Uma segunda característica fundamental da tékhnē reside em sua orientação para o bem daquilo de que cuida, de maneira que o conhecimento técnico não é axiologicamente neutro, mas tende ao benefício de seu objeto. | ||
| + | * O médico e o treinador procuram o bem do corpo. | ||
| + | * O juiz e o legislador procuram o bem da alma. | ||
| + | * Essa estrutura permite a Platão utilizar a tékhnē como modelo para pensar o conhecimento necessário ao governo da cidade. | ||
| + | * Na República, governar é uma tékhnē precisamente porque deve cuidar do bem da pólis e não do interesse particular do governante. | ||
| + | * O governante autêntico reúne conhecimento prático e teórico capaz de realizar aquilo que é bom para a comunidade. | ||
| + | * A analogia médica das Leis explica por que o legislador também deve ser capaz de comunicar aos cidadãos as razões das normas. | ||
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| + | 26. A proximidade conceitual entre tékhnē e episteme, bem como entre tékhnē e empeiria, impede tratá-las como domínios inteiramente separados, pois a própria tékhnē platônica incorpora níveis diferentes de experiência, | ||
| + | |||
| + | 27. O Sofista apresenta uma configuração particularmente significativa da tékhnē, na qual as fronteiras entre habilidade, conhecimento, | ||
| + | |||
| + | 28. A investigação do sofista começa perguntando se ele é tekhnites ou atekhnos e se possui alguma espécie de capacidade, [[f> | ||
| + | * Se o tekhnites possui determinada dynamis, a oposição ao atekhnos deve ser compreendida em relação à posse ou ausência de capacidades específicas. | ||
| + | * A classificação do sofista como possuidor de tékhnē é especialmente significativa porque Platão poderia ter utilizado tribē ou empeiria para designar uma capacidade baseada apenas na prática. | ||
| + | * Tribē consiste em produzir efeitos sem verdadeiro conhecimento e sem método sistemático. | ||
| + | * Apesar da proximidade evidente da sofística com esse tipo de prática, Platão insiste em atribuir-lhe alguma modalidade de tékhnē. | ||
| + | |||
| + | 29. No Sofista, tékhnē abrange capacidades, | ||
| + | * Tekhnites e atekhnos distinguem-se segundo competências e habilidades. | ||
| + | * O sofista possui uma doxastike episteme, conhecimento baseado em [[f> | ||
| + | * Trata-se de um conhecimento que, em sentido rigoroso, não é plenamente conhecimento porque não se fundamenta na [[lx> | ||
| + | * Platão explora deliberadamente a tensão entre termos aparentemente contraditórios para caracterizar uma competência sofística que sabe produzir determinados efeitos sem possuir acesso genuíno à verdade. | ||
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| + | 30. A comparação da dialética com uma espécie de tékhnē confirma que Platão distingue modalidades práticas e teóricas de conhecimento técnico, pois a tékhnē prática produz algo exterior à própria atividade, enquanto a tékhnē teórica exerce sua capacidade sobre os próprios objetos do conhecimento sem produzir um resultado separado. | ||
| + | * O Estrangeiro compara a dialética às artes que discernem quais letras podem combinar-se e quais sons musicais podem harmonizar-se. | ||
| + | * Aplicada aos gêneros — Ser, Repouso, Movimento, Mesmo e Diferente —, a competência dialética determina quais deles se combinam e quais permanecem incompatíveis. | ||
| + | * A episteme dialética exige discriminar os gêneros antes de estabelecer suas possibilidades de comunhão. | ||
| + | * Essa discriminação não é produtiva no sentido em que a carpintaria produz um objeto exterior. | ||
| + | * No Político, a oposição entre episteme prática e episteme gnóstica esclarece essa diferença, pois a primeira produz, enquanto a segunda conhece ou julga. | ||
| + | * O cálculo trabalha com números; a dialética, com gêneros. | ||
| + | * A tékhnē teórica aparece, assim, menos como depósito de conteúdos do que como capacidade especializada de apreender distinções abstratas. | ||
| + | |||
| + | 31. A inclusão do conhecimento de comando, epitaktike, no domínio teórico estabelece um espaço intermediário entre teoria pura e prática direta, pois atividades como arquitetura não fabricam materialmente os produtos, mas dirigem ações que têm efeitos concretos. | ||
| + | * A arquitetura não produz diretamente como a carpintaria, | ||
| + | * Como analogia da politike tékhnē, ela permite compreender um saber cuja estrutura é teórica e diretiva, embora suas consequências sejam práticas. | ||
| + | * A ciência política aproxima-se, | ||
| + | * A classificação evidencia a tensão permanente entre elaboração do conhecimento e uso prático do saber governamental. | ||
| + | |||
| + | 32. As definições do pescador e do sofista no Sofista mobilizam dezenas de tékhnai e atividades humanas, frequentemente com função paródica e irônica, abrangendo desde medicina, equitação, | ||
| + | * Algumas atividades são designadas conjuntamente pela tékhnē e pelo nome de seu praticante, como medicina e médico. | ||
| + | * Outras aparecem como artes sem que se mencione um profissional correspondente, | ||
| + | * As diferenças entre essas práticas são profundas: algumas produzem objetos inanimados, outras cuidam de seres vivos, algumas preservam a saúde humana e outras, como o cálculo, não produzem objeto material nem exercem cuidado. | ||
| + | * A extraordinária variedade das tékhnai mostra que o uso grego do conceito era efetivamente plural e não subordinado a uma única característica produtiva. | ||
| + | |||
| + | 33. A definição heideggeriana da tékhnē como “saber-como” oferece uma chave particularmente eficaz para unificar essa diversidade, | ||
| + | * Equitação, | ||
| + | * Apesar disso, todas envolvem uma capacidade prática ou cognitiva de saber como executar, discriminar, | ||
| + | * A interpretação heideggeriana evita reduzir a tékhnē exclusivamente à produção material e consegue incluir tanto atividades teóricas quanto produtivas sob a noção mais ampla de competência orientada. | ||
| + | |||
| + | 34. A dificuldade final consiste em decidir se a atribuição de tékhnē à sofística deve ser tomada como classificação filosófica rigorosa ou como parte da ironia platônica que deliberadamente aproxima atividades de valor muito desigual. | ||
| + | * O Sofista é singular entre os diálogos ao denominar explicitamente a sofística uma tékhnē. | ||
| + | * Essa denominação não implica, contudo, que a sofística receba elevada dignidade, pois atividades como caçar piolhos, usar esponjas, roubar ou administrar banhos também podem ser classificadas como tékhnai. | ||
| + | * A ironia não elimina o reconhecimento de que o sofista possui habilidades efetivas; ela questiona antes o valor e a finalidade de tais competências. | ||
| + | * Definir algo como tékhnē significa reconhecer uma estrutura de capacidade ou saber-como, não atribuir automaticamente excelência moral, epistemológica ou filosófica. | ||
| + | * A amplitude platônica do conceito exige, portanto, critérios genéricos suficientemente flexíveis para abranger médico, sofista, caçador de piolhos, escultor e poeta sem reduzir todos à mesma dignidade. | ||
| + | * O elemento comum reside menos no produto ou no valor social da atividade do que na articulação de competências específicas em uma prática organizada, estrutura que preserva a pertinência da compreensão heideggeriana da tékhnē como saber-como. | ||
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