obra:ga19:estudos:sofistica
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| + | ===== Sofística e filosofia ===== | ||
| + | //DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.// | ||
| + | **Capítulo um** | ||
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| + | **Platão e Heidegger sobre sofística e filosofia** | ||
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| + | 1. A compreensão inicial de Heidegger acerca da dialética platônica determina a sofística como uma possibilidade de ser e um modo pelo qual o ser humano se relaciona com o mundo e consigo mesmo mediante o [[f> | ||
| + | * A tarefa central do [[p> | ||
| + | * A filosofia funciona como fenômeno positivo a partir do qual a sofística, enquanto sua possibilidade oposta, pode ser fenomenalmente determinada. | ||
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| + | 2. A filosofia platônica é compreendida como uma modalidade específica de atividade desveladora, | ||
| + | * A apropriação interrogativa da tradição deve reativar possibilidades de questionamento adormecidas nos resultados conceitualmente petrificados recebidos dos pensadores precedentes. | ||
| + | * A interpretação do Sofista não visa, portanto, apenas à correção historiográfica, | ||
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| + | 3. A compreensão inicial heideggeriana da sofística somente pode ser avaliada em conexão com sua interpretação mais ampla da filosofia platônica e com sua própria concepção de filosofia, sendo ainda necessário examinar diretamente o Sofista, porque a posição atribuída por Heidegger a Platão se apoia principalmente nesse diálogo e porque importa determinar a função nele desempenhada pela virtude, [[f> | ||
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| + | **I. Por que o Sofista?** | ||
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| + | 4. O curso sobre o Sofista singulariza-se entre as primeiras interpretações heideggerianas da filosofia antiga por constituir o único tratamento explícito e extensivo de Platão, no qual a dialética platônica e sua oposição à sofística são reconstruídas principalmente mediante Aristóteles, | ||
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| + | 5. A preferência pelo Sofista torna problemática a identificação entre a concepção de filosofia apresentada pelo Estrangeiro de Eleia e a posição do próprio Platão, pois a substituição de Sócrates por outro condutor do diálogo suscita a questão mais ampla acerca da relação entre as posições das personagens dramáticas platônicas e a filosofia de Platão, permitindo questionar se o Estrangeiro pode legitimamente ser tomado como porta-voz platônico. | ||
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| + | 6. O procedimento filosófico do Estrangeiro parece distinguir-se do procedimento socrático porque, embora formalmente preserve a estrutura de perguntas e respostas, dispensa o exame das convicções do interlocutor mediante [[f> | ||
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| + | 7. Outra diferença aparente reside na orientação predominantemente ética e política atribuída a Sócrates, centrada na virtude e no bem, em contraste com a orientação supostamente exclusivamente ontológica do Estrangeiro, | ||
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| + | 8. A crítica formulada por Stanley Rosen, Drew Hyland e sobretudo Francisco Gonzalez sustenta que o primeiro Heidegger força a concepção platônica de filosofia a ajustar-se à sua própria compreensão ontológica, | ||
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| + | **II. O Estrangeiro do Sofista de Platão** | ||
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| + | 9. A avaliação da interpretação heideggeriana exige determinar que espécie de filósofo é o Estrangeiro de Eleia, considerado por Rosen representante de um procedimento analítico orientado pelo raciocínio matemático e incapaz de distinguir cientificamente filósofo e sofista, por Hyland representante de uma investigação isenta de valores e contraposta à centralidade socrática do bem, e por ambos vinculado a uma tradição interpretativa inaugurada de modo influente por Julius Stenzel. | ||
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| + | 10. A interpretação desenvolvimentista de Stenzel atribui aos diálogos platônicos tardios uma mudança radical da orientação ética, culminante na República, para uma compreensão mais abrangente da realidade vinculada à filosofia teórica e natural, na qual as Formas passam a funcionar mais como conceitos do que como entidades metafísicas e são definidas mediante divisão por gênero próximo e diferença específica. | ||
| + | * A nova dialética constituiria uma lógica autônoma em relação ao bem e ao útil, permitindo conceber as Formas segundo categorias próximas das classes da ciência natural. | ||
| + | * O interesse fundamental passaria a consistir na definição científica do ente concreto particular, exemplificada no Sofista pela tentativa de definir cientificamente o sofista. | ||
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| + | 11. A premissa stenzeliana de que o Sofista deixa de lado questões éticas ou normativas é parcialmente compartilhada por Heidegger, Rosen, Hyland e Gonzalez, mas estes últimos recusam que o Estrangeiro represente uma nova posição do próprio Platão e interpretam o diálogo como confronto deliberado entre uma compreensão socrática da filosofia e uma compreensão técnica, confronto cuja importância Heidegger teria deixado de reconhecer. | ||
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| + | 12. A acusação de dissociação entre filosofia e ética atribuída ao Estrangeiro apoia-se sobretudo em passagens do Sofista e do Político que parecem apresentar seu método como neutro ou indiferente a valores, tornando necessário examinar se tal neutralidade metodológica implica realmente uma ontologia alheia às considerações éticas. | ||
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| + | 13. O contexto decisivo encontra-se na sexta definição do sofista, na qual são distinguidos dois tipos de divisão ou discernimento, | ||
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| + | 14. Ao declarar que o método considera igualmente honrosas artes tão distintas quanto a medicina e atividades banais, ou a estratégia militar e a caça a piolhos, o Estrangeiro suspende as avaliações ordinárias da [[f> | ||
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| + | 15. A equiparação metodológica das artes não implica necessariamente indiferença ao valor, porque o método lhes atribui provisoriamente igual honra para determinar primeiramente o que cada atividade é e quais pertencem ao mesmo gênero, suspendendo as avaliações cotidianas sem excluir que, uma vez esclarecida a natureza de filosofia e sofística, se possa estabelecer fundamentadamente que a primeira possui maior dignidade do que a segunda. | ||
| + | * A divergência das opiniões comuns acerca da dignidade da própria filosofia mostra que a superioridade desta não pode ser simplesmente pressuposta antes que sua natureza seja determinada. | ||
| + | * A neutralização provisória da honra constitui, assim, uma exigência investigativa e não necessariamente uma negação das diferenças reais de valor. | ||
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| + | 16. As divisões efetuadas pelo Estrangeiro podem empregar legitimamente a distinção entre melhor e pior sem contradizer a suspensão das diferenças de honra, pois a bondade ou deficiência pertence à natureza da coisa, enquanto a honra depende daquele que honra e pode ser conferida ao que não é realmente bom ou recusada ao que o é, tornando necessária uma investigação prévia do que efetivamente constitui o melhor e o pior. | ||
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| + | 17. A própria passagem frequentemente tomada como prova da neutralidade metodológica distingue implicitamente melhor e pior ao equiparar todas as modalidades de purificação corporal apenas para separá-las da purificação da alma, sugerindo que esta última possui superioridade própria e que as divisões subsequentes seguem um padrão no qual uma das partes é deixada de lado precisamente por ser melhor ou pior do que aquela sobre a qual a investigação deve concentrar-se. | ||
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| + | 18. A análise da purificação da alma distingue inicialmente virtude e maldade e subdivide esta última em duas modalidades, | ||
| + | * A primeira modalidade aproxima-se de doença e guerra civil interior, comprometendo conjuntamente pensamento, vontade e desejo. | ||
| + | * A segunda possui caráter mais propriamente intelectual em sentido amplo, pois concerne à alma enquanto ser que busca conhecer e, por ignorância, | ||
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| + | 19. A segunda modalidade de vício aproxima-se decisivamente da perspectiva socrática segundo a qual a maldade resulta da ignorância, | ||
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| + | 20. A ignorância é removida pela instrução, | ||
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| + | 21. A última divisão da sexta definição torna ainda mais explícita essa proximidade com Sócrates ao distinguir a educação moral tradicional, | ||
| + | * O educador interrogativo combate a falsa sabedoria fazendo perceber a discrepância entre a pretensão de saber e a ignorância efetiva. | ||
| + | * O élenchos, enquanto refutação capaz de produzir essa consciência, | ||
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| + | 22. A aceitação relutante da denominação de sofista para o praticante do élenchos é imediatamente qualificada pela expressão de uma sofística nobre, excelente ou fiel ao próprio gênero, de modo que a identificação não equipara o procedimento socrático às modalidades anteriores de sofística, mas sugere que a prática refutativa realiza aquilo que a sofística deveria verdadeiramente ser caso correspondesse à sua pretensão de possuir uma sabedoria concernente à educação. | ||
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| + | 23. O praticante do élenchos contrapõe-se radicalmente aos sofistas da sétima definição, | ||
| + | * A sofística apoia sua reputação na ignorância daqueles que ainda não alcançaram compreensão efetiva acerca do divino, do céu e da terra, do devir e do ser, das leis, da política e das artes. | ||
| + | * Ao ensinar a própria técnica discursiva, os sofistas transmitem também a falsa impressão de que dominar formalmente a palavra equivale a tornar-se sábio. | ||
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| + | 24. A oposição fundamental estabelece-se entre o praticante do élenchos, que reconhece na falsa crença de saber o obstáculo que impede a alma de alcançar a verdade e procura purificá-la dessa crença, e o sofista ordinário, que explora exatamente essa ignorância ao apresentar a habilidade formal de debater qualquer assunto como se fosse verdadeira sabedoria, reforçando assim a insensatez da qual a educação filosófica procura libertar a alma. | ||
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| + | 25. A contraposição entre a educação nobre mediante élenchos e a educação erística dos sofistas culmina numa problemática caracteristicamente socrática, articulando virtude e conhecimento, | ||
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| + | 26. A parte central do Sofista, dominada pela questão da possibilidade da falsidade, pode ocultar a continuidade da oposição entre educação filosófica e educação sofística ao produzir a aparência de uma investigação exclusivamente lógica ou ontológica, | ||
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| + | 27. Na controvérsia sobre a natureza do ser, a refutação da identificação entre ser e corpo depende precisamente da realidade da virtude, porque uma ontologia estritamente corporal não poderia admitir a presença incorpórea da virtude na alma nem distinguir almas virtuosas e não virtuosas, conduzindo o Estrangeiro à concepção do ser como potência, [[f> | ||
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| + | 28. A crítica aos chamados amigos das [[f> | ||
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| + | 29. A relação entre alma, verdadeiro ser e dimensão normativa reaparece na caracterização da ciência dialética, segundo a qual o sofista refugia-se na obscuridade do não-ser, enquanto o filósofo permanece ligado pelo pensamento ao eterno e ao divino, cuja contemplação é difícil para as almas da maioria, aproximando-se da relação entre filósofo e Formas descrita por Sócrates na República e permitindo associar conhecimento do divino e transformação virtuosa da alma. | ||
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| + | 30. A conclusão da sétima definição reforça essa articulação ao distinguir a imitação ignorante, própria do sofista e daqueles que aparentam possuir justiça e virtude sem conhecê-las, | ||
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| + | 31. A investigação conduzida pelo Estrangeiro não constitui, portanto, análise científica neutra no sentido de excluir virtude, vício, bem e mal, pois a demarcação entre filosofia e sofística se funda no movimento da alma em direção ao verdadeiro ser e fornece uma estrutura capaz de explicar aspectos essenciais da ética socrática, mesmo sem formular diretamente as perguntas características de Sócrates sobre a essência particular das virtudes, da amizade ou do bem. | ||
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| + | **III. A leitura heideggeriana do Sofista** | ||
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| + | 32. Embora seja inadequado interpretar o Estrangeiro como representante de uma ontologia simplesmente isenta de valores, permanece necessário determinar se Heidegger assim compreende o Sofista e se seu próprio interesse ontológico compromete a dimensão ética de sua interpretação, | ||
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| + | **III.1 A compreensão ontológica heideggeriana do bem** | ||
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| + | 33. Ao interpretar a [[f> | ||
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| + | 34. A sophía dirige-se, segundo a leitura heideggeriana de Aristóteles, | ||
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| + | 35. A aparência de que a compreensão ontológica do bem se tornaria possível somente mediante sua separação da práxis humana e sua transformação em objeto puramente teórico conduziria equivocadamente à conclusão de que o bem aristotélico perde qualquer significação moral, pois o sentido atribuído por Heidegger à determinação ontológica é mais amplo e não coincide com a oposição entre teoria e ética. | ||
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| + | 36. O emprego heideggeriano de práxis nesse contexto parece aproximar-se do sentido amplo em que ela pode equivaler à [[f> | ||
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| + | 37. A recusa heideggeriana da categoria de valor (Wert) não significa preferência pelos fatos contra os valores, mas rejeição da própria distinção moderna entre fato e valor como ontologicamente ingênua, especialmente na formulação neokantiana derivada de Hermann Lotze, pois a estrutura grega da questão é deformada quando o bem é reconstruído segundo a noção moderna de validade valorativa. | ||
| + | * A crítica não consiste em negar que haja aquilo que ordinariamente se chama valor, mas em negar que a categoria de valor esclareça o modo de ser daquilo que é considerado valioso. | ||
| + | * A determinação do bem como valor introduziria uma estrutura conceitual moderna incompatível com a pergunta grega originária. | ||
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| + | 38. A crítica de Ser e Tempo (Sein und Zeit) à compreensão cartesiana do mundo mostra que predicados de valor não podem simplesmente ser acrescentados a coisas previamente concebidas como substâncias materiais, pois uma investigação fenomenológica precisa interrogar ontologicamente o modo de ser daquilo que aparece cotidianamente como valioso, em vez de permanecer no plano ôntico dos entes e de propriedades supostamente anexadas a eles. | ||
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| + | 39. A compreensão ontológica aristotélica do bem alcança o télos próprio de qualquer ente e, por isso, não se restringe à sabedoria contemplativa, | ||
| + | * A exclusão da linguagem dos valores não transforma Aristóteles em defensor de uma ontologia neutra, pois a oposição moderna entre uma ontologia baseada em valores e outra isenta deles já pressupõe justamente a distinção que Heidegger considera derivada. | ||
| + | * Falar ontologicamente do bem significa apreender o ser de cada coisa verbalmente, | ||
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| + | 40. Em termos de Ser e Tempo (Sein und Zeit), a determinação ontológica do bem se orienta pelo ser de algo e não por um ente particular, razão pela qual sua oposição pertinente não é uma compreensão ética ou prática, mas uma compreensão ôntica que converteria o próprio bem em algum ente. | ||
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| + | 41. A interpretação heideggeriana da [[f> | ||
| + | * O bem não paira diante do ser-aí (Dasein) como objeto exterior, mas constitui um como de seu próprio ser. | ||
| + | * A realização plena ou perfeição pode ser relacionada à aretê, permitindo aproximar autenticidade (Eigentlichkeit) e virtude enquanto efetivação daquilo que é propriamente próprio a determinado ente. | ||
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| + | 42. A mesma interpretação orienta a leitura do décimo livro da Ética a Nicômaco, segundo a qual a eudaimonía enquanto atividade conforme à aretê culmina na contemplação, | ||
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| + | 43. A questão da compreensão platônica do bem surge porque, se Aristóteles foi o primeiro a atingir sua determinação ontológica, | ||
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| + | 44. Francisco Gonzalez atribui a Heidegger exatamente a exigência de impedir que a ontologia seja contaminada por uma concepção prática do bem, associando a valorização do Sofista e da distinção aristotélica entre [[f> | ||
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| + | 45. A afirmação heideggeriana de que abordar o ser como bem pode significar compreendê-lo inadequadamente possui sentido mais preciso do que uma mera expulsão da ética, pois o bem enquanto aquilo em-vista-de-quê somente pode ser referido ao ser a partir da própria compreensão do ser e não como predicado que pertencesse ao ser em si independentemente dessa relação. | ||
| + | * A interpretação ôntica ingênua converteria o bem em um ente supremo situado acima do próprio ser (Sein), confundindo ser (Sein) e ente (Seiendes). | ||
| + | * A crítica dirige-se provavelmente à concepção do bem como entidade transcendente que fundamentaria os demais entes, e não à presença de toda e qualquer dimensão do bem na questão do ser. | ||
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| + | 46. A aproximação parcial com Stenzel é significativamente qualificada porque Heidegger admite apenas em certo sentido um afastamento platônico da primazia ética socrática e pergunta se os motivos objetivos que conduziram originalmente à ideia do Bem não permaneceriam ativos na dialética e na compreensão tardia da alma. | ||
| + | * Permanece em questão se a orientação do problema das Ideias pela ideia do Bem teria sido apenas um episódio ou se decorreria de motivos internos à própria questão do ser. | ||
| + | * Permanece igualmente em questão se aquilo que se buscava mediante a ideia do Bem não reapareceria na dialética autêntica e na compreensão da alma desenvolvidas no período posterior de Platão. | ||
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| + | 47. A leitura conjunta dessas questões permite compreender que Heidegger atribui ao Platão tardio não o simples abandono do bem, mas a superação de uma concepção ôntica ingênua enquanto os motivos originários que conduziram à ideia do Bem permanecem e se explicitam na nova compreensão da dialética e da alma, particularmente no Sofista e no [[p> | ||
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| + | 48. A permanência desses motivos torna necessário examinar de que maneira a compreensão ontológica do bem orienta concretamente a interpretação heideggeriana da filosofia, da dialética e da sofística no curso dedicado ao Sofista. | ||
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| + | **III.2 Sofística e filosofia** | ||
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| + | 49. A interpretação heideggeriana de sofística e dialética é regida pela concepção grega de verdade não como propriedade primária de proposições ou juízos, mas como atividade da alma, isto é, como aletheúein mediante o qual os entes são desvelados em seu ser, fazendo da verdade um modo de ser e uma maneira de relacionar-se com aquilo que é. | ||
| + | |||
| + | 50. A filosofia e a sofística são, em consequência, | ||
| + | |||
| + | 51. A sofística constitui uma realização específica da capacidade humana de apreender entes mediante o lógos, na qual a atenção se restringe à habilidade formal de falar corretamente ou belamente sobre qualquer coisa independentemente da verdade do que é dito, enquanto a dialética atravessa o discurso para alcançar uma afirmação genuína acerca dos próprios entes. | ||
| + | * A dialética permanece dependente do lógos, mas emprega-o como meio de desvelamento de seu assunto e procura ultrapassá-lo em direção a uma visão efetiva do que está em questão. | ||
| + | * O discurso sofístico é caracterizado por ausência de conteúdo objetivo ([[lx> | ||
| + | * A dependência sofística do lógos produz uma inautenticidade ou não-genuinidade ([[lx> | ||
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| + | 52. A ausência de conteúdo objetivo (Sachlosigkeit) não nasce exclusivamente da sofística, mas da condição humana enquanto existência linguisticamente articulada, pois o lógos pode desvelar o mundo e o próprio ser-aí (Dasein), mas inicialmente e na maior parte das vezes funciona como falatório ([[lx> | ||
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| + | 53. A dialética platônica aparece como contramovimento destinado a superar esse encobrimento originado pelo falatório (Gerede), e sua interpretação heideggeriana parece fundamentar-se menos na seção ontológica central do Sofista do que na sexta definição, | ||
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| + | 54. A digressão heideggeriana sobre o [[p> | ||
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| + | 55. A retórica somente pode tornar-se verdadeira [[lx> | ||
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| + | 56. A participação efetiva na busca dialógica e dialética da verdade exige determinadas condições da alma do aprendiz, pois aquele que deve ver por si mesmo aquilo que é discutido precisa estar adequadamente preparado, e essa preparação consiste numa correta disposição da existência em relação ao mundo e a si própria, produzida pela verdadeira paideía e identificada ao tornar-se interiormente belo. | ||
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| + | 57. A beleza e a feiura psíquicas da sexta definição são interpretadas segundo a divisão que separa melhor e pior, entendendo-se a purificação como libertação que remove o pior e reconduz o melhor às suas possibilidades próprias, razão pela qual a purificação da [[f> | ||
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| + | 58. A diánoia é compreendida como modalidade humana do [[f> | ||
| + | * O [[f> | ||
| + | * A verdade constitui o télos da alma, e afastar-se dela significa afastar-se do próprio sentido de ser ([[lx> | ||
| + | * A purificação torna a alma novamente aberta ao possível encontro com o mundo e consigo mesma, enquanto beleza e feiura designam modos correspondentes ao caráter de ser próprio (eigentlicher Seinscharakter) ou impróprio da alma. | ||
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| + | 59. A virtude produzida pelo élenchos corresponde, | ||
| + | * Ser verdadeiro ou estar-na-verdade constitui uma determinação do ser-aí (Dasein) pela qual os entes com que este se relaciona permanecem disponíveis em seu desocultamento. | ||
| + | * O movimento da alma rumo à verdade é identificado por Heidegger ao estar-em ([[lx> | ||
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| + | 60. A interpretação da sexta definição reproduz a mesma estrutura ontológica identificada em Aristóteles, | ||
| + | |||
| + | 61. A questão decisiva deixa então de consistir simplesmente em saber se o interesse ontológico heideggeriano elimina a ética de Platão e passa a consistir em avaliar se uma leitura ontológica, | ||
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| + | 62. A interpretação heideggeriana da sexta definição evidencia que elementos fundamentais da analítica do ser-aí (Dasein) elaborada em Ser e Tempo (Sein und Zeit) resultam de apropriação crítica e transformação das concepções platônica e aristotélica de alma, linguagem e verdade, ao mesmo tempo que sua destruição (Destruktion) interpretativa torna visível uma estrutura genuinamente platônica da alma como movimento. | ||
| + | * A dimensão ontológica não precisa encobrir Platão, mas pode retirar as sedimentações tradicionais que tornaram sua doutrina excessivamente familiar e revelar de maneira renovada a dinâmica própria de sua filosofia. | ||
| + | * A ausência de uma orientação ética ou política tradicionalmente formulada não significa que o interesse ontológico, | ||
| + | * As leituras de Hans-Georg Gadamer, Leo Strauss e Hannah Arendt, marcadamente éticas e políticas, foram em parte possibilitadas pelas interpretações fenomenológico-ontológicas de Platão e Aristóteles impulsionadas por Heidegger. | ||
| + | |||
| + | 63. A relativa falta de interesse pessoal de Heidegger por questões éticas e políticas pode, entretanto, tê-lo tornado insensível a consequências que sua própria interpretação tornou visíveis, sobretudo porque tende a identificar como verdadeiro objeto da dialética as estruturas do ser para as quais a alma libertada pelo élenchos deve dirigir-se. | ||
| + | |||
| + | 64. A diferenciação heideggeriana entre o Platão anterior e o posterior apoia-se na tese de que este último teria distinguido explicitamente ser e ente e iniciado uma investigação do ser comparável às análises ontológicas aristotélicas e à intuição categorial (Kategoriale Anschauung) husserliana, | ||
| + | |||
| + | 65. A [[f> | ||
| + | * A oposição socrática entre filosofia e sofística presente no [[p> | ||
| + | * Heidegger reconhece a dimensão da escolha, mas tende a reinterpretá-la como oposição entre existência científica e não científica, | ||
| + | * O sofista heideggeriano, | ||
| + | |||
| + | 66. A interpretação heideggeriana aproxima-se finalmente do próprio procedimento do Estrangeiro ao tornar visíveis estruturas fundamentais que esclarecem a dimensão lógica e ontológica da ética socrática, mas permanece relutante em conferir conteúdo substancial às questões concretas que essa ética procura esclarecer, deixando em aberto tanto a razão dessa limitação quanto suas consequências para a possibilidade de uma ética no interior do pensamento de Heidegger. | ||
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