obra:ga19:estudos:sofista-e-filosofo
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| + | ===== Sofista e filósofo ===== | ||
| + | //DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.// | ||
| + | **Heidegger: | ||
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| + | **I.** | ||
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| + | 1. As Preleções sobre o [[p> | ||
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| + | 2. Os diálogos tardios de Platão confrontam conceitos fundamentais como ser e não-ser, verdade e aparência, conhecimento e opinião, conceito e asserção, valor e não-valor, cuja adequada orientação requer o método fenomenológico entendido não como aquisição livresca de doutrinas estabelecidas, | ||
| + | * A fenomenologia não se aprende simplesmente mediante a leitura de literatura fenomenológica, | ||
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| + | 3. A preparação historiográfico-hermenêutica deve tornar possível apreender corretamente o passado encontrado em Platão sem projetar sobre ele perspectivas arbitrárias, | ||
| + | * O procedimento obedece ao princípio hermenêutico de partir do mais claro em direção ao mais obscuro. | ||
| + | * A passagem por Aristóteles seria condição para uma compreensão historiograficamente científica de Platão. | ||
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| + | 4. Se Aristóteles fornece o fio condutor (Leitfaden) para compreender Platão, a ausência de um pensador posterior que tivesse desenvolvido Aristóteles de maneira ainda mais radical obriga a penetrar diretamente em sua obra para encontrar uma orientação, | ||
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| + | **II.** | ||
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| + | 5. O ser dos entes constitui o tema fundamental da filosofia aristotélica e o desvelar verdadeiro, [[lx> | ||
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| + | 6. Nas considerações preliminares, | ||
| + | * A definição aristotélica do ser humano como [[lx> | ||
| + | * A [[lx> | ||
| + | * O mundo encontra-se inicialmente fechado ([[lx> | ||
| + | * Aquilo que foi originariamente descoberto pode ser novamente encoberto e deformado pelo discurso. | ||
| + | * O ser-aí cotidiano ([[lx> | ||
| + | * A ciência surge da orientação natural humana no mundo ao romper o falatório (Gerede) e apreender os entes em seu ser, atividade que, para Aristóteles e os gregos, constitui a filosofia. | ||
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| + | 7. Na parte introdutória dedicada extensamente a Aristóteles, | ||
| + | * Falar constitui o modo fundamental de acesso ao mundo e sempre fala de algo como algo. | ||
| + | * Na proposição que apreende uma mesa como preta, aquilo que já era visto ganha explicitação mediante o [[f> | ||
| + | * A estrutura do como torna possível que aquilo de que se fala seja deformado, pois somente onde há síntese e estrutura de algo-como-algo pode ocorrer falsidade. | ||
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| + | 8. A sophía constitui a possibilidade genuína do ser-aí (Dasein), correspondente à existência do homem científico, | ||
| + | * O noûs humano não é visão direta e pura, mas [[f> | ||
| + | * O ser humano possui, portanto, um noûs sintético e discursivamente mediado, não o noûs puro capaz de apreender sem lógos o absolutamente simples. | ||
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| + | 9. O ser humano encontra-se num mundo inicialmente encoberto e procura descobri-lo mediante o falar, sua determinação fundamental, | ||
| + | * A estrutura do falar como algo-como-algo mostra-se inadequada para apreender aquilo que somente pode ser captado em si mesmo, fazendo o lógos fracassar diante do absolutamente simples. | ||
| + | * Mesmo a sophía, enquanto possibilidade genuína da existência humana, não ultrapassa completamente essa dependência do lógos. | ||
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| + | 10. Na seção de transição, | ||
| + | * Aquilo que é previamente dado antes de todo discurso funciona como [[f> | ||
| + | * A presença como caráter básico do ser deriva, assim, da estrutura segundo a qual algo precisa já se encontrar diante do discurso para poder ser tematizado por ele. | ||
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| + | 11. O lógos constitui, portanto, o fio condutor (Leitfaden) aristotélico para a determinação do ser dos entes e deve, nessa mesma função, orientar a interpretação heideggeriana de Platão. | ||
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| + | **III.** | ||
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| + | 12. A complexidade da interpretação platônica desenvolvida nas Preleções sobre o Sofista pode ser concentrada em três consequências principais da leitura heideggeriana de Aristóteles, | ||
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| + | 13. A existência genuína pertence ao filósofo, enquanto a existência não genuína caracteriza a multidão e o sofista, pois a dialética consiste num atravessamento discursivo ([[lx> | ||
| + | * Como o falar constitui o acesso fundamental ao mundo, aos outros e a si mesmo, a vacuidade discursiva corresponde à não-genuinidade ([[lx> | ||
| + | * A existência genuína (echte [[lx> | ||
| + | * O movimento filosófico procura passar do lógos enquanto tagarelice indiferente às coisas para um discurso verdadeiro que efetivamente diga algo acerca daquilo de que fala. | ||
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| + | 14. A dialética possui, enquanto forma de discurso, uma tendência interna para o ver ([[lx> | ||
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| + | 15. O fenômeno do tempo, especificamente a presença, determina os entes em seu ser porque o lógos constitui também em Platão o núcleo a partir do qual o ser é compreendido, | ||
| + | * O diánoein é igualmente determinado como presentificação daquilo que é abordado em si mesmo. | ||
| + | * O ver intelectual faz com que aquilo que é visto esteja presente como ele mesmo, conectando pensamento, presença e determinação do ser. | ||
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| + | 16. Embora a filosofia nos diálogos platônicos costume surgir da preocupação com aspectos concretos da vida humana, mediante o procedimento socrático de partir do que ordinariamente se diz e atravessá-lo em busca de conhecimento sólido, a reconstrução heideggeriana que contrapõe uma existência genuína de Sócrates a uma existência não genuína de seus concidadãos encontra apoio textual limitado e tende a subordinar a transcendência das Formas ao horizonte da vida fática humana. | ||
| + | * No Banquete, a Forma do belo pode ser apreendida numa visão que ultrapassa as palavras, dificultando a tese de que a dialética permanece essencialmente confinada ao discurso. | ||
| + | * As Formas platônicas não se fundamentam simplesmente na vida fática humana, mas a transcendem, | ||
| + | * A distinção platônica entre produção divina e produção humana, na qual esta é cópia daquela, contrapõe-se à inversão heideggeriana que procura compreender as estruturas platônicas a partir da existência humana. | ||
| + | * Em lugar de tomar a doutrina das Ideias como fio condutor (Leitfaden), | ||
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| + | **IV.** | ||
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| + | 17. A reconstrução heideggeriana estabelece como tema de Aristóteles o ser dos entes e como ponto de partida o aletheúein, | ||
| + | * Em Platão e Aristóteles, | ||
| + | * Ser e tempo constituem, nessa interpretação, | ||
| + | * A própria interpretação de Aristóteles e todo o curso sobre o Sofista são explicitamente fundamentados numa fenomenologia do ser-aí (Dasein), que constitui o verdadeiro fio condutor da investigação. | ||
| + | * Em Ser e tempo (Sein und Zeit), essa orientação é generalizada pela tese de que a problemática da ontologia grega, assim como qualquer problemática ontológica, | ||
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| + | 18. Entre os eixos fundamentais de Ser e tempo (Sein und Zeit) encontram-se a constituição ontológica do ser-aí (Dasein), responsável por uma compreensão determinada do ser, a distinção entre existência autêntica e inautêntica e a presença de uma estrutura originária do como no próprio compreender. | ||
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| + | 19. A constituição ontológica do ser-aí (Dasein) articula-se mediante existenciais ([[lx> | ||
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| + | 20. O ser-com (Mitsein) constitui originariamente a existência humana em comunhão com outros, inclusive quando alguém vive sozinho, de maneira que a vida comunitária não produz o ser-com, mas é possível porque a existência já possui essa estrutura ontológica. | ||
| + | * Inicialmente e na maior parte das vezes, o ser-aí (Dasein) não existe como si-mesmo individual, mas como si-mesmo-do-impessoal, | ||
| + | * Nesse espaço, o discurso degenera em falatório (Gerede) e a compreensão em curiosidade ([[lx> | ||
| + | * A cotidianidade ([[lx> | ||
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| + | 21. A compreensão ([[lx> | ||
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| + | **V.** | ||
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| + | 22. Os três grandes eixos posteriormente sistematizados em Ser e tempo (Sein und Zeit) já se encontram, de forma menos articulada, nas Preleções sobre o Sofista: a determinação do ser a partir do ser-aí (Dasein), a oposição entre existência genuína e não genuína e a estrutura do como. | ||
| + | * A terminologia que depois se tornará característica de Ser e tempo já atravessa as preleções, | ||
| + | * A proximidade conceitual alcança também a formulação segundo a qual o fenômeno originário do mostrar, que torna possível o discurso, constitui determinação do próprio ser-aí (Dasein) e pode ser designado como ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) ou ser-em ([[lx> | ||
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| + | 23. As Preleções sobre o Sofista, ministradas em 1924–1925 durante o período de gestação da ontologia fundamental que culminaria em Ser e tempo (Sein und Zeit), não devem ser simplesmente identificadas a mais um rascunho da obra de 1927, mas constituem uma marca de caminho (Wegmarke) decisiva de sua gênese. | ||
| + | * O primeiro esboço conhecido de Ser e tempo foi elaborado em 1924, seguido de novos esboços em 1925 e 1926. | ||
| + | * O período compreendido entre 1919 e 1927 foi marcado pela progressiva formação do projeto da ontologia fundamental e pela hermenêutica da facticidade (Hermeneutik der Faktizität). | ||
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| + | 24. A convicção retrospectiva de que Aristóteles conduziu Heidegger à fenomenologia posteriormente articulada em Ser e tempo permite compreender a inversão hermenêutica pela qual o próprio Heidegger passa a ocupar, implicitamente, | ||
| + | * O princípio de interpretar o confuso mediante o mais desenvolvido pressupõe que tendências imanentes ainda não claramente percebidas pelo próprio Platão possam ser esclarecidas por um intérprete posterior. | ||
| + | * A intervenção heideggeriana, | ||
| + | * A ontologia fundamental posteriormente articulada em Ser e tempo funciona como verdadeiro horizonte da interpretação, | ||
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| + | 25. A hipótese de que Platão pretendia completar a sequência [[p> | ||
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| + | 26. Ainda que a leitura heideggeriana de Platão não corresponda estritamente ao que os diálogos platônicos efetivamente afirmam, sua importância filosófica não se reduz à fidelidade historiográfica, | ||
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