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| + | ===== §1 ===== | ||
| + | **Consideração prévia** | ||
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| + | **§ 1. A necessidade de uma preparação dupla da interpretação dos diálogos platônicos** | ||
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| + | 1. A interpretação de dois diálogos tardios de Platão, O Sofista e Filebo, exige uma penetração renovada naquilo que neles se torna temático, pois conceitos aparentemente evidentes como ser ([[lx> | ||
| + | * A primeira preparação deve fornecer uma orientação acerca do modo pelo qual conceitos peculiares como ser (Sein) e não ser (Nichtsein), | ||
| + | * A segunda preparação deve possibilitar uma apreensão correta do passado que se apresenta em Platão, evitando que perspectivas posteriores sejam arbitrariamente projetadas para o interior de seu pensamento por meio da interpretação. | ||
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| + | 2. A dupla preparação requerida articula, de um lado, uma orientação acerca do modo de ser ([[lx> | ||
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| + | 3. A preparação relativa ao primeiro aspecto deve inicialmente esclarecer, apenas de modo indicativo, o método e a intenção da fenomenologia, | ||
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| + | **a) Preparação filosófico-fenomenológica. Método e intenção da fenomenologia** | ||
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| + | 4. A fenomenologia caracteriza-se por deixar aquilo que se mostra tornar-se acessível e inteligível a partir de si mesmo, distinguindo-se de qualquer ciência particular não pelo simples fato de descrever fenômenos, mas pelo modo determinado segundo o qual se posiciona diante daquilo que se mostra e o persegue em seu próprio ser (Sein), de maneira que fenômeno designa o ente (Seiendes) tal como se mostra nas diferentes possibilidades de seu desvelamento. | ||
| + | * Esse modo de consideração não constitui uma técnica especializada, | ||
| + | * Nas Investigações lógicas de Husserl, a consideração fenomenológica concentra-se nos fenômenos da consciência e da vivência, procurando determinar a aparência própria de atos como conhecer e julgar e explicitar sua estrutura. | ||
| + | * A centralidade histórica da consciência e das vivências, desenvolvida também pela psicologia descritiva e especialmente por Dilthey, torna necessário um controle crítico constante, porque tais regiões já chegam à investigação carregadas por uma longa história de elaborações, | ||
| + | * Os diálogos platônicos oferecem condições particularmente favoráveis para esse exercício crítico, por conservarem a vitalidade do discurso e da resposta e permitirem que a investigação filosófica seja reconduzida ao próprio movimento do perguntar e responder. | ||
| + | * A fenomenologia abre a possibilidade de perguntar e responder cientificamente no âmbito da filosofia, embora disso não decorra que todas as questões filosóficas estejam previamente resolvidas por ela. | ||
| + | * Sua aprendizagem não se realiza pela mera leitura da bibliografia fenomenológica nem pela assimilação de opiniões estabelecidas, | ||
| + | * Quando a compreensão efetiva das coisas é alcançada, a fenomenologia pode desaparecer como designação metodológica autônoma, pois sua função se cumpre na própria abertura das coisas investigadas. | ||
| + | * A formação filosófica universitária deve, por isso, introduzir internamente nas questões científicas e despertar para o movimento próprio do trabalho científico e para o sentido da existência ([[lx> | ||
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| + | 5. A segunda dimensão da preparação deve voltar-se à apreensão correta do passado histórico que se apresenta em Platão, de maneira que esse passado possa ser encontrado a partir de seu próprio solo e não mediante a projeção retrospectiva de categorias alheias. | ||
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| + | **b) Preparação historiológico-hermenêutica. O princípio da hermenêutica: | ||
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| + | 6. O passado grego não constitui algo remoto e simplesmente destacado do presente, porque a filosofia e a ciência contemporâneas permanecem assentadas sobre fundamentos provenientes da filosofia grega, precisamente de modo tão profundo que tais fundamentos se tornaram cotidianos e óbvios, exigindo-se da interpretação dos diálogos platônicos que torne novamente transparente aquilo que, por sua familiaridade histórica, deixou de ser percebido. | ||
| + | * Compreender a história significa compreender aquilo que o presente deve ser a partir do passado ao qual permanece devedor, e não simplesmente representar aquilo que existiu anteriormente. | ||
| + | * Apropriar-se filosoficamente do passado implica reconhecer uma dívida histórica que pode ter sido encoberta pelo abandono ou pela insuficiência da recepção, mesmo quando se acredita poder recomeçar o filosofar em condições inteiramente novas. | ||
| + | * O acesso efetivo a Platão exige, portanto, um fio condutor que permita alcançar justamente aquilo que não se encontra imediatamente presente. | ||
| + | * Em vez do percurso usual que parte de Sócrates e dos pré-socráticos em direção a Platão, deve-se realizar o movimento inverso, retornando de Aristóteles a Platão segundo o princípio hermenêutico de avançar do claro para o obscuro. | ||
| + | * Pressupõe-se que Aristóteles tenha compreendido Platão, pois a pesquisa histórica crítica encontra um de seus princípios elementares na possibilidade de que pensadores posteriores compreendam decisivamente aquilo que seus predecessores não chegaram a explicitar plenamente para si mesmos. | ||
| + | * Aristóteles deve, assim, preparar o acesso a Platão não por representar uma superação valorativa de seu mestre, mas porque retoma e radicaliza cientificamente questões platônicas fundamentais, | ||
| + | * Essa preparação permanece orientada pela questão do discurso e de seu desvelamento, | ||
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| + | 7. Como nenhum outro grande pensador posterior prosseguiu diretamente o trabalho filosófico de Aristóteles em sua integralidade, | ||
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| + | **c) Primeira indicação do tema de O Sofista. O sofista. O filósofo. O ser do ente** | ||
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| + | 8. Em O Sofista, Platão conduz a investigação do ser-aí ([[lx> | ||
| + | * A determinação do sofista e do filósofo entrelaça-se necessariamente com a questão do ser (Sein) do ente (Seiendes), porque a interpretação do sofista exige um solo ontológico no qual possa ser esclarecido aquilo que ele é. | ||
| + | * A via platônica realiza-se mediante uma meditação sobre o ser (Sein) do ente (Seiendes), pela qual se conquista o terreno apropriado para determinar tanto a atividade sofística quanto a possibilidade própria da filosofia. | ||
| + | * A orientação inicial oferecida por Aristóteles deve permitir que a investigação retorne ao ente (Seiendes) e ao ser (Sein), procurando no horizonte dessas determinações aquilo que possibilita compreender adequadamente a problemática platônica. | ||
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