obra:ga17:pseudos-31a38
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| + | ===== GA17:31-38 – PSEUDOS ===== | ||
| + | **d) Os três aspectos do ψεῦδος. A existência factual do falar como fonte autêntica do engano. Circunstancialidade e esquividade do mundo** | ||
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| + | 1. Aristóteles trata do pseudos na Metafísica, | ||
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| + | 2. A prontidão para destacar coisas umas das outras já é, como tal, um ostender (portanto, não um julgar), devendo um ente existente ser mostrado como ente existente, sendo o potencial que possui um âmbito específico de coisas destacáveis entre si, de fato, cada instância de destacar uma coisa de outra, em sua tendência a apontar algo, um meio de estabelecer, | ||
| + | * Esse algo definido é construído como o um em contraste com outro, sendo algo outro com base em um caráter específico da matéria: " | ||
| + | * Nesse modo de destacar uma coisa de outra, o " | ||
| + | * O " | ||
| + | * O apophantikos-como é evidente em todo falar, mas em todo falar está também presente o " | ||
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| + | 3. Coloca-se a questão de como a possibilidade do pseudos se funda no próprio logos, sendo o pseudos o apresentar ostensivo de algo como algo, sendo, por isso, mais do que meramente ocultar algo sem apresentá-lo como algo diverso do que é, perguntando-se em que respeito uma coisa (Sache, pragma) pode ser falsa quanto ao seu ser enquanto coisa. | ||
| + | * Um sentido do " | ||
| + | * Uma possibilidade de ser falso reside no fato de o conteúdo específico dos caracteres não permitir que sejam reunidos com base nos estados de coisas em que figuram. | ||
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| + | 4. Há coisas que, embora existentes, têm por natureza a propriedade de aparecer diversas do que são ou como coisas que não existem, como o esboço (skiagraphia) e os sonhos, pois essas coisas são algo, mas não aquilo de que produzem a aparência, dizendo-se, assim, que as coisas são falsas por não existirem elas mesmas ou por a aparência que delas parte ser de algo que não existe. | ||
| + | * Há entes que, em seu modo específico de ser, têm a peculiaridade de se apresentar como algo que não são ou como caracterizados de um modo que não são, residindo aqui a possibilidade do engano não primariamente em uma concepção equivocada, mas no próprio ente. | ||
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| + | 5. Coloca-se a questão de como pode haver falar de um pseudos no caso em que o dado de fato designado como falso simplesmente não existe, como se dá aí a possibilidade de um pseudos onde o dado de fato relevante de modo algum existe, como a linguagem chega a caracterizar um não-ser como um ser falso. | ||
| + | * Um exemplo disso é o modo como a diagonal de um quadrado pode ser apresentada por uma proporção definida, dando os dados de fato inicialmente a impressão de serem mensuráveis, | ||
| + | * Tão logo, porém, se torna evidente por demonstração que tal existência é impossível, | ||
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| + | 6. Cada um dos três sentidos do pseudos considera um dado de fato sob um respeito definido, mas de tal modo que os outros também são levados em conta, apontando assim o pragma pseudes para o logos pseudes. | ||
| + | * O logos de cada coisa é, por um lado, um só (o "o que era ser" dela) e, por outro, muitos, uma vez que a própria coisa e a coisa afetada são de certo modo as mesmas, como Sócrates e um Sócrates músico. | ||
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| + | 7. Para cada ente existente enquanto tal há um único logos por meio do qual se pode falar da própria coisa em seu ser, o [[f> | ||
| + | * Há, além disso, [[f> | ||
| + | * O logos falso é simplesmente o logos de nada, sendo esses logoi aqueles pelos quais se fala de uma coisa de tal modo que o que se diz dela não se obtém dela apenas, mas em relação a algo outro com que já se está familiarizado, | ||
| + | * Aquilo para que se olha é algo que se deve trazer à consideração ao se determinar a matéria, não sendo tal logos jamais simples, sendo o logos simples aquele por meio do qual se determina a própria coisa, sem dela se afastar. | ||
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| + | 8. O segundo sentido do pseudos é o logos pseudes, trabalhando Aristóteles aqui com a distinção segundo a qual há um único modo de dirigir-se a cada ente, quando este é tomado em seu conteúdo factual e em seu modo de ser: o horismos. | ||
| + | * Ao lado desse logos único, ajustado ao ente, há uma série de logoi flutuantes livremente, o que explica o fato de existir algo como o engano. | ||
| + | * Aproveita-se a ocasião para destacar uma questão muito discutida na tradição, a saber, a de que não pode haver contradição se há apenas um modo específico de falar de cada ente, não havendo contradição na medida em que só existem logoi que se aplicam respectivamente à sua matéria, transcorrendo a contradição apenas em uma dimensão bastante específica, | ||
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| + | 9. É possível dirigir-se a cada coisa não apenas por meio de seu próprio logos, mas também por meio do logos de outra, ora falsamente e por completo, ora também verdadeiramente, | ||
| + | * É possível dirigir-se a qualquer ente particular existente não apenas por meio do modo pelo qual ele mesmo é acessível, mas sob qualquer respeito referente a outros entes, podendo os muitos logoi geralmente enganar, mas podendo também, em certos casos, acertar o alvo. | ||
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| + | 10. O terceiro sentido do pseudos, tal como Aristóteles dele fala, é o anthropos pseudes (o homem falso), sendo chamado falso o homem que prontamente e deliberadamente produz tais logoi, sendo esse o proairetikos, | ||
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| + | 11. Para responder à questão de como os três sentidos do pseudos dependem uns dos outros, considera-se o logos concreto de um homem que vive em um mundo, cujos [[lx> | ||
| + | * Um homem, ao falar sobre o mundo existente tal como o encontra, pode mentir, constituindo [[f> | ||
| + | * Tomando-se o sentido de pseudos nesse sentido primordial, a fim de, a partir daí, tornar inteligível o fato de que se designam falsamente as coisas, quer-se compreender como se dá que as coisas sejam assim designadas, sendo necessário, | ||
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| + | 12. Tenta-se, na medida do possível, aproximar-se do que seja a facticidade do falar, a qual se dá no âmbito de homens que existem em um mundo que compartilham, | ||
| + | * Esse falar-aqui-e-agora é tomado no sentido de ter a tendência a dizer algo, estando em exibição pública, estando assim o falar aqui, desde o início, com a existência dos homens que falam, sendo tomado, desde o princípio, como uma ostensão de algo, fazendo a reivindicação natural e vital de dizer algo. | ||
| + | * Apenas em virtude do fato da vocalização, | ||
| + | * Uma pessoa mendaz é capaz de resolver-se explicitamente a ocultar, falando de tal modo que o que diz oculta o dado de fato sobre o qual faz uma asserção, apresentando-se aqui o fato notável de que quem mente deve estar familiarizado precisamente com o dado de fato sobre o qual faz a asserção, só se estando em posição de mentir propriamente quando se está familiarizado com o dado de fato. | ||
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| + | 13. Não é necessário que essa tendência explícita a uma vida de ocultamento esteja presente, podendo-se apontar para um modo de viver que não vive na tendência a ocultar objetos, mas apenas fala nessa direção publicamente, | ||
| + | * O verdadeiro oposto do falar não é o falar falsamente, o falar enganoso, mas o permanecer calado, podendo a tendência a explicitamente enganar retroceder, mas de tal modo que a fala, mais ou menos conscientemente, | ||
| + | * Esse é o modo específico de articular as coisas por meio de vários logoi, residindo a possibilidade do engano também no tipo de enunciado que atua em um ver defeituoso, motivado este não por descuido na observação, | ||
| + | * A fala pode ser tal que tenha a tendência positiva de apresentar os dados de fato tal como efetivamente são, mas fala no contexto de um modo defeituoso de ver, não sendo os dados de fato genuinamente apropriados, | ||
| + | * Tornar-se-á claro quais são as fontes das quais podem brotar o engano e as possibilidades de engano do falar, sendo possível tomar o mundo existente sob diversos respeitos. | ||
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| + | 14. Ao lado do caráter circunstancial do falar, um motivo adicional para o fato de vermos de modo defeituoso ou de nem sempre falarmos dos dados de fato como tais reside no modo de ser do mundo que se designa como sua esquividade ([[lx> | ||
| + | * A esquividade é algo que reside no próprio ser do mundo, cujos fenômenos incluem a luz do dia e a escuridão com as quais já se travou conhecimento, | ||
| + | * A esquividade é um traço próprio do mundo existente enquanto existente, podendo as coisas escapar-nos sem que isso signifique que desapareçam, | ||
| + | * Não se veem as coisas como matérias no sentido de serem objeto de uma investigação científica, | ||
| + | * Por estar o mundo, em sua riqueza, presente apenas na respectiva concretude do viver, a esquividade é muito mais abrangente e, com ela, a possibilidade do engano está à mão, sendo tanto mais genuína a existência do engano quanto mais concretamente se está no mundo. | ||
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| + | 15. Permanece a questão de como se chega a designar as próprias coisas como um engano, tendo-se até aqui apenas ressaltado que o enganar reside no falar, colocando-se a pergunta de como acontece que coisas existentes sejam designadas como falsas, e por que não nos contentamos em falar do não-existente como não-existente, | ||
| + | * Se alguém diz "a comensurabilidade das diagonais com o lado de um quadrado não existe; esse ser é falso", | ||
| + | * Esse seu não-ser, que desperta a impressão definida, é designado como falso, sendo essa impressão específica que tais objetos causam frustrada. | ||
| + | * Assim, evidencia-se que também esse uso da expressão pseudos referido às coisas (na medida em que não existem) se funda no contexto unitário de que se está falando, devendo-se ver também essas coisas em um contexto. | ||
| + | * Já no processo de articular, na medida em que o falar tem a tendência a ser ostensivo, há a impressão de que há algo dessa espécie em um campo onde há algo mensurável, | ||
| + | * Está aqui o fenômeno da nominalização e da neutralização no sentido de Husserl, podendo-se articular sentenças como meramente opinadas ou intencionadas, | ||
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| + | 16. Vê-se aqui a diferença entre o engano e o sonho, tendo o sonho alguma existência com base na qual engana, sendo o logos como logos apofântico, | ||
| + | * Na medida em que o logos pode caracterizar a existência de um homem, ele perpassa toda a lida do homem com seu mundo, todo ver, interpretar, | ||
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