obra:ga14:caminho
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| + | ===== CAMINHO NA FENOMENOLOGIA ===== | ||
| + | //Resumo em tópicos// | ||
| + | **Meu caminho na fenomenologia** | ||
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| + | 1. O percurso universitário iniciado no inverno de 1909–1910 na Faculdade de Teologia da Universidade de Friburgo permitiu que, paralelamente aos estudos teológicos, | ||
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| + | 2. O primeiro acesso à fenomenologia ocorreu pela conexão entre Husserl e Franz Brentano, cuja dissertação sobre a múltipla significação do ente ([[lx> | ||
| + | * A influência atribuída a Brentano sobre Husserl tornou as Investigações Lógicas uma possível via para aprofundar a interrogação acerca da multiplicidade dos sentidos do ente (Seiendes). | ||
| + | * A pergunta decisiva já assumia a forma de uma busca pelo significado condutor capaz de unificar os múltiplos sentidos do ente: o que significa ser (Sein)? | ||
| + | * A obra de Carl Braig, Do Ser: Compêndio de Ontologia, oferecia simultaneamente referências históricas e etimológicas aos conceitos fundamentais da ontologia. | ||
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| + | 3. A expectativa de encontrar nas Investigações Lógicas um esclarecimento decisivo para as questões abertas por Brentano permaneceu inicialmente frustrada, porque a procura ainda se orientava numa direção inadequada, embora o fascínio persistente pela obra de Husserl levasse a repetidas leituras durante anos e fizesse com que tanto o nome da editora Max Niemeyer quanto o ainda hesitante título de “Fenomenologia” adquirissem uma força enigmática cuja conexão somente mais tarde se tornaria compreensível. | ||
| + | * A dificuldade inicial não consistia em falta de interesse, mas na incapacidade de compreender suficientemente aquilo que exercia tamanha atração na obra. | ||
| + | * O próprio aspecto material dos volumes e a presença conjunta dos nomes “Max Niemeyer” e “Fenomenologia” integravam essa experiência inicial de fascínio. | ||
| + | * A posterior história intelectual mostraria que a ligação entre a editora Niemeyer e a fenomenologia não era meramente circunstancial. | ||
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| + | 4. O abandono dos estudos de teologia após quatro semestres e a dedicação integral à filosofia não eliminaram o interesse pela teologia especulativa, | ||
| + | * O curso posterior de Dogmática ministrado por Braig manteve vivo o vínculo com a problemática teológica. | ||
| + | * A forma penetrante de pensamento de Braig mostrou a relevância filosófica de Schelling e Hegel para uma teologia que não se restringisse ao sistema doutrinal escolástico. | ||
| + | * A relação entre ontologia, teologia especulativa e metafísica tornou-se, assim, um problema de fundo. | ||
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| + | 5. A problemática da relação entre ontologia e teologia especulativa foi temporariamente deslocada pelo seminário de Heinrich Rickert dedicado às obras de Emil Lask, nas quais a reelaboração da filosofia transcendental e da doutrina das categorias manifestava claramente a influência das Investigações Lógicas de Husserl. | ||
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| + | 6. O reencontro com Husserl provocado pela leitura de Lask tornou inevitável uma investigação mais aprofundada das Investigações Lógicas, mas a dificuldade fundamental permanecia concentrada na pergunta sobre como prosseguir efetivamente no procedimento de pensamento denominado fenomenologia, | ||
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| + | 7. A aparente contradição entre o primeiro volume das Investigações Lógicas, que refutava o psicologismo ao negar que a teoria do pensamento e do conhecimento pudesse fundamentar-se na psicologia, e o segundo volume, dedicado à descrição dos atos de consciência, | ||
| + | * A descrição fenomenológica dos atos de consciência parecia, à primeira vista, reassumir o terreno dos “fenômenos psíquicos” delimitado por Brentano. | ||
| + | * A hipótese de um simples retorno ao psicologismo parecia incompatível com a exigência filosófica da obra de Husserl. | ||
| + | * Tornava-se necessário determinar o próprio da fenomenologia e esclarecer se nela se inaugurava um campo filosófico dotado de autonomia e primazia próprias. | ||
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| + | 8. Naquele momento ainda não era possível encontrar uma solução adequada para essas questões nem formulá-las com a precisão que sua posterior elaboração filosófica tornaria possível. | ||
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| + | 9. A publicação, | ||
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| + | 10. A fenomenologia pura passou a apresentar-se como ciência fundamental da filosofia em sentido transcendental, | ||
| + | * “Puro” significava aqui “transcendental”, | ||
| + | * A subjetividade transcendental deveria ser determinada de modo mais originário e universal do que na tradição filosófica precedente. | ||
| + | * A investigação fenomenológica voltava-se simultaneamente aos atos da consciência e aos objetos tal como se dão nesses atos. | ||
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| + | 11. O projeto universal de uma filosofia fenomenológica apresentado nas Ideias permitiu conferir às Investigações Lógicas um lugar sistemático que anteriormente permanecera filosoficamente indeterminado, | ||
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| + | 12. A publicação, | ||
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| + | 13. A concentração dessas publicações conferiu à editora Niemeyer uma posição de destaque na filosofia e favoreceu a interpretação corrente segundo a qual a fenomenologia constituía uma nova tendência no interior da filosofia europeia. | ||
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| + | 14. A classificação puramente histórica da fenomenologia como uma nova corrente filosófica deixava, porém, inexplorado aquilo que efetivamente se realizara nas próprias Investigações Lógicas, enquanto as declarações programáticas e metodológicas de Husserl alimentavam o equívoco de que a fenomenologia pretendesse instaurar um começo absolutamente novo da filosofia mediante a rejeição de todo pensamento precedente. | ||
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| + | 15. Mesmo após a publicação das Ideias, permanecia intacto o fascínio exercido pelas Investigações Lógicas, acompanhado por uma inquietação cuja origem ainda não podia ser claramente determinada e que revelava a insuficiência da simples leitura de literatura filosófica para alcançar uma compreensão efetiva do modo de pensar denominado fenomenologia. | ||
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| + | 16. A perplexidade começou lentamente a desfazer-se somente quando o encontro pessoal com Husserl em seu gabinete tornou possível uma aproximação direta à prática fenomenológica. | ||
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| + | 17. A chegada de Husserl a Friburgo, em 1916, como sucessor de Heinrich Rickert, tornou suas aulas uma aprendizagem gradual da visão fenomenológica, | ||
| + | * O exercício fenomenológico requeria libertação diante de conhecimentos herdados e autoridades filosóficas utilizadas como respostas previamente disponíveis. | ||
| + | * A permanência da relação com Aristóteles não se mostrou incompatível com a fenomenologia, | ||
| + | * As consequências decisivas dessa nova aproximação a Aristóteles ainda não podiam então ser antecipadas. | ||
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| + | 18. A partir de 1919, o exercício simultâneo do ensino, da aprendizagem junto a Husserl, da visão fenomenológica e de uma leitura renovada de Aristóteles conduziu novamente à sexta das Investigações Lógicas, cuja distinção entre intuição sensível e intuição categorial se revelou capaz de esclarecer a multiplicidade de sentidos do ente (Seiendes). | ||
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| + | 19. A importância adquirida pela sexta Investigação Lógica levou amigos e alunos a solicitar repetidamente sua republicação, | ||
| + | * A republicação preservou a sexta investigação em sua forma antiga, tornando novamente acessível um texto então de difícil obtenção. | ||
| + | * A expressão husserliana “amigos da presente obra” indicava a iniciativa daqueles que ainda encontravam nas Investigações Lógicas uma fecundidade filosófica própria. | ||
| + | * O desenvolvimento posterior de Husserl orientava-se cada vez mais para a sistematização da fenomenologia transcendental. | ||
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| + | 20. O estudo semanal das Investigações Lógicas com grupos avançados de seminário, embora recebido por Husserl com uma reserva crítica, tornou-se decisivo para compreender que aquilo que a fenomenologia apreendia como manifestação do fenômeno havia sido pensado de maneira mais originária pelos gregos como desvelamento ([[lx> | ||
| + | * A preparação dos seminários mostrou-se filosoficamente fecunda sobretudo para a própria elaboração da problemática. | ||
| + | * O manifestar-se fenomenológico revelou uma afinidade mais originária com a experiência grega da alétheia do que com uma simples teoria moderna dos atos de consciência. | ||
| + | * O desvelamento (Unverborgenheit), | ||
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| + | 21. À medida que se tornava mais clara a conexão entre manifestação fenomenológica e desvelamento (Unverborgenheit), | ||
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| + | 22. A atitude fenomenológica conduziu, assim, novamente ao caminho da pergunta pelo ser (Seinsfrage), | ||
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| + | 23. A exigência institucional de publicar rapidamente um trabalho no semestre de inverno de 1925–1926 surgiu quando a Faculdade de Filosofia de Marburgo propôs a nomeação para a cátedra deixada por Nicolai Hartmann, mas o Ministério de Berlim devolveu a proposta alegando a ausência de publicações nos dez anos anteriores. | ||
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| + | 24. A necessidade de publicação levou à retomada de um trabalho guardado havia muito tempo, e a mediação de Husserl possibilitou que a editora Max Niemeyer aceitasse imprimir imediatamente os quinze primeiros fascículos destinados ao Anuário de Husserl, exemplares que a Faculdade encaminhou ao Ministério como comprovação da produção filosófica apresentada. | ||
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| + | 25. A classificação ministerial inicial desses fascículos como “insuficiente” foi superada após a publicação integral de Ser e Tempo (Sein und Zeit), em fevereiro de 1927, no oitavo volume do Anuário e em edição separada, circunstância que levou, seis meses depois, à revogação do parecer negativo e à ratificação da nomeação. | ||
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| + | 26. A publicação de Ser e Tempo (Sein und Zeit) estabeleceu a primeira relação direta com a editora Max Niemeyer e transformou aquele nome, anteriormente conhecido apenas pela folha de rosto das obras de Husserl, numa experiência concreta de cuidado, confiabilidade, | ||
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| + | 27. A preparação, | ||
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| + | 28. A homenagem a Edmund Husserl foi publicada pontualmente no aniversário do filósofo e entregue pessoalmente a ele em 8 de abril de 1929, na presença de seu círculo de discípulos e amigos. | ||
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| + | 29. Após uma década sem publicações importantes, | ||
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| + | 30. Doze anos mais tarde, ao decidir publicar algumas conferências anteriormente proferidas, a escolha voltou a recair sobre a editora Niemeyer, então reconstruída em Tübingen após grandes perdas e dificuldades pessoais enfrentadas por seu proprietário. | ||
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| + | 31. A história da editora Niemeyer remonta também ao período em que Husserl ensinava em Halle an der Saale e concebia as Investigações Lógicas, cuja publicação por uma casa editorial disposta a acolher uma extensa obra de um professor pouco conhecido e orientado por caminhos incomuns contribuiu para transformar tanto a filosofia contemporânea quanto a própria identidade da editora, posteriormente ligada de modo indissociável à fenomenologia. | ||
| + | * Husserl recordava em Friburgo, com gratidão e admiração, | ||
| + | * As Investigações Lógicas inicialmente chocaram a filosofia contemporânea antes de terem sua importância reconhecida por Wilhelm Dilthey. | ||
| + | * A editora não poderia prever que seu nome se tornaria associado à fenomenologia e, por intermédio dela, a uma orientação capaz de marcar amplamente o espírito da época. | ||
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| + | 32. Embora a filosofia fenomenológica possa hoje parecer encerrada e reduzida historicamente a uma tendência entre outras, aquilo que lhe é mais próprio não pertence à forma de uma corrente filosófica, | ||
| + | * A permanência da fenomenologia não depende da conservação de seu título histórico ou de sua institucionalização como escola. | ||
| + | * Sua essência reside na possibilidade de um pensar que se transforma para corresponder àquilo que há de ser pensado. | ||
| + | * A coisa do pensar ([[lx> | ||
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| + | **Apêndice de 1969** | ||
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| + | 33. A formulação de Ser e Tempo (Sein und Zeit) segundo a qual a essência da fenomenologia não reside em sua realização histórica como “corrente” filosófica, | ||
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