husserliana:zahavi:hl:introspeccao
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| + | ====== Introspecção e reflexão ====== | ||
| + | //ZAHAVI, Dan. Husserl’s legacy: phenomenology, | ||
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| + | 1. A identificação da fenomenologia com uma restauração do método de observação interior ou com alguma modalidade privilegiada de experiência interna constitui, na perspectiva husserliana, | ||
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| + | **1.1 Preocupações metodológicas** | ||
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| + | 2. O desenvolvimento extraordinário da psicologia no século XIX, impulsionado por pesquisadores como Müller, Helmholtz, Hering, Fechner e Wundt, consolidou-a como empreendimento científico fortemente modelado pelas ciências naturais e sobretudo pela fisiologia, mas essa orientação naturalista passou a ser contestada por sua tendência a tratar a consciência como simples objeto mundano e por sua incapacidade de fazer justiça à dimensão experiencial e à subjetividade. | ||
| + | * Wilhelm Dilthey criticou essa naturalização em Ideias acerca de uma psicologia descritiva e analítica, defendendo que a psicologia deveria aproximar-se das ciências humanas e conservar a diferença entre explicação científico-natural e compreensão. | ||
| + | * À psicologia explicativa ou construtiva, | ||
| + | * A alternativa de Dilthey permaneceu, contudo, excessivamente vinculada à introspecção, | ||
| + | * A crítica de Hermann Ebbinghaus contribuiu para que, na virada do século, a orientação naturalista parecesse vitoriosa, situação profundamente modificada com a publicação das Investigações lógicas de Husserl. | ||
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| + | 3. As Investigações lógicas inauguraram a fenomenologia como novo método de investigação da consciência, | ||
| + | * Brentano caracterizava fenômenos psíquicos como consciência de alguma coisa, mas não teria reconhecido os problemas propriamente fenomenológicos da intencionalidade. | ||
| + | * Para Husserl, nenhuma experiência consciente pode ser adequadamente descrita sem que simultaneamente se descreva seu objeto intencional precisamente como é dado nessa experiência. | ||
| + | * Brentano teria deixado inexploradas as implicações intencionais, | ||
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| + | 4. A análise husserliana da intencionalidade sustenta que toda experiência intencional pertence a uma modalidade específica — perceber, julgar, esperar, desejar, lamentar, recordar, afirmar, duvidar, admirar-se ou temer —, dirige-se de maneira determinada a um objeto e somente pode ser analisada considerando seu correlato objetivo, sendo essa investigação empreendida para estabelecer novos fundamentos para a lógica e a epistemologia sem, contudo, recair no psicologismo. | ||
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| + | 5. O psicologismo procura subordinar a epistemologia e a lógica à psicologia ao argumentar que perceber, crer, julgar, conhecer e raciocinar são fenômenos psíquicos e que, por conseguinte, | ||
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| + | 6. A crítica husserliana ao psicologismo depende da distinção rigorosa entre o ato de conhecer e o objeto conhecido, pois uma coisa percebida possui propriedades inteiramente distintas da percepção que a apresenta, assim como verdades, princípios e leis lógicas não podem ser identificados com os processos psíquicos temporais pelos quais são apreendidos. | ||
| + | * Um bolo percebido pode possuir peso, ser comido e participar de determinadas relações causais, enquanto a percepção do bolo não possui essas propriedades. | ||
| + | * O objeto percebido não é acerca de alguma coisa, enquanto o ato perceptivo é precisamente percepção de algo. | ||
| + | * Analogamente, | ||
| + | * Apesar dessa diferença irredutível, | ||
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| + | 7. A crítica ao psicologismo não impede que a fenomenologia retorne sistematicamente à consciência, | ||
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| + | 8. A importância conferida pela fenomenologia à perspectiva de primeira pessoa favoreceu sua identificação com a psicologia introspectiva, | ||
| + | * Dennett contrapõe sua investigação externa do mundo experiencial alheio a uma suposta técnica introspectiva mediante a qual os fenomenólogos clássicos examinariam seus próprios mundos mentais. | ||
| + | * A epoché é interpretada nesse quadro como uma operação de suspensão do mundo exterior destinada a tornar acessíveis objetos puros da experiência consciente. | ||
| + | * A fenomenologia seria, assim, aproximada das psicologias introspectivas de Wundt e Titchener e de outras tentativas de eliminar interpretações para alcançar dados básicos da consciência. | ||
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| + | 9. A crítica de Dennett atribui a falta de consenso fenomenológico à suposta precariedade da introspecção, | ||
| + | * Sujeito e objeto da investigação coincidiriam na fenomenologia, | ||
| + | * A consciência seria tratada como realidade destacada e autossuficiente, | ||
| + | * Uma ciência rigorosa da consciência deveria, segundo essa crítica, privilegiar métodos de terceira pessoa e investigar mecanismos cerebrais subpessoais inacessíveis à introspecção. | ||
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| + | 10. A caracterização de Dennett permanece baseada em observações fragmentárias e não em análise sistemática da tradição fenomenológica, | ||
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| + | 11. A reivindicação de que uma interpretação equivocada de Husserl seria prejudicial ao próprio Husserl, e não à interpretação, | ||
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| + | 12. Thomas Metzinger formula uma objeção semelhante ao declarar a fenomenologia impossível porque dados de primeira pessoa não satisfariam os critérios epistemológicos dos dados científicos, | ||
| + | * Divergências entre conjuntos individuais de dados fenomenais não disporiam de procedimento externo capaz de solucioná-las. | ||
| + | * Como os dados científicos seriam extraídos do mundo físico mediante instrumentos e procedimentos públicos, a própria expressão “dados de primeira pessoa” tornar-se-ia, | ||
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| + | 13. A identificação entre reflexão fenomenológica e introspecção também é defendida positivamente por autores associados ao método da entrevista de elicitação, | ||
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| + | 14. A introspecção clássica de Titchener produz descrições minuciosas e idiossincráticas de imagens e sensações suscitadas por determinadas palavras, enquanto métodos contemporâneos de elicitação procuram ampliar progressivamente o campo atencional para revelar gestos, sensações corporais, emoções e atmosferas afetivas inicialmente despercebidas durante uma experiência. | ||
| + | * A atenção pode deslocar-se do conteúdo temático de uma conversa para seus gestos, ressonâncias corporais e tonalidades afetivas. | ||
| + | * A descrição resultante procura recuperar aspectos marginais ou pré-reflexivamente despercebidos mediante uma atitude receptiva e descentrada. | ||
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| + | 15. A concepção segundo a qual uma descrição fenomenológica deveria ser validada pela reencenação individual do processo experiencial que a originou conduz à questão de saber se a fenomenologia husserliana deve realmente ser entendida como coleção de descrições extremamente finas de segmentos temporais da experiência e se técnicas destinadas a descobrir detalhes antes despercebidos tornariam alguém filosoficamente um fenomenólogo melhor. | ||
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| + | 16. O retorno às próprias obras de Husserl mostra que as Investigações lógicas, reconhecidas como marco fundador da fenomenologia, | ||
| + | * A própria natureza sistemática e argumentativa da obra torna implausível classificá-la como psicologia introspectiva. | ||
| + | * Husserl rejeitou explicitamente a equiparação entre intuição fenomenológica e experiência interior e qualificou como fundamentalmente equivocada a ideia de que a fenomenologia restauraria a observação interna. | ||
| + | * Essa rejeição foi compartilhada por outros fenomenólogos, | ||
| + | * Heidegger recusou interpretar sua análise das estruturas existenciais do ser-aí ([[lx> | ||
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| + | 17. As controvérsias internas à fenomenologia são filosóficas e não disputas acerca de dados introspectivos concorrentes, | ||
| + | * Disputas acerca da pureza de uma cor percebida ou da forma precisa de padrões visuais observados com os olhos fechados não caracterizam os problemas centrais da tradição fenomenológica. | ||
| + | * Confundir essas questões com a investigação de Husserl revela desconhecimento da natureza dos problemas efetivamente debatidos pelos fenomenólogos. | ||
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| + | 18. Embora se interesse pela consciência experiencial e por sua dimensão em primeira pessoa, a fenomenologia não procura registrar experiências particulares e idiossincráticas, | ||
| + | * Afirmações factuais sobre náuseas momentâneas, | ||
| + | * A análise dirige-se às estruturas essenciais que tornam possíveis modalidades de experiência compartilháveis e filosoficamente inteligíveis. | ||
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| + | 19. A fenomenologia pode ser caracterizada como investigação eidética e a priori das estruturas da consciência, | ||
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| + | 20. A simples realização de análises eidéticas refinadas da consciência ainda não basta, segundo Husserl, para distinguir a fenomenologia de uma psicologia eidética, pois uma investigação pode alcançar estruturas universais da experiência e continuar permanecendo inteiramente no nível psicológico. | ||
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| + | 21. A diferença decisiva entre psicologia e fenomenologia reside em que a primeira, como as demais ciências positivas, opera a partir de pressupostos metafísicos e mundanos aceitos na atitude natural, enquanto a fenomenologia transforma esses pressupostos em problemas e desenvolve uma investigação transcendental acerca das próprias condições de manifestação, | ||
| + | * As ciências partem de um mundo previamente dado cuja existência e cognoscibilidade são espontaneamente pressupostas. | ||
| + | * Essa pré-doação contém problemas transcendentais que permanecem invisíveis enquanto se conserva a perspectiva natural. | ||
| + | * A tarefa filosófica consiste precisamente em tornar temáticas essas condições normalmente não examinadas. | ||
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| + | 22. O caráter transcendental da fenomenologia decorre da correlação entre transcendência e transcendentalidade e de sua tentativa de esclarecer como algo pode constituir-se como transcendente, | ||
| + | * As ciências positivas podem legitimamente pressupor a independência dos objetos investigados, | ||
| + | * A questão transcendental consiste em compreender como o mundo pode aparecer como independente da própria perspectiva mediante a qual é experienciado. | ||
| + | * A formulação cartesiana tradicional que pergunta como uma mente interior alcançaria um mundo exterior produz um pseudoproblema ao esquecer a intencionalidade e conceber a mente como entidade inicialmente isolada e separada do mundo. | ||
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| + | 23. Merleau-Ponty também distingue em princípio fenomenologia e psicologia introspectiva ao sustentar que esta investiga a consciência como um setor particular do ser, enquanto a fenomenologia reconhece que a própria consciência não pode ser compreendida sem colocar em questão a aceitação ingênua da existência absoluta do mundo e sem investigar transcendentalmente sua constituição. | ||
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| + | 24. A fenomenologia situa-se, apesar de suas diferenças internas, em um horizonte kantiano ou pós-kantiano segundo o qual a relação cognitiva com a realidade não consiste no mero espelhamento de um mundo previamente constituído, | ||
| + | * A revolução copernicana de Kant desloca a filosofia da busca pré-crítica pelos componentes últimos da realidade para a investigação transcendental das condições de possibilidade da experiência. | ||
| + | * Husserl e outros fenomenólogos retomam e modificam esse princípio ao investigar as condições de manifestação e inteligibilidade da objetividade. | ||
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| + | 25. A atitude crítica fenomenológica desloca, portanto, a investigação dos objetos simplesmente tomados como existentes para o horizonte de sentido e inteligibilidade que torna possível qualquer investigação objetiva, perguntando como a própria objetividade é constituída e como um mundo pode manifestar-se originariamente. | ||
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| + | 26. A compreensão mais completa da metodologia husserliana exige examinar especificamente o papel da reflexão, pois sua utilização permite esclarecer tanto o alcance quanto a especificidade filosófica da fenomenologia. | ||
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| + | **1.2 O alcance da reflexão** | ||
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| + | 27. Em Ideias I, Husserl denomina reflexão tanto o ato mediante o qual uma experiência pode ser analisada quanto um procedimento metodológico geral da fenomenologia, | ||
| + | * A metodologia fenomenológica não procura obter experiências não contaminadas por linguagem e interpretação. | ||
| + | * A afirmação de que verbalizar uma experiência necessariamente imporia sobre ela estruturas linguísticas e culturais deformadoras não corresponde à posição husserliana. | ||
| + | * A comparação com Bergson permite explicitar essa diferença. | ||
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| + | 28. Bergson sustenta que a razão e a análise tornam o fluxo vivido acessível ao isolá-lo, imobilizá-lo e espacializá-lo, | ||
| + | * A consciência reflexiva privilegiaria distinções nítidas e formas espacialmente delimitadas porque estas podem ser facilmente expressas em palavras. | ||
| + | * A vida consciente, porém, possuiria uma continuidade qualitativa que se perde quando episódios são artificialmente separados e identificados. | ||
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| + | 29. A linguagem transforma, segundo Bergson, percepções, | ||
| + | * A dificuldade não consiste apenas na generalidade das palavras, mas na própria estrutura diferenciadora da linguagem. | ||
| + | * Ao nomear e isolar estados conscientes, | ||
| + | * A linguagem apreenderia apenas sombras sem vida da experiência e não haveria medida comum adequada entre consciência vivida e expressão linguística. | ||
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| + | 30. Embora Sartre e Schutz tenham valorizado aspectos da análise bergsoniana e este último tenha comparado o esforço de voltar-se para o fluxo interior com a redução fenomenológica, | ||
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| + | 31. Husserl considera as discussões linguísticas filosoficamente indispensáveis para esclarecer os verdadeiros objetos da lógica e suas diferenciações essenciais, atribuindo à fenomenologia a tarefa de levar à expressão conceitual pura as essências e conexões intuitivamente dadas, posição que se afasta profundamente da desconfiança bergsoniana diante da linguagem. | ||
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| + | 32. A linguagem pode efetivamente induzir erros, como quando a estrutura gramatical semelhante de “vejo um gato”, “ouço um violino” e “sinto uma dor” sugere uma separação igualmente nítida entre ato e objeto nos três casos, embora a experiência dolorosa não apresente necessariamente a mesma estrutura sujeito-objeto que uma percepção externa; entretanto, a linguagem também permite identificar, | ||
| + | * Existe diferença irredutível entre ler uma descrição da aurora boreal e contemplá-la efetivamente, | ||
| + | * Algumas modalidades experienciais dependem constitutivamente de recursos linguísticos, | ||
| + | * A intuição não pode ser substituída pela linguagem, mas tampouco linguagem e experiência precisam ser concebidas como incompatíveis. | ||
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| + | 33. A posição bergsoniana incorre numa dificuldade metodológica porque utiliza precisamente linguagem e conceitos para descrever uma dimensão da consciência que declara essencialmente inexprimível, | ||
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| + | 34. Husserl reconhece que toda reflexão modifica inevitavelmente a experiência sobre a qual incide, mas rejeita que essa transformação seja necessariamente tão radical que torne impossível reconhecer ou conhecer a experiência original, conservando assim a possibilidade de uma reflexão cognitivamente válida. | ||
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| + | 35. A objeção cética formulada por H. J. Watt questiona como a fenomenologia poderia garantir que estruturas experienciais conhecidas reflexivamente correspondam à experiência tal como era vivida antes de se tornar objeto da reflexão, uma vez que aquilo que se pretende descrever em sua imediaticidade pré-teórica somente se torna disponível como objeto já modificado pelo conhecimento reflexivo. | ||
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| + | 36. A resposta husserliana considera autodestrutivo o ceticismo que afirma ser toda reflexão necessariamente deformadora, | ||
| + | * Caso a reflexão fosse absolutamente incapaz de qualquer validade, não haveria fundamento para afirmar a existência de experiências não refletidas. | ||
| + | * Tampouco seria possível conhecer a ocorrência do próprio ato reflexivo. | ||
| + | * Muito menos seria possível estabelecer que a reflexão transforma ou distorce a experiência vivida. | ||
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| + | 37. A rejeição desse ceticismo não significa afirmar que toda reflexão seja infalível, mas apenas que ela não pode ser constitutivamente enganosa, pois permanece condicionada por aquilo que foi vivido pré-reflexivamente e deve responder a fatos experienciais que não produz arbitrariamente. | ||
| + | * A reflexão sobre uma experiência é motivada por uma familiaridade pré-reflexiva com aquilo que procura recuperar. | ||
| + | * Em termos heideggerianos, | ||
| + | * A experiência já envolve uma forma preliminar de compreensão ou pré-compreensão ([[lx> | ||
| + | * A reflexão filosófica pode, nesse sentido, ser compreendida como continuação e explicitação da reflexividade já pertencente à própria vida. | ||
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| + | 38. A reflexão não reproduz simplesmente a experiência vivida em estado intacto, mas a transforma e altera, sendo precisamente essa diferença em relação à experiência originária que lhe confere valor cognitivo, pois uma duplicação completamente fiel acrescentaria pouco ou nada ao que já estivesse imediatamente presente. | ||
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| + | 39. A transformação reflexiva pode simultaneamente explicitar estruturas implicitamente presentes na experiência pré-reflexiva e introduzir uma espécie de duplicação, | ||
| + | * A racionalidade exige capacidade de avaliar crenças, desejos, ações e respostas emocionais segundo critérios normativos. | ||
| + | * O acesso imediato em primeira pessoa não é suficiente para essa avaliação, | ||
| + | * Esse afastamento permite confrontar, comparar e questionar os próprios estados mentais. | ||
| + | * Husserl vincula essa capacidade a uma vida de responsabilidade por si fundada em evidência e considera a atitude fenomenológica uma práxis de significado pessoal e existencial. | ||
| + | * O ideal socrático de uma vida racional implica autorreflexão incessante, responsabilidade radical e avaliação crítica de fins, caminhos e meios da própria existência. | ||
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| + | 40. O potencial crítico da reflexão mostra que seu emprego fenomenológico possui finalidade muito mais ampla do que acumular relatos introspectivos, | ||
| + | * A fenomenologia orientada aos objetos continua tendo a intencionalidade como tema central. | ||
| + | * Investigar adequadamente uma experiência intencional exige simultaneamente examinar seu correlato objetivo. | ||
| + | * Não é possível descrever uma experiência de uma casa, de um corpo ou do mundo sem descrever a casa, o corpo ou o mundo precisamente enquanto aparecem nessa experiência. | ||
| + | * Mesmo percepções ilusórias ou juízos inválidos possuem correlatos intencionais que precisam integrar sua descrição. | ||
| + | * O objeto intencional pertence inseparavelmente à análise da percepção sem tornar-se, por isso, componente psíquico imanente do ato perceptivo. | ||
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| + | 41. A investigação fenomenológica pode distinguir uma dimensão hilética, uma dimensão noética e uma dimensão noemática, examinando respectivamente conteúdos sensíveis desprovidos de intencionalidade própria, atos ou apreensões portadores de intencionalidade que conferem sentido e correlatos objetivos tal como são constituídos e dados à consciência. | ||
| + | * Os problemas fenomenológicos mais decisivos ultrapassam a descrição dos conteúdos hiléticos e concentram-se na constituição consciente de diferentes tipos de objetividade. | ||
| + | * A questão fundamental consiste em compreender como unidades objetivas pertencentes a diferentes regiões e categorias, desde objetos pré-científicos até construções das ciências mais avançadas, são constituídas em correlação com a consciência. | ||
| + | * Por isso pode haver não apenas uma fenomenologia do pensamento científico-natural, | ||
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| + | 42. A descrição fenomenológica parte do mundo vivido e diferencia experiências como saborear café ou cacau, ouvir um clarinete ou ver uma pomba e afirmar ou negar uma proposição não mediante uma retirada introspectiva para objetos mentais internos, mas atentando para os diferentes modos pelos quais objetos e estados de coisas mundanos se apresentam. | ||
| + | * A experiência possui caráter constitutivamente direcionado e apresentativo. | ||
| + | * É precisamente ao dirigir-se ao objeto da experiência que se torna possível apreender e analisar o modo como ele é experienciado. | ||
| + | * A tentativa de substituir o objeto mundano por um suposto objeto mental interior perde essa estrutura intencional essencial. | ||
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| + | 43. Na atitude fenomenológica, | ||
| + | * A fenomenologia não investiga um sujeito sem mundo nem abandona o mundo em benefício da consciência. | ||
| + | * Seu interesse pela consciência decorre precisamente de seu caráter desvelador de mundo. | ||
| + | * Compreender a validade e o sentido pelos quais o mundo aparece exige investigar os atos perceptivos, | ||
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| + | 44. A reflexão fenomenológica investiga tanto estruturas experienciais quanto objetos experienciados e o a priori correlacional entre os objetos e seus diferentes modos de doação, procurando tornar inteligível a relação entre subjetividade constituinte e objetividade constituída que permanece não tematizada nas ciências positivas. | ||
| + | * As ciências pressupõem a existência inteligível e a cognoscibilidade do mundo sem tematizar as funções ativas e passivas da consciência mediante as quais esse mundo adquire sentido e validade. | ||
| + | * Husserl atribuiu importância decisiva à descoberta desse a priori universal da correlação entre objeto experienciado e modos de doação, considerando sua elaboração sistemática uma tarefa que orientou todo o desenvolvimento posterior de sua filosofia. | ||
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| + | 45. A investigação husserliana da subjetividade não constitui finalidade autônoma nem decorre simplesmente da necessidade de incluir a primeira pessoa no estudo dos fenômenos mentais, mas integra um projeto filosófico transcendental destinado a compreender como objetos físicos, modelos matemáticos, | ||
| + | * Investigar o mundo não exige examinar primeiro uma interioridade para somente depois alcançar indiretamente os objetos. | ||
| + | * A análise dos próprios objetos conduz à investigação das estruturas experienciais correlacionadas aos seus modos de manifestação. | ||
| + | * Objetos percebidos, julgados e avaliados remetem respectivamente a atos de apresentação, | ||
| + | * A fenomenologia procura romper com a ingenuidade cotidiana justamente tornando temática a correlação entre ato e objeto, cogito e cogitatum. | ||
| + | |||
| + | 46. Reconhecer a familiaridade em primeira pessoa com a própria vida experiencial e a importância epistemológica de sua articulação reflexiva não implica reduzir a fenomenologia à descoberta indefinida de aspectos cada vez mais sutis da experiência, | ||
| + | * Descrições noéticas possuem função metodológica, | ||
| + | * Husserl e Scheler rejeitaram uma fenomenologia puramente descritiva sem ambições sistemáticas, | ||
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| + | 47. O encontro de Royaumont de 1958 entre representantes da filosofia analítica, como Gilbert Ryle, J. L. Austin, W. V. O. Quine, Bernard Williams e Peter Strawson, e fenomenólogos como Jean Wahl, Maurice Merleau-Ponty e H. L. Van Breda evidenciou dificuldades profundas de comunicação entre as tradições, | ||
| + | * A objeção de Van Breda, que aproximou indevidamente a investigação de Strawson da filologia, deixou de reconhecer o alcance propriamente filosófico de sua análise. | ||
| + | * O erro possui estrutura semelhante às críticas de Dennett e Metzinger à fenomenologia, | ||
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| + | 48. A rejeição da interpretação introspectiva de Husserl ainda precisa enfrentar a aparente tensão representada pelo uso da [[lx> | ||
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| + | 49. A compreensão definitiva da metodologia husserliana exige, portanto, avançar para uma análise mais cuidadosa de seu caráter transcendental, | ||
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