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husserliana:zahavi:hl:internalismo

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 +====== Internalismo, externalismo e idealismo transcendental ======
 +//ZAHAVI, Dan. Husserl’s legacy: phenomenology, metaphysics, and transcendental philosophy. Oxford: Oxford university press, 2017.//
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 +1. A máxima délfica “conhece-te a ti mesmo” adquire novo sentido na fenomenologia transcendental: é necessário perder metodologicamente o mundo mediante a [[lx>termos:e:epoche|epoché]] para recuperá-lo numa autorreflexão universal, sem que isso signifique encerrar o sujeito numa interioridade, pois nem o eu transcendental está dentro ou fora do mundo nem o mundo está dentro ou fora dele.
 +2. A adesão explícita de Husserl ao idealismo transcendental não confirma automaticamente as acusações de internalismo e solipsismo, pois a investigação de sua concepção madura da relação entre consciência e mundo conduz justamente à conclusão oposta.
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 +**4.1 Internalismo e solipsismo metodológico**
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 +3. “Internalismo” e “externalismo” designam famílias de posições distintas, razão pela qual qualquer classificação exige especificar qual dimensão está em questão, podendo-se começar pela distinção de Rowlands entre a tese da posse e a tese da localização.
 +  * A tese da posse afirma que um fenômeno mental pode pertencer ao sujeito independentemente de qualquer característica situada além de seus limites.
 +  * A tese da localização afirma que todo fenômeno mental se encontra espacialmente dentro dos limites do sujeito que o possui ou experimenta.
 +4. O externalismo pode rejeitar somente a tese da posse ou ambas as teses, permitindo distinguir um externalismo de conteúdo, segundo o qual o conteúdo mental depende de fatores ambientais embora os processos mentais possam continuar internamente localizados, e um externalismo de veículo, segundo o qual os próprios processos perceptivos ou cognitivos só existem na relação entre organismo e mundo.
 +  * O externalismo de conteúdo não implica, por si só, que a mente “não esteja na cabeça”.
 +  * O externalismo de veículo sustenta uma tese mais radical: percepção e cognição são transações com o mundo, não processos puramente internos.
 +5. Rowlands classifica Husserl como internalista cartesiano e Sartre como externalista radical, porque Sartre rejeita tanto a posse quanto a localização internas dos conteúdos mentais e interpreta a intencionalidade como abertura vazia da consciência ao ser transcendente.
 +  * Para Sartre, consciência não contém dados sensoriais, qualia ou representações que façam mediação com o mundo.
 +  * As propriedades fenomênicas pertencem às próprias coisas mundanas e não a entidades localizadas dentro da cabeça.
 +6. Dreyfus também interpreta Husserl como internalista e solipsista metodológico, atribuindo-lhe uma concepção segundo a qual mente e mundo formariam domínios independentes e conteúdos representacionais internos poderiam ser descritos sem referência à existência efetiva dos objetos externos.
 +  * O problema resultante seria precisamente tentar reconstruir posteriormente a relação [[lx>termos:s:sujeito-objeto|sujeito-objeto]] mediante conteúdos mentais previamente isolados do mundo.
 +  * A superação dessa dificuldade exigiria rejeitar a tese de que a referência a objetos depende de representações internas.
 +7. A crítica de Dreyfus apoia-se sobretudo em sua interpretação husserliana da [[lx>termos:r:reduktion|redução]] e do [[lx>termos:n:noema|noema]].
 +  * A redução seria um procedimento de purificação que excluiria os componentes exteriores ou transcendentes e desviaria a atenção dos objetos mundanos e das experiências psicológicas concretas para representações mentais abstratas.
 +  * O resultado seria uma fenomenologia interessada apenas naquilo que permanece internamente depois que o mundo e as questões de existência foram postos entre parênteses.
 +8. A interpretação fregeana do noema desenvolvida por Føllesdal e adotada por Dreyfus concebe o noema como estrutura abstrata mediante a qual a mente se refere aos objetos, transformando Husserl no precursor de uma teoria geral da representação mental.
 +9. A interpretação da redução como exclusão dos objetos transcendentes articula-se diretamente à concepção fregeana do noema, pois a primeira isolaria os conteúdos internos e a segunda identificaria nesses conteúdos semânticos a mediação necessária para que a consciência alcance seus supostos objetos exteriores.
 +10. Carman e McIntyre também combinam a interpretação fregeana do noema com uma leitura internalista de Husserl, segundo a qual conteúdos mentais internos tornariam possível a referência a objetos exteriores mesmo quando estes não existissem.
 +  * McIntyre entende a epoché e a redução como exclusão de tudo o que é extramental.
 +  * O solipsismo metodológico husserliano seria, nessa leitura, ainda mais radical do que o de teorias representacionalistas contemporâneas.
 +11. McIntyre reconhece, contudo, que a própria fenomenologia husserliana contém elementos incompatíveis com um internalismo estrito, especialmente a análise dos demonstrativos e da percepção como intencionalidade dirigida a este objeto singular, e não apenas a qualquer objeto que satisfaça determinada descrição.
 +  * Referências demonstrativas dependem de circunstâncias concretas do sujeito, da ocasião e da situação ambiental.
 +  * Tais fatores pragmáticos e contextuais parecem incompatíveis com uma teoria em que toda referência seja determinada exclusivamente pelo conteúdo fenomenológico interno.
 +12. Mesmo a ampliação husserliana do conteúdo fenomenológico para incluir horizontes, experiências anteriores e contextos não solucionaria, segundo McIntyre, o problema fundamental de uma teoria que se restringisse à consciência e pretendesse explicar nossa participação efetiva numa realidade existente.
 +13. Dreyfus, Carman e McIntyre, apesar de divergirem em sua avaliação final, compartilham uma insatisfação fundamental com a maneira pela qual a fenomenologia transcendental supostamente conceberia a relação entre mente e mundo.
 +14. A classificação de Husserl como internalista pode ser contestada mediante uma interpretação alternativa do noema, associada sobretudo a Drummond e Sokolowski, que se harmoniza melhor com uma concepção não internalista da epoché e da redução e permite posteriormente reconsiderar o próprio idealismo transcendental e a acusação de solipsismo metodológico.
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 +**4.2 Intencionalidade e noema**
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 +15. A chamada interpretação da Costa Oeste, associada a Føllesdal, Dreyfus, Miller, Smith e McIntyre, entende o noema como significado ou sentido abstrato distinto tanto do ato quanto do objeto e mediador da relação intencional entre ambos.
 +  * A intencionalidade é modelada segundo a referência linguística fregeana: assim como uma expressão alcança sua referência por meio do sentido, a consciência alcançaria o objeto por meio do noema.
 +  * O noema seria aquilo mediante o qual, e não aquilo para o qual, a consciência se dirige.
 +16. A interpretação da Costa Leste, defendida por Sokolowski, Drummond, Hart e Cobb-Stevens, considera a intencionalidade uma característica originária da própria consciência e rejeita que ela resulte de um conteúdo representacional intermediário.
 +  * O noema não é significado ideal, conceito, proposição ou entidade interposta entre sujeito e objeto.
 +  * Trata-se do próprio objeto considerado fenomenologicamente: o percebido enquanto percebido, o recordado enquanto recordado ou o julgado enquanto julgado.
 +  * A redução não desvia o olhar do objeto mundano para uma representação mental, mas permite considerar o próprio objeto como correlato de sua maneira de ser intencionado e dado.
 +17. Nessa leitura apresentacionalista, o significado pertence ao objeto enquanto intencionado e não se encontra encerrado na mente, razão pela qual a investigação fenomenológica do objeto em sua significação continua sendo investigação do próprio objeto.
 +18. A diferença entre objeto e noema é, portanto, uma diferença estrutural ou de modo de consideração e não uma diferença ontológica entre duas entidades, pois o mesmo objeto pode ser considerado primeiramente na atitude direta e depois reflexivamente em seus modos de autodoação.
 +19. As teorias da intencionalidade costumam distinguir modelos diádicos, em que ato e objeto se relacionam diretamente, de modelos triádicos, nos quais uma entidade intermediária medeia essa relação, e a teoria brentaniana é normalmente classificada no primeiro grupo.
 +20. O modelo brentaniano enfrenta a dificuldade de explicar experiências dirigidas a objetos inexistentes, como imaginar um fauno ou alucinar um elefante cor-de-rosa, sem atribuir a esses objetos uma estranha modalidade de inexistência intencional que também ameaça converter a percepção verídica em acesso indireto à realidade.
 +  * Se tanto percepção quanto alucinação fossem dirigidas a objetos intencionais de estatuto especial, o mundo real somente seria alcançado através de um véu de intermediários.
 +21. Husserl evita essa dificuldade ao compreender a intencionalidade não como relação ordinária com objeto extraordinário, mas como relação extraordinária capaz de permanecer intencional mesmo quando o objeto não existe.
 +  * Na alucinação de um elefante cor-de-rosa, não existe objeto nem dentro nem fora da consciência.
 +  * Apesar disso, o ato continua dirigido intencionalmente a um objeto transcendente.
 +  * Não é necessário atribuir qualquer espécie peculiar de existência ao objeto inexistente para preservar a intencionalidade.
 +22. A interpretação fregeana sustenta que apenas uma teoria mediacional do noema explicaria satisfatoriamente a alucinação, pois haveria noema tanto nas percepções quanto nas alucinações, enquanto somente na percepção existiria o objeto correspondente.
 +23. Essa defesa da interpretação fregeana reproduz a estrutura do argumento da ilusão ou da alucinação, que parte da possível indistinção subjetiva entre percepção e alucinação para postular um elemento mental comum aos dois casos e um elemento adicional — o objeto externo — presente apenas na percepção verídica.
 +  * A chamada tese conjuntiva explica o sucesso perceptivo como soma de um componente compartilhado com o fracasso e outro exclusivo dos casos bem-sucedidos.
 +24. Aplicada à fenomenologia, essa tese identifica o noema como elemento interno comum a percepção e alucinação e a presença efetiva do objeto como componente suplementar da percepção, confirmando o caráter internalista da interpretação da Costa Oeste.
 +25. Como o argumento da ilusão é contestado por externalistas e antirrepresentacionalistas, a interpretação da Costa Leste pode recorrer a essas críticas para construir uma explicação não mediacional das ilusões e alucinações, levantando inclusive a possibilidade de uma leitura disjuntivista de Husserl.
 +26. A. D. Smith sustenta que percepção e alucinação diferem intrinsecamente como experiências, ainda quando subjetivamente pareçam indiscerníveis, porque o objeto singular intencionado pertence essencialmente à identidade do próprio ato.
 +  * Cada cogito possui seu cogitatum determinado e o percebe segundo uma modalidade particular.
 +  * Perceber não significa apenas perceber determinado tipo de coisa, mas esta coisa individual.
 +27. O exemplo de duas latas idênticas de sopa Heinz substituídas sem conhecimento do observador mostra que experiências dirigidas a objetos numericamente diferentes não possuem completa identidade de sentido, mesmo quando o sujeito acredita estar vendo o mesmo objeto.
 +28. A mesma consequência vale para a relação entre percepção e alucinação: ainda que subjetivamente indiscerníveis em determinado instante, seriam experiências intrinsecamente diferentes porque não se dirigem ao mesmo objeto.
 +29. Consideradas em seu desenvolvimento temporal e em seus horizontes de experiências possíveis, percepção e alucinação deixam inclusive de ser fenomenologicamente indiscerníveis, pois objetos reais podem ser continuamente identificados, reidentificados e confirmados por novas experiências e por outros sujeitos, enquanto objetos alucinatórios fracassam nesses processos de confirmação.
 +  * A diferença não depende de um observador exterior situado além da experiência.
 +  * Ela emerge intra e interexperiencialmente no curso temporal da própria vida consciente.
 +30. A dificuldade aparente de afirmar que o noema seja o próprio objeto quando a alucinação não possui objeto pode ser enfrentada reconhecendo-se que as experiências alucinatórias continuam essencialmente dirigidas e envolvidas com o mundo, apresentando-o de maneira errônea e não como se fossem experiências completamente desligadas de qualquer realidade.
 +31. Hopp ressalta que uma alucinação somente pode constituir erro sobre o mundo porque permanece minimamente acerca dele, enquanto Drummond observa que mesmo uma miragem envolve elementos efetivamente existentes, como o deserto, apresentados de maneira divergente daquela em que realmente existem.
 +  * Intencionar algo inexistente pode fracassar em determinado nível de referência e continuar bem-sucedido em outros.
 +  * Mesmo objetos imaginários como Pégaso extraem materiais e significações do mundo efetivo.
 +32. A interpretação da Costa Leste pode, assim, conservar uma teoria diádica da intencionalidade sem regressar a Brentano, pois o ato consciente permanece diretamente aberto ao mundo e o conteúdo é o próprio objeto enquanto intencionado, cuja significação depende de horizontes temporais e espaciais, interesses, atitudes, experiências anteriores, tradição e cultura.
 +33. O significado permanece mundano e correlacionado à mente, não encerrado nela nem situado num domínio ideal separado, e a perspectiva particular sob a qual o objeto aparece não converte o acesso numa mediação representacional indireta.
 +34. As dificuldades colocadas pelas alucinações não são, portanto, decisivas contra a interpretação da Costa Leste, apesar da importância atribuída a elas pelos defensores da interpretação fregeana.
 +35. As duas interpretações do noema apoiam-se em diferentes conjuntos de passagens husserlianas, privilegiando a Costa Oeste sobretudo Ideias I e III e a Costa Leste textos como Lógica formal e transcendental.
 +36. Ideias III pode parecer apoiar a leitura fregeana ao distinguir a investigação fenomenológica da consciência de coisas físicas da investigação ontológica das próprias coisas e ao incluir como correlato o percebido-enquanto-percebido, o nomeado-enquanto-nomeado e outros objetos sob modificação fenomenológica.
 +37. A famosa análise de Ideias I segundo a qual a árvore física pode queimar enquanto a árvore-percebida-enquanto-tal não pode queimar parece igualmente sugerir uma diferença categorial entre o objeto simples e seu sentido noemático.
 +38. A interpretação da Costa Leste responde que a diferença de predicados continua válida mesmo se o noema for o próprio objeto enquanto intencionado, pois considerar a árvore em sua disponibilidade experiencial e cognitiva não equivale a atribuir-lhe as propriedades físicas que possui enquanto objeto natural.
 +39. Passagens posteriores de Husserl rejeitam explicitamente a ideia de que a consciência se relacione ao objeto transcendente “por meio” de um sentido noemático imanente, qualificando essa formulação como problemática e, rigorosamente, falsa.
 +40. Fink, em interpretação endossada pelo próprio Husserl, distingue o noema psicológico, que pode ser separado do ser ao qual se refere, do noema transcendental, que é o próprio ser em sua validade constituída.
 +  * Na atitude transcendental, não permanece um objeto ontologicamente independente situado além do noema.
 +  * A diferença entre noema e objeto transforma-se numa articulação interna à própria estrutura noemática.
 +41. Bernet identifica em Ideias I ao menos três sentidos distintos de noema — aparição concreta, significado ideal e objeto constituído —, indicando que a ambiguidade textual ajuda a explicar a coexistência de interpretações divergentes.
 +42. Ströker considera [[lx>termos:n:noese|noese]] e noema conceitos propriamente transcendental-fenomenológicos e sustenta que a hipótese de um objeto existente além da esfera noemática perde sentido depois da redução, embora as oscilações de Ideias I entre atitude natural e atitude transcendental tenham favorecido leituras mediacionalistas.
 +43. Qualquer interpretação adequada do noema deve, portanto, ser integrada a uma interpretação global da filosofia transcendental husserliana, pois o noema só é verdadeiramente descoberto mediante a epoché e a redução e sua compreensão depende diretamente do significado atribuído a essas operações.
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 +**4.3 Idealismo transcendental**
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 +44. Se o internalismo significa que o acesso ao mundo depende de representações internas das quais primeiro se teria consciência, Husserl não pode ser classificado como internalista na interpretação apresentacionalista do noema.
 +  * O noema é o próprio objeto mundano enquanto intencionado.
 +  * O significado não está na mente, mas encontra-se incorporado ao mundo e correlacionado à subjetividade.
 +  * Como seres intencionais, os sujeitos funcionam como centros de manifestação nos quais as coisas podem aparecer com os sentidos que lhes pertencem.
 +45. A objeção segundo a qual o idealismo transcendental revelaria um internalismo mais profundo exige examinar diretamente o significado do idealismo husserliano em vez de simplesmente deduzi-lo da terminologia tradicional.
 +46. Não há dúvida de que Husserl considerava o idealismo transcendental inseparável da fenomenologia, pois afirma que a fenomenologia plenamente desenvolvida é eo ipso idealismo transcendental e que a própria redução já delineia o caminho que conduz a ele.
 +47. Essa identificação não autoriza importar definições tradicionais de “idealismo”, “transcendental” e “fenomenologia”, pois Husserl insiste em conferir novos sentidos a esses termos e exige que sejam compreendidos a partir do funcionamento efetivo de seu método.
 +48. A tentativa de reduzir o idealismo husserliano à defesa da existência de objetos ideais ou universalidades é insuficiente, porque Husserl afirma expressamente que o ser-em-si do mundo não pode significar independência em relação a uma consciência efetivamente existente.
 +49. O idealismo transcendental é simultaneamente antirrepresentacionalista, pois rejeita como absurda a concepção da consciência como recipiente de imagens ou signos interiores que representariam objetos externos.
 +  * Um homúnculo interior que examinasse imagens precisaria reconhecer que elas representam objetos externos, exigindo novas representações e produzindo regressão infinita.
 +  * Semelhança não basta para constituir representação, porque é relação recíproca e não transforma automaticamente um objeto em imagem de outro.
 +  * Uma imagem só funciona representacionalmente quando é apreendida conscientemente como imagem.
 +50. Toda teoria representacional da percepção pressupõe, portanto, justamente aquilo que pretende explicar, pois é necessário perceber inicialmente o objeto que funcionará como signo ou imagem para posteriormente conferir-lhe função representativa.
 +51. A percepção não oferece imagens internas das coisas, mas as próprias coisas em presença corporal, enquanto pensamento e imaginação podem intencionar objetos ausentes.
 +  * O traço definidor da percepção é a apresentação do próprio objeto e não a apresentação de um signo que substitui uma realidade desconhecida.
 +52. O idealismo husserliano deve ser compreendido a partir dessa rejeição rigorosa do representacionalismo, pois introduzir uma interface mental entre consciência e mundo gera imediatamente o problema cético de saber como representações internas poderiam garantir acesso ou correspondência com uma realidade exterior diferente.
 +53. Consciência e ser real não constituem domínios independentes que ocasionalmente entram em relação, mas pertencem a priori um ao outro, e não faz sentido admitir simultaneamente uma série de aparições perfeitamente coerentes sem objeto correspondente ou um objeto real absolutamente incapaz de manifestar-se.
 +54. [[lx>termos:c:cogito|Cogito]] e cogitatum encontram-se constitutivamente unidos, pois os objetos não estão dentro da consciência como conteúdos de uma caixa, mas constituem-se como aquilo que são para o sujeito mediante modalidades determinadas de intenção objetiva.
 +55. Philipse e A. D. Smith interpretam essa relação constitutiva como dependência metafísica e, por isso, consideram Husserl um idealista metafísico.
 +56. Philipse atribui a Husserl um idealismo redutivo segundo o qual o mundo seria ontologicamente dependente da consciência como sua projeção.
 +57. A. D. Smith reconhece corretamente que a fenomenologia transcendental investiga não apenas sentidos objetivos, mas também o que significa determinada classe de objeto existir realmente, e interpreta a realidade como ideal regulador de confirmação intersubjetiva última.
 +58. Smith conclui, contudo, que Husserl seria um idealista absoluto para quem fatos físicos supervêm a fatos experienciais e nada existiria na ausência de consciência, aproximando sua leitura de uma forma sofisticada de fenomenalismo.
 +59. A dependência metafísica não pode ser entendida como causalidade, pois isso transformaria a subjetividade transcendental em causa primeira do universo e confundiria correlação intencional com causação psicofísica, distinção que Husserl insiste em preservar.
 +60. Tampouco a dependência constitutiva pode ser entendida como redução, pois Husserl rejeita explicitamente o fenomenalismo e sustenta que a análise física de uma coisa conduz a átomos e moléculas, não a estados conscientes.
 +  * A natureza é realidade verdadeira em sentido pleno.
 +  * Explicar coisas, átomos e processos naturais como abreviações para sensações constitui, para Husserl, um erro extremo.
 +  * Uma coisa material é um tipo de ser inteiramente diferente de uma vivência.
 +61. A interpretação da dependência como superveniência parece inicialmente mais promissora porque permitiria distinguir objeto e consciência, mas continua inadequada porque a constituição de uma coisa cotidiana não procura sua base metafísica em estados mentais, e a subjetividade transcendental somente é alcançada mediante mudança reflexiva de atitude, não pela decomposição progressiva do objeto.
 +62. Transformar constituição em fundação ou superveniência apagaria ainda a diferença entre idealismo transcendental e idealismo metafísico que Husserl preserva deliberadamente.
 +63. A interpretação deflacionária segundo a qual o idealismo transcendental seria apenas metodológico e a subjetividade constituiria unicamente o sentido do mundo também é insuficiente, pois converteria a fenomenologia numa posição metafisicamente neutra compatível com objetivismo, eliminativismo e idealismo subjetivo, contrariando suas consequências filosóficas efetivas.
 +64. O idealismo de Husserl é transcendental, e não metafísico no sentido tradicional, porque interpreta a dependência entre consciência e realidade em termos correlacionais, não porque seja desprovido de consequências para o estatuto do ser.
 +  * Seu adversário principal não é o materialismo, mas o objetivismo.
 +  * Nenhum objeto efetivo é pensável sem subjetividade efetiva capaz de realizá-lo cognitivamente.
 +  * Inversamente, nenhum sujeito concreto é pensável sem alguma forma de relação a objetos entendidos no sentido mais amplo.
 +65. Algumas formulações de Ideias I parecem perturbar essa reciprocidade ao afirmar que a consciência pura poderia subsistir mesmo se o mundo fosse aniquilado, tornando o ser da consciência absoluto e necessário e o do mundo contingente e relativo.
 +66. A hipótese da aniquilação do mundo não deve, porém, ser interpretada como ceticismo global segundo o qual o mundo poderia aparecer exatamente como aparece sem realmente existir, pois Husserl considera contraditória a possibilidade de experiências perfeitamente coerentes e racionalmente motivadas coexistirem com a inexistência do mundo correspondente.
 +67. A função dessa hipótese é preservar a possibilidade de formas não intencionais de consciência, e não declarar que toda experiência permaneceria idêntica na ausência do mundo.
 +  * Experiências perceptivas genuínas envolvem a presença do objeto percebido e não podem ocorrer sem ele.
 +  * Entretanto, formas de consciência podem existir sem um sistema coerente de objetivação mundana, como poderia ocorrer em experiências infantis muito primitivas ou em determinados estados psicóticos.
 +68. A análise de Ideias I permanece problemática ao inferir da possível desintegração da experiência de objetos a possível destruição da experiência do mundo, porque a falibilidade acerca de coisas singulares não pode ser simplesmente transferida para a totalidade mundana.
 +69. Husserl posteriormente reconhece que a possibilidade de duvidar de cada objeto particular pressupõe o ser do mundo e não autoriza a transformação da própria totalidade mundana em objeto de dúvida equivalente.
 +70. Outra formulação problemática de Ideias I consiste em descrever a subjetividade transcendental como região independente de ser, expressão que sugere indevidamente uma ontologia regional da consciência comparável à das coisas físicas ou dos objetos ideais.
 +71. As imagens cartesianas de uma consciência fechada devem ser relativizadas pelas próprias continuações dos textos, nas quais essa esfera não é espacialmente exterior a nada nem possui fronteiras que a separem de outras regiões.
 +  * A relação entre ser transcendental e ser transcendente não pode ser adequadamente expressa pelas metáforas espaciais de interior e exterior.
 +  * A subjetividade transcendental não é uma região adicional do ser, mas o dativo da manifestação no qual relações entre regiões podem tornar-se acessíveis.
 +72. Conceber a relação constitutiva como superveniência perde precisamente essa função transcendental da subjetividade enquanto condição de manifestação.
 +73. A concentração de Ideias I no sujeito solitário também torna incompleta sua apresentação do idealismo, mas essa limitação não expressa a posição definitiva de Husserl, que já reconhecia em 1913 a significação transcendental da intersubjetividade e pretendia desenvolvê-la em Ideias II.
 +  * O atraso de quase quarenta anos na publicação de Ideias II contribuiu decisivamente para a recepção do idealismo husserliano como solipsista.
 +  * Na concepção madura, a comunidade intersubjetiva de sujeitos corporificados desempenha função transcendental fundamental.
 +74. A caracterização do sujeito como ser absoluto deve ser compreendida a partir da fenomenologia do tempo e da autodoação, e não como afirmação de uma substância metafisicamente autossuficiente.
 +75. A análise da consciência interna do tempo constitui a dimensão verdadeiramente absoluta porque esclarece simultaneamente como objetos temporais aparecem e como o próprio fluxo experiencial se manifesta para si mesmo.
 +76. A consciência reflexiva de si funda-se numa autodoação pré-reflexiva anterior, pois um ato só pode tornar-se objeto de reflexão porque já estava previamente consciente e dado antes de ser tematizado.
 +  * A vida experiencial é intrinsecamente automanifestante.
 +  * O fluxo temporal não necessita de um segundo fluxo para aparecer a si mesmo, pois sua automanifestação é constitutiva de sua própria estrutura.
 +77. O caráter absoluto da subjetividade significa, portanto, ser-para-si, automanifestação e autoconstituição, enquanto os objetos não se manifestam por si mesmos, mas sempre aparecem para alguém.
 +78. Sartre emprega uma concepção semelhante do absoluto ao afirmar que a consciência, precisamente por não possuir substância e coincidir inteiramente com seu aparecer, pode ser considerada absoluta.
 +79. Michel Henry radicaliza essa linha ao distinguir manifestação objetiva e automanifestação subjetiva e sustentar que a primeira pressupõe a segunda, interpretando a subjetividade absoluta como autoafecção imediata, não objetivante e passiva.
 +80. Embora Husserl também tenha associado o absoluto à autossuficiência da automanifestação, sua filosofia posterior modifica substancialmente essa tese ao reconhecer de maneira crescente as dependências constitutivas da subjetividade.
 +
 +**4.4 Facticidade e constituição**
 +
 +81. A afirmação de que nada real ou objetivo poderia existir sem consciência não equivale à tese mais forte de que a consciência seja condição suficiente para tudo o que existe, sendo necessário distinguir cuidadosamente necessidade transcendental e poder metafísico de produção.
 +  * A consciência pode ser condição necessária da manifestação sem constituir por si só condição suficiente da existência concreta de todas as coisas.
 +  * O transcendental não é uma causa capaz de criar o restante do ser a partir de si mesmo.
 +82. O fato de Husserl frequentemente afirmar que o objeto “se constitui” na consciência indica justamente que a constituição não é fabricação unilateral, mas relação correlacional na qual toda aparição é aparição de algo para alguém.
 +83. A intencionalidade contém simultaneamente um dativo e um genitivo da manifestação: há um sujeito para quem algo aparece e um objeto cuja própria estrutura suscita e orienta as formas pelas quais pode aparecer.
 +84. O ego concreto não pode ser pensado isoladamente daquilo que lhe é estranho, pois pertence à essência da intencionalidade que a consciência seja consciência de algo que não é ela mesma.
 +  * Nenhum eu é concebível sem um não-eu ao qual esteja intencionalmente relacionado.
 +  * Eu e alteridade são estruturalmente inseparáveis, não dois termos inicialmente independentes separados por um espaço intermediário.
 +85. A linguagem husserliana de doação de sentido (Sinngebung) pode sugerir um sujeito ativo que impõe arbitrariamente estruturas ao mundo, mas a análise madura reconhece explicitamente que toda atividade egológica pressupõe passividade, associação, pré-consciência e substrato hilético.
 +86. O eu concreto contém um núcleo de hyle que não é ego e, contudo, lhe pertence essencialmente, pois sem uma esfera de pré-doação constituída como não-eu não seria possível qualquer atividade subjetiva propriamente dita.
 +87. O esquema inicial segundo o qual sensações sem significado somente se tornariam intencionais mediante uma interpretação objetivante mostrou-se fenomenologicamente problemático porque experiências ordinárias já se apresentam significativas e conteúdos absolutamente sem sentido dificilmente poderiam orientar ou restringir sua própria interpretação.
 +88. Husserl abandona progressivamente a separação rígida entre sensação e intenção e passa a reconhecer o dado sensível como intrinsecamente significativo e aberto ao mundo, embora permaneça a diferença entre uma pré-doação ainda indeterminada e sua apreensão plena como objeto.
 +  * Pode-se distinguir ouvir um aumento de intensidade sonora de ouvir um automóvel aproximando-se.
 +  * Pode-se distinguir sentir uma dor localizada de apreendê-la como picada de uma agulha.
 +89. O abandono do sensualismo torna ainda mais claro que o idealismo husserliano não deriva um mundo dotado de sentido a partir de dados sensoriais originalmente destituídos de significado.
 +90. A constituição tampouco permite deduzir conteúdos concretos a partir de estruturas formais do ego, e a insistência husserliana na facticidade serve precisamente para impedir essa interpretação.
 +91. A impressão originária apresenta-se ao ego como algo já dado e estrangeiro (ichfremd), e a espontaneidade da consciência não cria o novo conteúdo sensível, mas desenvolve e articula aquilo que inicialmente recebe.
 +92. A hyle constitui domínio de facticidade que escapa ao controle do ego e se oferece passivamente sem sua participação ativa, tornando-se um dos fatos primordiais dos quais dependem mundo e intersubjetividade.
 +93. A constituição pode, assim, ser compreendida como envolvendo duas fontes primordiais — ego e não-eu — inseparáveis e abstratas quando consideradas isoladamente.
 +  * Ambos são momentos estruturais irredutíveis do processo pelo qual algo chega à manifestação.
 +  * Husserl chega a identificar o não-eu com o mundo e a falar de um “não-eu transcendental”.
 +94. A subjetividade é condição necessária, mas não suficiente, da manifestação, pois constituição envolve vários fatores transcendentais entrelaçados e sujeito e mundo não podem ser compreendidos separadamente.
 +95. Essa concepção aproxima-se de Merleau-Ponty, para quem sujeito e mundo são inseparáveis porque o sujeito é projeto do mundo e o mundo só possui sua textura e articulação mediante o movimento de transcendência do sujeito.
 +96. O reconhecimento da facticidade ainda permite perguntar se Husserl não chega finalmente a abandonar até mesmo a autossuficiência da automanifestação da consciência, convertendo-a de absoluto independente em componente indispensável de uma correlação mais originária.
 +97. A análise da consciência interna do tempo revela apenas estruturas formais abstratas, pois a tríade protensão-impressão originária-retenção necessita de conteúdo sensível e não pode funcionar sem a afetividade que fornece aquilo que efetivamente preenche a temporalização.
 +98. A fenomenologia da consciência temporal deve, portanto, ser complementada por uma fenomenologia da associação, destinada a explicar as formas fundamentais de síntese que governam os conteúdos.
 +99. A automanifestação parece então caminhar sempre conjuntamente com uma heteromanifestação, pois na experiência sensível manifestam-se simultaneamente si mesmo e mundo, não sendo um dado primeiro e o outro posteriormente inferido.
 +100. O reconhecimento do mundo como não-eu transcendental e da facticidade como componente da constituição não reconduz Husserl ao realismo metafísico, pois constituição não é simples descrição de como agentes epistêmicos alcançam uma realidade previamente pronta e independente.
 +101. Sartre capta essa posição ao afirmar que Husserl simultaneamente recusa dissolver as coisas na consciência e recusa tratá-las como absolutos independentes que posteriormente entrariam em relação com ela: consciência e mundo são dados conjuntamente, exteriores um ao outro e ao mesmo tempo essencialmente correlacionados.
 +102. A distinção de Allais entre propriedades manifestas e propriedades essencialmente manifestas esclarece a posição husserliana, pois propriedades reais não apenas podem aparecer ocasionalmente, mas pertencem a uma realidade cuja natureza envolve a possibilidade de manifestação.
 +103. A lição fundamental da intencionalidade consiste em que existe algo transcendente à consciência, mas essencialmente acessível e correlacionado a ela: a mente é abertura ao mundo e a realidade é essencialmente manifestável.
 +  * Dependência em relação à consciência não significa localização intramental.
 +  * Objetos podem possuir suas propriedades mesmo quando não estão sendo atualmente experienciados.
 +  * Podem existir antes do surgimento e depois do desaparecimento de determinados sujeitos empíricos.
 +  * Sua transcendência consiste em ocuparem espaço público e serem intersubjetivamente acessíveis, não em possuírem uma essência absolutamente além de qualquer manifestação possível.
 +104. A investigação da intencionalidade oferece simultaneamente conhecimento sobre a mente e sobre o estatuto da realidade porque ambas se encontram correlacionadas, conduzindo a uma posição que supera neutralidade metafísica, realismo metafísico e idealismo subjetivista.
 +105. O correlacionismo recusa tanto um mundo em si independente de toda consciência quanto uma consciência única dentro da qual o mundo seria simples conteúdo, sustentando antes uma dependência mútua entre consciência e mundo, sujeito e objeto, eu e mundo.
 +106. O idealismo transcendental husserliano não reduz objetos à mente nem afirma que eles supervenham a processos mentais, mas sustenta sua dependência constitutiva da subjetividade transcendental sem fazer dessa subjetividade sua causa produtora.
 +  * A consciência não determina por que a água é composta de hidrogênio e oxigênio.
 +  * Constituição significa permitir que aquilo que é constituído apareça, se desenvolva e se manifeste como aquilo que é.
 +107. Heidegger formula esse sentido ao esclarecer que “constituir” não significa fabricar ou produzir, mas deixar que o ente se mostre em sua objetividade.
 +108. Depois da redução, sentido de ser ([[lx>termos:s:seinssinn|Seinssinn]]), validade de ser ([[lx>termos:s:seinsgeltung|Seinsgeltung]]), realidade e manifestação não podem ser separados como se a fenomenologia estudasse apenas significados e outra disciplina posterior devesse investigar o ser propriamente dito.
 +109. A apresentabilidade pertence filosoficamente ao próprio ser, porque a possibilidade de manifestação requer um dativo para o qual as coisas podem aparecer, sem que esse dativo seja responsável por criá-las.
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 +**4.5 Além do internalismo e do externalismo**
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 +110. A classificação tradicional que opõe Husserl como internalista a Heidegger e Merleau-Ponty como externalistas é simplificadora porque ignora tanto os elementos não internalistas de Husserl quanto aspectos do próprio Heidegger incompatíveis com um externalismo tradicional.
 +111. Heidegger sustenta que a percepção é intrinsecamente intencional independentemente da existência efetiva do objeto e rejeita compreender a intencionalidade como relação externa entre sujeito psíquico e objeto físico.
 +  * A intencionalidade pertence ao próprio perceber, seja a percepção verdadeira ou ilusória.
 +  * A vida possui autossuficiência ([[lx>termos:s:selbstgenugsamkeit|Selbstgenügsamkeit]]) no sentido de que sua abertura intencional não é adicionada de fora.
 +112. Se externalismo significar reduzir intencionalidade a covariações causais externas, nenhum dos principais fenomenólogos seria externalista, mas o termo pode receber sentido mais amplo quando mente e significado são concebidos como intrinsecamente incorporados ao mundo.
 +113. McDowell combina explicitamente um externalismo do significado e da mente com simpatias pelo idealismo transcendental pós-kantiano, defendendo um realismo perceptivo direto em que experiência é abertura ao modo como as coisas são e não interface entre sujeito e realidade em si.
 +114. A distinção de Anthony Rudd entre externalismo realista e externalismo kantiano mostra que ambos ligam constitutivamente mente e mundo, mas o segundo acrescenta que o próprio mundo fenomenal também depende da mente.
 +115. A fenomenologia radicaliza essa orientação ao rejeitar como sem sentido a coisa em si ([[lx>termos:d:ding|Ding]] an sich) absolutamente inacessível e compreender mente e mundo como internamente relacionados e mutuamente constitutivos.
 +116. A pergunta tradicional sobre se a intencionalidade é determinada por fatores internos ou externos à mente torna-se instável quando o externalismo sustenta justamente que o mundo não é exterior à mente e quando o internalismo pode ampliar suficientemente sua noção de mente para incluir relações mundanas.
 +117. A análise heideggeriana do ser-aí ([[lx>termos:d:dasein|Dasein]]) mostra exemplarmente essa inadequação, pois o ser-aí não abandona uma esfera interior para alcançar objetos, mas já está originariamente “fora” junto aos entes encontrados no mundo, e esse estar-fora constitui justamente seu ser-dentro adequadamente compreendido como ser-no-mundo ([[lx>termos:i:in-der-welt-sein|In-der-Welt-sein]]).
 +  * Conhecer não significa retornar com um objeto capturado para um “gabinete” interno da consciência.
 +  * Perceber, conservar e compreender ocorrem enquanto o ser-aí permanece originariamente junto às coisas.
 +118. As categorias de interior e exterior não conseguem, portanto, caracterizar adequadamente a relação entre ser-aí e mundo, porque aquele já habita entre as coisas e não possui um interior isolado do qual pudesse posteriormente sair.
 +119. Merleau-Ponty expressa a mesma dissolução da oposição ao afirmar que interior e exterior são inseparáveis, que o mundo está inteiramente dentro e o sujeito inteiramente fora de si.
 +120. Essa crítica à divisão entre interioridade psíquica e exterioridade física já aparece nas Investigações lógicas e torna-se ainda mais explícita depois da virada transcendental husserliana.
 +121. Para Husserl, dizer que o ego transcendental não possui exterior não significa absorver o mundo na consciência, mas rejeitar a própria espacialização metafórica da relação, pois nem o ego está dentro ou fora do mundo nem o mundo dentro ou fora dele.
 +122. A consciência não é recipiente nem lugar especial, mas abertura intencional, sendo igualmente absurdo afirmar que absorve o mundo ou que precisa sair literalmente de si para alcançá-lo.
 +123. A inserção de Husserl no debate internalismo-externalismo torna-se, assim, conceitualmente enganosa, pois esse debate tende a conservar as próprias metáforas espaciais que a fenomenologia procura desmontar.
 +124. A redução transcendental elimina o dualismo entre mente autocontida e mundo sem mente e conduz a uma investigação da fenomenalidade anterior à distinção entre interior psíquico e exterior físico, isto é, do campo no qual qualquer coisa pode manifestar-se.
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 +**4.6 Intersubjetividade e o transcendental**
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 +125. Mesmo abandonada a acusação de internalismo, poderia permanecer a suspeita de solipsismo metodológico, mas a concepção husserliana da intersubjetividade mostra que essa objeção ignora justamente um dos aspectos mais radicais de seu idealismo transcendental.
 +126. A intersubjetividade não constitui problema periférico acrescentado posteriormente à fenomenologia transcendental, mas dimensão necessária para compreender plenamente seu próprio sentido, e Husserl afirma que foram as análises da intersubjetividade que lhe permitiram alcançar o significado completo de seu projeto.
 +127. A relação de Husserl com Kant desenvolveu-se de uma rejeição inicial, influenciada por Brentano, para o reconhecimento de afinidades profundas entre ambos os projetos, sobretudo depois que a redução fenomenológica revelou a dimensão originária das formações de conhecimento.
 +128. Husserl reconhece explicitamente que sua utilização do termo “transcendental” retoma um conceito kantiano e atribui à revolução copernicana de Kant o mérito de inaugurar uma ciência filosófica voltada à constituição do sentido do mundo.
 +129. A aproximação com Kant é particularmente importante contra interpretações psicologistas da fenomenologia, mas não deve ocultar diferenças profundas entre transcendentalismo kantiano e fenomenológico.
 +130. Na Crise, Husserl caracteriza a fenomenologia como forma final (Endform) da filosofia transcendental e adota uma concepção mais ampla do transcendental como reflexão radical sobre a base em primeira pessoa de todas as formações de conhecimento.
 +131. Essa concepção permite incluir Descartes, Berkeley e Hume, além de Kant, na história do motivo transcendental, sobretudo porque Descartes reconhece a importância filosófica decisiva da reflexão em primeira pessoa.
 +132. Husserl critica Kant por uma epistemologia ainda metafisicamente contaminada, um conceito insuficiente de a priori, uma separação excessiva entre sensibilidade e entendimento, dependência excessiva das ciências naturais, confusão entre análises noéticas e noemáticas e falta de rigor metodológico.
 +133. A diferença metodológica aparece especialmente na oposição entre o caminho kantiano “de cima”, regressivo e construtivo, que parte da lógica, e o caminho fenomenológico “de baixo”, que parte da experiência concreta pré-predicativa.
 +  * A fenomenologia exige evidência intuitiva das estruturas constituintes.
 +  * A dedução transcendental kantiana permanece excessivamente distante da análise concreta da consciência.
 +134. A fenomenologia representa, portanto, um modelo transcendental fundamentado na evidência e na intencionalidade, em oposição a um modelo predominantemente teórico-principiológico, porque somente a acessibilidade experiencial das estruturas transcendentais pode evitar o dogmatismo.
 +135. A consciência transcendental não é um polo formal morto de identidade, mas vida concreta que precisa ser analisada em suas diferentes modalidades, circunstância que amplia o transcendental para além das condições formais de objetividade.
 +136. Essa ampliação inclui as ciências humanas, a socialidade, a cultura e, finalmente, a própria comunidade intersubjetiva como dimensão transcendental indispensável.
 +137. Interpretar a subjetividade transcendental como ego isolado torna impossível conhecer transcendentalmente si mesmo e o mundo, razão pela qual Husserl chega a caracterizar seu projeto como uma filosofia transcendental sociológica.
 +138. A fenomenologia transforma-se, assim, de investigação egológica numa fenomenologia sociológica transcendental voltada a uma multiplicidade manifesta de sujeitos conscientes em comunicação.
 +139. A redução à subjetividade transcendental é simultaneamente redução à intersubjetividade transcendental, pois esta não constitui ampliação externa posterior, mas explicitação mais adequada do que a própria subjetividade significa.
 +140. A subjetividade transcendental, em sua universalidade plena, é intersubjetividade, e o absoluto revela-se como relação intersubjetiva entre sujeitos, de modo que um ego só funciona constitutivamente dentro da intersubjetividade.
 +141. A conclusão das análises constitutivas exige reconhecer a socialidade intersubjetiva transcendental como solo no qual verdade e ser verdadeiro encontram sua origem intencional.
 +142. Como a fenomenologia é transcendental precisamente por investigar a constituição da transcendência, essa tarefa somente pode ser completada mediante uma análise da intersubjetividade.
 +143. A transcendência do mundo constitui-se por meio dos outros e da co-subjetividade generativamente constituída, que lhe confere o sentido de ser (Seinssinn) de mundo infinito.
 +144. A subjetividade estrangeira constitui a transcendência primordial, pois todas as demais transcendências, inclusive a objetividade mundana, apoiam-se sobre a alteridade originária do outro.
 +145. O outro é, assim, o “primeiro outro” em sentido constitutivo, e a alteridade de outra pessoa estende-se ao mundo inteiro ao conferir-lhe inicialmente seu sentido de objetividade.
 +146. A objetividade constitui-se concretamente quando o encontro com outros permite reconhecer a própria perspectiva como apenas uma entre muitas perspectivas possíveis sobre o mesmo mundo.
 +  * Experimentar que outros percebem os mesmos objetos transforma coisas meramente “para mim” em objetos potencialmente acessíveis a todos.
 +  * Torna-se possível distinguir o objeto enquanto tal de seu modo contingente de aparecer a determinada perspectiva.
 +147. A experiência de ser percebido pelo outro também desempenha função decisiva, pois a autoconsciência mediada pela alteridade permite reconhecer-se como alter ego para outro sujeito e instituir uma simetria entre múltiplos eus que percebem reciprocamente uns aos outros como estrangeiros.
 +148. A validade objetiva “para todos” depende dessa intersubjetividade e culmina idealmente numa concordância intersubjetiva ilimitada, não havendo realidade verdadeira filosoficamente significativa além daquela que resistiria ao processo indefinido de investigação e confirmação comum.
 +149. Essa concepção aproxima-se de Peirce, para quem a própria ideia de realidade implica uma comunidade ilimitada capaz de aumento progressivo de conhecimento e cuja investigação tenderia, em princípio, a um resultado final independente das particularidades individuais.
 +150. A ligação entre intersubjetividade e objetividade aparece já nos textos próximos de Ideias I, nos quais Husserl considera que o sujeito constituinte deve ser corporificado e situado no próprio mundo objetivo que constitui.
 +151. Como a objetividade é intersubjetivamente constituída e a intersubjetividade requer sujeitos corporificados e inseridos no mundo, a constituição do mundo implica uma mundanização da própria subjetividade transcendental.
 +152. A subjetividade transcendental deve, portanto, apreender-se também como ser mundano para poder constituir um mundo objetivo, tese dificilmente conciliável com um solipsismo metodológico ou com uma consciência autossuficiente.
 +153. A posição madura husserliana preserva a ideia de que realidade é sempre realidade para uma subjetividade, mas compreende a constituição como processo intersubjetivo no qual sujeito, mundo e outros se modificam e se implicam reciprocamente.
 +154. Nos últimos escritos, essa interdependência alcança sua formulação mais radical: nenhum sujeito pode ser o que é sem os outros, nenhum absoluto concebível é solus ipse e a coexistência intencional entre sujeitos constitui um fato primordial metafísico (Urtatsache).
 +155. Uma natureza absolutamente autossubsistente também perde sentido, pois a natureza somente é pensável como mundo circundante de sujeitos corporificados e como correlato de uma intersubjetividade transcendental.
 +156. A coexistência de si mesmo, outros e natureza assume, finalmente, o estatuto de facticidade irredutível cuja fundamentação ulterior seria desprovida de sentido.
 +157. O fato de a análise transcendental terminar reconhecendo um mundo compartilhado pode parecer retorno circular à ingenuidade pré-filosófica da qual partiu, mas esse retorno pode ser interpretado como êxito filosófico, porque a filosofia não precisa descobrir fatos novos e pode ter como tarefa tornar inteligível aquilo que a familiaridade cotidiana oculta.
 +158. Reconhecer transcendentalmente a equiprimordialidade de sujeito e mundo difere radicalmente de simplesmente pressupor uma realidade independente previamente existente na qual sujeitos se encontrariam.
 +159. Analogamente, demonstrar que intersubjetividade participa da constituição da objetividade não equivale ao fato biológico trivial de seres humanos nascerem de outros seres humanos.
 +160. A análise constitutiva diferencia diversos níveis — temporal, corporal, pré-linguístico, comunitário e científico — nos quais sujeito, mundo e alteridade participam de maneiras diferentes, constituindo precisamente essa distinção parte do ganho filosófico da fenomenologia.
 +161. O desenvolvimento da fenomenologia husserliana afasta-se significativamente das formulações de §49 de Ideias I e obriga a reconsiderar a própria definição de transcendentalidade.
 +162. De Palma nega que Husserl seja filósofo transcendental porque define transcendentalidade como investigação regressiva das condições de possibilidade da experiência e considera indispensável ultrapassar a própria experiência para deduzir essas condições.
 +163. Como Husserl rejeita esse método regressivo, enfatiza passividade e facticidade e trata a consciência como condição necessária mas não suficiente, De Palma conclui que sua fenomenologia deveria ser classificada como empirismo eidético.
 +164. Essa conclusão depende de uma definição excessivamente estreita do transcendental, pois das diferenças entre Kant e Husserl segue-se mais plausivelmente que Husserl não é um filósofo transcendental kantiano, e não que tenha abandonado toda filosofia transcendental.
 +165. O transcendental husserliano pode ser compreendido como radicalização, reformulação e ampliação do transcendental kantiano.
 +  * Radicalização, porque submete à crítica transcendental inclusive a lógica, que Kant ainda pressupunha.
 +  * Reformulação, porque privilegia a doação intuitiva em vez da dedução.
 +  * Ampliação, porque inclui temporalidade do ego, corporeidade e relações intersubjetivas.
 +166. A investigação husserliana da normalidade mostra concretamente essa ampliação, pois a constituição intersubjetiva da objetividade depende de expectativas de concordância entre sujeitos reconhecidos como participantes normais de uma comunidade.
 +167. A divergência somente possui peso constitutivo quando ocorre com aqueles de quem se espera concordância, razão pela qual a primeira concepção de normalidade tende a excluir crianças, cegos, pessoas esquizofrênicas, animais e grupos estrangeiros da co-constituição plena do mundo comum.
 +168. O aprofundamento posterior leva Husserl a distinguir diferentes formas de normalidade, como a normalidade de um adulto saudável e racional e a normalidade própria de uma comunidade ou mundo doméstico, diante das quais infância, cegueira, psicose ou pertença a mundos estrangeiros podem aparecer como modalidades de anormalidade relativa.
 +169. O encontro com uma normalidade estrangeira transforma a própria concepção de objetividade porque revela que aquilo que parecia simplesmente “o mundo” era correlato de um sistema particular de normalidade, isto é, apenas um mundo doméstico.
 +170. A discrepância entre normalidades distintas pode motivar a busca de uma verdade válida para todas as comunidades e, desse modo, participar da constituição da objetividade científica.
 +171. Torna-se necessário distinguir uma objetividade normal, correlacionada a uma intersubjetividade limitada, de uma objetividade rigorosa, correlacionada idealmente à totalidade ilimitada de sujeitos racionais.
 +172. Diferentes níveis de normalidade correspondem, portanto, a diferentes níveis de objetividade, e mesmo a verdade objetiva absoluta permanece correlacionada à normalidade de sujeitos racionais.
 +173. A filosofia transcendental husserliana reconhece ainda a finitude do sujeito transcendental mediante a pluralidade dos sujeitos e a dimensão diacrônica ou generativa da intersubjetividade.
 +174. Cada sujeito aprende o que conta como normal por intermédio dos outros e participa de uma tradição na qual realizações de gerações anteriores continuam operando em sua experiência presente.
 +  * O sujeito é “filho de seu tempo” e herdeiro de comunidades anteriores.
 +  * Mesmo aquilo que parece próprio e originariamente instituído encontra-se parcialmente fundado nas tradições de antepassados e contemporâneos.
 +175. A vida normal é, nesse sentido, vida generativa, e cada pessoa é histórica por pertencer a uma comunidade que permanece através do tempo.
 +176. A constituição da objetividade culmina num processo histórico de intersubjetividade transcendental no qual sucessivas gerações instituem sistemas de normas e sedimentam estruturas de validade transmitidas como tradição.
 +177. Não existe um mundo absolutamente fixo e independente dessas transformações, pois o mundo vivido constitui-se na relatividade móvel entre normalidades e anormalidades.
 +178. A noção de intersubjetividade generativa incorpora nascimento e morte às condições transcendentais de constituição do mundo, em vez de tratá-los como fatos empíricos contingentes exteriores à filosofia.
 +179. O sujeito pertence necessariamente a uma cadeia histórica de gerações e recebe um mundo já dotado de sentidos que se originam num passado anterior à sua existência individual.
 +180. Participar plenamente da constituição generativa de uma objetividade requer consciência da pertença a essa cadeia transgeracional de nascimento, tradição e morte.
 +181. Foucault reconhece na fenomenologia uma forma moderna de reflexão que simultaneamente diferencia e aproxima o transcendental e o empírico, restaurando contra o positivismo a dimensão transcendental e tornando-a concreta mediante corpo e cultura.
 +182. A temporalização da subjetividade transcendental compromete a divisão rígida entre transcendental e empírico porque entrelaça questões de validade e gênese e aproxima a fenomenologia de análises empíricas do ser humano.
 +183. Essa proximidade torna a fenomenologia mais aberta ao diálogo e à contestação das ciências empíricas, sem obrigá-la a reduzir-se a antropologia.
 +184. Embora Foucault apresente seu projeto como alternativa à fenomenologia centrada num sujeito constituinte, parte de sua filosofia pode ser compreendida como radicalização de motivos encontrados na fenomenologia tardia de Husserl, especialmente a ideia de um a priori histórico.
 +185. A Crise mobiliza deliberadamente uma reflexão histórico-teleológica para motivar a fenomenologia transcendental e investigar a gênese da situação científica e filosófica contemporânea.
 +186. Entidades ideais e teorias científicas possuem origem histórica, e a investigação transcendental deve realizar uma arqueologia das camadas sedimentadas de sentido que sustentam as realizações científicas atuais.
 +187. A linguagem, sobretudo a escrita, desempenha papel transcendental decisivo porque permite que sentidos sejam comunicados para além da presença pessoal imediata, transmitidos entre gerações e incorporados a um patrimônio coletivo de conhecimento.
 +  * A escrita transforma comunicação em uma modalidade virtual.
 +  * Torna possível uma comunidade histórica aberta e potencialmente ilimitada.
 +  * Funciona como reservatório de memória coletiva sem o qual teorias acumuladas durante séculos seriam impossíveis.
 +188. A fenomenologia transcendental não procura, por isso, um conjunto fixo e estático de categorias a priori, mas reconhece que a própria constituição possui caráter aberto, histórico e dinamicamente transformável.
 +189. Foucault também busca uma história das condições de possibilidade do conhecimento, mas dissocia essas condições da consciência e as compreende como estruturas anônimas, impessoais e historicamente variáveis que não podem ser recuperadas por reflexão em primeira pessoa.
 +190. Na concepção foucaultiana, o sujeito é integralmente constituído historicamente e deixa de desempenhar função transcendental constitutiva, enquanto Husserl procura tornar complementares as perspectivas empírica e transcendental em vez de eliminar uma delas.
 +191. O transcendental pode, nessa concepção husserliana, ser o próprio mundano liberto de sua ingenuidade, autoesquecimento e autointerpretação naturalizante, sem exigir a duplicação metafísica de dois mundos.
 +192. Husserl distingue-se ainda de Foucault por compreender a transformação histórica segundo certa orientação teleológica e conservar um universalismo racionalista incompatível com uma concepção das epistemes como formações puramente descontínuas submetidas a rupturas contingentes.
 +193. A ampliação husserliana do transcendental para corporeidade, intersubjetividade e historicidade confere à fenomenologia uma configuração muito diferente da filosofia transcendental kantiana tradicional e produz novos desafios, mas também impede identificá-la de maneira simplista com solipsismo, internalismo ou representacionalismo.
 +194. O idealismo transcendental husserliano procura preservar objetividade e transcendência do mundo experienciado, rejeita representacionalmente o realismo metafísico e sustenta uma interdependência constitutiva essencial entre mente e mundo.
 +195. O mundo é, além disso, correlato de uma comunidade intersubjetiva de sujeitos corporificados, tornando a justificação filosófica interna ao próprio mundo experiencial e às práticas intersubjetivas pelas quais ele se manifesta e é validado.
 +196. A concepção husserliana do transcendental não representa simplesmente retorno a Kant, mas antecipa temas que adquirirão presença significativa tanto na filosofia continental quanto na filosofia analítica do século XX.
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 +{{tag>Zahavi Husserl internalismo externalismo}}