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| + | ====== Ensaios Heréticos ====== | ||
| + | //PATOCKA, J. Essais hérétiques sur la philosophie de l’histoire. Erika Abrams. nouvelle éd. revue ed. Lagrasse: Verdier, 1999// | ||
| + | **Prefácio de Paul Ricoeur** | ||
| + | * O público de língua francesa conhece pouco Jan Patočka além do nome, célebre como o filósofo tcheco, discípulo de Husserl e Heidegger, longamente proibido de ensinar e publicar, lançado à cena pública quando os signatários da Charta 77 o designaram seu porta-voz, e morto às mãos da polícia após uma série de interrogatórios forçados. | ||
| + | * Poucos o conhecem como filósofo propriamente dito: alguns talvez o conheçam como um dos mais versados estudiosos do pensamento de Comênio, fundador da filosofia da educação no Renascimento, | ||
| + | * Fora do círculo de seus numerosos e fervorosos discípulos em Praga, presentes em todas as disciplinas acadêmicas e em todos os horizontes intelectuais fora da universidade, | ||
| + | * A memória de Merleau-Ponty é evocada porque, na obra dos sucessores de Husserl e Heidegger, os Ensaios heréticos ocupam o mesmo lugar que O visível e o invisível, mostrando um caminho ao mesmo tempo fiel e divergente das duas versões clássicas da fenomenologia. | ||
| + | * Esses ensaios, como os escritos póstumos de Merleau-Ponty, | ||
| + | * O acesso a essas páginas, muito originais e por vezes intrigantes, | ||
| + | * Reencontra-se aqui o tom de Hannah Arendt em A condição humana e As origens do totalitarismo, | ||
| + | * Enquanto o leitor se atém a esse fio de ouro da unidade subjacente que reúne política, história e filosofia, ele não se perde, contentando-se em descobrir um desenvolvimento muito original da obra de Arendt a respeito do destino da Europa desde a pólis grega e o imperium romano, e sobretudo a respeito do suicídio da Europa nas duas grandes guerras mundiais; mas ao alcançar as passagens estranhas, francamente chocantes, sobre o predomínio da guerra, da escuridão e do demoníaco no próprio coração dos projetos mais racionais de promoção da paz, comparados nessa ocasião ao poder do dia, o leitor se sente transportado a uma esfera alheia à súplica ainda muito aristotélica de Arendt por uma democracia livre. | ||
| + | * O leitor se vê então subitamente situado num outro horizonte de pensamento, produzido pela leitura ousada que Patočka faz da realidade política contemporânea nos termos da Noite e pela reabilitação da máxima de Heráclito, Polemos é o pai de todas as coisas. | ||
| + | * Aí se depara com a segunda conferência, | ||
| + | * Trata-se ainda do destino do triunvirato política, história e filosofia, mas agora visto a partir de um tema unificador incomparavelmente mais difícil de apreender, o do caráter problemático da humanidade histórica em oposição à certeza ingênua e absoluta da humanidade da pré-história. | ||
| + | * Ao remeter o tema das três dimensões da humanidade europeia ao tema mais intratável do caráter problemático constitutivo da humanidade histórica, evidencia-se a origem husserliana e heideggeriana desses ensaios, e reconhece-se em que consiste a heresia de Patočka, ponto de ruptura não apenas com o marxismo vulgar, o que é óbvio demais, mas, de modo mais decisivo e dramático, com as concepções de Husserl e Heidegger sobre a história. | ||
| + | * A questão da condição pré-histórica da humanidade está intimamente ligada à tentativa de restituir o mundo natural presente nas duas versões clássicas da fenomenologia, | ||
| + | * Retomando a questão pelo outro extremo, a do mundo natural, é precisamente com ela que os Ensaios heréticos começam, embora não seja evidente ao leitor por que deveria seguir o autor numa discussão pouco conhecida fora dos círculos fenomenológicos. | ||
| + | * O mundo natural não é, como se ressalta desde a primeira página, aquilo que a ciência chama de natureza, isto é, o conjunto dos objetos acessíveis à ciência empírica, nem aquilo que o materialismo positivista toma como um exterior absoluto que, de um modo ou de outro, se reflete na interioridade do pensamento. | ||
| + | * Nessa exposição rápida que abre o primeiro ensaio, Patočka ainda segue seu mestre Husserl, embora apenas momentaneamente: | ||
| + | * O mundo natural permanece assim uma questão da razão teórica, razão pela qual Husserl nunca alcançou os homens nos fenômenos concretos do trabalho, da produção, da ação e da criação, e, pior, foi incapaz, ainda na Crise, de superar o idealismo das Meditações cartesianas, | ||
| + | * Com essa crítica ao idealismo husserliano, | ||
| + | * Essa abertura ao mundo não é fenômeno psicológico ou mental, mas está constituída ontologicamente antes de nossa consciência do mundo, o que altera fundamentalmente o próprio sentido da fenomenologia: | ||
| + | * Ao mesmo tempo, vem à tona uma historicidade que deve ser concebida como modo de ser histórico anterior a toda consciência histórica, e portanto também ao conhecimento histórico e à historiografia, | ||
| + | * Assim, a esperança de recuperar, sob as camadas do conhecimento objetivo e das visões de mundo, algo invariante, revela-se um engano; antes, deve-se reconhecer que todos os mundos históricos onde se reúne o surgimento e o eclipse do ser dos entes são naturais. | ||
| + | * É aqui que o pensamento de Patočka se afasta do de Heidegger: o velamento do ser, no Heidegger tardio, significava a alternância entre um desvelar e um velar que determinava que o mundo dos entes fosse tomado ora como Natureza, ora como Sujeito, ora como Espírito, ao passo que para Patočka significa a perda de toda segurança, perda que expõe completamente o homem e sua liberdade, o que ele chama de condição problemática característica da era da história. | ||
| + | * Essa nova interpretação de Heidegger é reforçada pela interpretação de Husserl: o mundo natural não é o mundo pré-científico, | ||
| + | * Não se trata de que o mundo da pré-história ignore toda atividade narrativa, pois o mundo não problemático não carece de relatos, anais ou crônicas, cuja função é justamente manter o estilo de vida do homem pré-histórico. | ||
| + | * A anais captam o passado como algo importante para o comportamento futuro bem-sucedido da grande casa que cuida de si mesma. | ||
| + | * O ciclo vital de recepção e transmissão não é rompido, e a historiografia pode mover-se indefinidamente dentro do círculo tranquilo do eterno retorno, de modo que o nascimento da história não é o da historiografia, | ||
| + | * Também não é que o mundo da pré-história esteja sem transcendência, | ||
| + | * A sabedoria, segundo essa visão de mundo, consiste na modéstia do desejo, na aceitação da mortalidade e na amizade com os deuses, o que torna suportável a ruptura entre a imortalidade deles e nossa mortalidade, | ||
| + | * Essa interpretação do mundo da pré-história como um ser conduzido ao cativeiro pela amizade dos deuses reforça, ao custo de uma completa reorientação, | ||
| + | * Compreende-se não apenas que o cativeiro de uma vida não problemática não é rompido pelo trabalho como tal, mas que o ciclo do trabalho e o do mito estão relacionados em nível profundo, sendo o abrigo do trabalho o mesmo que o das aparições fugazes da divindade, algo que não se lê em Hannah Arendt. | ||
| + | * É por isso que, tendo adotado dela a tríade labor, trabalho e ação, Patočka substitui por sua própria concepção dos três movimentos da vida, cada um com sua própria temporalidade: | ||
| + | * O segundo é o da defesa, ao qual pertence a economia do trabalho, na medida em que o trabalho é ao mesmo tempo um peso que o homem assume durante toda a sua vida e o alívio de um fardo, alívio esse que, confinado ao arrebatamento de Eros, jamais chega a romper as fronteiras da existência pré-histórica, | ||
| + | * O terceiro movimento fundamental da vida é o movimento da verdade, que, ainda dentro do mundo da pré-história, | ||
| + | * Na ordem do problemático, | ||
| + | * Em contraste com o guerreiro, ainda protegido do perigo que enfrenta pela grandeza estável pela qual se arrisca, no caso do homem problemático o objetivo é uma vida livre enquanto tal, seja a própria seja a de outros, essencialmente uma vida desabrigada. | ||
| + | * É nesse ponto que o perigo consiste em que, tendo recusado idealizar a consciência, | ||
| + | * É sob a égide de Heráclito, já evocado antes, que o autor discerne, no fundamento dessa doação de sentido que é o próprio espírito do Ocidente, o papel da discórdia e da luta: sim, polemos é verdadeiramente o pai de todas as coisas e comum a todas, sendo ao mesmo tempo aquilo que constitui a pólis e a intuição primordial que torna possível a filosofia. | ||
| + | * Vê-se que Heráclito, como Patočka, não é um filósofo da existência bruta ou da ação terrorista, mas alguém que pensou a origem de toda relação a partir de um abalo extremo, pensamento que marca a cesura entre a vida histórica e a vida da pré-história, | ||
| + | * O perigo já não é cair no idealismo, mas ceder ao niilismo, disso Patočka está perfeitamente consciente. | ||
| + | * Nas páginas dedicadas à noção de sentido da história, ele começa concordando com Heidegger que a questão do sentido não é a da significação no sentido lógico e linguístico da palavra, mas uma questão colocada apenas por e para os seres capazes de colocar em questão, e em jogo, seu próprio ser. | ||
| + | * Vai além ao dizer que aquilo que se abala, para o homem problemático, | ||
| + | * Assombrado pelo niilismo, Patočka viu uma saída na própria noção de problematicidade, | ||
| + | * A perda do sentido não é a descida ao sem sentido, mas um acesso à qualidade de sentido implicada na própria busca, e assim Patočka redescobre o tema socrático do cuidado da alma e da vida examinada. | ||
| + | * O sentido, dentro da condição de problematicidade, | ||
| + | * Chegado a esse ponto, cabe perguntar como é possível retornar da contemplação de tal profundidade por um sábio solitário à responsabilidade política e histórica no sentido mais ordinário e cotidiano do termo: a relação que Patočka estabelece, na segunda metade de seus ensaios, entre sua filosofia do problemático e suas posições propriamente políticas quanto ao destino da Europa depende inteiramente da capacidade de transferir por completo, do indivíduo para o conjunto da sociedade europeia, a meditação sobre a relação entre sentido, não sentido e busca. | ||
| + | * A possibilidade de uma metanoese de proporções históricas depende essencialmente de que a parte da humanidade capaz de compreender o que foi e é o ponto da história, cada vez mais impelida pelo posicionamento integral da humanidade atual no ápice da tecnociência a assumir a responsabilidade pela ausência de sentido, seja também capaz da disciplina e da renúncia exigidas por uma postura de desenraizamento na qual apenas se pode realizar um sentido, absoluto e ao mesmo tempo acessível aos homens justamente por ser problemático. | ||
| + | * A sequência inteira dos Ensaios heréticos dedicada à Europa e à herança europeia nada mais é que um extenso exercício de aplicação, | ||
| + | * É preciso aceitar que as perspectivas não são animadoras, sendo o diagnóstico mais certo que a cura, e as páginas dedicadas às duas guerras mundiais e à Guerra, criada pelo poder da Noite, são as mais impressionantes. | ||
| + | * Neste século, a guerra é a plena floração da revolta do cotidiano; a guerra como um tudo é permitido global, uma liberdade selvagem, apodera-se dos Estados, tornando-se total; a mesma mão encena orgias e organiza a cotidianidade; | ||
| + | * Patočka quis livrar-nos de toda ilusão sobre a paz: na perspectiva do dia, a paz é uma transição, | ||
| + | * Diante desse avanço da Noite, o que corresponderia a um plano coletivo, à lucidez do filósofo solitário? | ||
| + | * Patočka possui apenas uma fórmula que vale como resposta, a solidariedade dos abalados apesar de toda a sua contradição e conflito, sendo a experiência privilegiada nessa perspectiva a da frente de combate, tal como foi elaborada e comentada por Ernst Jünger e Teilhard de Chardin. | ||
| + | * Haveria também certa perspectiva de alcançar o terreno da paz verdadeira a partir da guerra engendrada pela paz, tendo como primeiro pressuposto a experiência de frente de Teilhard, formulada de modo não menos agudo, embora menos místico, por Jünger: o aspecto positivo da linha de frente, não como servidão à vida, mas como imensa libertação precisamente dessa servidão. | ||
| + | * Surge então uma questão angustiante: | ||
| + | * Não há resposta a essa pergunta senão a reiteração do ato de fé, e só resta repetir, com temor e tremor, a fórmula desse credo entre o dogmatismo do sentido e o do sem sentido. | ||
| + | * A solidariedade dos abalados pode dizer não às medidas de mobilização que tornam permanente o estado de guerra; a solidariedade dos abalados constrói-se na perseguição e na incerteza, e essa é sua linha de frente, silenciosa, sem alarde nem sensacionalismo, | ||
| + | * Esse pensamento estende o tema socrático do cuidado da alma e da vida examinada para além da esfera do indivíduo, restando saber se isso significa que uma política socrática tem alguma chance, questão mais radical que a Europa ocidental pode extrair do coração daquilo que outrora foi o centro da Europa. | ||
