husserliana:patocka:heretico:ensaio1
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| + | ====== Primeiro Ensaio ====== | ||
| + | (JP1999: | ||
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| + | //PATOCKA, Jan. Heretical essays in the philosophy of history. Tr. Erazim Kohäk. Chicago: Open Court, 1996, p. 5-8 | ||
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| + | PATOCKA, J. Essais hérétiques sur la philosophie de l’histoire. Tr. Erika Abrams. nouvelle éd. revue ed. Lagrasse: Verdier, 1999, p. 24-27// | ||
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| + | <WRAP box> | ||
| + | A abertura designa a possibilidade fundamental do homem: a possibilidade de que o ente (o ente que é do mesmo modo que ele — o ente aberto —, assim como o ente que carece desse traço) se mostre a ele por si mesmo, isto é, sem a mediação de outro ente. (Isto não quer dizer que não haja mostração mediada, mas todo o reenvio, toda a re-mostração pressupõe uma mostração primária à qual e dentro da qual remete: a linguagem, por exemplo, mostra ao outro o que se mostra a nós próprios). O fato de o ente pode mostrar-se a ele, que pode tornar-se um fenômeno para ele, isto é, manifestar-se naquilo que é e como é, é a essência específica do homem. O homem não é um lugar onde o ente se cria a fim de poder manifestar-se no original, tal como a " | ||
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| + | **Primeiro Ensaio: Reflexões sobre a Pré-história** | ||
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| + | * No momento em que a física mecanicista começava a enfrentar dificuldades, | ||
| + | * a intenção desse movimento era afastar-se da visão " | ||
| + | * disso resultava o problema de descrever estruturalmente o "mundo humano", | ||
| + | * a solução inicialmente proposta foi o " | ||
| + | * segundo o monismo neutro, tanto a realidade objetiva quanto a experiência vivida são compostas dos mesmos " | ||
| + | * essa tentativa de substituir a dependência causal por relações funcionais e estruturais preservou o esquema unitário da ciência natural matemática, | ||
| + | * Bergson deu um novo contorno ao problema da objetividade das qualidades secundárias, | ||
| + | * ainda assim, as descrições bergsonianas de " | ||
| + | * o afastamento da explicação causal da objetividade reapareceu em diversos esquemas filosóficos posteriores que buscaram combinar atomismo com uma concepção de continuidade, | ||
| + | * esses esforços chegaram a um impasse por não conseguirem explicar por que o universo não está continuamente presente a nós, qual o papel do corpo, e como se tornam acessíveis o ausente, o irreal, o autoconhecimento e a história | ||
| + | * a fenomenologia de Husserl pareceu superar esse impasse ao reconhecer que o "mundo natural" | ||
| + | * esse deslocamento levou Husserl inesperadamente ao terreno do idealismo transcendental, | ||
| + | * assim, no fundo da maneira natural e ingênua como o mundo se apresenta, encontra-se um " | ||
| + | * no curso do desenvolvimento da fenomenologia, | ||
| + | * essa guinada subjetiva dentro do problema do mundo natural levou a um idealismo extremo e à retomada de temas do idealismo absoluto pós-kantiano, | ||
| + | * permanecia o problema de saber se restava, contra o fenômeno original, um resquício de mentalismo nas sínteses passivas e ativas, e esse resquício indicava um vestígio da divisão cartesiana dos existentes | ||
| + | * apesar da ênfase na tarefa de apreender o mundo natural, nunca se realizou uma análise estrutural dele, não se chegou aos seres humanos nos fenômenos concretos do trabalho, da produção, da ação e da criação | ||
| + | * Heidegger retomou e reformulou a ideia husserliana de colocar o problema como manifestação daquilo que se manifesta e da estrutura do ser ao qual isso se manifesta, compreendendo o ser humano como estrutura distinta por compreender o ser, relacionando-se com ele | ||
| + | * essa abertura não significa que o ser humano reproduza ou reflita o que existe, mas que a " | ||
| + | |||
| + | **(continuação sem subtítulo no original)** | ||
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| + | * a abertura designa a possibilidade básica de ser humano: que o que existe possa manifestar-se a si mesmo sem mediação de outra coisa, sendo a linguagem exemplo de indicação que remete a uma aparição primária | ||
| + | * os humanos não são o lugar onde o que existe surge para poder manifestar-se originalmente, | ||
| + | * esse conceito de fenômeno como fenômeno profundo, isto é, compreensão do Ser, impede tomar o que aparece como coisa subjetiva, superando a metafísica da ciência natural moderna e tornando impossível todo idealismo de " | ||
| + | * nem mesmo Husserl, que primeiro apontou que uma coisa em si, com seu sentido e suas características, | ||
| + | * a estrutura da abertura implica uma dupla concepção do fenômeno: a abertura do ser-humano-no-mundo deixa primeiramente o que existe aparecer e tornar-se fenômeno | ||
| + | * em segundo lugar, para que o ente se mostre como tal, é preciso que o próprio ser possa apresentar-se e tornar-se fenômeno, mas o ser originalmente se retrai em obscuridade diante do ente cuja manifestação tornou possível; o ocultamento, | ||
| + | * despojando-se a " | ||
| + | * esse " | ||
| + | * fenômeno, manifestação e ocultamento estão intimamente ligados, não havendo manifestação sem ocultamento, | ||
| + | * a aparição no sentido primário do fenômeno ôntico é sempre aparição do que existe, não havendo representação primária dos entes por algo " | ||
| + | * há também uma fenomenalidade derivada, que consiste em mostrar algo que se manifesta por si mesmo; a linguagem, especialmente em proposições, | ||
| + | * o comportamento humano voltado ao desenvolvimento da abertura e de sua tradição não se restringe à linguagem, mas se realiza também na religião, no mito, na arte e no sacrifício | ||
| + | * no culto e no mito as coisas são despojadas de sua significação cotidiana de instrumentos e assumem o papel de entes livres e originários | ||
| + | * nas artes criativas, o " | ||
| + | * torna-se assim mais claro como se reconstitui o problema do mundo natural à margem de qualquer materialismo ou idealismo, apreendendo-se as coisas encontradas como tais sem independência da estrutura do " | ||
| + | * a manifestação das coisas é ela mesma histórica em duplo sentido: como desvelamento do que existe e como emergência das estruturas do ser, que não podem despontar na abertura senão historicamente | ||
| + | * Heidegger não resolve o problema do mundo natural (o Lebenswelt husserliano) porque suas análises visam à questão fundamental do sentido do ser, e não especificamente esse problema, privilegiando modalidades de comportamento aberto ligadas à descoberta temática do ente e do ser — a descoberta prática, a linguagem, a proposição, | ||
| + | * o mundo natural, mundo da vida humana, só pode ser compreendido como totalidade dos modos fundamentais de comportamento humano, de seus pressupostos e sedimentações, | ||
| + | * é possível indicar em que sentido o problema do mundo natural parece insolúvel: se buscado como um invariante primordial sob as camadas do " | ||
| + | * Husserl, ao contrário, entendeu o mundo da vida, o Lebenswelt, como invariante nesse sentido material, o que é duvidoso tanto para a presença originária das coisas quanto para o caráter histórico do próprio conteúdo do mundo | ||
| + | * o mundo natural pode ainda ser entendido em sentido diverso, como o mundo anterior à descoberta de seu caráter problemático, | ||
| + | * esse mundo pré-problemático é também um mundo de sentido pregado, modesto mas confiável, tornado inteligível pela presença de potências, do demoníaco, dos deuses que dominam os humanos e decidem seu destino, situando-os não no centro mas em referência ao que os transcende | ||
| + | * os povos ditos " | ||
| + | * essa vida se assemelha à dos animais que vivem para viver, mas dela difere pela possibilidade oculta, embora nunca realizada, de problematização | ||
| + | * é uma vida tangível sem outra ideia de vida além de viver, absorvida quase inteiramente pela busca do pão cotidiano | ||
| + | * há um nível dessa autoevidência que quase alcança o limite da problematização, | ||
| + | * sobre a base dos textos escritos tornam-se possíveis obras de linguagem semelhantes a um mundo secundário, | ||
| + | * cabe indagar se a reflexão sobre esse modo do mundo natural ajudaria a compreender o que é a história, sendo necessário voltar-se primeiro ao projeto originário do homem natural e não problemático, | ||
| + | * não é acaso que em Ser e Tempo Heidegger recorra a exemplos tirados do artesanato e fale de " | ||
| + | * nas investigações de Arendt, que distingue trabalho, produção, criação e ação como dimensões da vida ativa, o projeto de vida pela vida mesma é talvez o mais importante, pois os humanos, como tudo que vive, estão expostos a um autoconsumo constante que exige satisfação igualmente constante | ||
| + | * essa questão gera um conjunto de problemas: o trabalho próprio e o alheio, o uso e a liberdade em relação ao trabalho, cujo traço fundamental é a sujeição da vida a si mesma | ||
| + | * ao contrário da vida animal, que consome sua modesta abertura na busca de presa e sustento, o trabalho é contínuo com o caráter problemático da vida ao mesmo tempo em que o obscurece | ||
| + | * o animal não trabalha, embora se preocupe consigo mesmo; para ele a manutenção da vida não é fardo, ao passo que para o humano o é, pois o trabalho pressupõe livre disposição de espaço e tempo e impõe um modo de ser experimentado como imposição | ||
| + | * paradoxalmente o trabalho nos faz sentir a liberdade, sendo o trabalho, segundo Arendt, sempre originalmente trabalho para o consumo, possível apenas com base num ser livre no mundo, ainda que possa reprimir o desenvolvimento dessa liberdade | ||
| + | * o mundo em que a vida se prende a si mesma sobre a base de uma liberdade oculta é o mundo do trabalho, cuja proto-célula e modelo é a casa, a comunidade dos que trabalham para assegurar seu sustento | ||
| + | * as grandes civilizações da Antiguidade foram, nesse sentido, casas monumentais, | ||
| + | * entendido nesse sentido, o trabalho revela-se fator não apenas não histórico mas contrário à história, tendo mantido por muito tempo os humanos na mera sobrevivência; | ||
| + | * já nas primeiras civilizações observa-se a diferença entre trabalho e produção, sendo somente pela produção que o mundo humano adquire caráter perene — a muralha da cidade, o mercado, o templo, a palavra escrita — embora o autoentendimento humano permaneça determinado pelo mundo do trabalho | ||
| + | * a regulação da troca entre trabalho e produção, a organização da sociedade dos trabalhadores, | ||
| + | * na dialética da autoconsciência na Fenomenologia do Espírito, Hegel liga o início da história ao pânico da consciência servil que renuncia a si mesma e à liberdade em favor de uma vida subordinada a outra autoconsciência, | ||
| + | * um testemunho ainda mais impressionante desse autoentendimento servil aparece no espelho das produções poético-míticas das primeiras altas civilizações, | ||
| + | * segundo o antigo épico babilônico de Atrachasis, os deuses tiveram de realizar todo o trabalho até inventarem a morte, matando um deus menor e usando sua carne e sangue para criar os humanos, que receberam o labor como destino enquanto os deuses reservaram para si vida pura e sem nuvens | ||
| + | * a sociedade é, por isso, teocrática: | ||
| + | * pode-se lembrar também o mito da criação do homem no Gênesis, na interpretação de Walter Bröcker, segundo o qual Deus criou os humanos para cuidar de seu jardim, reservando para si a vida pura da árvore da vida, enquanto proibiu aos humanos o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal | ||
| + | * a transgressão da proibição trouxe a expulsão do paraíso da ignorância, | ||
| + | * para melhor compreender a transcendência divina do trabalho e da mortalidade humana, é preciso voltar ao mito de Atrachasis: os deuses não estão em princípio acima de todo trabalho, mas este não é condição para sua vida, e sim apenas para uma vida boa em que recebem respeito e sacrifícios | ||
| + | * a morte é produto de uma violência divina contra um dos próprios deuses, e por isso, para a mente humana, transcende o destino mortal; os indivíduos morrem, mas a espécie humana se preserva na continuidade geracional, participando assim da ordem divina | ||
| + | * quando os deuses se sentem negligenciados, | ||
| + | * a destruição é exemplo do trabalho dos deuses, mas o deus da sabedoria sabe de antemão que a humanidade não deve ser destruída e adverte um escolhido em sonho premonitório, | ||
| + | * o sentido do dilúvio é fazer os humanos conscientes da precariedade de sua posição, ao mesmo tempo em que os deuses, chocados com a devastação, | ||
| + | * desde então, o dilúvio representa a ameaça de morte não apenas ao indivíduo mas à espécie inteira, na forma de catástrofes globais que indicam a todos sua condição ameaçada, sendo o mal posto no mundo pela vontade dos deuses como ameaça perene, ainda que também exista ajuda divina no combate a esse mal | ||
| + | * é possível supor que por trás da história de Gilgamesh e da luta contra o mal global esteja a lenda do dilúvio, não sendo esse episódio mero acréscimo externo ao épico | ||
| + | * Gilgamesh não é deus em sentido estrito, mas dois terços divino, livre da preocupação com o pão cotidiano e destinado a feitos sobre-humanos ligados à ordem do mundo, embora sujeito à morte; sua tarefa quase divina primordial é manter a ordem do mundo, começando pela construção de uma cidade que protege os humanos da pobreza e dos inimigos | ||
| + | * para atender às preces dos mortais, os deuses convocam-no a testar sua força contra o homem-fera Enkidu, que se torna seu auxiliar, e depois contra o mal-mundial Humbaba, protegido do deus da terra Enlil, o mais empenhado no dilúvio; derrotado Humbaba com a ajuda do deus do sol, Enkidu é escolhido como sacrifício reconciliador e paga o preço da morte | ||
| + | * esse mesmo destino atinge ainda mais fortemente o próprio Gilgamesh que, como o primeiro homem no livro do Gênesis, percebe pela primeira vez toda a medida de sua mortalidade e, em pânico, parte em busca da imortalidade até a borda do mundo | ||
| + | * no caminho até o único homem tornado imortal por acordo unânime dos deuses, ocorre o episódio característico, | ||
| + | * "Aonde corres, Gilgamesh? A vida que buscas não encontrarás! Quando os deuses criaram os humanos, deram-lhes a morte como destino, tomando a vida em suas próprias mãos. Tu, Gilgamesh, enche agora teu estômago, alegra-te dia e noite! Podes fazer festas diariamente, | ||
| + | * esse discurso não é hedonista, como às vezes se diz, mas delimitação das possibilidades humanas a partir de uma vida finita presa a si mesma, cujo máximo é o padrão de uma casa bem ordenada, de " | ||
| + | * essa perspectiva não torna a vida humana sem sentido enquanto os humanos ocupam seu lugar no âmbito da vida dos deuses, mesmo os feitos heroicos oferecendo apenas apoio transitório | ||
| + | * o périplo imensurável até o fim do mundo termina quando Gilgamesh, exausto pelos grandes feitos, cede ao que há de mais suave: o sono, irmão da morte, retornando ao único de seus feitos que se mostrou viável — sua poderosa muralha e a fundação de um império que protege os humanos, ainda que temporariamente | ||
| + | * esse poema representa o autoentendimento de uma humanidade para quem o mundo pertence aos deuses cuja unanimidade determina o destino dos indivíduos e da humanidade | ||
| + | * o mundo, visto da perspectiva humana, é uma grande casa administrada pelos heróis que, junto aos deuses, mantêm o mal global sob limites e compartilham com os humanos o destino da mortalidade, | ||
| + | * não há fronteira nítida entre o mundo e a " | ||
| + | * o conteúdo dessa reflexão é a fascinação pela morte e, nesse contexto, também pelo trabalho, que resulta no esgotamento da vida pela " | ||
| + | * algo superior existe na relação dos humanos com o domínio sombrio da morte: algo como imortalidade, | ||
| + | * os indivíduos, | ||
| + | * o pai que traz filhos ao mundo relaciona-se, | ||
| + | * todos os indivíduos se provam elos numa sequência de " | ||
| + | * essa dependência situa-se não apenas no âmbito da vida sujeita ao trabalho, mas a própria vida, paisagem de individuação e trabalho, é parte da paisagem sombria do mundo à qual os deuses também tiveram acesso ao enviar a morte ao mundo | ||
| + | * esse mesmo espaço sombrio do mundo é ao mesmo tempo a paisagem da fertilidade da qual vem tudo o que é individual, sítio não só da aceitação de descendentes já nascidos mas de preparação para eles, cada um sendo aceito por sua vez na escuridão fértil e gerativa | ||
| + | * há mais de um século, Fustel de Coulanges demonstrou que essa cadeia de percepções permaneceu como fundamento da família patrícia na Antiguidade, | ||
| + | * essa interpretação é insustentável, | ||
| + | * foi Hannah Arendt quem chamou atenção para a modificação mais importante, ao apontar que a esfera da casa deixou de ser o núcleo do mundo, tornando-se domínio privado ao lado do qual surgiu, na Grécia e em Roma, uma esfera pública distinta e igualmente importante | ||
| + | * a partir dessa tese, busca-se demonstrar que a diferença está em que, no período intermediário, | ||
| + | * pesquisas históricas recentes, seguindo a decifração da antiga escrita micênica, parecem mostrar que a organização social de toda a região do Egeu era, salvo diferenças marginais, basicamente a mesma das altas civilizações do Oriente Próximo, o que também se aplicaria às primeiras altas civilizações da Grécia | ||
| + | * se essa argumentação se sustenta, implicaria que essas civilizações brilhantes, com sua arquitetura admirável e suas realizações artísticas, | ||
| + | * havia também alto nível de produção, mas de modo subordinado à orientação dada pelo trabalho, não decisivo para o autoentendimento nem para os fins da vida | ||
| + | * o que parece ir além disso não provém das obras humanas, mas do vínculo primordial ininterrupto entre mortais e deuses, entre os poderes vivificantes e ao mesmo tempo perigosos da terra e do céu | ||
| + | * quanto a esse mundo, porém, os humanos não são livres, não possuindo espaço próprio nem meta que se eleve acima da manutenção da vida; o surgimento da arte significa apenas que os humanos aceitaram seu lugar na sujeição da vida para aliviar a tarefa dos deuses e evitar dissensão entre eles | ||
| + | * a arte é serviço aos deuses tanto quanto o é toda a vida, já que uma vida perenemente precária não depende dos humanos; o labor que provê as necessidades humanas é a única condição necessária, | ||
| + | * nesse sentido o mundo da mitologia do Oriente Próximo ultrapassa em muito essa região, constituindo base de reflexão poética posterior representada pelos épicos homéricos, tanto a Ilíada quanto a Odisseia trabalhando com elementos míticos transmitidos pela poesia micênica | ||
| + | * segundo hipótese provável, é possível rastrear na Ilíada o tema do dilúvio e do perecimento geral da humanidade transformado no tema reflexivo, dos tempos jônicos e pós-micênicos, | ||
| + | * essas concepções tornaram-se parte da tradição histórica não só pelas narrativas bíblicas mas também pela Ilíada, sem falar da Odisseia com seu tema de peregrinação até o extremo da terra, numa mutação pouco reconhecível mas ainda eficaz como ponto de partida para reflexões posteriores | ||
| + | * essa tradição atesta um mundo pré-histórico que se pode chamar " | ||
| + | * é uma comunidade de deuses e mortais, o espaço vital compartilhado entre os que dependem da terra nutridora e das luzes celestes e aqueles que não dependem, constituindo o mistério mais admirável desse mundo | ||
| + | * os deuses são os mais misteriosos de todos, pois se ocultam, manifestando assim seu poder, e ainda assim o poder mais elevado só é possível como habitação livre sobre a terra, livre da morte | ||
| + | * essa visão parece essencialmente verdadeira, capturando a essência da vida humana no grande pano de fundo de sua integração inescapável na manutenção involuntária da vida, mas não fica claro o que faz com que tudo isso emerja e se manifeste | ||
| + | * desvelar o que está oculto na manifestação implica questionamento, | ||
| + | * uma vez posta essa questão, os humanos partiram para uma longa jornada nunca antes percorrida, da qual poderiam ganhar algo mas também perder decididamente muito: a jornada da história | ||
| + | * em seu início, os humanos são servos impotentes da vida, mas ainda dispõem do mundo natural com seus deuses, do serviço que convém aos deuses e da arte como expressão desse serviço e desse vínculo com o sagrado, colocando tudo isso em jogo ao partir para a nova jornada | ||
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