husserliana:ingarden:1979-prefacio-da-segunda-edicao
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| + | ====== Prefácio da segunda edição (1979) ====== | ||
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| + | //Apesar de as minhas investigações terem por tema principal a obra literária, e sobretudo a obra de arte literária, os motivos que, em última análise, me levaram a tratar este tema são de natureza filosófica geral e transcendem amplamente este assunto regional. Estão intimamente relacionados com o problema Idealismo-Realismo, | ||
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| + | Passaram-se mais de trinta anos sobre a redação deste livro. Entretanto, o mundo sofreu muitas modificações. Se hoje me resolvo a publicar de novo este livro, move-me não só a circunstância de ele se encontrar esgotado desde há muitos anos, sendo até rara a possibilidade da sua consulta nas bibliotecas, | ||
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| + | Ao mesmo tempo, quer parecer-me que as suas análises e perspectivas, | ||
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| + | Apesar de as minhas investigações terem por tema principal a obra literária, e sobretudo a obra de arte literária, os motivos que, em última análise, me levaram a tratar este tema são de natureza filosófica geral e transcendem amplamente este assunto regional. Estão intimamente relacionados com o problema Idealismo-Realismo, | ||
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| + | As minhas afirmações concordam com as de Husserl em Formale und transzendentale Logik ao conceberem os significados das palavras, as frases e as unidades superiores de sentido como realizações que resultam das operações subjetivas da consciência. Portanto, não são objetividades ideais no sentido definido pelo próprio Husserl nas suas Logischen Untersuchungen. Enquanto Husserl conserva o termo ideal na maior parte da sua Lógica, acrescentando só, por vezes, em parêntese a palavra irreal, eu renuncio por completo a esta nomenclatura, | ||
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| + | Quanto a pormenores sobre a aludida afinidade com a Lógica de Husserl, bastará salientar as seguintes observações como afins das correspondentes de Husserl: 1.°, a concepção das operações subjetivas elaboradoras das frases e a distinção entre a pura proposição e o juízo; 2°, a distinção entre o conteúdo material e formal da significação nominal da palavra e o confronto da plenitude de significação de uma palavra isolada com os momentos sintácticos próprios da sua significação na frase; 3.°, a análise da constituição de uma objetividade puramente intencional numa multiplicidade de períodos. Finalmente, acontece por vezes que onde Husserl se limita a aludir só de passagem a uma afirmação ou a um problema, porque no contexto respectivo não os pode aprofundar, eu, para os fins que tenho em vista, ofereço análises pormenorizadas. Refere-se isto, p. ex., à minha consideração do modo de ser das objetividades apresentadas na obra literária, enquanto Husserl só duas vezes observa que «também as ficções têm o seu modo de ser» (l. c, pp. 149 e 226). Na página 230 da sua obra, Husserl põe o «problema delicado» da possibilidade de «a subjetividade em si mesma criar, unicamente a partir das origens da sua espontaneidade, | ||
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| + | Todas estas observações permitem ao leitor orientar-se com facilidade nas relações que existem entre o meu livro e a Formale und Transzendentale Logik de Husserl. Embora eu tenha de referir alguns pontos de divergência em relação às opiniões do meu venerado mestre, não esqueço quanto lhe devo. Hoje, depois de doze anos de trabalho pessoal, sei, melhor do que nunca, quanto Edmund Husserl, com as suas profundas intuições e o domínio de horizontes ilimitados, a todos nos supera. Se conseguirmos descobrir algo que a Husserl passou despercebido, | ||
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| + | Por fim, não queria deixar de exprimir os meus melhores e mais calorosos agradecimentos a todos aqueles que me auxiliaram na preparação do presente livro. Foram, sobretudo, os Professores Julius Kleiner e Zygmunt Lempicki, que me ajudaram com os seus conselhos preciosos e crítica. Alguns capítulos discuti-os com o Dr. W. Auerbach (que também me ajudou na revisão das provas tipográficas) e com a Dr.a M. Kokoszynska e fico-lhes muito grato por muitas observações acertadas. A Dr.a Edith Stein teve a amabilidade de se encarregar do grande trabalho da correção linguística do texto, prestando-me, | ||
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| + | Os meus especiais agradecimentos vão para Max Niemeyer, que, apesar da crise geral, resolveu publicar o meu livro na sua Casa Editora, empenhando-se em lhe dar a melhor apresentação possível. | ||
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| + | Lemberg, Outubro de 1930. | ||
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| + | //INGARDEN, Roman. A Obra de Arte Literária. Tr. Albin E. Beau, Maria da Conceição Puga e João F. Barrento. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1979// | ||
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