husserliana:ingarden:1979-prefacio
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| + | ====== Prefácio (1979) ====== | ||
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| + | As investigações trazidas a público nesta obra têm por tema principal a estrutura fundamental e o modo de ser da obra literária e, muito especialmente, | ||
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| + | Fora originalmente meu propósito fazer a crítica, nesta nova edição, de algumas teorias apresentadas nos últimos anos. Como, porém, esta edição é uma reimpressão fotomecânica, | ||
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| + | Há apenas dois passos (a pp. 169 e 175) em que o meu nome aparece no texto da Teoria da Literatura ((Nas anotações e na bibliografia, | ||
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| + | A minha concepção dos estratos foi descrita por R. Wellek sob o aspeto, para mim estranho e equívoco, de «norma» e de «sistema de normas» ((Ocupar-me-ei disto noutro lugar.)). Além disto, Wellek omite por completo a segunda particularidade estrutural da obra de arte literária — a sequência das partes. Isto significa uma deturpação essencial tanto da estrutura da obra literária, como ainda da minha concepção. A omissão da ordem de sequência das partes da obra torna impossível a Wellek tratar de problemas importantes da arte literária. | ||
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| + | A páginas 175 e seg., R. Wellek critica-me da seguinte maneira: «Não nos ocupamos da questão dos valores artísticos. Mas o exame precedente deverá ter revelado que não existe estrutura fora das normas e dos valores ((Se esta afirmação disser respeito à parte precedente do capítulo XII da Teoria da Literatura, a verdade é que a análise de modo algum trata da relação entre as normas, valores e estruturas. No fundo, refere-se às minhas considerações acerca da natureza e do modo de ser da obra de arte literária, sem mencionar, no texto, o meu nome. Só na página 169 há um resumo da minha concepção dos estratos.)). É-nos impossível compreender e analisar qualquer obra de arte sem referência a valores. O próprio fato de uma pessoa reconhecer certa estrutura como «obra de arte» implica um juízo de valor. O erro da Fenomenologia pura reside na presunção de que tal dissociação (R. J.) é possível, de que a valores estão sobrepostas estruturas e lhes são de qualquer forma «aderentes». Este erro de análise diminui infelizmente o valor do penetrante livro de Roman Ingarden, que tenta analisar a obra de arte sem a referir a valores ((Esta sentença de R. Wellek foi muitas vezes repetida por outros autores, sem verificarem a sua veracidade. Por isso refiro-a aqui.)). A raiz da questão encontra-se naturalmente na aceitação, | ||
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| + | 1.° É-me inteiramente desconhecido e pessoalmente também completamente estranho que os «puros fenomenólogos» suponham haver «estruturas sobrepostas» aos valores e a estes de qualquer modo «aderentes». É certo que a palavra «estrutura» é tão polivalente ((Demonstrá-lo-ei noutro lugar.)) em R. Wellek que esta frase mal se entende. Seja, porém, qual for a acepção das palavras «valor» e «estrutura», | ||
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| + | 2.° Max Scheler falou, com efeito, de valores como objetos ideais ou essencialidades, | ||
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| + | 3.° São duas coisas distintas — o que R. Wellek não toma em consideração: | ||
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| + | É precisamente esta a minha opinião. Merece também atenção o fato de, segundo R. Wellek, a literatura não se distinguir de outras obras pelo seu valor mas — na afirmação de Wellek — pela sua «relação particular com a realidade». Corresponde isto, igualmente, à minha opinião. Nesta formulação vaga, a afirmação aliás já não é nova. Na Alemanha, remonta pelo menos a Lessing. Por isso tentei dar um passo importante em frente nesta questão procurando definir um pouco mais exatamente aquela «ficção», | ||
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| + | 4.° Finalmente, nem tentei nem exigi «a análise da obra de arte sem referência a valores». Textualmente escrevo (p. 38): «Finalmente, | ||
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| + | 5.° Não posso tratar aqui do significado e da validade da afirmação com que Wellek justifica a sua posição: «A investigação anterior deve, pois, ter mostrado que não há estruturas fora de normas e valores.» O esclarecimento do sentido desta afirmação e a ponderação das suas razões só poderiam realizar-se num estudo mais extenso, que excede os limites deste livro. Fá-lo-ei noutro lugar. | ||
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| + | Cracóvia, Setembro de 1965. | ||
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| + | //INGARDEN, Roman. A Obra de Arte Literária. Tr. Albin E. Beau, Maria da Conceição Puga e João F. Barrento. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1979// | ||
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