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 +====== Filosofia como ciência rigorosa ======
 +//HUSSERL, Edmund; BUHOT DE LAUNAY, Marc. La philosophie comme science rigoureuse. Paris: Presses universitaires de France, 1989.//
  
 +**Apresentação**
 +
 +  * O ensaio de Husserl que se vai ler participa de um gênero clássico, manifesto e exposição doutrinal ao mesmo tempo, sendo tentador aproximá-lo do Discurso do método por sua função de traçar um balanço geral da filosofia e diagnosticar uma crise, propondo reorientação; contudo A Filosofia como ciência rigorosa constitui antes uma introdução more negativo às grandes opções da fenomenologia, voltada a demarcar-se da psicologia teórica da virada do século e do historicismo, e, em seus aspectos polêmicos, este artigo de 1911 visa fustigar os critérios então prevalentes na atribuição das cátedras de filosofia, privilegiadas pelas universidades de modo excessivamente psicologista
 +    * menção à carta de Husserl a Rickert, de 21 de novembro de 1912
 +    * o texto de Husserl não está na origem de uma língua de especialidade, ao contrário do Discurso de Descartes, sendo vão pretender lê-lo sem conhecimento das Meditações e dos Princípios
 +    * Husserl considerava a obra antes uma vulgarização, conforme carta a Misch de 3 de agosto de 1929, e não uma exposição geral de suas intenções, conforme carta a Hocking de 7 de julho de 1912
 +    * o texto oferece apenas um pálido esboço das Investigações lógicas e do trabalho realizado entre 1901, data da segunda parte das Investigações lógicas, e 1911, período em que Husserl publicou apenas resenhas e contribuições ao dicionário de Lalande
 +  * Por mais justificados que sejam os argumentos que ponderam e restringem o alcance filosófico deste texto, seria injusto não constatar que ele representou, à época, um grande reconforto para os que o positivismo e o psicologismo faziam desesperar da filosofia, e que intervém exatamente no centro de discussões que desde então não cessaram
 +    * a questão do historicismo, a controvérsia sobre o positivismo, o problema das relações entre filosofia e ciências humanas e a interrogação permanente sobre o objeto da reflexão filosófica são temas que o moratório de Husserl aborda com resolução suficiente para recomendar sua leitura ainda hoje
 +    * cita-se como continuidade dessas discussões o livro de E. Troeltsch, L'Historicisme et ses problèmes, publicado em 1922
 +    * cita-se as tentativas da Escola de Frankfurt, nos anos 1930, de sustentar a constelação do mundo vivido
 +    * cita-se o ataque mais recente ao neopositivismo em La Controverse sur le positivisme, de Th. Adorno, J. Habermas, K. Popper e outros, de 1963
 +    * cita-se a obra de Gadamer, que se esforça por manter a legitimidade da hermenêutica retomando Dilthey
 +    * cita-se a radicalização crítica, por Heidegger, da interrogação sobre o sentido mesmo da filosofia
 +  * As reações imediatas à publicação do único artigo que Husserl publicaria em Logos vieram de Rickert, de Simmel e sobretudo de Dilthey, que era nomeadamente posto em causa
 +    * Rickert havia convidado Husserl a dar um texto à revista, conforme cartas de Husserl a Rickert de 25 de janeiro de 1910 e de Rickert a Husserl de 28 de junho de 1911
 +    * Simmel escreveu carta a Husserl em 13 de março de 1911
 +    * Husserl procurou, em sua resposta de 5-6 de julho de 1911, atenuar o ressentimento de Dilthey, propondo publicar uma nota em Logos, nota que jamais viria a ser publicada, e assegurando que a análise fenomenológica se apoia na estrutura e na tipicidade das grandes formações culturais que Dilthey havia mostrado pela primeira vez
 +    * Dilthey morreu em 1º de outubro de 1911 sem que houvesse verdadeira reconciliação entre as duas perspectivas
 +    * no curso do semestre de verão de 1925, Psychologie phénoménologique, Husserl rende homenagem à erudição e à intuição de Dilthey, partilhando com ele a recusa de importar para as ciências do espírito métodos próprios das ciências da natureza, ao mesmo tempo em que critica a psicologia descritiva de Dilthey, considerada incapaz de resolver precisamente esses conflitos de método
 +  * A presente tradução tem como único mérito, em relação à de Quentin Lauer publicada em 1954, ter-se beneficiado não apenas desse primeiro trabalho, mas de toda a recepção husserliana das três últimas décadas, reconhecendo nisso a única justificativa do estabelecimento rigoroso do texto e de suas notas marginais por Th. Nenon e H. R. Sepp, no âmbito da edição das Husserliana