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| + | ====== A EXISTÊNCIA SE MOSTRANDO DE HUSSERL ====== | ||
| + | (EF1994: | ||
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| + | ==== Proximité et distance ==== | ||
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| + | === Edmund Husserl (1859-1938) === | ||
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| + | * A tendência à originariedade é primeiramente o fato do espírito de Husserl se auto-posicionar sobre si mesmo, não como um " | ||
| + | * Esta proclamação não se realiza primeiramente como uma reflexão metodológica, | ||
| + | * A grandeza e os limites husserlianos estão situados no programa vital da sua existência filosófica. | ||
| + | * A auto-posição-sobre-si-mesmo de Husserl é primeiramente realizada num afastamento face às potências históricas da filosofia tradicional, | ||
| + | * No seu filosofar que chegou, é verdade, apenas tardiamente a si mesmo, Husserl, no entanto, não tem à partida uma representação acabada de uma filosofia científica como norma de uma crítica das precedentes, | ||
| + | * A filosofia tradicional aparece-lhe misteriosa e obscura nos seus conhecimentos, | ||
| + | * O afastamento de Husserl é uma decisão existencial e não uma refutação. | ||
| + | * A maneira filosófica própria de Husserl irrompe primeiramente na exigência de uma legitimação geral de todas as proposições filosóficas. | ||
| + | * A legitimação é o retorno à autodoação originária do ente. | ||
| + | * Este pode assim mostrar-se e revelar-se a partir de si mesmo na plenitude do seu teor de efetividade. | ||
| + | * "A coisa concreta ela mesma" — e apenas ela — é posta como o fundamento de direito exclusivo para toda a enunciação válida. | ||
| + | * A determinação teórica, submetida ao vínculo que nunca deve ser abandonado, à coisa concreta que se mostra, ao " | ||
| + | * Em oposição à forma especulativa do pensamento, que, através de construções pré-compreensivas e pré-apreensivas, | ||
| + | * A determinação descritiva não deve, no entanto, perder-se numa restituição sem limites e insensível à diferença entre essencial e inessencial, | ||
| + | * Husserl não considera a " | ||
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| + | * O hábito metodológico da fenomenologia husserliana consiste, após um exame alargado, nas primeiras exigências evocadas de um caráter " | ||
| + | * Tal apreensão errônea desconhece o conceito orientador de Husserl para uma filosofia científica e toma por uma posição definitiva o que apenas ganha o seu verdadeiro sentido no movimento de desdobramento do problema. | ||
| + | * É o movimento de existência primeiro de Husserl que se exprime no projeto dos princípios de uma cientificidade filosófica, | ||
| + | * Mas este movimento de existência primeiro é, no seu todo, suportado e dominado de parte a parte por uma certa decisão metafísica sobre o sentido do ente e da verdade. | ||
| + | * Enquanto " | ||
| + | * Este motivo torna compreensível a visão sobre a legitimação, | ||
| + | * Na modalidade da realização, | ||
| + | * A legitimação como retorno à autodoação originária é conduzida a partir de uma explicitação da " | ||
| + | * Na posição de partida da percepção intuitiva como o proto-modus da autodoação não se exprime um intuicionismo inimigo do pensamento, mas a apreensão de uma descendência intencional do pensamento face à intuição. | ||
| + | * A ideia husserliana de descrição só pode ser compreendida totalmente em relação à sua interpretação intencional do ser; a explicitação descritiva dos fenômenos é desde logo suposta e realizada sob o esquema intencional do objeto intencional e da multiplicidade dos seus modos de aparecer, da unidade intencional dos modos de aparição face à multiplicidade dos modos de dados, etc. | ||
| + | * E, finalmente, o procedimento husserliano da ideação não é apenas, como variação das possibilidades do objeto temático, o despertar do horizonte de sentido intencional que repousa no sentido de objeto deste, mas é, principialmente, | ||
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| + | * O movimento de existência primeiro de Husserl mostra-se, no fundo, como o projeto de uma ideia do ente e da verdade orientada pela " | ||
| + | * A intencionalidade torna-se o problema central da sua vida. | ||
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| + | * O simples projeto de uma ideia intencional do ser não é ainda filosofar, se, por outro lado, este filosofar apenas ganha a sua efetividade no desdobramento radicalizante de uma partida; por outras palavras, no trabalho do conceito. | ||
| + | * A paixão mais íntima de Husserl concernia, para além do ponto de partida e do programa, o trabalho do filosofar. | ||
| + | * O seu movimento de existência próprio, e por aí, o começo próprio do seu filosofar mostra-se primeiramente lá onde o seu conceito orientador da " | ||
| + | * Todo o filosofar é formação de problema no modo da radicalização crescente, na medida em que é um abandono e uma procura do ser. | ||
| + | * Husserl abandona o ente no modo de ser do já conhecido de antemão, do familiar, do corrente, do habitual, na medida em que põe em questão o mundo inteiro que vale para ele. | ||
| + | * O radicalismo profundo, e mesmo abissal, do ser-filósofo husserliano mostra-se na universalidade da sua posição de problema. | ||
| + | * Com isso, esta universalidade não tem a vacuidade que a nada compromete de um discurso geral do " | ||
| + | * Antes, o esforço permanente de Husserl permanece em apreender o conteúdo de sentido concreto " | ||
| + | * Husserl realiza a postura em questão do universo daquilo que vai de si como reflexão sobre as articulações em zonas do valor de mundo (núcleo intuitivo, percepcionado, | ||
| + | * A posição de partida, por Husserl, da ideia de " | ||
| + | * Nisso ele não apreende de modo algum o conceito de " | ||
| + | * O ente vale como aquilo que mais vai de si, como o sem-questionamento, | ||
| + | * Quando põe em questão o mundo adquirido de antemão relativamente à sua validade e abandona o mais seguro, Husserl volta-se contra a posse sem problema do ser na alma humana. | ||
| + | * A violência do seu problema empurra-o para o excesso do mais extremo abandono, aos confins do pensamento sensato em geral. | ||
| + | * Onde tudo está em questão, incluindo aquele mesmo que questiona, na medida em que ele é mais do que o fato de questionar, o espírito parece dever calar-se na noite do absurdo. | ||
| + | * Husserl, na ascensão do seu filosofar, " | ||
| + | * Abandonar não é, para Husserl, deitar fora a ideia de ser em geral; nenhum espírito humano pode existir sem a ideia de ser. | ||
| + | * O abandono é a manutenção à distância daquilo que se dá para ente e é assim encontrado de antemão e retomado; é um manter-se fora do poder da tradição, que nos mantém sempre prisioneiros à nossa revelia, é o esforço para se arrancar ao jugo daquilo que vai de si. | ||
| + | * Husserl designa esta atitude do espírito na qual a ideia de se torna problema, como epoche. | ||
| + | * E, de novo, é de uma significação principial que Husserl, em toda a história do seu filosofar, procura pôr a descoberto, em análises sempre mais difíceis, a epoche fenomenológica segundo a sua estrutura intencional, | ||
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| + | * A epoche husserliana não é uma atitude conquistada uma vez, depois firmemente e tranquilamente mantida, tal, por exemplo, a epoche dos céticos, mas uma travessia, submetida ao traço da questão em direção ao ser verdadeiro. | ||
| + | * O abandono daquilo que vai de si é o começo da procura. | ||
| + | * A epoche é um momento da " | ||
| + | * Este conceito é o índice de uma viragem decisiva no filosofar de Husserl. | ||
| + | * Na travessia da epoche, na postura em questão universal do ser do mundo que vale no modo daquilo que vai de si, no aperto do ser esvaído, Husserl volta-se, com toda a acuidade do seu pensamento, para a postura em questão mesma, para esse fundamento na alma própria, no qual, previamente, | ||
| + | * No retorno (" | ||
| + | * Com isso, os conceitos filosóficos próprios mostram-se como transformação dos conceitos orientadores, | ||
| + | * O começo intencional na determinação do ente e da verdade radicaliza-se numa radicalização do conceito de intencionalidade. | ||
| + | * Para este conceito mais próprio de intencionalidade, | ||
| + | * A paixão de pensamento husserliana girou essencialmente em torno do problema da redução, não por refinamento intelectual, | ||
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| + | * Redução significa para ele o retiro do homem fora da " | ||
| + | * O homem está numa atitude natural quando tem de antemão o mundo numa validade que vai de si, sem questão, e se mantém nisso. | ||
| + | * Husserl ataca filosoficamente a si mesmo: não que ele apenas ponha em questão em geral a validade (epoche), mas ele abala também a operação de validade que vai de si no fundamento desta " | ||
| + | * Esta mostra-se ao olhar refletido de Husserl no seu caráter intencional dominante. | ||
| + | * A " | ||
| + | * Nela estamos fixados sobre as unidades de objetos intencionais, | ||
| + | * Estamos, por assim dizer, arrebatados com a " | ||
| + | * Isso significa — interpretado de novo intencionalmente: | ||
| + | * Husserl realiza numa reflexão consequente o ataque àquilo que é assim compreendido como a atitude de domínio da sua existência. | ||
| + | * Os " | ||
| + | * Um outro caráter da " | ||
| + | * Husserl compreende sob este termo a colocação ao mesmo nível tácita do ser e do ser mundano, a postulação do mundo como horizonte exclusivo de sentido para todo o discurso sobre o ente. | ||
| + | * Cativo do mundo, o homem natural o é também enquanto a sua compreensão do ser põe o seu próprio ser- " | ||
| + | * A tendência de Husserl para ultrapassar a captura mundana é um aspecto excessivamente complexo e opaco do seu movimento de vida filosofante, | ||
| + | * Um terceiro caráter da " | ||
| + | * Vivemos num profundo esquecimento dos processos históricos de intencionalidades que nos conduziram às configurações de sentido do ente mundano. | ||
| + | * A formação de sentido perde-se não apenas nos níveis mais elementares nos quais a natureza pré-dada se formou ou, como diz Husserl, se constituiu intencionalmente, | ||
| + | * Husserl ataca esta essência esquecida da sua vida, na medida em que se fixa a tarefa de interrogar a formação histórica de sentido intencional de todo o ente que ele tem por válido e de o perseguir na sua origem intencional. | ||
| + | * A redução caracterizada como suspensão da " | ||
| + | * No abandono da ideia de ser " | ||
| + | * A vida intencional efetuante no fundo " | ||
| + | * A ideia da verdade é determinada intencionalmente, | ||
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| + | * O conceito husserliano da originariedade é subjetivo-radical. | ||
| + | * A subjetividade é o princípio da originariedade, | ||
| + | * A ideia husserliana de ser e de verdade é determinada pelo seu conceito da originariedade como interioridade de vida. | ||
| + | * A tendência para a originariedade é, na medida em que é o filosofar de Husserl, retorno a casa da vida em si mesma, portanto um movimento radical da vida para si mesma. | ||
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| + | * O movimento de vida de Husserl enquanto afastamento, | ||
| + | * Qualquer que seja a maneira como um ou outro decide, no livre cumprimento a posteriori do seu pensamento, sobre o direito real da fenomenologia de Husserl, os cinquenta anos durante os quais se estende o movimento de vida do seu pensamento, percorrendo incansavelmente e sempre aprofundando os seus pensamentos fundamentais, | ||
| + | * Este fato de " | ||
| + | * O pensamento da sua vida, o projeto intencional do ser, da verdade, da originariedade, | ||
| + | * O caráter científico da filosofia, Husserl coloca-o na análise intencional, | ||
| + | * Um conhecimento filosófico-científico do ente é mais do que a determinação geral do caráter de ser do ente e das suas variações regionais, na medida em que o mundo vale em direito como conceito englobante do ente; é a explicação intencional do sistema constitutivo de sínteses de formações de sentido funcionantes nas quais as configurações de sentido "ente no sentido mundano pré-dado" | ||
| + | * No abandono da validade prévia de todo o ente encontrado mundanamente, | ||
| + | * Na medida em que toda a ciência mundana — segundo a característica husserliana — se relaciona tematicamente com o ente, que é apreendido como um ser autônomo apenas na " | ||
| + | * Esta " | ||
| + | * Para a interpretação filosófica das ciências positivas, no entanto, o fato de se relacionar principialmente com os resultados constituídos é o motivo determinante para suprimir a unilateralidade objetivista num retorno da ideia de ciência em geral. | ||
| + | * Por consequência, | ||
| + | * As ciências mundanas, segundo a apreensão de Husserl, não são apenas objetivistas, | ||
| + | * O retorno husserliano da ideia da ciência na interrogação das formações de sentido enterradas e esquecidas que conduzem estas aos seus objetos, consiste primeiramente em voltar da apreensão de ser das ciências ao "mundo da vida" enquanto solo inicial ao fundamento de todas as ciências, ao mundo da vida com os seus múltiplos fenômenos de relação-ao-sujeito, | ||
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| + | * Husserl concebeu a ideia da sua filosofia como filosofia em trabalho. | ||
| + | * O seu movimento de existência próprio no projeto da ideia intencional de ser e de verdade realiza-se na dureza do trabalho. | ||
| + | * Ele era prisioneiro do seu próprio si, impelido por uma vontade apaixonada de conhecimento. | ||
| + | * Isso exprime-se também na relação característica com as publicações e os manuscritos de pesquisa. | ||
| + | * Quase todas as publicações são, naturalmente a um nível condicionado pelo estado correspondente da autocompreensão de Husserl, " | ||
| + | * A dimensão do trabalho fenomenológico não está justamente pré-dada e pré-conhecida, | ||
| + | * Todas as publicações de Husserl querem ser " | ||
| + | * As análises que têm lugar nos seus escritos são apenas auxiliares provisórios para indicar o caráter intencional geral da sua posição de problema fundamental. | ||
| + | * Medidas pelas análises dos manuscritos de pesquisa, elas são grosseiras e por aí inapropriadas para dar um conceito da concreção e da precisão da analítica constitutiva de Husserl. | ||
| + | * Nos seus escritos Husserl quis, num primeiro tempo, primeiramente apenas preparar a possibilidade de uma compreensão do seu trabalho analítico. | ||
| + | * O trabalho da sua vida repousa objetivado nos seus manuscritos de pesquisa, que representam em volume mais de dez vezes as suas publicações. | ||
| + | * E este trabalho está talvez perdido. | ||
| + | * Isso dá à sua morte o seu acento trágico. | ||
| + | * Isso parece-nos um fato rebelde ao sentido, que um homem consagre toda a sua vida à servidão de um trabalho vivido como paixão, para finalmente deixar o aporte próprio, a verdadeira obra da sua vida sob a forma de inéditos talvez impublicáveis. | ||
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| + | * De algum modo que o destino decida da possível utilidade da filosofia husserliana para o aprofundamento da autocompreensão do homem, e por aí para a cultura humana — a vida própria de Husserl foi — intacta nisso — plena de sentido enquanto paixão da reflexão vivida até ao fim de si mesma. | ||
| + | * À existência filosófica de Husserl aplica-se a palavra de Novalis: " | ||
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| + | //[FINK, E. Proximité et distance: essais et conférences phénoménologiques. Tr. Jean Kessler. Grenoble: Jérôme Millon, 1994]// | ||
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