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| + | ====== Compreender a Fenomenologia ====== | ||
| + | //DEPRAZ, Natalie. Comprendre la phénoménologie : | ||
| + | **Da teoria à prática** | ||
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| + | * A fenomenologia husserliana, | ||
| + | * Husserl parte do cogito de Descartes e do Eu da apercepção de Kant para fazer da apodicticidade do ego o critério último de verdade universal e necessária. | ||
| + | * Heidegger enfatiza as tonalidades afetivas e a experiência do morrer. | ||
| + | * Sartre enfatiza a liberdade e o sentido da contingência. | ||
| + | * Merleau-Ponty enfatiza o primado do tato e da carne. | ||
| + | * Levinas enfatiza a exposição ao outro e a ética da desmedida. | ||
| + | * M. Henry enfatiza a autoafecção como gozo e sofrimento. | ||
| + | * J.-L. Marion enfatiza o fenômeno saturado em contraste com o fenômeno erótico como fenômeno rasurado. | ||
| + | * Essa leitura da história da fenomenologia permanece limitada, pois reduz a visão da obra de Husserl e trata a suposta conversão prática dos pós-husserlianos como ainda regida pela coerência lógico-hermenêutica, | ||
| + | * A fenomenologia husserliana não se reduz a uma teoria do conhecimento dos objetos, pois a percepção se aprofunda pela lembrança, pela imaginação e pela empatia, completando-se, | ||
| + | * No Husserl dos anos 1920 emerge uma problemática prática centrada no vivido de outros sujeitos — seus hábitos, seu saber-fazer, | ||
| + | * Destacam-se experiências-limite como a morte de um próximo, o nascimento de um filho ou o casamento de amigos, além de crises profissionais, | ||
| + | * Ressalta-se a dimensão histórica, comunitária e política de uma prova que não é puramente individual. | ||
| + | * A crítica unânime dos pós-husserlianos a Husserl deve ser medida pelas próprias propostas construtivas desses autores, cujos conteúdos privilegiados acabam formalizados em ontologia ou ética, funcionando como substitutos de uma epistemologia do conhecimento. | ||
| + | * Citam-se a temporalidade afetada, o aniquilar-se da consciência, | ||
| + | * A prática é tradicionalmente definida por negação como o não-teórico, | ||
| + | * Cabe perguntar como o próprio método da fenomenologia, | ||
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| + | **Praticar a fenomenologia: | ||
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| + | * Praticar o método fenomenológico exige deslocar-se para fora dos quadros que alimentam a ilusão de que a fenomenologia conteria uma dimensão prática em seus temas, o que implica praticá-la contra o próprio Husserl e contra seus críticos pós-husserlianos. | ||
| + | * À pergunta de um estudante sobre como praticar a fenomenologia, | ||
| + | * — "Mas comment donc puis-je pratiquer la démarche phénoménologique ? J'ai beau essayer, je n'y parviens pas. Comment faire ?" | ||
| + | * Interroga-se se a relação com o texto é de instrumento, | ||
| + | * Distingue-se o critério exegético de compreensão de um texto, sua coerência interna lógica e contextual, do critério fenomenológico, | ||
| + | * Pergunta-se se o sentido depositado no texto é alimentado pela experiência nele inscrita e pela ressonância com a experiência do outro, ou se permanece subordinado à competência filosófica sobre o autor e à rigor lógico do propósito. | ||
| + | * A resposta final ao estudante propõe considerar o texto não como objeto fechado e autofinalizado, | ||
| + | * Praticar a fenomenologia consiste em exercitar-se a ver realmente aquilo de que se fala e que se lê, efetuando de fato a experiência no momento da leitura ou da escrita, o que supõe desviar-se da busca pela coerência interna do texto e voltar-se para a vitalidade heurística que sustenta sua força afirmativa. | ||
| + | * Husserl nomeia epoché o gesto de deslocar o olhar para ler de outro modo, colocando entre parênteses os conteúdos pré-dados. | ||
| + | * Transformar a epoché em operação efetiva, e não apenas exigência ou ideal formal, significa ler à espreita do que não é dado naturalmente, | ||
| + | * Pratica-se também a epoché ao adiar a escrita imediata do que se pensa sobre uma questão, deixando-a amadurecer e acolhendo a justeza do propósito. | ||
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| + | **Fenomenologia e não-fenomenologia** | ||
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| + | * A fenomenologia propõe permanecer numa atitude de abertura em que o sentido reside na indecisão de uma não-doação sempre possível, de modo que toda fixação antecipada do sentido remete a um pensamento não-fenomenológico, | ||
| + | * O praticante age sem questionar previamente, | ||
| + | * Evoca-se a pensée interrogative de Merleau-Ponty. | ||
| + | * Evoca-se o questionamento privilegiado por Sócrates, que jamais escreveu. | ||
| + | * O fenomenólogo, | ||
| + | * O pensamento constitui uma ação por inteiro, ainda que pensar e agir não se identifiquem, | ||
| + | * A démarche fenomenológica coloca em obra um pensamento em movimento constante, produzindo gestos internos — conversão do olhar, suspensão dos julgamentos imediatos, variação dos fatos — que indicam a situação encarnada do sujeito no mundo. | ||
| + | * A não-fenomenologia caracteriza tanto a filosofia que estabelece sistemas, conceitos e doutrinas sem jamais interrogá-los quanto uma vida prática dominada pelo maquinal e pelo rotineiro mortíferos, | ||
| + | * Cita-se o exemplo da repetição diária e irrefletida dos gestos ao preparar o café da manhã. | ||
| + | * O maquinal não é apenas negativo e mortífero, pois há também uma eficácia a serviço da vida, da liberdade e da relação, mesmo quando a rentabilidade frequentemente aprisiona e afasta dos outros. | ||
| + | * A analogia simples entre pensamento e não-fenomenologia, | ||
| + | * O critério do fenomenológico em relação ao não-fenomenológico corresponde ao vital em face do mortífero, à vida subjetiva em face do objetivante, | ||
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| + | **Retorno às coisas elas mesmas** | ||
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| + | * A démarche fenomenológica se condiciona pela adesão inquebrantável à experiência em sua nudez primeira, exigência que pode soar exorbitante ou arcaica ao ponto de parecer inconcebível. | ||
| + | * A palavra de ordem husserliana não implica um olhar míope colado às coisas, mas voltar a atenção para a experiência em curso, reduzindo projeções, | ||
| + | * A atitude natural e não refletida de organizar e programar o tempo admite duas respostas opostas. | ||
| + | * As crianças expressam essa necessidade de segurança na pergunta " | ||
| + | * Pode-se reforçar o controle inventando restrições como garde-fous contra o vazio do tédio. | ||
| + | * Pode-se, ao contrário, abandonar-se deliberadamente ao instante presente, cultivando a capacidade de acolher o imprevisível e transformar o cotidiano em surpresa. | ||
| + | * Na experiência compartilhada com outros, a atitude convencional consiste em impor a própria visão ou trazer sempre a conversa para si, expressão de narcisismo exagerado, enquanto a atitude oposta, de deixar sempre os outros decidirem, mergulha numa passividade sofrida e desprezível diante desses decisores. | ||
| + | * Em relações mais íntimas, amistosas ou conjugais, a atitude imediata de opor-se ou de ecoar para não desagradar revela-se igualmente inadequada, pois em ambos os casos deixa-se de existir por si mesmo, ao passo que retornar às coisas elas mesmas significa abrir horizontes capazes de impulsionar e construir a relação. | ||
| + | * Em todos esses casos, trata-se de ir contra a tendência mais imediata, presa à dualidade entre dois extremos igualmente inoperantes, | ||
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| + | **A descrição e seus limites** | ||
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| + | * O retorno às coisas elas mesmas, para ter força de realidade, não pode permanecer inefável, sob pena de recair no que, segundo a palavra-mestra de Wittgenstein, | ||
| + | * A virtude da descrição fenomenológica consiste em observar o sentido imanente da experiência do sujeito. | ||
| + | * Distingue-se da explicação científica que dá conta de um fenômeno produzindo suas causas e efeitos, como em Fechner. | ||
| + | * Distingue-se de construir a experiência a partir de categorias predeterminadas, | ||
| + | * Distingue-se de narrar o vivido no âmbito de uma ficção com veracidade de testemunho, como em Ricœur. | ||
| + | * A descrição fenomenológica possui limites próprios. | ||
| + | * Sua dimensão eidética em Husserl confere à variação dos fatos, que permite extrair a essência, um acento universalizante que roça a abstração, | ||
| + | * Seu caráter neutro, ligado à epoché que suspende toda posição de valor, aproxima-a de uma posição em terceira pessoa da experiência do sujeito, paradoxo notável para uma démarche que se pretende atenta à singularidade da subjetividade. | ||
| + | * Complementos bem-vindos para encarnar a démarche descritiva incluem a promoção de um relato da experiência no campo da psicologia, resolutamente em primeira pessoa, a mobilização da noção de expressão de Wittgenstein para dar conta de uma situação hic et nunc da experiência do sujeito, e a ênfase no processo de produção de sentido segundo o linguista Guillaume, que registra a natureza dinâmica da linguagem, denominada em linguística " | ||
| + | * Anuncia-se a estrutura da obra em três partes. | ||
| + | * A primeira parte trata de como a fenomenologia foi posta em obra pelos próprios fenomenólogos, | ||
| + | * A segunda parte explora como os diversos campos experienciais são reelaborados, | ||
| + | * A terceira parte apresenta gestos, figuras e situações da história da filosofia que respondem arqueologicamente a antecipações do método fenomenológico, | ||
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| + | **A prática como epistemologia fenomenológica** | ||
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| + | * A apresentação conclusiva parte de uma boutade segundo a qual todos seriam no fundo pragmatistas, | ||
| + | * — "nous sommes au fond tous des pragmatistes, | ||
| + | * Essa afirmação, | ||
| + | * Esses traços ressoam com o gesto revolucionário husserliano da epoché como afrancamento da pré-doação do mundo. | ||
| + | * Ressoam também com a mudança radical de atitude do sujeito diante de objetos, eventos e outros. | ||
| + | * O projeto de compreender a fenomenologia como prática se inscreve nesse duplo horizonte epistemológico, | ||
| + | * Conhecer significa saber agir sobre uma realidade numa situação singular encarnada. | ||
| + | * Critica-se o fechamento do conhecimento sobre si mesmo em totalidades teóricas e abstratas, próprio dos racionalistas cartesianos, | ||
| + | * O pragmatismo se volta para o que está em curso de se fazer, chamando à alteridade — a si mesmo e aos outros campos disciplinares — como motor da pesquisa filosófica pela prática. | ||
| + | * A distinção entre teoria e prática não opõe uma atividade especulativa e científica a uma atividade utilitária e técnica, mas designa duas atitudes: uma retrospectiva, | ||
| + | * O filósofo praticante toma os conceitos como guias e pontos de orientação da ação em curso. | ||
| + | * O fenomenólogo se apoia nos argumentos conceituais e textuais como suportes rigorosos de descrição de uma experiência que permanece o critério último da evidência. | ||
| + | * Se o conceito é o que faz agir, pensa-se um pensamento não por si mesmo, mas para engendrar outro, de modo que se pensa para agir, implicando sempre um momento em que se arrisca no indeterminado sem certeza sobre as conexões futuras. | ||
| + | * O próprio processo do conhecimento constitui uma prática por excelência, | ||
| + | * A fenomenologia acentua a descrição da gênese dos fenômenos, externos ou internos, e promove o método da epoché, diferenciado em conversão, suspensão e variação, acompanhando esse movimento de emergência do pensamento em ato. | ||
| + | * A passagem de uma ideia a outra constitui o foco de atenção do praticante fenomenólogo, | ||
