husserliana:depraz:fenomenologia:pragmatismo
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| + | ====== 2 Pragmatismo ====== | ||
| + | //DEPRAZ, Natalie. Comprendre la phénoménologie : | ||
| + | * A pertinência filosófica da fenomenologia assim delineada pode parecer questionável, | ||
| + | * A fenomenologia não precisa se envergonhar de se definir como fenomenologia aplicada, pois a distinção formal e axiológica em relação a uma fenomenologia pura é gesto de política filosófica mais que de exploração dos fenômenos, sendo a aposta clara de que a fenomenologia é aplicada ou não é, o que justifica o interesse pelo pragmatismo como esclarecimento epistemológico privilegiado dessa fenomenologia revisitada. | ||
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| + | **1. RAÍZES HISTÓRICAS DO PRAGMATISMO** | ||
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| + | * A escolha do pragmatismo como ancoragem prática, metódica e ontológica da fenomenologia se justifica frente a outras referências possíveis — as sabedorias eudemonistas antigas (estoicismo, | ||
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| + | **1.1. PERTINÊNCIA PRÁTICA DO PRAGMATISMO** | ||
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| + | * As sabedorias antigas configuram éticas individuais voltadas ao repli sobre si após o apogeu da polis grega, a filosofia prática do idealismo alemão privilegia uma prática de ordem apriorística e especulativa, | ||
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| + | **1.2. PEIRCE (1839-1914): | ||
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| + | * Charles Sanders Peirce, fundador do pragmatismo, | ||
| + | * Em Como tornar nossas ideias claras?, texto fundador do pragmatismo anticartesiano, | ||
| + | * Pelo exemplo de uma coisa dura — cujo sentido se resume à soma de seus efeitos concebidos, de modo que um diamante cristalizado em algodão macio e ali queimado sem jamais ser testado não seria falsamente chamado de mole —, Peirce desarma o manejo lógico habitual das distinções, | ||
| + | * À fase de virulência crítica (1868-1878/ | ||
| + | * Na segunda conferência de Harvard, Sobre a fenomenologia, | ||
| + | * A tarefa do fenomenólogo consiste em abrir os olhos do espírito e olhar simplesmente o fenômeno para dizer quais características nele nunca faltam, seja ele imposto pela experiência exterior, o sonho mais louco, ou a conclusão mais abstrata da ciência, exigindo três qualidades — a faculdade rara de ver o que salta aos olhos sem interpretação, | ||
| + | * Três dimensões experienciais encarnam esses gestos: a presentidade ou imediatidade como dimensão fenomenal mais tênue, a luta, o esforço e a resistência como dimensão do exercício, e a surpresa como dimensão da generatividade interna da experiência. | ||
| + | * A qualidade de sentimento, primeira categoria do imediato em sua presentidade positiva direta, retoma a concepção hegeliana do imediato submetendo-a a crítica experiencial — sair sob a abóbada azul do céu e olhar o que está presente tal como aparece ao olho do artista —, procedendo por retranchamento à maneira da teologia negativa: imaginar uma consciência sem comparação, | ||
| + | * O segundo traço, a luta, aproximado pela experimentação corporal do esforço muscular e da resistência, | ||
| + | * A terceira dimensão, a surpresa, ensina tudo o que a experiência se digna a ensinar através de uma série de surpresas, ilustrada pelo barco que navega mansamente até chocar-se subitamente com um rochedo; a surpresa se aloja no seio da consciência como dupla consciência de um ego e de um não-ego agindo diretamente um sobre o outro, de modo que no instante da surpresa há consciência de um Ego, ideia esperada bruscamente quebrada, e de um Não-Ego, o Estranho intruso que irrompe abruptamente, | ||
| + | * A fenomenologia pragmática inaugural de Peirce leva a fenomenologia husserliana a seu acabamento, intensificando antecipadamente sua virtude transformativa interna, efeito análogo ao que James, em estilo diferente, produzirá. | ||
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| + | **1.3. W. JAMES (1842-1910), | ||
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| + | * John Dewey, em sua apresentação do pragmatismo americano, evidencia a proximidade e a diferença entre Peirce e James como duplo movimento de delimitação e extensão: enquanto Peirce foi primeiramente lógico, James se apresenta como humanista, estendendo a máxima pragmatista a todas as esferas do saber e precisando o alcance prático das experiências ao definir o prático como o concreto, particular, individual e efetivo, oposto ao abstrato, geral e inerte, buscando a vitalidade do pensamento contra seu caráter meramente verbal. | ||
| + | * É na concepção da verdade que ressalta a singularidade do pragmatismo jamesiano: contra a identificação do pragmatismo com uma filosofia de homens de negócios em que só é verdadeiro o que é rentável, James insiste na existência de verdades plurais, evitando tanto o a priori absoluto quanto o relativismo cético, abrindo uma terceira via de coerência aberta da verdade plural, que se traduz no plano espacial pelo acento no heterogêneo, | ||
| + | * Em Pragmatism (1903), na Lição II, Sobre o que significa o pragmatismo, | ||
| + | * Uma vez precisado o sentido das palavras, as oposições metafísicas se desfazem naturalmente, | ||
| + | * A ontologia do pragmatismo, | ||
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| + | **1.4. SUAS RESSONÂNCIAS ANTROPOLÓGICAS: | ||
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| + | * De Peirce a James passa-se de uma concepção individual da prática para sua colocação humanista no quadro de uma pluralidade de pessoas, o que se prolonga na dimensão antropológica e sociológica dessa fundação dupla da pragmática fenomenológica. | ||
| + | * G. H. Mead, em psicologia social, redefine a psicologia até então essencialmente individual fundando-a nas interações sociais, de modo que a consciência de si e a própria gênese do si procedem do sistema prévio de comunicação interindividual; | ||
| + | * Tal atenção socioantropológica se estende ao cotidiano da ação singular de um sujeito na maneira de se relacionar com o que faz, como observa John Dewey ao descrever que se caminha, se lê em voz alta, se sobe e desce de bondes, se veste e desveste sem pensar nisso, sabendo fazer sem que isso implique reflexão e apreciação consciente, distinguindo esse know-how do know-about, conhecimento reflexivo do conteúdo da ação. | ||
| + | * Mead e Dewey, fundadores da Escola de Chicago, privilegiam as noções de situação e contexto, questionando toda ideia de um eu isolado em nome de uma interatividade originária. | ||
| + | * Contra o objetivismo do positivismo sociológico de Comte e Durkheim, que defende propriedades intrínsecas ao objeto da experiência, | ||
| + | * A questão que se coloca é como a fenomenologia, | ||
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| + | **2. TRANSFORMAÇÃO PRAGMATISTA DA FENOMENOLOGIA** | ||
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| + | * On Becoming Aware. A Pragmatics of Experiencing exemplifica uma fenomenologia pragmática ao descrever o processo da tomada de consciência a partir de sua própria efetivação, | ||
| + | * O propósito geral dessa obra é conferir à prática um estatuto epistemológico indispensável à filosofia fenomenológica, | ||
| + | * Os avanços dos fenomenólogos em direção a outras disciplinas (matemática, | ||
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| + | **2.1. A CRÍTICA HUSSERLIANA DA " | ||
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| + | * Desde as Investigações lógicas, particularmente nos Prolegômenos à lógica pura, Husserl critica o que chama de tecnologia (Kunstlehre), | ||
| + | * A crítica husserliana se apoia em Kant ao questionar o caráter normativo e utensiliar da lógica aplicada, embora Kant não critique em si a lógica prática desde que apriorística; | ||
| + | * Husserl reconhece, contudo, a legitimidade da tecnologia ou lógica técnica como conhecimento concreto do funcionamento das regras do pensamento, privilegiando a dimensão operatória e substituindo a noção kantiana de condição de possibilidade pela de generatividade, | ||
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| + | **2.2. AS DIFICULDADES EPISTEMOLÓGICAS DO CONCEITO DE " | ||
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| + | * O próprio motivo da aplicação (Anwendung) muda de estatuto de Kant a Husserl. | ||
| + | * Kant, no prefácio à segunda edição da Crítica da razão pura, insiste na importância da experiência como lugar de aplicação dos conceitos a priori, condições de possibilidade dessa experiência, | ||
| + | * Husserl entende por aplicação menos uma derivação que uma generatividade produtiva da lógica, caráter dinâmico legível no prefixo alemão an-wendung, remetendo ao latim ad-plicare, movimento de aproximação transformador, | ||
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| + | **2.3. WITTGENSTEIN E A FENOMENOLOGIA** | ||
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| + | * O interesse da perspectiva aberta pelo autor do Caderno azul, do Caderno castanho e de Da certeza pode não ser imediatamente evidente, dado ser também autor do Tractatus e das Investigações filosóficas, | ||
| + | * Os cadernos azul e castanho, trabalho preparatório às Investigações e a Da certeza, escritos nos últimos dias de Wittgenstein, | ||
| + | * Os percursos de Husserl e Wittgenstein guardam analogia: do ideal de uma lógica pura (Prolegômenos) ao confronto com a comunicação social intersubjetiva sedimentada nas atividades cotidianas (Krisis), assim como da aridez formalizada do Tractatus aos aforismos anedóticos da linguagem ordinária de Da certeza, ambos questionam o ideal de uma forma separada do vivido. | ||
| + | * Wittgenstein se aproxima da tradição pragmatista de Peirce e James por um recuso comum da metafísica: | ||
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| + | **2.4. R. RORTY E A IDEIA DE CULTURA PÓS-FILOSÓFICA** | ||
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| + | * Rorty, em O Homem especular e em Consequências do pragmatismo, | ||
| + | * Retoma-se essa busca de relação precisando-a no nível da própria metodologia fenomenológica, | ||
| + | * A concepção rortiana da filosofia como cultura pós-filosófica oferece uma metodologia geral que privilegia o encontro com o outro e a imersão no não-si sobre o cultivo da autonomia e da identidade, ideia retomada aqui para encarná-la na técnica operatória da própria fenomenologia. | ||
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| + | **3. COMO PRATICAR A FENOMENOLOGIA? | ||
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| + | * A investigação se volta a detectar as potencialidades práticas da fenomenologia, | ||
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| + | **3.1. " | ||
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| + | * H. Spiegelberg, | ||
| + | * Em Doing Phenomenology (1975), Spiegelberg leva sua intuição prática ao limite, propondo não comentar textos fenomenológicos mas produzir novas análises e descrições a partir da capacidade de experimentar por si mesmo, forjando a ideia de um workshop de fenomenologia cuja única restrição é não dispor de nenhum livro — como André Gide dizia a seu leitor imaginário em As Nutrizes terrestres: " | ||
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| + | **3.2. A IDEIA DE " | ||
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| + | * A tentativa de Spiegelberg, | ||
| + | * Don Ihde, em Experimental Phenomenology (1977), confronta as análises perceptivas husserlianas e merleau-pontianas com as experiências de percepção bistável ou multistável, | ||
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| + | **3.3. TENTATIVAS RECENTES: O ATELIER DE FENOMENOLOGIA** | ||
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| + | * Edward Casey produz Imagining (1976), fenomenologia experimental fundada em conhecimento aprofundado das análises husserliana, | ||
| + | * Em Remembering (1987), Casey centra-se na memória de trabalho (working memory) estudada por experimentalistas psicólogos e neurologistas, | ||
| + | * Um terceiro campo de trabalho, sobre o problema do lugar (place), foi estimulado pela colaboração com Nancy Franklin e Barbara Tversky, autoras do The Spatial Framework Model, além de estudos de Stratton, Herbert H. Clark e Clifford Hill sobre orientação espacial, e pesquisas linguísticas sobre dêixis reunidas por R. Jaravella e W. Klein; Casey também dialogou com os antropólogos Keith Basso e Steven Feld em Santa Fe. | ||
| + | * Uma publicação sobre a experiência do glance (olhar furtivo) resultou de encontros com Natalie Depraz, Pierre Vermersch, Bernard Pachoud e Bruce Bégout em Carbondale (2001) e Paris (2002), a convite de Natalie Depraz e Anthony Steinbock, gerando o capítulo Attending and Glance de The World at a Glance (2006), além de discussões com Eugene Gendlin e correspondência com o psicólogo-fisiologista David LaBerge sobre saccades oculares. | ||
| + | * O trabalho atual de Casey se orienta para uma fenomenologia dos bordos (edges), beneficiando-se de The Ecological Approach to Visual Perception de James J. Gibson. | ||
| + | * Bernhardt Waldenfels, fenomenólogo alemão conhecedor da fenomenologia francesa (Merleau-Ponty, | ||
| + | * Waldenfels manteve cooperações informais com psicólogos como H. Hörmann, C. F. Graumann e Max Herzog, com psiquiatras como W. Blankenburg e Klaus Dörner, com o psicanalista Hans-Dieter Gondek, e acompanhou por leitura pesquisas em neurologia, resumindo essa prática na frase "Bei mir ging es meist so zu!" (" | ||
| + | * Desde o início dos anos 1990, um grupo de trabalho fenomenológico foi criado na École normale supérieure de Fontenay-aux-Roses, | ||
| + | * Colóquios sobre a experiência da atenção com A. Steinbock em Carbondale (1999) e Paris (2000) geraram o volume Phenomenology of Attention (2005, ed. Steinbock e Depraz); paralelamente, | ||
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| + | **3.4. PROVAS DAS ABORDAGENS EM PRIMEIRA E EM SEGUNDA PESSOA** | ||
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| + | * Uma colaboração se estabeleceu com uma equipe de psiquiatras urgentistas especializados em terapia familiar, formalizada no Collège international de philosophie (2002-2004) em relação com a Équipe rapide d' | ||
| + | * A colaboração se traduziu em reuniões clínicas mensais no hospital Charcot (2005-2009) e na redação de numerosos artigos com F. Mauriac e colaboradores, | ||
| + | * Essa colaboração se institucionalizou com estudantes de Mestrado da Universidade de Rouen realizando estágios de observação no serviço ERIC, como S. Jobert, que cruzou teoria fenomenológica (Levinas, Henry) e prática em segunda e primeira pessoa sobre violência e sofrimento nas relações intersubjetivas, | ||
| + | * A prova da abordagem em primeira pessoa se concretizou em duas colaborações a partir dos Archives-Husserl. | ||
| + | * Um atelier experiencial de dois dias, coanimado com Cl. Petitmengin e M. Bitbol em maio de 2011 e 2012, reuniu-se anualmente para experimentação a partir da entrevista de explicitação e da leitura experiencial de textos fenomenológicos, | ||
| + | * A segunda colaboração se insere num projeto ANR liderado pelos Archives-Husserl (N. Depraz) em parceria com o Inserm de Tours (T. Desmidt) e a Universidade Paris-Diderot (A. Celle), sobre a surpresa na espontaneidade das emoções como vetor de cognição ampliada, combinando protocolos experimentais de neurofisiologia sobre hiporreatividade à surpresa em sujeitos depressivos, | ||
