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| + | ====== RUÍDO DO SENSÍVEL ====== | ||
| + | //BENOIST, Jocelyn. Le Bruit du sensible. Paris: Cerf, 2013// | ||
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| + | **Prefácio** | ||
| + | * este livro responde a um espanto e a uma insatisfação diante do que se tornou, e talvez sempre tenha sido, a filosofia da percepção, | ||
| + | * quanto mais avançava o conhecimento desses debates, mais chamava atenção o fato de que, no fundo, neles nunca se tratava realmente da percepção, | ||
| + | * é certamente auspicioso que certa filosofia redescubra que a percepção possa ser fonte legítima de conhecimento, | ||
| + | * o debate se esclarece ao se considerar a pressão, na filosofia contemporânea de língua inglesa, de certo naturalismo que, sobre fundo fisicalista, | ||
| + | * se se trata de evidenciar a importância da percepção em nossa visão de mundo e naquilo que será preciso chamar de nossa ontologia, tal virada só pode ser saudada, revelando-se gramaticalmente salutar, já que numerosos conceitos se tornam opacos ou perdem dimensões constitutivas se ignorado seu ancoramento perceptual | ||
| + | * ao ler certo opúsculo consagrado à " | ||
| + | * tal título já suscita um problema gramatical, pois não é certo que faça sentido tratar a percepção como uma " | ||
| + | * ao invés de capacidade, seria mais apropriado chamar a percepção de fato, fato que nasce com cada um de nós e só se extingue com cada um de nós, com todos os seus acasos, incluindo sonos e comas | ||
| + | * num certo sentido fazemos toda sorte de coisas na percepção, | ||
| + | * aquilo que se chamaria, de modo parodicamente marxista, de miséria da filosofia da percepção, | ||
| + | * essas discussões, | ||
| + | * se perguntado se alguém está na sala, procura-se com o olhar e responde-se que sim porque se o vê, podendo assim a percepção constituir uma razão e contribuir para o conhecimento, | ||
| + | * a percepção só se torna " | ||
| + | * seria preciso então distinguir dois conceitos de percepção | ||
| + | * um deles seria de ponta a ponta cognitivo, sendo forçoso constatar que, na história da filosofia, o conceito de percepção surgiu frequentemente primeiro nesse emprego, devido às preocupações epistemológicas de que partiam os filósofos ao chegarem à questão da percepção, | ||
| + | * sobre essa abordagem pesam, no limiar da modernidade, | ||
| + | * nesse tipo de debate subsiste, contudo, um ponto cego: o fato de se tratar realmente daquilo que ordinariamente se chama percepção, | ||
| + | * é notável que a maioria das análises filosóficas contemporâneas da percepção deixe de lado tal determinação, | ||
| + | * uma verdadeira interrogação sobre o que ordinariamente se chama percepção deveria começar por isto: o que é o sensível, e o que a qualifica como sensível | ||
| + | * na análise do conceito de percepção, | ||
| + | * quem será capaz de dizer algo sobre a sensibilidade da percepção, | ||
| + | * essa interrogação brilha por sua ausência na filosofia contemporânea da percepção, | ||
| + | * o filósofo interessado em elucidar o que se chama percepção deveria antes buscar inspiração em duas fontes exteriores à filosofia | ||
| + | * de um lado, as pesquisas dos psicólogos, | ||
| + | * de outro lado, se quiser falar da percepção, | ||
| + | * desses dois pontos de vista, cabe sublinhar a exceção representada, | ||
| + | * a Fenomenologia da percepção foi uma das primeiras leituras filosóficas, | ||
| + | * agora que já se está livre do discurso do aparecer e que já não pesa a hipoteca da fenomenologia, | ||
| + | * Merleau-Ponty, | ||
| + | * em sua perspectiva, | ||
| + | * fazendo isso, porém, talvez ele apenas leve ao limite o conceito de percepção e explore suas possibilidades extremas, sendo talvez necessário, | ||
| + | * um dos objetivos colaterais deste livro, em sua própria tentativa de elucidação do conceito de percepção e de certos conceitos a ele ligados, será portanto prestar homenagem a um filósofo que, mais que qualquer outro, muito fez para assegurar sua inteligibilidade | ||
| + | * a fonte do questionamento aqui apresentado não é, contudo, merleau-pontyana | ||
| + | * no final dos anos 1990, a estratégia de conjunto então alcançada consistia em desermeneutizar a fenomenologia, | ||
| + | * a partir daí, muitas reflexões se concentraram na intencionalidade da percepção e em sua especificidade em relação à intencionalidade de significação, | ||
| + | * sentia-se, no entanto, que certa forma de contrassenso, | ||
| + | * o clareamento veio em 2002-2003, com o encontro do pensamento de Charles Travis, ao qual introduziu primeiro uma exposição luminosa de Sandra Laugier no Collège de France, sem que se medissem de imediato todas as suas implicações | ||
| + | * tendo a oportunidade de passar o trimestre da primavera de 2003 com Charles na Northwestern University, recorda-se bem o momento do estalo, ao voltar tarde no L-train, na purple line, quando ele perguntou por que se desejava que a percepção fosse intencional, | ||
| + | * os elementos de análise que Charles então apresentava sobre a percepção eram os expostos em "The Silence of the Senses", | ||
| + | * esse texto, leitura de Austin e também polêmica tão discreta quanto firme contra John McDowell, desempenhou papel absolutamente decisivo para toda a reflexão posterior sobre a percepção, | ||
| + | * é indubitável que Charles ajudou a dar o último passo e a sair da fenomenologia justamente naquilo em que ela parecia, para além de todas as críticas linguísticas a que podia ser submetida, permanecer mais sólida e inexpugnável, | ||
| + | * não se trata, com efeito, de dizer, como às vezes se ouve, que a percepção não é uma intencionalidade, | ||
| + | * a única questão que importa é saber se se trata de uma relação de fato ou de uma norma, podendo aliás a própria noção de relação constituir metáfora bastante ruim para descrever a percepção, | ||
| + | * não se pode, aqui como alhures, ter ao mesmo tempo a manteiga e o dinheiro da manteiga, sendo preciso admitir que a percepção, | ||
| + | * assim, por essa observação, | ||
| + | * posteriormente, | ||
| + | * cabe mencionar, desse ponto de vista, outra influência determinante: | ||
| + | * para isso, foi sem dúvida necessária a passagem pela ascese austiniana, e seu corolário, certo emagrecimento do conceito de percepção | ||
| + | * sobre essa base, a fenomenologia no sentido histórico do termo, em sua supervalorização do conceito de intencionalidade, | ||
| + | * contra isso, Claude Imbert ensinou a buscar alhures, do lado de Baudelaire ou de Lévi-Strauss, | ||
| + | * ela também fez descobrir, coerentemente com essa abordagem, e de forma particularmente importante, aquilo que em Merleau-Ponty resiste à fenomenologia e vai além dela | ||
| + | * cabe aqui prestar-lhe homenagem e gratidão por tudo o que intelectualmente se lhe deve, tendo Charles Travis tirado de um sono dogmático nessas matérias ao fazer entrever a necessidade de uma compreensão não intencional da percepção, | ||
| + | * é preciso ainda precisar um ponto: não é sem júbilo que se faz ouvir aqui a redescoberta filosófica do sensível, sendo normal que ele faça algum barulho | ||
| + | * louvai-o com címbalos sonoros, louvai-o com címbalos retumbantes | ||
| + | * no entanto, o sensível, se pode trazer alegria e exaltação, | ||
| + | * é terrível o pequeno ruído do ovo cozido quebrado sobre um balcão de estanho, é terrível esse ruído quando remexe na memória do homem que tem fome | ||
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