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obra:ga9:posfacio-qem

9 Posfácio "O que é metafísica"

Resumo em tópicos

1. A pergunta “Que é metafísica?” (QEM) permanece um problema, sendo o presente pós-escrito, para quem persevera na pergunta, um prefácio ainda mais inicial, colocando a pergunta “Que é metafísica?” uma questão que vai além da metafísica, surgindo num pensamento que já entrou na superação (Überwindung) da metafísica, fazendo parte, porém, da essência dessas transições ter de falar ainda, dentro de certos limites, a linguagem daquilo que ajudam a superar.

2. A circunstância particular que permitiu discutir a questão relativa à essência da metafísica não deve dar a ideia de que tal questão deva necessariamente partir das ciências, encontrando-se a pesquisa moderna, com outros modos e gêneros de representar e produzir o ente, envolvida no traço fundamental daquela verdade segundo a qual todo ente é caracterizado pela vontade de vontade, cuja aparição foi marcada pela “vontade de potência” que a prefigura.

3. A “vontade”, entendida como traço fundamental da enticidade do ente, é a equiparação do ente ao real, de modo que a realidade do real é autorizada à factibilidade incondicionada da objetivação geral, não estando a ciência moderna a serviço de um fim que lhe tenha sido proposto, nem à busca de uma “verdade em si”.

4. Não sendo senão um modo da objetivação calculante do ente, a ciência é uma condição posta pela própria vontade de vontade que assim assegura o domínio de sua essência, mas, como toda objetivação do ente se resolve em procurar-se e assegurar-se o próprio ente e, a partir daí, garantir-se a possibilidade de seu ulterior proceder, a objetivação detém-se no ente e já o toma pelo ser.

5. Todo comportar-se em relação ao ente testemunha assim um saber do ser, mas ao mesmo tempo a incapacidade de manter-se por si na lei (Gesetz) da verdade desse saber, sendo essa verdade a verdade sobre o ente, e a metafísica a história dessa verdade, dizendo ela o que é o ente ao elevar a conceito a enticidade do ente.

6. Na enticidade do ente a metafísica pensa o ser, sem contudo poder pensar, no modo de seu pensamento, a verdade do ser, movendo-se a metafísica sempre no âmbito da verdade do ser que, porém, dito metaphisicamente, permanece para ela o fundamento desconhecido e infundado.

7. Mas, posto que não apenas o ente surge do ser, mas também, em sentido ainda mais inicial, o próprio ser repousa em sua verdade, e a verdade do ser desdobra sua essência (west) enquanto ser da verdade, é necessário então perguntar o que é a metafísica em seu fundamento, devendo esse perguntar pensar metafisicamente e ao mesmo tempo pensar a partir do fundamento da metafísica, isto é, já não mais metafisicamente, permanecendo tal perguntar ambíguo em sentido essencial.

8. Todo esforço, portanto, de seguir o percurso do pensamento de QEM encontrará obstáculos, sendo bom que assim seja, porque com isso o perguntar se tornará mais autêntico, sendo toda pergunta conforme à coisa já uma ponte lançada em direção à resposta, e as respostas essenciais sendo sempre apenas o último passo das perguntas colocadas, passo que, contudo, não pode ser dado sem a longa série dos primeiros e dos passos seguintes.

9. A resposta essencial extrai sua força da insistência do perguntar, sendo apenas o início de uma responsabilidade em que o perguntar desperta de modo mais originário, não sendo por isso a pergunta autêntica retirada pela resposta encontrada.

10. As dificuldades de seguir o pensamento de QEM são de dois tipos: umas surgem dos enigmas ocultos no âmbito do que ali é pensado, outras nascem da incapacidade e, muitas vezes, da falta de vontade de pensar, podendo já no âmbito do perguntar pensante perplexidades fugazes por vezes ajudar, e ainda mais aquelas meditadas com cuidado, dando algum fruto até mesmo os mal-entendidos grosseiros, provocados pelo furor de uma polêmica cega, devendo, porém, ao repensá-los, tudo ser retomado no abandono de uma meditação paciente.

11. As perplexidades e mal-entendidos prevalentes a respeito de nosso QEM podem resumir-se em três teses fundamentais.

  • O QEM faz do “nada” o objeto único da metafísica, mas, sendo o nada aquilo que é pura e simples nadidade, esse pensamento leva a crer que tudo é nada, de modo que não valeria a pena nem viver nem morrer, sendo uma “filosofia do nada” um “niilismo” consumado.
  • O QEM eleva um único estado de ânimo, e ainda por cima deprimido, a angústia, a único estado de ânimo fundamental, sendo, porém, a angústia o estado psíquico dos cheios de “ansiedade” e dos covardes, repudiando esse pensamento a atitude serena da coragem, paralisando uma “filosofia da angústia” a vontade de ação.
  • O QEM se pronuncia contra a “lógica”, mas, contendo o intelecto os parâmetros de todo cálculo e ordenamento, esse pensamento remete o juízo sobre a verdade a um estado de ânimo casual, sendo uma “filosofia do mero sentimento” um perigo para o pensamento “exato” e para a segurança do agir.

Resposta à primeira tese: o nada e o ser

12. A resposta correta a essas teses brota de uma reflexão renovada sobre o QEM, sendo preciso verificar se o nada, que determina a angústia em sua essência, se esgota numa vazia negação de todo ente, ou se aquilo que jamais e em nenhum caso é um ente não se desvela antes como aquilo que se diferencia de todo ente e que chamamos o ser.

13. Onde quer que, e por mais que toda investigação vá em busca do ente, ela jamais encontra o ser, mas encontra sempre e somente o ente, porque desde o início ela se obstina no âmbito do ente com a intenção de explicá-lo, não sendo, porém, o ser uma qualidade existente do ente, não se deixando o ser, diferentemente do ente, representar e produzir como objeto.

14. Esse absolutamente outro em relação a todo o ente é o não-ente, mas esse nada desdobra sua essência (west) enquanto ser, sendo, com uma explicação simplista, renunciar precipitadamente demais a pensar, se despacharmos o nada como mera nadidade equiparando-o ao que é privado de essência.

15. Em vez de ceder à precipitação de uma vazia perspicácia e abandonar a enigmática plurivocidade do nada, devemos apenas nos preparar e estar prontos a experimentar no nada a vastidão daquilo que dá a todo ente a garantia de ser, sendo isso o próprio ser.

16. Sem o ser, cuja essência abissal, ainda não desdobrada, nos é destinada pelo nada na angústia essencial, todo ente ficaria privado de ser, mas, de novo, também essa ausência de ser, enquanto abandono do ser, não é um nada nulo, se é verdade que pertence à verdade do ser que jamais o ser desdobra sua essência (west) sem o ente, e que jamais um ente é sem o ser.

Resposta à segunda tese: a angústia

17. Uma experiência do ser como experiência do outro em relação a todo ente é-nos dada pela angústia, desde que não nos subtraiamos, por “angústia” diante da angústia, isto é, na mera ansiedade do medo, à voz silenciosa que nos toma no assombro do abismo.

18. Se, porém, na referência a essa angústia essencial, abandonarmos arbitrariamente o caminho seguido pelo pensamento deste QEM e desligarmos a angústia, enquanto estado de ânimo conotado por essa voz, do referimento ao nada, resta-nos então a angústia como “sentimento” singular, que podemos distinguir de outros sentimentos e analisar no conhecido sortimento de estados psíquicos que a psicologia fica a observar de boca aberta.

19. Seguindo aquela distinção simplista entre o “para cima” e o “para baixo”, os “estados de ânimo” podem então ser arrolados nas classes dos que exaltam e dos que deprimem, mas a zelosa caça aos “tipos” e “contratipos” de “sentimentos”, às variedades e subespécies desses “tipos”, deixará sempre escapar a presa.

20. Essa pesquisa antropológica do homem permanece, portanto, sempre fora da possibilidade de entrar no andamento do pensamento do QEM, porque este pensa a partir da atenção à voz do ser, saindo para o acordo que dessa voz provém e que reclama o homem em sua essência, para que ele aprenda a experimentar no nada o ser.

21. A disponibilidade para a angústia é o sim à insistência em satisfazer a exigência suprema, a única que atinge em cheio a essência do homem, experimentando o homem, único entre todos os entes, chamado pela voz do ser, o assombro de todos os assombros: que o ente é.

22. Quem, portanto, em sua essência, é chamado à verdade do ser, está por isso sempre disposto num estado de ânimo de modo essencial, garantindo a clara coragem para a angústia essencial a misteriosa possibilidade da experiência do ser, pois perto da angústia essencial e do assombro do abismo habita o temor, dirando (lichtet) e custodiando a angústia aquele lugar habitado pelo homem, no interior do qual ele mora estavelmente como em casa.

23. A “angústia” diante da angústia pode desorientar a tal ponto que se desconheçam os referimentos mais simples na essência da angústia; que seria toda coragem se não encontrasse na experiência da angústia essencial seu constante correspondente?

24. Na medida em que degradamos a angústia essencial e o referimento, nela clareado, do ser ao homem, na mesma medida rebaixamos a essência da coragem, sendo a coragem capaz de sustentar o nada porque reconhece no abismo do assombro (Schrecken) o espaço quase inviolado do ser, de cuja clareira somente todo ente retorna àquilo que é e que pode ser.

25. Este QEM não cultiva uma “filosofia da angústia”, tal como não busca suscitar a impressão de uma “filosofia heroica”, pensando apenas aquilo que ao pensamento ocidental se revelou desde seu início como o que há a pensar, e que, contudo, permaneceu esquecido: o ser, não sendo, porém, o ser um produto do pensamento, sendo antes o pensamento essencial um acontecimento do ser.

Resposta à terceira tese: a “lógica”

26. Por isso torna-se agora necessário colocar também a pergunta, quase nunca explicitada, se esse pensamento já se encontra na lei de sua verdade quando se limita a seguir aquele pensamento que a “lógica” compreende em suas fórmulas e regras.

27. Por que o QEM põe essa palavra entre aspas? Para indicar que a “lógica” é apenas uma interpretação da essência do pensamento, precisamente aquela que repousa, como diz o nome, sobre a experiência do ser alcançada no pensamento grego, brotando a suspeita quanto à “lógica” — de que a logística pode ser considerada a consequente degeneração — do saber daquele pensamento que encontra sua nascente na experiência da verdade do ser, e não na consideração da objetividade do ente.

28. O pensamento exato nunca é o pensamento mais rigoroso, se é verdade que o rigor recebe sua essência do tipo de esforço com que o saber mantém de cada vez o referimento ao essencial do ente, vinculando-se o pensamento exato apenas ao acerto de contas com o ente, e servindo exclusivamente a isso.

29. Todo calcular resolve o numerável no numerado, para depois poder empregá-lo na numeração seguinte, não consentindo o calcular que surja outra coisa senão o numerável, sendo cada coisa apenas aquilo que ela “conta”, assegurando o que de cada vez é numerado o processo do numerar.

30. Este último usa progressivamente os números e é ele mesmo um contínuo consumir-se, valendo o fato de que as contas com o ente fecham como explicação do ser deste último, usando o calcular desde o início todo o ente como aquilo que é numerável e desgastando na numeração o que é numerado, denunciando esse uso que desgasta o ente o caráter consuntivo do cálculo.

31. Somente porque o número é aumentável ao infinito, e isso indistintamente na direção do grande e do pequeno, a essência consuntiva do cálculo pode esconder-se atrás de seus produtos e fornecer ao pensamento calculante a aparência de produtividade, ao passo que já antecipadamente, e não apenas em seus resultados sucessivos, valoriza o ente apenas na forma de sua disponibilidade e consumibilidade.

32. O pensamento calculante constrange a si mesmo na constrição de dominar tudo do ponto de vista da coerência de seu proceder, não conseguindo sequer supor que tudo o que é calculável do cálculo já seja um todo antes das respectivas somas e produtos calculados, um todo cuja unidade certamente pertence ao incalculável que subtrai a si mesmo e seu caráter desconcertante às garras do cálculo.

33. Contudo, aquilo que em toda parte e sempre é desde o início vedado à pretensão do cálculo, e no entanto está desde sempre, mesmo em sua enigmática incognoscibilidade, mais próximo do homem do que qualquer ente em que o homem instale a si e seu propor, pode às vezes conceder a essência do homem num pensamento cuja verdade escapa a qualquer “lógica”.

34. O pensar cujos pensamentos não apenas não calculam, mas em geral são determinados pelo outro em relação ao ente, chame-se pensamento essencial, prodigalizando-se este, em vez de fazer contas com o ente contando com o ente, no ser pela verdade do ser.

35. Esse pensamento responde à exigência do ser, na medida em que o homem confia sua essência histórica à simplicidade daquela única necessidade que obriga sem constranger, mas criando a necessidade que se satisfaz na liberdade do sacrifício, sendo essa necessidade que a verdade do ser seja salvaguardada, aconteça o que acontecer ao homem e a todo ente.

36. O sacrifício é o prodigalizar-se do homem na salvaguarda da verdade do ser para o ente, prodigalizar-se subtraído a toda coação, por brotar do abismo da liberdade, acontecendo no sacrifício aquela secreta gratidão que, só ela, permite apreciar a gratuidade com que o ser, no pensamento, se transmitiu (übereignet) à essência do homem, para que este, no referimento ao ser, assuma a guarda do ser.

37. O pensamento inicial é o eco do favor do ser em que se clareia (sich lichtet) e se deixa acontecer (sich ereignen läßt) esta única coisa: que o ente é, sendo esse eco a resposta do homem à palavra pronunciada pela voz silenciosa do ser.

38. A resposta (Antwort) do pensamento é a origem da palavra (Wort) humana, aquela palavra que, só ela, faz surgir a linguagem como dição da palavra em vocábulos, não conseguindo o homem histórico, se por acaso não houvesse um pensar (Denken) escondido no fundamento essencial de seu ser, jamais agradecer (Danken), posto que em todo repensar (Bedenken) e em todo agradecer (Bedanken) deve haver ainda um pensamento que pense de modo inicial a verdade do ser.

39. Como poderia jamais uma humanidade chegar ao agradecimento originário se o favor do ser, através do aberto referimento a si mesmo, não concedesse ao homem a nobreza daquela pobreza em que a liberdade do sacrifício esconde o tesouro de sua essência?

40. O sacrifício é a despedida do ente no caminho que salvaguarda o favor do ser, podendo certamente ser preparado e auxiliado pelo trabalhar e operar no ente, mas por meio destes jamais podendo ser cumprido, brotando sua efetivação apenas da insistência a partir da qual todo homem histórico, agindo — sendo também o pensar essencial um agir —, conserva o ser-aí adquirido para a salvaguarda da dignidade do ser.

41. Essa insistência é a impassibilidade que não se deixa perturbar em sua secreta disponibilidade àquela despedida que é a essência de todo sacrifício, sendo o sacrifício próprio da essência do acontecimento em que o ser reclama o homem para a verdade do ser, razão pela qual o sacrifício não tolera nenhum cálculo segundo o qual de cada vez se o conte como útil ou inútil, sejam os fins postos alto ou baixo, deformando semelhante cálculo a essência do sacrifício.

42. A cobiça de fins perturba a clareza do temor, pronto à angústia, do espírito de sacrifício que se acreditou capaz da proximidade ao indestrutível.

O pensamento do ser, a linguagem e a poesia

43. O pensamento do ser não busca no ente nenhum apoio, atentando o pensamento essencial aos lentos sinais daquilo que escapa a todo cálculo, e reconhecendo neles o imprevisível advento do inelutável, estando esse pensamento atento à verdade do ser e assim auxiliando o ser da verdade a encontrar seu lugar na história da humanidade.

44. Esse auxílio não é causa de sucessos, porque não necessita de efeitos, sendo o pensamento essencial de ajuda como simples insistência (Inständigkeit) no ser-aí, na medida em que nela se inflama algo semelhante, sem que ele possa dispor disso ou sequer ter conhecimento.

45. Dando ouvidos à voz do ser, o pensamento lhe busca a palavra de que a verdade do ser vem à linguagem, estando a linguagem do homem histórico em seu lugar apenas se brota da palavra, e, só se está em seu lugar, prospecta-se-lhe a garantia da muda voz das fontes ocultas.

46. O pensamento do ser protege a palavra, e nesse cuidado cumpre sua missão, sendo ele o cuidado pelo uso da linguagem, vindo do silêncio longamente custodiado e da acurada clarificação do âmbito nele clareado o dizer do pensador, provindo da mesma fonte o nomear do poeta.

47. Mas, sendo o semelhante semelhante apenas na medida em que é distinto, e assemelhando-se o poetar e o pensar do modo mais puro no cuidado com a palavra, estão ao mesmo tempo separados em sua essência por uma distância grandíssima, dizendo o pensador o ser, nomeando o poeta o sagrado.

48. Como, pensados a partir da essência do ser, o poetar, o agradecer e o pensar se remetem mutuamente e são ao mesmo tempo divididos, permanece aqui questão em aberto, brotando presumivelmente o agradecer e o poetar, de modo diverso, do pensar inicial de que se nutrem, sem poderem ser por si um pensar.

49. Sabe-se decerto algo sobre a relação entre a filosofia e a poesia, mas nada sabemos do diálogo entre o poeta e o pensador que “habitam próximos em montes bem separados”.

O silêncio, o nada e o encerramento

50. Um dos lugares essenciais do silêncio é a angústia no sentido do assombro em que o abismo do nada dispõe o homem, sendo o nada, enquanto outro em relação ao ente, o véu do ser, estando já, desde o início, no ser, todo destino do ente cumprido.

51. O último poema do último poeta na Grécia dos inícios, o Édipo em Colono de Sófocles, encerra-se com a palavra que se dirige de modo impensável à história secreta desse povo, custodiando sua entrada na desconhecida verdade do ser: “Cessai, pois, e nunca mais desperteis o pranto; em toda parte, com efeito, o acontecido guarda em si custodiada uma decisão de cumprimento”.

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