User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
obra:ga76:historia-modernidade-3

GA76 Historiografia e Modernidade (3)

Leitgedanken zur Entstehung der Metaphysik, der neuzeitlichen Wissenschaft und der modernen Technik [2009]

Do âmbito da Besinnung (meditação) sobre a Neuzeit (modernidade) — Der Übergang (a transição)

A essência da Geschichte (história) ocidental e a Neuzeit (modernidade)

5. A Berechnung (cálculo) e o Abenteuerliche (aventuroso) como seu fenômeno acompanhante

O Unberechenbare (incalculável)

  • O Unberechenbare (incalculável) não é o arbitrário situado como limite de um cálculo qualquer, mas aquilo que já irrompe quando a Berechnung (cálculo) se torna essencial para o Menschsein (ser-homem) como Subjektum (sujeito) em relação ao Seiende im Ganzen (ente em sua totalidade).
  • Aqueles que se tornaram servidores da Berechnung (cálculo), assumindo sua direção e condução, são inicialmente os menos atingidos pelo Unberechenbare (incalculável), pois ele se encobre e o homem foge dele sem saber.
    • O homem e o Unberechenbare (incalculável) afastam-se um do outro e, contudo, na Wahrheit des Seyns (verdade do Seyn), caminham um em direção ao outro.
  • A fuga diante do Unberechenbare (incalculável), estágio em que a Neuzeit (modernidade) agora se encontra, assume primeiro a figura do Kulturbetrieb (negócio cultural), que ocupa os espaços de onde talvez pudesse irromper o assalto do não previsto.
    • Esse Kulturbetrieb (negócio cultural) assegura a si mesmo que não despreza os valores supremos, mas que é seu arauto.
    • Tal ocupação retarda o curso próprio da época e a reconduz aos âmbitos do que já vinha sendo operado.
  • No “Tempel der Kunst” (templo da arte), ou na “Kulturhalle” (sala da cultura) em Nürnberg (Nuremberg), o Betrieb der Kulturpolitik (negócio da política cultural) substitui como negócio o deus a quem pertenceria um templo.
    • O Tempel (templo) torna-se Einrichtung (instalação) dessa divinização sem deuses do Betrieb (negócio), configurando uma confusão inquietante, inevitável e essencialmente adequada ao Menschsein (ser-homem) moderno.
  • A sequência consequente das medidas mostra que todos os Führer (condutores) são também os conduzidos e coagidos, sem pressentir a direção coercitiva nem a coerção em sua essência metafísica.
    • A Kunst (arte) e o Tempel (templo), unidos no desenraizamento de sua não-essência, tornam-se uma Abwehreinrichtung (instalação defensiva) inconsciente contra o Unberechenbare (incalculável) não pressentido.
  • Ainda que algo “nada ruim” seja produzido segundo a qualidade para preencher uma Einrichtung (instalação) como o Tempel der Kunst (templo da arte), nada historicamente essencial pode ser criado aí, porque tal fazer já bloqueou o espaço de onde as necessidades transformadoras poderiam atingir o homem.
    • A primeira dessas necessidades seria a stimmende Macht (potência tonalizante) do próprio Unberechenbare (incalculável).
  • Quando Berechnung (cálculo) e Planung (planejamento) se estendem a uma totalidade “sem restos”, o Unberechenbare (incalculável) é levado simultaneamente à maior proximidade e à figura do completamente ausente.
    • Essa expansão começa quando antigas formas de Kultus (culto) e Kultur (cultura), historicamente crescidas e nascidas da necessidade do ser, como templos, lugares consagrados e campos de combate, são convertidas por conhecimentos históricos em instalações de Betrieb (negócio).
  • Então ascende um tipo humano ambíguo e destrutivo que, com habilidade e diligência, apropria-se de todo o “bom” anterior nos conhecimentos e juízos e se põe a serviço da Berechnung (cálculo), enquanto rebaixa tudo que ainda pudesse aparecer como fonte desses conhecimentos e medidas.
  • Pertence à essência da Berechnung (cálculo) e da Planung (planejamento) necessitar e consolidar o Historismus (historicismo) em todos os campos, desenvolvendo como cálculo uma falsificação no estilo do Riesenhafte (gigantesco).
    • Esses processos já se encontram fora das intenções e atitudes pessoais e já não podem ser objeto de Kritik (crítica).
  • Mesmo compreendido isso, ainda faltam as condições para, dentro do domínio da Berechnung (cálculo), encontrar o Unberechenbare (incalculável) sem de imediato privá-lo de sua potência tonalizante por explicação e interpretação.

6. A Kunst (arte)

  • A suposta superação do Ästhetizismus (esteticismo) do século XIX pela arte atual não garante a superação da Ästhetik (estética), isto é, do primado do Er-leben (vivenciar) e da Schönheit (beleza).
    • Quando o Erlebnis (vivência) é retirado do desfrute individual dos estetas e generalizado para todos, a supremacia do Erlebnis (vivência) torna-se discretamente óbvia e mais resistente.
    • O Ästhetizismus (esteticismo) aparece agora apenas como prelúdio tímido de uma instalação de massa, não como algo superado.
    • A nova arte recorre a uma Aufgabe (tarefa) a que certas construções “servem”, mostrando que o Ästhetische (estético) é posto a serviço do Politische (político) e justamente assim comprovado como estético.
    • O novo está na Berechnung (cálculo) instaladora, pela qual a Kunst (arte), como algo anterior, é posta a serviço da Selbstsicherung des Subjektums (autoasseguramento do sujeito).
    • A questão decisiva não é se a Kunst (arte) é nova, mas se ainda possui necessidade originária.
    • A decisão sobre a Kunst (arte) cai na essência do próprio Seyn (Ser), isto é, se a verdade necessitada por ele precisa da arte como Ins-Werk-setzung (pôr-em-obra) dessa verdade.
  • O único dessa Entscheidung (decisão) reside nas condições de sua execução: libertação de todo Kunstbetrieb (negócio da arte), de todo conhecer histórico e de todas as “obrigações” históricas, além da exposição à Not des Seyns (necessidade do Seyn).
    • Essa decisão exige o Wagnis der Irre (risco do erro) e da longa Unentscheidbarkeit (indecidibilidade).
    • Exige também a coragem de passar sem “a arte”, isto é, sem aquilo que agora é possível como Kunstbetrieb (negócio da arte), e de arriscar para os homens essenciais a Seinsverlassenheit des Seienden (abandono do ente pelo ser) como verdade histórica.
  • A distância em relação a essa decisão parece maior do que nunca, pois qualquer risco nesse sentido é previamente suspeitado como fraqueza e falta de confiança, sob apelo aos Leitbilder (modelos orientadores) “Schönheit” (beleza) e “Kraft” (força).
  • O saber sobre a origem da Kunstwerk (obra de arte) nasce apenas da Besinnung (meditação) sobre o ponto decisivo único da Geschichte (história) ocidental: se a Wahrheit des Seyns (verdade do Seyn) é gebraucht (necessitada/usada) e, por isso, deve ser fundada contra o domínio anterior do Seiende (ente) lançado no Unwesen (não-essência).
    • A Wahrheit des Seyns (verdade do Seyn) só é gebraucht (necessitada/usada) pelos Götter (deuses), na medida em que estes trazem o combate por si mesmos à acuidade de uma Gestaltung (configuração) e, assim, à proximidade do homem.

7. A Wissenschaft (ciência) como Betrieb (negócio/operatividade)

  • A caracterização da Wissenschaft (ciência) como Betrieb (negócio/operatividade) causa escândalo mesmo quando se assegura que a palavra não tem sentido depreciativo, mas designa algo pertencente à constituição essencial da ciência moderna.
  • A resistência a compreender o Betrieb (negócio/operatividade) nasce de uma visão externa e da recusa de levar a sério a essência moderna da Wissenschaft (ciência), pois isso exigiria reconhecer que o Forschersein (ser-pesquisador) imprime uma configuração decisiva do Mensch (homem).
    • O espaço dessa figura ainda está sobrecarregado por objetos e ornamentos do Gelehrtentum (eruditismo).
    • Por isso, a palavra Betrieb (negócio/operatividade) ainda soa suspeita, em vez de ser apropriada como uso conceitualmente fundado.
  • As determinações essenciais da Forschung (pesquisa), como Entwurf (projeto), Strenge (rigor) e Verfahren (procedimento), não podem ser esquecidas para depois acrescentar que a pesquisa também seja Betrieb (negócio/operatividade), pois o caráter de Betrieb é a consumação essencial daquilo que antes foi indicado.
    • A palavra Betrieb (negócio/operatividade) é escolhida intencionalmente para receber da Sache (coisa em questão) um conteúdo essencial.
  • Betrieb (negócio/operatividade) é um Treiben (impulsionar) que é ele mesmo getrieben (impelido) e que, como impulsionar, traz sobre si esse ser-impelido.
    • Ele é impelido pelo que se torna Gegenstand (objeto) dentro do domínio objetual, não apenas por fatos isolados, mas pela conexão objetual configurada como problemas atuais.
  • Os Probleme (problemas) determinam o Verfahren (procedimento) e o modo como o Seiende (ente) ainda se torna Gegenstand (objeto), bem como a maneira pela qual os objetos alcançam Stehen (posição) e Beständigkeit (constância).
  • Os Probleme (problemas) são aquilo que é vorangetrieben (impulsionado adiante), pois apresentam o domínio como algo trabalhado de tal ou tal modo e só permitem a postura de levar o Vor-gestellte (representado) para além de si com ajuda do que já foi colocado à disposição.
  • O que impulsiona e o ser-impelido residem na essência do Vor-stellen (representar), entendido como trazer-diante-de-si que já se levou para além daquilo que trouxe diante de si.
  • Para os Heutigen (atuais), a essência da Vor-stellung (representação) ainda é difícil de ver, porque, apesar da supremacia de Verfahren (procedimento) e Problem (problema), toda tentativa de Besinnung (meditação) ainda se orienta pelos resultados e pelo fixado.
    • Como a essência da Vor-stellung (representação), em seu autoimpulsionamento dissimulado, ainda mal foi vista e menos ainda compreendida a partir do Unwesen des Seyns (não-essência do Seyn), isto é, da Machenschaft (maquinação), o conteúdo próprio de Betrieb (negócio/operatividade) ainda dificilmente se deixa ouvir.

8. Sobre a conferência “A fundamentação da Weltbild (imagem de mundo) moderna pela Metaphysik (metafísica)”

  • Poucos são capazes de experimentar na conferência aquilo que está aquém e além de “positivo” e “negativo”, pois importa perceber o Ereignishafte (caráter acontecimental) independente das circunstâncias, da ocasião, dos ouvintes e do conferencista.
    • Deve ser encontrado aquilo que irradia apenas do Anfang der Seinsgeschichte des Abendlandes (começo da história do ser do Ocidente).
    • Deve ser apreendido aquilo que é sustentado pela Weisung (indicação) para a futura Entscheidung (decisão) pertencente a esse começo.
    • Para isso talvez já seja necessário o Wissen vom anderen Wesen des Seyns (saber da outra essência do Seyn), que não pode ser transmitido, mas deve ser ersprungen (saltado).
  • Na Neuzeit (modernidade) e por meio dela, o Unwesen (não-essência) da physis alcança desdobramento histórico, e o Sein (ser) inicial chega à Vollendung (consumação) de sua essência.
    • Essa Vollendung (consumação) não é completude somável de determinações pensáveis, mas recolhimento da essência para o Endstoß (golpe final) do Übergang (transição) para o Outro.
    • Tudo isso permanece distante de qualquer Aufhebung (suprassunção) dialética.
  • Para compreender verdadeiramente a conferência a partir de sua Fragestellung (posição da questão), é preciso já ter realizado a superação da Metaphysik (metafísica) e perguntado a Seynsfrage (questão do Seyn).
    • A conferência é, por sua vez, apenas o Anstoß (impulso) que deixa ressoar a necessidade e a indigência dessa superação.
    • Para ouvi-la, é necessário renunciar ao jogo de Standpunkte (pontos de vista) e Ansichten (opiniões), bem como à busca de uma receita nova para resolver rapidamente os estados atuais da Neuzeit (modernidade).
  • É preciso começar a aprender a levar o Neuzeitliche (moderno) à manifestação de sua força essencial não encoberta, sabendo que esta geração é a que menos pode enganar-se se quiser estar à altura da tarefa que se concentra cada vez mais sobre ela.
    • Deve-se renunciar ao falso zelo de atribuir, por meio de idealismos vazios, falsa Bedeutung (significação) como “kulturelle Werte” (valores culturais) ao que, em sua Riesenhaftigkeit (giganticidade), já possui bastante de abissal.
    • Isso exige a Leidenschaft der Nüchternheit (paixão da sobriedade), prenúncio da Wesensvollendung (consumação essencial) da época e do Übergang (transição).
  • Ainda não se percebe a Leidenschaft der Nüchternheit (paixão da sobriedade) como Grundstimmung (tonalidade fundamental) determinante na assunção dominada da Forschung (pesquisa) como Haltung (postura).
    • O sinal imediato dessa falta é a dificuldade de compreender o Betriebcharakter (caráter de negócio/operatividade) não negativamente, nem positivamente, mas como geschichtswesentlich (essencial à história).
    • A sobriedade exige saber da necessidade desse Unberechenbare (incalculável) e da futura superação dessa Wissenschaft (ciência) por aquilo que ela mesma ajuda a consumar.
  • Em vez da Leidenschaft der Nüchternheit (paixão da sobriedade), impõe-se uma nova espécie de comodidade segura e benevolente, às vezes coberta por preocupações com a queda da Kultur (cultura) e do interesse por coisas “geistig” (espirituais), às vezes renovada por esperanças.
    • Sente-se proteção por ser indispensável, participa-se do Betrieb (negócio/operatividade) e espera-se que as coisas melhorem.
    • O prestígio da Hochschule (universidade) volta a crescer graças à Werbearbeit (trabalho publicitário), sem que se pergunte de que tipo humano vem esse novo assentimento.
    • Toda Werbung (propaganda) é sinal de insegurança e falta de firmeza na essência.
    • O desejo oculto é retornar ao antigo estado das Hochschulen (universidades) que brilhavam no brilho da Kultur (cultura), fugindo da Grundstimmung (tonalidade fundamental) já exigida pela essência da Forschung (pesquisa).
  • Essa postura pode manter-se porque o Betrieb (negócio/operatividade) oferece muitas ocasiões para confirmação recíproca da ausência de Haltung (postura), garantindo ao mesmo tempo a exigida Volksverbundenheit (ligação com o povo).
  • A incapacidade dos Wissenschaftler (cientistas) de extrair dos Grundvorgänge der Forschung (processos fundamentais da pesquisa) uma figura afinada do Menschsein (ser-homem) decorre sobretudo da Ungeschichtlichkeit (a-historicidade) da época histórica.
    • Falta força para deixar a Geschichte (história) ocidental condensar-se nos acontecimentos mais simples, experimentá-los sempre de novo e perseverar nessas experiências.
  • Também aqui o Durchschnitt (mediano) permanece na mesma Haltung (postura) dos Gelehrten (eruditos) das décadas de transição do século XIX para o XX, antes protegido pela Kultur (cultura) e agora pela participação na Volksgemeinschaft (comunidade do povo).
    • Em ambos os casos há renúncia a crescer a partir da tarefa mais própria para dentro do todo e a arriscar algo incomum.
    • As possibilidades internas são hoje mais fortes, conforme o estágio de desdobramento da Neuzeit (modernidade), mas a força da vontade parece menor e a comodidade de encontrar-se confirmado parece maior.
    • A geração mais jovem parece entrar em nova forma de Genuss der Gelehrsamkeit (gozo da erudição), simultaneamente fuga e pertencimento.
    • A descida ao ordinário é visível, pois o eruditismo dos anos 1890 ainda era recoberto por aparência de Bildung (formação), enquanto hoje nem isso resta.

9. Historismus (historicismo)

  • A organização histórica da Geschichte (história) e a fuga inadvertida diante do Unberechenbare (incalculável) constituem o Historismus (historicismo), articulado pela Historie (historiografia) e pelo “historisch” (histórico-historiográfico).
  • Ver tudo “historisch” (histórico-historiograficamente) significa julgar tudo como condicionado historicamente e escolher a partir de conhecimentos históricos, enquanto o Historismus (historicismo) conquistado no século XIX ainda não está à altura de si mesmo.
    • A não distinção entre historisch (histórico-historiográfico) e geschichtlich (historial) é ambígua.
  • O Historismus (historicismo) ocorre quando a Geschichte (história) é apreendida a partir da Historie (historiografia).
  • O essencial do Historismus (historicismo) está na Historie (historiografia) como Forschung (pesquisa) e Vorstellung (representação), incluindo a justificação moral como obrigação diante do passado e da Überlieferung (tradição).
    • A pergunta decisiva é quem obriga quem.
    • Formalmente, como cálculo político-cultural, está aí o verdadeiro Verhängnis (destino funesto).
    • O bom e o mau tornam-se apenas consequência indiferente e já incapaz de decisão.
  • Historismus (historicismo) e Journalismus (jornalismo) pertencem ao mesmo horizonte de atualização calculadora.
  • O Historismus (historicismo) calcula com o Vergangene (passado) e justamente assim planeja o Neue (novo), inclusive quando se exige que haja Kunst (arte).
    • O Historismus (historicismo) existe também onde o cálculo se encobre e apenas uma coisa é fixada.
    • Ele não é apenas relativização de muitas coisas na indiferença, mas também Verabsolutierung (absolutização), sendo esta o historicismo mais extremo.
  • A tentativa de escapar ao Historismus (historicismo) lançando-se de cabeça na Gegenwart (presença) adequada ao tempo fracassa porque essa presença também inclui as Planungen (planejamentos).
  • Como a Gegenwärtigkeit (presentidade) é ainda mais modernamente representadora, ela põe o Historismus (historicismo) em jogo por diversos motivos e já provém antecipadamente dele.
  • Na Kunst (arte), o Historismus (historicismo) aparece quando se quer que haja “arte” em geral, quando a própria arte se torna objeto da festa e de sua instalação no Tempel (templo).
    • A celebração da Kunst (arte) mostra que l’art pour l’art é apenas prelúdio.
    • O Stil-denken (pensar em estilos) pertence ao ponto de decisão.
obra/ga76/historia-modernidade-3.txt · Last modified: by 127.0.0.1